2.2 Communication & actions commerciales 2017
2.2.2 Campagnes promotionnelles
Luhmann propõe uma mudança de paradigma ao passar da distinção todo- partes à distinção sistema-entorno. A diferenciação é a forma reflexiva da construção dos sistemas. A distinção entre o sistema e o mundo circundante reconstrói a distinção do todo e suas partes por meio do uso da teoria da diferenciação sistêmica. (LUHMANN, 1998).
Os sistemas diferenciados possuem dois tipos de ambientes: O externo – comum a todos os subsistemas e, o interno – especial para cada subsistema. Este processo se repete com os subsistemas até alcançar organizações e interações de grande especificidade. (RODRIGUEZ & ARNOLD, 1990). Desse modo, o ponto de partida da análise luhmanniana é a relação sistema-mundo circundante. O entorno se constitui o fator condicionante para a construção do sistema e o sistema o fator constituinte do entorno.
A relação sistema-entorno, considerada o ponto de partida para a compreensão dos sistemas sociais luhmannianos, remonta, à luz da complexidade, a concepção hegemônica de sociedade, como já fora abordado anteriormente. O sistema social para Luhmann não será mais marcado pela hierarquia de classes, camadas sociais ou pelo monopólio do poder. Diferentemente, o sistema social será identificado e caracterizado a partir da diferenciação funcional dos sistemas parciais. A importância de um sistema não estará mais na posição estrutural ou hierárquica, mas na diferenciação funcional e na capacidade de engendrar complexidade própria para reduzir a complexidade do entorno. Dito de outro modo, o sistema será caracterizado pela capacidade de desenvolver-se autonomamente e pela capacidade de estabelecer novas e sempre mais complexas comunicações de sentido, a fim de regenerar continuamente a rede de interações. (RODRIGUEZ &
ARNOLD, 1990; CORSI, 1996).
Por meio da relação sistema-entorno, Luhmann instaura uma nova racionalidade funcional e operacional, não mais caracterizada pela estaticidade e objetividade linear dos fenômenos sociais, mas pela dinâmica comunicativa dos sistemas que, a partir de uma nova postura organizacional, passam a integrar a rede social.
Para tornar mais próxima essa relação ou distinção sistema-entorno, Luhmann realiza uma comparação e/ou diferenciação entre uma forma, de dois lados. Nesta, caracteriza o “sistema como sendo o lado interno” e o “entorno como sendo o lado externo da forma”. (LUHMANN, 1984, p. 60).
O entorno do sistema, sob esse enfoque, não é menos ou mais importante que o sistema, como já fora dito, mas complementar ao mesmo. Como diferenciação funcional, a forma é fechada. Significa dizer, que tudo o que se pode observar e descrever com esta diferenciação pertence ou ao sistema, ou ao ambiente. O limite da relação sistema-entorno marca a complementaridade e a unidade da forma, tornando possível a diferenciação, sem anular ou reduzir o efeito de um ou de outro. Não existe, nesse processo, a simples soma dos dois lados da forma, mas, a complementaridade e a unidade da diferenciação funcional, que compreende a complexidade multidimensional do sistema. (LUHMANN, 1982, 1984, 1998).
O entorno não é aquilo que sobra quando se subtrai as partes. Na teoria luhmanniana, o entorno é antes de qualquer coisa uma pressuposição da identidade do sistema. “Nem ontologicamente, nem analiticamente o sistema é mais importante do que o entorno. Ambos são o que são somente na relação e interação um ao outro”. (LUHMANN, 1984, p. 244). Logo, não existe para Luhmann, uma relação de importância, mas uma relação de diferença. Também a diferença não pode ser vista como uma coisa qualquer. Ambos, sistema-entorno, devem ser apreendidos e compreendidos enquanto fenômenos complexos que resultam da interação e complementaridade dinâmica dos processos sociais
Na perspectiva luhmanniana, o “entorno do sistema é condição para manter a identidade dos sistemas autoreferenciados, visto que a identidade somente é possível através da diferenciação”. (LUHMANN, 1984, p. 243). O sistema, à medida que estabelece relações com seus elementos constitutivos, os faz com base nas exigências que se estabelecem no entorno. Em outras palavras, os sistemas são orientados pelo seu entorno, não apenas de forma ocasional e por adaptação
seletiva, mas de modo especial pelas suas estruturas, que não sobrevivem na ausência deste.
A dinamicidade e vitalidade de um sistema dependem, portanto, da dinamicidade e vitalidade do entorno de outros sistemas parciais. Da mesma forma, o excesso de complexidade de um sistema, aumenta a complexidade do entorno de outros sistemas e toda a mudança de um sistema implica numa mudança do entorno de outros sistemas. (RODRIGUEZ & ARNOLD, 1990; CORSI, 1996).
Para Luhmann (1984, 1998), é fundamental que exista uma interatividade e complementaridade intensa entre todos os sistemas parciais e destes com o seu entorno. Os sistemas, interligados por meio de uma rede de conexões não lineares, são impulsionados pelas constantes e crescentes transformações que ocorrem no entorno. O entorno, por sua vez, capta as manifestações e variações e realiza trocas significativas ou comunicações de sentido, capazes de potencializar e configurar o sistema global.
Nesse processo, o sistema opera fechado normativamente, mas aberto cognitivamente, a fim de garantir a sua auto-reprodução e a capacidade adaptativa às exigências e complexidade do entorno. A complexidade é, de acordo com Luhmann (1996), necessária e vital para manter a funcionalidade do sistema. O sistema deixa de existir ou reproduzir-se, mesmo no entorno/ambiente mais propício, se este não for capaz de potencializar os seus elementos e estreitar as interações.
A configuração do sistema luhmanniano instaura uma nova racionalidade sistêmica, caracterizada pelo abandono do modelo organicista e funcionalista centrado na relação parte/todo, micro/macro, sujeito/objeto. (MATHIS, 2006). Com a diferenciação sistema-entorno, Luhmann amplia e potencializa a concepção de ser humano como sujeito ativo, participativo e interativo na vida social. Integrando o entorno do sistema, o ser humano é capaz de aumentar gradativamente a complexidade própria para reduzir a complexidade do entorno. Em outras palavras, é através do processo de subjetivação e inserção nos processos sociais que o ser humano estabelece relações dialógicas e dialéticas com os diferentes setores e atores sociais.
Integrando o entorno do sistema, o ser humano torna-se crescente fonte de instabilidade e incerteza para o próprio sistema, isto é, torna-se fonte de irritação e perturbação pelas infinitas possibilidades interativas. Ao mesmo tempo em que o ser humano aumenta a complexidade do entorno, aumenta também a capacidade
seletiva do sistema, independente das operações que realiza para resolver as contradições emergentes. (NEVES, 1997; MATHIS, 2006).
Na seqüência, segue uma síntese esquemática da compreensão - diferenciação sistema-entorno, que tem como foco central o sistema de enfermagem e, no seu entorno, a interconexão dos demais sistemas funcionalmente diferenciados, considerados imprescindíveis na rede de comunicação social, conforme ilustra a Figura 2.
Figura 2: O Sistema de enfermagem observado a partir da relação sistema-entorno
Fonte: Elaboração teórica a partir das abstrações de Luhmann (1984, 1998).
O sistema autopoiético, nesse caso, representado pelo sistema de enfermagem, é caracterizado como um sistema complexo, não totalitário e não hierárquico que, a partir da abordagem sistêmica, compreende a circularidade das unidades múltiplas e a totalidade das comunicações. O sistema de enfermagem, nessa perspectiva, é identificado pelo entorno que o distingue, mostrando que pela
Sistema Familiar Sistema Educacional Sistema Econômico Sistema Social Setor Financeiro Ética Sistema Político Sistema de Enfermagem Sistema Cultural Administração Sistema de Saúde Sistema Interacional Sistema Ecológico Sistema Jurídico Sistema Religioso
interpenetração4, não existe uma relação de importância, mas de diferenças funcionais entre os sistemas parciais.
Entre os sistemas do entorno está o sistema psíquico, cujos portadores são os seres humanos, não por este ser irrelevante, mas por carregar o sistema de energia e informação. Sem o seu concurso, os sistemas sociais não teriam os elementos suficientes (ruídos/perturbações) para manter a dinâmica evolutiva. A complexidade do sistema de enfermagem cresce, à medida que aumentam o número de seus elementos, isto é, o número de relações e interações recíprocas. Em outras palavras, a novidade e a dinamicidade autopoiética do sistema de enfermagem são garantidas pela comunicação que mantém em sua estrutura uma permeabilidade seletiva (acoplamento estrutural) para captar as variações/informações do entorno e, consequentemente, gerar novas conexões e comunicações para a sobrevivência do sistema.
O sistema de enfermagem observado com base na diferenciação sistema- entorno, comporta um nível maior de complexidade. A complexidade do sistema aumenta à medida em que aumentam as perturbações ou ruídos provenientes do entorno, mesmo que não existam irritações propriamente ditas, visto que as mesmas são sempre auto-irritações. A autonomia, nesse processo, não é resultado das influências externas propriamente ditas, mas do confronto entre os elementos internos do próprio sistema e as irritações provenientes do entorno. Questiona-se: quais são as irritações provenientes do entorno social capazes de provocar uma auto-irritação no sistema de enfermagem? De que forma as perturbações do entorno social contribuem para a autonomia do sistema de enfermagem?
4 No campo das relações sistêmicas, o conceito de "interpenetração" indica uma relação mais
refinada de trocas e compartilhamento entre os sistemas. Diferenciando o termo penetração de interpenetração, Luhmann compreende que no primeiro caso o sistema coloca à disposição sua própria complexidade para construir outro sistema. Já na interpenetração esta situação é recíproca e possibilitada pela troca de complexidade entre os sistemas. A relação entre os seres humanos e sistemas sociais é melhor compreendida por meio da interpenetração, tendo em vista que esta promove a inclusão dos sujeitos sociais. "(...) los sistemas que se interpenetram permanecen uno para el otro, lo cual significa que la complejidad que ponen mutuamente a disposición es complejidad inaprensible, es decidir, desorden". (LUHMANN, 1998, p. 202).