• Aucun résultat trouvé

Décentralisation et administration de base, qu’est ce que Madagascar peut tirer de l’expérience chinoise

3 Canton et Etat, district

A enunciação realizada é como uma ilha emergindo de um oceano sem limites. Bakhtin/Volochínov (2010) A inspiração para a construção metodológica desta tese encontrou um ponto de encontro entre as teorizações do Círculo de Bakhtin sobre as relações dialógicas e sobre o enunciado concreto, com a noção de dispositivo em Michel Foucault (1979, 2009, 2012a). A partir destes autores tomamos o Curso de Especialização: A Gestão do Cuidado para uma Escola que Protege como um dispositivo formativo que reúne discursos, instituições, tecnologias, tempos, espaços, corpos, regulamentos, leis e práticas em que atuam formas de exercício de poder ancorados em instrumentos de saber. Portanto, “o dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos” (Foucault, 1979, p. 244). No caso do Curso em questão, entendemos que este é um dispositivo que obedece a lógica contemporânea das formações continuadas emergente nas sociedades de controle que põe em funcionamento visibilidades e dizibilidades em um determinado momento histórico (Deleuze, 1990), respondendo a uma urgência no campo da educação, a saber, a formação de professores/as para a prevenção e o enfretamento das violências nas escolas. Um dispositivo formativo “no qual os sujeitos se constituem como elemento e como resultado no conjunto das práticas sociais” (Skliar & Téllez, 2008, p. 29).

A partir disso, entendemos que em um dispositivo se atualizam determinadas relações dialógicas em forma de enunciados concretos e que este singulariza uma rede discursiva com a qual nos relacionamos e atuamos na produção de realidades. Assim, num dispositivo como o Curso de Especialização, há uma rede de relações entre instituições, leis, normas, práticas e enunciados que podem ser investigados de diferentes perspectivas. A perspectiva adotada neste trabalho de tese recorta este dispositivo desde nosso interesse em estudar como a violência foi enunciada na experiência desta formação e as relações dialógicas que os caracterizam.

Uma análise dialógica, no entanto, não se limita a dimensão linguística do enunciado, pois a enunciação está envolvida em condições históricas, políticas e sociais, ou seja, a uma multiplanaridade de onde o discurso emerge em meio a relações de poder. Cabe dizer, também, que um enunciado não reflete este contexto multiplanar, o qual Bakhtin/Volochínov (1926/1976) também chamam de extraverbal, como um espelho, pois o extraverbal não é a causa de um enunciado, ele se integra a ele desde dentro e de forma constitutiva, sendo atualizado no próprio ato de enunciação. E a língua só ganha vida e se efetua na rede de comunicação entre as pessoas, seja por meio de atos de fala, seja pelo discurso escrito, imagético, gestual, sonoro.

O enunciado, como uma ilha que emerge num oceano sem limites, expressa a condição múltipla e complexa que o envolve, e a abertura que ele engendra quando de sua criação e efetuação na rede de comunicação cotidiana. Portanto, o que denominamos aqui de enunciado pode se expressar a partir de uma frase, de uma palavra, de um livro, de um gesto, de uma imagem, ou seja, qualquer matéria que possa entrar numa relação de conversação ou diálogo entre sujeitos, provocando respostas, isto é, outros enunciados. No entanto, o material linguístico – orações, frases e palavras – “pode repetir-se um número ilimitado de vezes em forma absolutamente idêntica, mas como enunciado (ou parte do enunciado) nenhuma oração, mesmo a de uma só palavra, jamais pode repetir-se: é sempre um novo enunciado (ainda que seja uma citação)” (Bakhtin, 2011a, p. 313). Deste modo, uma mesma palavra pode ter diferentes sentidos, a exemplo da palavra violência. Mas o sentido só poder ser analisado quando a palavra se torna um enunciado concreto, ou seja, uma resposta a outros enunciados, com autoria e destinatário (mesmo que presumido). O material linguístico é, nestes termos, o aparato técnico para a realização dos sentidos em um enunciado (Bakhtin &Volochínov, 2010).

Se por um lado, palavras, gestos e até mesmos o silêncio se reiteram, o enunciado, por outro, é um acontecimento único e irrepetível. Ele é ao mesmo tempo produto e processo de um acontecimento. Deste modo, um enunciado está sempre no meio de uma rede de comunicação discursiva. Ele se conecta e responde aos enunciados que o precederam e, ao mesmo tempo, lança as possibilidades de contrapalavras, incita novas respostas e permanece como mais uma voz no plano dialógico da existência. Neste sentido, “não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o

contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites)” (Bakhtin, 2011a, p. 410).

As condições que envolvem a produção de um enunciado são a existência de um autor, de um interlocutor/destinatário conhecido ou não, a escolha de um gênero do discurso que é uma forma relativamente estável de enunciado, o tema do enunciado que é o seu sentido, as escolhas gramaticais e lexicais que são os seus significados, e os presumidos encarnados em determinados coletivos e comunidades (Bakhtin, 2011a). Um enunciado se define então pelos elementos de sua composição, os quais também estão relacionados a uma rede de outros enunciados a qual ele se vincula, como resposta e, ao mesmo tempo, como um novo endereçamento.

Entendemos que há em um enunciado verbal ou escrito múltiplas vozes com ideias-força28 que se aglutinam e que fazem funcionar diferentes linguagens: econômicas, jurídicas, estatísticas, morais, entre outras. Estas linguagens, vozes e ideias-força compõem os enunciados de um dispositivo e, dar visibilidade e audibilidade a estes elementos, é um dos principais trabalhos de uma perspectiva dialógica de análise. Tal análise tem como ponto de vista a refração das ideias-força sociais, políticas e culturais (Bakhtin, 2010a). Isso porque, as vozes que compõem um enunciado não são equipolentes, pois se objetivam em meio a relações de poder aonde exercem forças desiguais. E, as ideias- força, nestas relações, expressam e produzem modos de pensar, sentir e agir e, por consequência, colocam em cena as tensões presentes em cada enunciado.

As ideias-força podem se objetivar nas relações e nos enunciados de modo forte, fraco ou ainda latente, isto é, como uma possibilidade no horizonte da arena dialógica da existência. Assim, uma ideia-força ganha sentido na análise à medida que podemos identificar o contexto em que o enunciado foi produzido e como ela se conecta ao grande diálogo de uma época, de uma cultura, de uma área de conhecimento. E como ela contribui para a configuração de determinadas linguagens no

28

O termo ideia-força é utilizado por Bakhtin no livro Problemas da poética de Dostoievski (2010), quando ele analisa a forma como Dostoievski recolhia da realidade as diferentes vozes e suas relações para compor a sua poética. Dostoievski, segundo Bakhtin (2010) auscultava de forma genial o grande diálogo de sua época; ele reconhecia ideias-forças fortes e fracas, do passado e do futuro, as ideias dominantes e também aquelas ainda latentes.

campo das relações sociais, políticas, éticas, educacionais. Podemos dizer que a noção de ideia-força se aproxima também da noção de sentido de um enunciado, no entanto, ela assume o axioma de que a instituição de um sentido está sempre envolvida em uma arena de valores e de poderes que ganham vida no diálogo.

Assim, apresentamos, desde o pensamento do Círculo de Bakhtin, a condição dialógica de todo e qualquer enunciado, pois em cada discurso verbal, em cada texto escrito, em cada imagem, há vozes em relação. O que a análise dialógica coloca em evidência são as vozes que estão em diálogo em um dispositivo. O que a dialogia, como perspectiva de trabalho, pode dar a ver é o lugar de enunciação e, a textualidade dos afetos, vozes e forças que compõe um dispositivo. Olhar para um dispositivo, desde este ângulo, exige, sobretudo, um olhar atencioso do pesquisador para as tensões presentes em um mesmo enunciado, como também para a disputa entre posicionamentos e seus efeitos na rede discursiva.

A noção de rede pode ser pensada aqui como uma cadeia de conexões infinitas, sem início nem fim, que cresce e transborda de todos os lados e que tem no meio a sua velocidade (Deleuze & Guattari, 1995). Na rede, a qual toda pesquisa está envolvida, não há um eu- sujeito predeterminado nem um “objeto” preexistente separado do pesquisador; não estamos diante de relações em que um dos termos é determinado pelo outro, não estamos em um plano de hierarquização, mas em um plano de imanência onde uma rede de conexões são operadas (Barros, 2007). Neste sentido, a pesquisa está sempre entre outros estudos, teorizações, investigações, enfim, sempre em meio a múltiplos enunciados e aberta à alianças e conexões, por isso, não há um começo e um fim, mas um meio pelo qual ela cresce.

No entanto, não é possível trabalhar com a totalidade da rede infinita na qual a pesquisa está entre. É preciso fazer escolhas, recortar o plano de imanência, criando assim o plano da pesquisa. Deste modo, o trabalho dialógico a que nos propomos tem como tarefa dar visibilidade ao modo como a violência foi enunciada neste Curso e audibilidade às múltiplas vozes e ideias-força presentes nos seus enunciados. Logo, o material de investigação desta tese são os enunciados concretos que expressam posições axiológicas e sentidos de violência. A leitura destes enunciados se detém, sobretudo, na análise dos lugares da enunciação, nas linguagens que foram utilizadas pala falar sobre violência, em como o outro foi enunciado e nos modos de ler e reescrever os sentidos sobre violência no processo desta formação.

Não nos interessa no trabalho de análise dos enunciados, todavia, a autoria destes, mas as relações dialógicas, isto é, o encontro das diferentes vozes em cada enunciado singular. Trataremos a questão da autoria desde a perspectiva de que todo enunciado se constitui de palavras alheias tornadas próprias e, neste sentido, nosso foco está na posição axiológica ocupada pelos sujeitos da enunciação e não em quem a realizou. Todo enunciado está carregado de um conteúdo vivencial singular e coletivo que demarca lugares de enunciação. Portanto, tomamos a palavra violência como um enunciado neste dispositivo, já que a partir dela podemos traçar inúmeras vozes e ideias-força e também criar novos sentidos, enunciando-a desde perspectivas de definição múltiplas.

Entendemos que o lugar de um/a pesquisador/a, ao entrar na rede de comunicação a qual ele/a se conecta, é de participação no diálogo com os enunciados e com os outros. O/A pesquisador/a é um terceiro ou quarto incluído no diálogo (Bakhtin, 2011a). É preciso, portanto, não renunciar, coincidir ou absorver a voz do outro, mas criar um campo possível, um entre lugar no qual o pensamento e os afetos possam coexistir e ganhar passagem. É também neste entre que o/a pesquisador/a se expõe, pergunta, responde, assina o seu texto e assume uma posição de responsabilidade e responsividade pelo que produz (Groff, Maheirie & Zanella, 2010).

Uma pesquisa, com estes contornos epistemológicos, agrega, a nosso ver, um posicionamento ao mesmo tempo ético, estético e político:

Ético, no que se refere ao desejo de diferir e acolher a diferenciação constante; estético, no que se refere a tornar a existência e as práticas nas quais se produzem como matéria de criação e outramento; político, porque requer a problematização e a desnaturalização constante dos intoleráveis que atravessam a nossa existência e nos servem como indicadores de nossas ações em relação a nós mesmos e aos outros (Neves, 2009, pp. 209-210).

Estas dimensões podem afetar os significados fossilizados e colonizados do saber psicológico sobre o outro (Groff, Maheirie & Zanella, 2010), e podem nos comprometer, enquanto pesquisadores/as, com um modo de produção de conhecimento que não toma a vida como objeto, que não toma o outro como seu território; que força a olhar para

o olhar que olha; que interroga as aderências às normas e aos discursos da normalidade; que interrompe palavras acostumadas; que mantém viva a pergunta pelo que um corpo pode, e menos pelo que ele é ou deve ser.

Um modo de pesquisar que tem no gesto exotópico de saída de uma autorreferência, a sua ancoragem, a sua possibilidade de dar um acabamento implicado, responsável pela produção discursiva que o estudo engendra. Isso porque, esta saída de si na produção de conhecimentos em Ciências Humanas, tem a ver com a abertura de um espaço-tempo possível entre eu e o outro, entre o texto do pesquisador e o texto dos sujeitos da pesquisa, para que este outro não se torne um objeto reificado na produção do/a pesquisador/a (Bakhtin, 2011a). É deste modo que podemos criar um trabalho de análise não monológico, como também, desancorado das metanarrativas que buscam sempre instituir uma verdade para àquilo que é por condição múltipla e incapturável, a saber, os corpos e seus afetos (Spinoza, 2009).