Chapitre III : Comparaison multi-espèces pour étudier les relations entre croissance et composition
II. Caractérisation de la composition de huit espèces de fruits charnus
Em concordância com o que Freud ([1929] 1997) afirma sobre a relação dos indivíduos com a sociedade, ainda há outra possível técnica para escapar do sofrimento provocado por tal relação: a sublimação. Esse mecanismo de defesa da mente humana se constitui em um deslocamento da libido: impulsos inconscientes são integrados na personalidade culminando em atitudes de valor socialmente aceitos, como por exemplo, atividades artísticas. A libido, representada na psique humana pelo id, devido ao seu caráter instintivo e inconsciente, busca incessantemente a satisfação. A organização coletiva dos humanos, em virtude do seu caráter repressivo, entra em conflito com os desejos individuais, coibindo-os, transformando a realidade em algo penoso.
Para Freud (1908), tanto as brincadeiras de criança, as fantasias, os sonhos quanto as obras de arte são formas de fugir da realidade desprazerosa. No começo, a criança fantasia e brinca, para depois quando adulto, sonhar e eventualmente criar arte. Henry Junior é rechaçado pelos colegas da prática de beisebol e futebol americano na escola, e no capítulo seguinte apanha pela primeira vez do pai. Sentindo-se excluído na escola e no lar, ele imediatamente começa a devanear:
Uma coisa que eu imaginava era que eu era um grande jogador de beisebol, tão bom que eu podia acertar a bola ou um home run quando eu quisesse [...] Era temporada de futebol americano e eu era – na minha imaginação – um ótimo quarterback. Toda hora que eu pegasse a bola eu corria até o
touchdown. Como o público gritava!121 (BUKOWSKI, 1982, p. 38-40)
Para o protagonista, a imaginação não é só uma fuga do desprazer em termos freudianos, mas é nítida compensação junguiana. Displaçado na vida concreta, Henry Junior encontra reconhecimento e aceitação em seus devaneios.
Conforme assinalado anteriormente, o pai de Henry Junior o proíbe de assistir o discurso do presidente. Sendo obrigado a fazer o dever de casa, ele escreve um relatório
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“One thing I imagined was that I was a great baseball player, so great that I could get a hit every time at bat, or a home run anytime I wanted to […] It was football season and I was - in my imagination - a great quarterback. Every time I got the ball I ran all the way to a touchdown. How the crowd screamed!”
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fictício e a professora, mesmo sabendo da invenção, lhe dá nota máxima pelo fato da redação ser tão bem-feita. Ele então tem um insight: “Então, era isso que eles queriam: mentiras. Belas mentiras. Era o que eles precisavam. As pessoas eram tolas. Iria ser fácil pra mim […] As coisas estavam melhorando.”122 (BUKOWSKI, 1982, p. 87). No primeiro contato com a ficção, Henry Junior descobre um caminho para a vida e conquistar alguma consideração das pessoas. No capítulo seguinte em que tem a cara enfaixada, ele reencontra a escrita. Começa a escrever sobre Barão Von Himmlen, um valente aviador alemão da Primeira Guerra, feio e bêbado, a quem todos temiam e respeitavam, mais uma clara demonstração de necessidade de compensação. Acerca de sua personagem e da ficção, Henry Junior pondera: “Me fazia bem escrever sobre o Barão. Um homem precisava de alguém. Não havia ninguém por perto, então você tinha que inventar alguém, inventá-lo do jeito que um homem deveria ser.”123 (BUKOWSKI, 1982, p. 161). Segundo Freud (1908, p. 421), o escritor faz o mesmo que a criança: “[E]le cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, no qual investe grande quantidade de emoção”124
e que tem ligação com uma experiência forte da vida real. O escritor supera o sentimento interno de repulsa por meio de fantasias. A repulsa que Henry Junior sente por si mesmo pelo fato de ser feio e marginalizado é aliviada pela personagem do Barão. Ou a criação do Barão compensa os sentimentos conscientes da personagem. Aqui também se pode observar um primeiro indício da presença da contraposição aristotélica entre história e ficção, no caso de Henry Junior, a ficção como uma forma de mudar a sua própria história.
O conforto contra a repressão provocado pelo contato com a obra literária não se dá somente pela produção, mas também pela leitura: “[N]ossa real apreciação por uma obra imaginativa vem de uma liberação de tensões em nossas mentes.”125 (FREUD, 1908, p. 428). Após ter a cara enfaixada, Henry Junior tem o tratamento contra acne encerrado e é obrigado a voltar para a escola. Descobre então, mais um local onde pode sublimar seu displaçamento: uma biblioteca pública que passa a frequentar diariamente. Sobre os livros que lá encontra, pondera: “Palavras não eram embotadas, palavras eram coisas que poderiam fazer sua mente zumbir. Se você as lesse e se deixasse sentir a mágica, você poderia viver sem dor, com
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“So, that‟s what they wanted: lies. Beautiful lies. That‟s what they needed. People were fools. It was going to be easy for me [...] Things were looking up.”
123 “It made me feel good to write about the Baron. A man needed somebody. There wasn‟t anybody around, so
you had to make up somebody, make him up to be like a man should be.”
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“[H]e creates a world of phantasy which he takes very seriously, which he invests with large amounts of emotion.”
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esperança, não importando o que acontecesse contigo.”126 (BUKOWSKI, 1982, p. 165). Com o apoio de seu novo hobby, de seu novo ofício literário e do álcool, Henry Junior encontra certo conforto contra o displaçamento exterior, interno e contra a solidão. Apesar do „eu‟ fragmentado na infância e dos traumas sofridos, a intoxicação e a arte, representando respectivamente fuga e esperança, guiam a personagem em direção à totalidade e ao desenvolvimento de personalidade, ainda que de maneira atípica.
Terry Eagleton ([1983] 1996), ao problematizar o prazer e o gosto pessoal dentro da crítica literária, conclui que a análise psicanalítica da literatura trouxe tais questões para dentro da crítica pelo fato delas serem elementos complexos. Fuga da dor e busca do prazer, sob uma visão rasa, podem parecer simples hedonismo, mas são muitas vezes, uma questão de sobrevivência humana, constituindo-se então, um sentimento com dimensões ideológicas e políticas. Eagleton ([1983] 1996, p. 185) chama literatura de “sistema significante” que produz um efeito ideológico e atesta: “Você pode querer montar suas próprias práticas significantes para enriquecer, combater, modificar ou transformar os efeitos que as práticas dos outros produzem.”127 Em Ham on Rye, Henry Junior sente muitos desprazeres em contato com a sociedade em que vive, sendo reprimido constantemente pelo externo. O prazer que a personagem encontra na arte literária, ora lendo, ora escrevendo, desvenda outro sistema significante que combate o que é posto pela sociedade estadunidense, mostrando-lhe um caminho em direção à completude perdida e ao desenvolvimento de sua personalidade, algo que qualquer médico psicanalista certamente afirmaria ser saudável para um indivíduo.
Henry Junior, portanto, é um sujeito que questiona a sociedade patriarcal e diferentes formas de autoridade repressora presente na civilização e que não enxerga nenhum futuro promissor no destino oferecido a todos por meio de emprego, religião e família. Ao conceber isolamento, intoxicação e arte como soluções plausíveis ao seu displaçamento, buscando uma psique saudável da sua maneira, Henry Junior nega as convenções coletivas, indo contra o que a ideologia dominante prega, levando-nos ao próximo capítulo.
126 “Words weren‟t dull, words were things that could make your mind hum. If you read them and let yourself
feel the magic, you could live without pain, with hope, no matter what happened to you.”
127 “You may want to stage your own signifying practices to enrich, combat, modify or transform the effects
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