Chapitre III. Les formes orales solides
1.2 Capsules
A prática da cremação de corpos é conhecida entre grupos indígenas tanto em períodos recuados na história quanto em recentes. Em dissertação de mestrado, Montardo (1995) realiza um levantamento das fontes etnohistóricas onde rituais de enterramento são descritos para grupos indígenas de todo o Brasil. Neste trabalho a autora aponta que “a cremação é uma prática comumente relatada em nossa etnografia” (MONTARDO, 1995, p.36). Esta prática poderia acontecer com a colocação do corpo diretamente sobre o fogo, como relata Kempf54 (1947), constituir uma espécie de forno, quando o corpo é enterrado e
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Ver as reconstituições gráficas dos vasilhames das estruturas 98-1 e 100 no capítulo 3. De Masi (2003) também encontrou em estruturas anelares por ele pesquisadas vasilhames com as mesmas características e tamanho.
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sobre ele aceso uma fogueira (entre os Yagua, CHAUMEIL, 1992 in MONTARDO, 1995), ou ainda ser antecedida por uma exposição do corpo (entre os Surará, BECHER, 1959 in MONDARDO, 1995). A cremação poderia ser realizada de acordo com a idade (como entre os Surará) em corpos que sofreram uma morte violenta, como entre os Guayaki (MONTARDO, 1995).
Na maioria das vezes a cremação não é a finalização do ritual, mas os ossos possuem destinos diferenciados. Podem ser enterrados (Xokleng), ou consumidos em bebidas e mingaus (Sanumá, RAMOS, 1990 in. MONTARDO, 1995) ou ainda utilizados em pinturas corporais (BARBOSA RODRIGUES, 1882 in MENDONÇA de SOUZA, 1986). A morte, relacionada aos aspectos da vida e da pós-vida pode causar medo, terror, principalmente quando relacionada com o retorno dos espíritos. De acordo com Bendann (1969 in SILVA, 2007, p.110) a cremação dos corpos pode servir como método para prevenir este possível retorno, dissipando a “poluição causada pelo morto, protege(ndo) o corpo da ação dos animais. O fogo desvia o morto das maquinações e influência dos espíritos perversos; é um meio de favorecer o aconchego e conforto no mundo futuro (terra do além); enfim, a queima elimina o processo de transformação, um processo prejudicial, danoso para os vivos e o morto”. A cremação pode servir como processo de purificação.
Na arqueologia, a prática de cremação vem sendo verificada em sítios horticultores quanto entre caçadores-coletores. Na região do centro do Brasil, no norte do Estado de Minas Gerais, a pesquisadora Lilia Machado estudou sepultamentos com cremação no interior de grutas, relacionados ao horizonte caçador coletor e horticultor, “grupos vinculados à Tradição Una, Fase Unaí, (...) ocupando uma faixa cronológica que veio do século V até aproximadamente um horizonte de 3.500 A.P.” (MACHADO, 1990, p.242). Nesta pesquisa, verificou-se que no horizonte mais antigo 82% das cremações ocorreram no abrigo, e o restante cremado em outro local e depositado na gruta. A maioria destas cremações aconteceu quando já não havia mais tecidos moles. Entre os horticultores a situação foi inversa, onde apenas 40% das cremações ocorreram no próprio abrigo, e o restante apenas sepultamento de ossos cremados em outro lugar.
Ainda com relação a pesquisas com cremação em dois horizontes distintos – caçador-coletor e horticultor – em um mesmo sítio, a pesquisadora Gláucia Sene (2003) escavou a Gruta do Gentio II (noroeste de Minas Gerais) onde foram encontrados 176 indivíduos sepultados, em disposição primária ou cremados. De acordo com a autora, estes
últimos podem ser verificados tanto no horizonte mais antigo quanto no mais recente e podia ter acontecido antes da decomposição dos tecidos moles (27% das práticas do horizonte mais antigo e 6% do mais recente) e também quando estes tecidos já não havia mais (representando 38,5% dos costumes funerários mais antigos e 14,5% dos mais recentes).
Na região de Mato Grosso, Oliveira et al (2001) verificou que o fogo estava presente na maioria dos enterramentos, como parte do ritual, e sobre algumas fogueiras foi possível encontrar fragmentos de ossos. Desta forma, a cremação tanto poderia fazer parte do ritual, como também os ossos aparecerem queimados pelo fato de novos enterramentos resultarem na perturbação dos enterramentos de ocupações anteriores, expondo os ossos secos ao calor das novas estruturas de combustão. Desta análise percebe-se que apenas 20% dos ossos que sofreram ação do fogo estavam com partes moles, e o restante caracterizavam por ossos secos, reforçando a hipótese da perturbação.
Na bacia do Rio São Francisco, nordeste do país, a pesquisadora Cleonice Vergne (s/d, 2002) escavou um sítio onde foi possível resgatar mais de 160 sepultamentos, entre eles dois conjuntos de ossos cremados. Estes, de acordo com a autora, pertenciam à ocupação mais recente, ceramista, com datações entre 1200 e 2500 anos atrás, e estavam associados a outros tipos de enterramentos primários.
Alem destes, pode-se ainda lembrar as pesquisas em sítios de enterramento com cremações já citadas na introdução desta dissertação, como Furna do Estrago, PE (MENDONÇA de SOUZA et al,1998), Maloca da Perdiz II, RR (MENDONÇA de SOUZA, 1986), e o Jazigo de Içara, SC (IZIDRO, 2001).
De acordo com Mendonça de Souza et al. (1998) a prática da cremação pode ser entendida, de maneira muito genérica, como uma atividade propiciatória “à passagem do espírito para o mundo dos mortos. Na medida em que trilhar a etapa de desligamento do mundo dos vivos exige o desvinculamento com o corpo físico e a perda da individualidade, é freqüente que se encontrem rituais de manejo do corpo que simbolicamente ajudem o espírito a libertar-se, romper laços com a família e com o mundo do aldeia”.
Há ainda grupos que, apesar de praticarem a cremação, esta não faz parte do seu universo simbólico. Reduzir o corpo a cinzas pode se tornar prático a medida em que transforma um corpo em apenas alguns quilos, facilitando o transporte quando um ente
morre longe do local preferido para sepultar, conforme já verificado em Içara (Izidro, 2001).
5.2.2 O valor simbólico do ritual de enterramento e a construção de montículos