Os resultados dessas investigações e das discussões subseqüentes foram considerados para o planejamento amostral do trabalho sobre a prévia eleitoral na Universidade. Com a orientação do professor Pedro Lemos, definimos as variáveis para o questionário. Questões importantes que estavam sendo discutidas nos debates políticos e nos programas dos candidatos, como as reformas (tributária, da previdência, política, educacional) e as posições do futuro governo frente ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Acordo de Livre Comércio nas Américas (ALCA) transformaram-se em variáveis para o questionário.
Após a elaboração do modelo final do questionário, os alunos passaram à atividade de coleta de dados. Preferimos adotar a metodologia do DataFolha (instituto de pesquisa de opinião do jornal Folha de São Paulo) para as entrevistas - abordagem aleatória dos sujeitos, realizada em lugares de grande concentração de pessoas, com o convite para a entrevista. Essa coleta de dados foi realizada entre os dias 13 e 19 de setembro e, apesar do trabalho exaustivo, os alunos pesquisadores consideraram a experiência bastante gratificante e muito interessante. A colaboração dos colegas participantes dos outros cenários foi
98 significativa para que o número de sujeitos planejado para a amostra pudesse ser atingido.
Além da satisfação de trabalhar como pesquisadores, o trabalho propiciou aos alunos outras oportunidades, dentre as quais destaco: o aprendizado de conceitos que eles dificilmente aprenderiam estando somente na sala de aula, a possibilidade de conversar com os entrevistados sobre as suas opiniões em relação à política e ao social, a percepção do paradoxo de que no meio universitário há muitos jovens desinteressados por essas questões (que para eles, participantes do cenário, eram de fundamental importância) e a sensação de se envolver com o processo eleitoral de forma diferente de quem apenas vê resultados de pesquisas publicados na imprensa. Alguns trechos das entrevistas com os integrantes do grupo e que evidenciam essas satisfações estão transcritas abaixo:
André: Foi bastante trabalhoso. Para mim, era só sair e obter dado. Não tinha noção do que mais era preciso fazer, como se preocupar com margem de erro, número de entrevistados etc. [...] Mas eu gostei muito. Como eu falei na entrevista (se refere à entrevista dada à TV PUC) eu aprendi coisa que provavelmente não aprenderia só na sala de aula. Carlos: Achei muito legal [...] não é como a turma vê o resultado. Não vê como foi pego (a informação), de quem você pegou (do entrevistado). [...] quem faz pesquisa tem uma outra visão, diferente de quem vê só os números no final. Em determinada área se vota em um candidato, em outra, em outro. É legal.
Joel: [...] eu nunca tinha feito pesquisa antes. Foi bem legal, conversar com as pessoas e o povo recebeu bem. Tinha gente que sabia sobre o assunto e tinha gente que nem se preocupava. Eu achava que sendo universitários eles iriam pensar bem antes (em quem votar).
Silvio: [...] Apesar de ser tímido, quem mais entrevistou boca a boca fui eu. Achei legal, super interessante [...] a gente vê o que a pessoa sente. Alguns ficavam indignados com algumas perguntas. Outros achavam que faltava candidato no questionário ou faltava pergunta. Outros ainda não sabiam de nada e nem queriam saber.
99 Por causa das proximidades das eleições e do debate na comunidade marcado para o dia 23 de setembro, quando os resultados obtidos seriam apresentados e discutidos por especialistas, os dados coletados precisariam ser tabulados com urgência. Como esses dados eram em grande quantidade (1010 sujeitos, cada um respondendo 42 perguntas), para a tabulação dessas informações os alunos trabalharam intensivamente no processo de digitação. O Excel foi o software utilizado e para facilitar o trabalho, preparei, a priori, uma planilha para essa tabulação (Figura 4-1).
Fi gura 4-1: Recorte da planilha para a tabulação dos dados coletados nas entrevistas.
Após a tabulação iniciamos o processo de geração das tabelas e dos gráficos que continham as informações numéricas necessárias para a análise dos dados e então, os resultados do esforço dos alunos apareceram, de forma objetiva, pela primeira vez. A preferência por Lula para a presidência da República era esperada, mas a expressiva porcentagem de intenção de votos para José Serra não deixou de ser uma surpresa. O empate entre Geraldo Alkimin e José Genoino e a inexpressiva preferência por Paulo Maluf para o governo de São Paulo e a absoluta opção por Aluísio Mercadante para o Senado foram outros resultados significativos. Os gráficos 4-2 e 4-3 mostram essas preferências.
Gráfico 4-2: Intenção de votos e do índice de rejeição para Presidente da República.
Inte nção de Votos para Pre side nte 40%
31%
10%
3% 6%
10%
Lula J Serra C Gomes Outros Bcos/nul Não sei
Índice de Rejeição - Presidente
21% 21%
13%
36%
3% 5%
100
Gráfico 4-3: Intenções de votos para o Governo de São Paulo e para Senador por São Paulo.
Em conjunto com os assessores Pedro Lemos e Antonio Sá e com alunos do curso de Ciências Sociais da Universidade definimos quais cruzamentos de informações precisariam ser construídos para a análise dos dados. Esses cruzamentos (relacionamentos entre variáveis) são importantes instrumentos estatísticos para a obtenção de informações por estratos ou por setores da comunidade que compõem a população.
Assim, por exemplo, ficamos sabendo que se apenas os alunos dos cursos da área de biologia tivessem sido ouvido haveria um empate nas intenções de voto entre Lula e Serra. Vimos também que dentre os universitários e eleitores de Lula, a maioria preferia que o país mantivesse o acordo com o FMI, porém renegociando a sua dívida, mas que quase metade deles era contrária ao ingresso do Brasil na ALCA. Esses dados estão mostrados nas tabelas 4-2, 4-3 e 4-4 e os demais resultados podem ser observados no relatório final do grupo.
ÁREA Lula Ciro Serra MANTER ACORDO Lula Á FAVOR Lula
Humanas 41,7% 9,4% 29,9% Sim, totalmente 8,2% Sim 7,5% Exatas 41,3% 10,0% 31,8% Sim, mas renegociar 54,4% Não 78,1% Biológicas 34,2% 10,8% 32,9% Não 19,7% Não sei 14,4% Tabela 4-2: Preferência dos eleitores
por área do curso do estudante.
Tabela 4-3: Posição dos eleitores de Lula sobre acordo com FMI.
Tabela 4-4: Posição dos eleitores de Lula sobre acordo com a ALCA.