Nas imagens dos livros didáticos das coleções analisadas, do ponto de vista profissional, encontramos a representação de mulheres negras em diversas atuações. Em muitas delas na área científica, como médicas, biólogas, enfermeiras, laboratoristas, geólogas entre outras atividades laborais, como apresentado na figura 9, a seguir, extraída da coleção As Novas Bases da
Biologia, na unidade Reprodução e Populações, capítulo Reprodução Humana e Sexualidade,
mulher negra, de pele mais clara, cabelos alisados, vestindo uma camisa listrada e jaleco branco, sorrindo, sentada atrás de uma mesa, escrevendo, possivelmente uma ficha clínica ou um papel de receituário. Em cima da mesa podemos ver agenda, livro, um estetoscópio, tela e teclado de um computador, elementos que nos permitem afirmar a figura de uma médica. Do outro lado da mesa há um jovem casal: mulher branca de cabelos longos e soltos, vestindo calça jeans e blusa clara, o homem também de pele branca, está vestindo calça jeans e camisa na cor azul claro, ambos estão sentados de frente para a mulher negra – a médica.
A partir dos elementos da imagem, dentro das malhas simbólicas instituídas social e culturalmente, podemos inferir tratar-se de um consultório médico, onde vemos uma médica negra em atendimento ao casal. Temos uma mulher negra exercendo em uma profissão de prestígio socioeconômico e de alto grau de escolarização, representação importante para se possibilitar uma identificação profissional às meninas negras, na cena escolar, uma vez que a mulher possui os traços fenotípicos similares a essas meninas. Essa representação ao mostrar uma mulher negra num espaço da esfera pública, lugar historicamente negado às mulheres dado que a esfera do privado seria o local “natural” delas, tem um valor simbólico expressivo ao ampliar as noções de espaços de trabalho, profissional e de escolarização possível de ser ocupado por jovens negras.
Porém, ao entrarmos no texto no qual está inserida a imagem constatamos que o mesmo não está conectado à imagem, a especificidade mulher negra na ciência, no exercício da Medicina, está apagada. Nas coleções, embora as mulheres negras sejam retratadas atuando em
Fonte: Bizzo (2014, v. 1, p. 254).
profissões articuladas à Ciência, observamos o direcionamento dessas mulheres para áreas com vinculação cultural ao cuidado, ao feminino. Percebemos ainda hoje, os ambientes onde se produz a ciência como um espaço regido por valores e padrões masculinos. As coleções de livros didáticos ao trazerem uma mulher no exercício da Medicina ou na área da saúde, a trouxe atuando no que se pode reconhecer como do campo da Ginecologia e Obstetrícia. Nos livros não existe a representação de mulheres em áreas como a Ortopedia, Cardiologia ou Neurologia.
Questionamo-nos o quanto o direcionamento das mulheres para a atuação nessas áreas tidas como mais femininas ainda prevalece no ambiente escolar e acadêmico, do mesmo modo que a ideia de responsabilização da mulher ao cuidado se faz presente nas escolhas das profissões a serem seguidas. A recorrência de imagem de mulheres sorrindo e expressando felicidade ao cuidar dos que estão ao seu redor, tem os seus sentidos instituídos em nossa cultura, colando à fêmea, nesse caso a uma mulher negra, ao registro do cuidado.
A despeito da predominância de imagens de mulheres atuando na ciência nas áreas da saúde tidas como feminizadas, também encontramos mulheres em outras áreas, nos livros didáticos, embora em número consideravelmente menor, como a que apresentamos na figura 10, a seguir, presente na abertura da coleção Novas Bases da Biologia, na Unidade Evolução
Biológica, capítulo Biologia molecular e biotecnologia.
Na fotografia, figura 10, está representada uma mulher, de pele negra mais escura, cabelos trançados e presos, nariz largo, vestindo um jaleco branco e usando luvas de látex. A mesma está com a cabeça levemente inclinada para baixo, manipulando instrumentos específicos da área laboratorial e encontra-se em frente a uma bancada onde visualizamos
Figura 10 - Mulher negra laboratorista
materiais da área biomolecular. Ela está depositando material em lâminas de microscópio, e a imagem mostra recipientes para coleta de materiais biológicos na bancada. Inferimos pelos sentidos culturais predominantes tratar-se de uma cientista ou técnica de laboratório. Há na retratação da mulher uma expressão de concentração na execução da atividade. De modo igual, mesmo trazendo uma imagem positiva e importante para a construção de modelos que provoquem ruptura na ordem estabelecida – os laboratórios científicos são ocupados por homens, o capítulo do livro didático não aponta para o entrelaçamento raça, gênero e ciência. A perspectiva de gênero na ciência tem sido defendida por Silva e Ribeiro (2014, p. 464) como uma perspectiva que permite
[...] problematizar o pressuposto de que a ciência é neutra com relação às questões de gênero, revelando que os valores e as características socialmente atribuídos às mulheres são desvalorizados na produção do conhecimento, e que desigualdades de gênero perpassam o campo científico, por exemplo, no que se refere: à sub-representação feminina em determinadas áreas da ciência, a ocupação de cargos de direção e o recebimento de bolsas PQ do CNPq, entre outros aspectos.
Não se evidencia a intencionalidade do texto didático articular a perspectiva de gênero e ciência, nem articular o conhecimento biológico a elementos sociais e étnico-raciais. As imagens, a nosso ver, ocupam lugares meramente ilustrativos, embora contribuam para o aparecimento de outras personagens no exercício profissional nas áreas da saúde e da biotecnologia.
A autora Hooks (1995), ressalta as representações prevalentes na sociedade, referentes aos corpos negros bastante distantes da vida mental e acadêmica. Desde cedo na educação de meninas negras se aprende que o trabalho mental deve ser sempre secundário aos afazeres domésticos ao cuidado dos irmãos e posteriormente filhos e marido, tornando difícil fazer do trabalho intelectual uma prioridade. Falta até mesmo tempo solitário na casa para se dedicar aos estudos, pois ainda prevalece a cultura do destino de mulheres negras naturalmente inclinadas a servir aos outros com abnegação.
Concluímos essa seção afirmando que a imagem da mulher negra está no livro didático, mas o contexto instaurado no entorno dela não permite discuti-la; o marcador étnico-racial e de gênero não está problematizado; não emerge no texto do conteúdo da Biologia elementos que possibilitem uma significativa alteração de rota a partir dos conceitos e temas dessa área disciplinar. As discussões se limitam a temas do conhecimento biológico, como corpo, fisiologia e anatomia, desenvolvimento e reprodução, porém os saberes presentes nas imagens são vinculados ao campo sociocultural, como defendemos.
Assim, o livro didático está construindo sentidos por meio das imagens de mulheres negras e apresentando ensinamentos as meninas e meninos na escola, especialmente as meninas negras, as quais possivelmente se identificarão com as imagens, a como sentir e viver seus corpos e suas vidas no enfrentamento das mazelas que as sociedades globalizadas produzem. Assim, a Educação em Ciência presente nas coleções ainda traz muito mais elementos colonizadores do que elementos que favoreçam a rupturas com estes.