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Camera RoBIOS Interface

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Bayer Pattern

2.9.4 Camera RoBIOS Interface

Não conta pela quantidade, mas pelo teor, o facto de haver aproveitamento de máximas nos textos em apreço. Os exemplos que colhemos, no entanto, parecem não corresponder rigorosamente ao que Aristóteles prescrevia ou não corresponder à totalidade dos conselhos retóricos que ele dava53. Recomendava ele que as máximas fossem a opção discursiva dos mais idosos, de preferência, pois não ficava bem que as pessoas novas, sem grande experiência de vida, opinassem e fizessem elações a partir de acontecimentos passados apenas com os outros. Além disso, ele também propôs uma distinção entre as máximas e os entimemas, para valorizar a concisão da primeira fórmula. Destacou o papel dos provérbios neste quesito, dizendo que eles às vezes assumiam a função de máximas. Por fim, sublinhou que não importa quantas vezes as

52 Charles BAUDELAIRE, Da essência do riso, 2001. 53 ARISTÓTELES, Retórica, 2005, p. 208.

máximas tenham sido repetidas nos discursos em geral. Se são boas, é correcto utilizá- las e o facto de terem muito uso quer mesmo dizer que têm boa aceitação.

O que se sucedeu nos textos aqui em apreço?

Todos, em geral, de autoria masculina ou feminina, aproveitaram a força retórica da máxima. Bondade das Mulheres vendicada e malicia dos Homens manifesta fez alusão a “aqueles ditados de Esopo” (p. 6). Abundam sobretudo as máximas sob a forma de provérbios. Malicia dos Homens contra a bondade das Mulheres reproduziu a expressão “cobrir o Sol com uma joeira” (p. 3). O Espelho critico, no qual claramente

se vem alguns defeitos das Mulheres referiu o axioma “Fogo, mar e mulher três males são” (p. 5). Devoção das mulheres da moda na Igreja, e o modo com que nunca ouvem

missa argumentou que “Quando o pão de rala tufa, que fará o pão alvo” (p. 1), implorou que “Água benta nos lave, Jesus Cristo nos salve” (p. 3), assegurou que “o boi solto lambe-se todo” (pp. 4-5), que “nem tanto ao mar, nem tanto à terra” (p. 5), que “filhas são pedaços da alma” (p. 6), que “o casamento e a mortalha do Céu se talha” (p. 7), que “se tiver de suceder, sempre há-de ser” (p. 7) e que “filho és, pai serás” (p. 8).

Não podemos asseverar que entre nossos autores, de que sabemos muito pouco, houvesse idosos. Mas é curioso que estes discursos satíricos ou apologéticos tenham utilizado máxima sem sinal de maturidade, não dos autores, mas dos seus raciocínios. A máxima remete para a segurança do que afirmam, tanto quanto para a antiguidade (cf. argumento ad vetustum) e logo empírica permanência da verdade que afirmam.

Realçamos também a separação a que procedeu M.D.M.C.D.M.A.E.C., autor de

Malicia dos Homens contra a bondade das Mulheres, deixando ficar de um lado a expressão “cobrir o Sol com uma joeira” e do outro o epílogo ou a explicação para ela, que é o fragmento “louvar as senhoras mulheres foi o seu intento e o meu intento agora será desfazer todos aqueles louvores e mostrar os males que causam e os bens que não motivam”. Está observada a concisão que Aristóteles recomendava, mas aqui ela se explicita num contexto irónico retoricamente consciente.

Chamamos atenção para o uso de ditados pelos autores em geral. Tanto para preparar uma resposta no contexto de uma polémica, quanto para fazer ficção em torno de um assunto polémico, o uso de ditados era visto como retoricamente eficaz. O eu lírico de Nova relação contra as Mulheres ou parvoices dos seus enfeites avisou-nos que estava a valer-se de um ditado (“Porém aquele ditado antigo”, p. 3). O de Devoção

das mulheres da moda na Igreja, e o modo com que nunca ouvem missa pôs os ditados nas falas do discurso directo, utilizando ligações do tipo “Sempre ouvir dizer” (p. 7) e

“como lá dizem” (p. 13), para verdades absolutas e impessoais, que validam o argumento dentro da espontaneidade e rapidez do discurso directo. O de Malicia dos

Homens contra a bondade das Mulheres – que mais nos interessa por ser de autoria feminina – centrou o princípio da sua contra-argumentação no ditado, demonstrando crença nesse tipo de estratégia discursiva.

Repensando a Retórica de Aristóteles, poderemos aqui falar de vulgarização e desgaste dos ditados empregues nos textos de nosso corpus? É bastante difícil, do ângulo de visão actual, aferir a frequência do uso deste ou daquele ditado, uma vez que é evidente que tal juízo não pode vir da experiência frente aos actuais falantes.

Em geral, utilizar provérbios denota apreço pela sabedoria – atitude que condiz com outras práticas discursivas dos textos em consideração, conforme nos recorda Alfredo Bosi54. E como é de nosso conhecimento, a sabedoria pode estar nessas fórmulas quase literárias, capazes de condensar longas histórias ao justapor elementos- chave, na medida em que nos transporta de volta à força das metáforas e das imagens concretas, libertando-nos da obsessão ocidental pela abstracção. Bosi também se pergunta retoricamente o que significam os adágios, senão “um gesto comunitário da fala?” (p. 4). Com a indagação, está a dar-nos mais uma pista para a recepção da estratégia das escritoras, sobretudo Paula da Graça e L.D.P.G.: se manejavam provérbios, ficavam mais próximas da comunidade, davam provas de pertença a uma sabedoria colectiva e com isso cativavam um número mais largo de leitoras. Estavam a promover identificação com um público habitualmente marginalizado que, se não tinha acesso à autoridade livresca, reconhecia facilmente a autoridade do provérbio, em todo o caso, comum no discurso oral.

Alfredo Bosi enumera, entre outras, quatro obras portuguesas de relevo para a confiável transcrição e manutenção dos provérbios da cultura portuguesa: Comédia

eufrósina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos, Feira de anexins, de D. Francisco Manuel de Melo, publicada dois séculos depois da morte do escritor português, Nova floresta e

Luz e calor, ambas do Pe. Manuel Bernardes. Provas de que o provérbio é maleável retoricamente e transita facilmente do discurso erudito para o discurso menos erudito e vice-versa.

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