Ao contrário das quatro, Nzola é a única que ainda não tem filhos. Em nosso primeiro encontro presencial referiu que nunca quis ter filhos, e foi com esta informação que eu fiquei até a realização da entrevista. Neste dia, no final, disse que nunca quis ter, mas agora quer, e “quantos deus der”. Esta informação será mais bem contextualizada posteriormente. Por agora destaco que, por conta disso, cogitei a possibilidade de excluí-la, mas decidimos manter a entrevista pela riqueza de subsídios à pesquisa que a sua história trouxe para pensar direitos reprodutivos em Angola.
Nzola é a mais alta de todas, aparenta ter entre 60 ou 70 quilos. E, ao contrário das entrevistas anteriores, por sugestão dela, conversamos em um bar, na ilha de Luanda. Sentamos uma em frente à outra. O que mais chamou minha atenção foi o seu cabelo natural, que já foi pouco comum em Luanda, especificamente entre pessoas escolarizadas. Destaque ainda para o batom vermelho escuro, e o cigarro sempre à mão. Com 40 anos, nunca foi casada, mas já viveu em união estável. Atualmente mantém uma relação de namoro com um italiano branco. O seu tom de voz é baixo, poucos gestos corporais, fala palavrão à vontade e usa frases afirmativas contundentes.
Falando da sua infância, lembra que os pais se separaram quando era muito nova, contudo, ainda teve a possibilidade de manter algum contato com o pai, antes e após o divórcio. Tal como as demais, ela cresceu em um bairro no centro de Luanda. Os pais, porém, vêm da periferia, onde até hoje mora a sua avó, de quem se referiu sempre com muito carinho. Embora tenha poucas lembranças, a convivência entre os pais antes da separação era boa, isso no início da sua infância. No momento em que o pai sai de casa para ir viver com outra “mulher”, vai se deteriorando.
75 Nasci nos combatentes, na avenida Comandante Valódia. Sentia-me que estava no berço, enquanto o meu pai vivia conosco, mas depois dele ausentar- se, claro que as coisas complicaram-se, a minha mãe passou a ser mãe e pai. Ele saiu de casa porque tinha arranjado uma segunda mulher, e isso também fez com que as coisas mudassem na nossa vida de forma repentina, porque ele era um pilar forte para nós e a separação deles foi, para mim, muito difícil. (Nzola, 2017)
Mesmo com o fim do casamento, continuou a manter contato com o pai: “eu lembro- me de quando o meu pai chegava em nossa casa, trazia-nos brinquedos, fazia lá uns miminhos”, recorda com um sorriso no rosto. Este cenário foi se transformando à medida que ela e o irmão foram crescendo, e as visitas ficaram menos constantes. Mas, “acho que teve bons momentos, enquanto ele aparecia, antes de começar a querer fazer aquelas confusões, de querer nos receber”. A luta pela guarda dos filhos chegou ao tribunal, mas o pai perdeu, para além de, ela e o irmão mais novo preferirem morar com a mãe, esta também não consentia que os filhos fossem criados por uma madrasta.
Neste contexto, a sua relação com o pai passou por dois estágios. Inicialmente muito boa, se alterou com a saída dele de casa e a redução das visitas. Este momento foi marcante para ela, pelo tom de voz e a expressão de mágoa visível em seu rosto: “o meu pai vivia muito próximo de mim, mas eu tinha ficado dois, três anos sem visitar o meu pai, sem ele nos visitar, então não tinha como saber de mim”. Depois de adulta houve uma reaproximação.
Ele pode ter sido o que foi, quando éramos pequenos, mas eu gosto muito dele, porque eu tenho muito dele, em termos de caráter e personalidade, tenho muito dele, é, há muita coisa que ele fala, a forma como as vezes fala, coisas diretas, as vezes magoa, e há vezes que também sou assim, mas eu prefiro ser assim, do que fingir. (Nzola, 2017)
Este segundo momento coincide com a sua ida à Rússia, para estudar. Sobre esta fase, recorda que não teve ajuda do pai, contou apenas com a ajuda de alguns amigos, da mãe enquanto estava em vida, e do ex-namorado. A mãe, mesmo com muita vontade de ajudar mais, não tinha muitos meios financeiros. E ela também não pediu ajuda ao pai.
Ao relembrar a sua adolescência, assim como Nkossi, diz ter sido traumatizante. Logo no começo da narração, fez uma paragem brusca, começou a pestanejar rapidamente os olhos, que ficaram vermelhos e cheios de lágrimas. Neste instante ela baixou a cabeça por uns segundos, e quando levantou, tudo indicava que iria chorar. Eu rapidamente lhe ofereci um guardanapo. Ela olhou para mim e respondeu: “não precisa, eu não vou chorar, as lágrimas não caiem, só quando estou sozinha, não consigo chorar em público”. E pediu que continuássemos. Ela é a única menina dos pais, a penúltima de cinco rapazes por parte da sua mãe, sendo que os dois primeiros faleceram depois de adultos, um na guerra e outro por doença. O pai teve
76 mais filhos com a segunda “mulher”, mas apenas rapazes com os quais não tem muito contato. Segundo Nzola, foi o irmão mais velho, apenas de parte de mãe, que fez da sua adolescência/juventude um inferno.
Ao descrever os detalhes, a sua expressão facial se tornou mais séria, manteve os olhos fixos em mim, e em alguns intervalos desviava, parecendo incrédula de ter sobrevivido a tudo por que passou. Em seu entender, essa atitude do irmão se devia à incompreensão relativamente aos atos dela, próprios da idade. No princípio ela apanhava surra por “coisa normal de criança”, como não ter lavado a louça.
E eu apanhei porrada, muita, muita, de tanta porrada que eu apanhei, depois já não ouvia ninguém, comecei a ir para as discotecas. Meu irmão teve a coragem até de pôr gindungo na vagina. A minha mãe ficou a saber disso. Quando eu comecei a ir sempre as discotecas, ela batia-me, eu ficava em casa até curar as feridas ou dor caso tivesse, os inchaços, depois voltava, uma semana descansava outra semana ia, era sempre assim, porque já não queria saber de nada, depois já chamavam-me nomes. (Nzola, 2017)
E com o tempo a situação só foi piorando: “ele batia-me, já bateu-me ao ponto de juntar as minhas pálpebras, os olhos não abriam” e porque nesta fase a mãe ainda não tinha conhecimento deste nível dos maus tratos, ela teve de “mentir que caí do prédio de uma tia, das escadas, porque estava a correr”. Rememorando esta cena, suspirou e concluiu: “você imagina, o que é isso! Como é que você vai conseguir gostar de uma pessoa desta?”. Volvidos mais de vinte anos, ela não consegue ter uma relação normal com este irmão, apesar de tê-lo perdoado.
As agressões também foram contra o irmão mais novo. E o nível de ódio era tanto, que uma vez os dois colocaram veneno de rato na comida do irmão mais velho, “mas felizmente não aconteceu nada”. A maior parte das vezes, os dois ocultaram isso da mãe, “há coisas que ela ficou a saber mais tarde”, porque tinham medo das ameaças de morte feitas pelo irmão mais velho, que era militar na altura.
Todavia, havia fatos praticados por este irmão de que mãe tinha conhecimento, mas apenas observava. Como o dia em que ela levou tanta surra que fugiu de casa por duas semanas, e a mãe presenciou tudo. Por isso, “eu também dava-lhe um pouco de culpa porque ela acreditava muito no filho”. E isto “só foi mudando, graças a deus, depois de eu e o meu irmão mais novo lhe fizemos entender muitas coisas, ela passou a ser uma mulher diferente”. Neste período, a mãe ficava muito tempo ausente, por vezes semanas, pelos negócios que fazia, às vezes incluía deslocamentos a outras províncias do país. Por conseguinte, ficavam somente aos cuidados desse irmão mais velho.
Hoje eu, por exemplo, tenho muito medo, não importa se será meu filho ou não, de deixar com uma irmã mais nova, tenho medo. Hoje eu já disse, se tiver
77 uma casa própria, eu vou pôr câmeras sem as pessoas saberem, principalmente quando tiver filho do sexo oposto, ou se tiver um parente lá a viver, já não confio. Porque eu não sei se ela vai ter o mesmo comportamento que eu, se também lhe vão pôr gindungo. (Nzola, 2017)
E esta afirmação se completa com o seu relato de ter sido vítima de uma tentativa de estupro por parte de um familiar próximo, responsável por cuidar dela, em uma das viagens da mãe. E confidenciou, “és a primeira pessoa a quem conto esta história, a minha mãe morreu sem saber, nunca disse a ninguém”. Eu tive a impressão que a autoria pode ter sido desse irmão, pela sequência da história, e o silêncio que se deu após a confissão. Entendi que ela não iria acrescentar mais nada sobre o assunto, porque pulou logo para outro tema. E eu preferi não insistir.
Por tudo isso, a relação com a mãe teve momentos altos e baixos. Altos porque ela admirava muito a sua força e determinação em cuidar e defender os filhos, isso foi muito inspirador para ela. Salientou, em vários momentos, com um sorriso: “a minha mãe era muito batalhadora, muito trabalhadora”. E momentos baixos pela omissão perante o comportamento do irmão mais velho. Outrossim, também por perceber que a mãe tinha atitudes de “muita submissão” ao pai.
[...] não sei se é por ser muito religiosa, mas a minha mãe também era muito submissa, eu dizia a minha mãe que não podia ser uma mãe como ela, porque quando a submissão é extrema você acaba perdendo os teus valores, os seus próprios direitos, você esquece de ti, quer dizer, perdes o valor. (Nzola, 2017) Identifica estes dois lados na atitude materna: o da busca pela autonomia financeira ao longo de toda a vida, mas também a necessidade de assegurar a relação com o ex-marido, ainda que isso significasse “esquecer de si mesma”, o que de certa forma contrasta com a imagem da mãe lutando pela guarda dos filhos. Nesta hora, enfrenta o marido sem temer as consequências. É também pertinente a colocação de Nzola sobre a possível justificação para este tipo de comportamento, o lado religioso.
O importante para ela era viver, e digo isso porque, depois de estarmos já grandes, eu perguntava a minha mãe, muito antes de eu ir para a Rússia, mas oh mãe, se o meu pai pedir que é para tu voltares com ele, tu aceitas? Ela dizia que sim, ele é o meu marido. Ela gostou tanto, acho que foi o homem que ela mais gostou, e fazia com que ela aceitasse tudo, achava que era tudo normal, e eu não quero isso para mim. (Nzola, 2017)
Há um lado materno muito forte que a inspira, e ao longo da conversa Nzola fazia questão de referir, em vários momentos, que a persistência, a garra e a busca constante pela autonomia financeira ela aprendeu com a mãe, bem como a ideia de não depender de marido para viver, que passava também pelo cuidado consigo mesma. Por exemplo, se quiser comprar
78 um sapato, pegar o seu próprio dinheiro e comprar, sem precisar esperar ou pedir dinheiro ao marido. E existe o outro lado da submissão paterna, da omissão diante dos maus tratos, que não deseja para si, enquanto Nkento.
Em meu entender, esta “submissão extrema” precisa ser devidamente ponderada, na medida em que, em dois momentos fundamentais, a mãe não vacilou em enfrentar o pai, mesmo havendo o risco de perdê-lo em decorrência de tal ato. No início da relação, queria que a mãe parasse de trabalhar, pois podia sustentar a casa sozinho, e ela foi incisiva ao negar, “porque quando nos conhecemos você encontrou-me com filhos, se eu deixar de trabalhar quem vai sustentar os outros filhos que não são seus?”. A outra situação foi na briga pela guarda dos filhos.
Finalmente, Nzola mantém até hoje uma relação de afeto muito boa com o irmão mais novo, o seu melhor amigo, para além da avó materna.
2.3.6 Mayamba: “Quem compõe a minha vida a 100% na sua totalidade é a minha mãe”