O escritor José Carlos Oliveira ficou conhecido como cronista em um período de agitação política e cultural não só no Brasil como no mundo. Agitação política pois o Brasil vivia o regime militar (1964-1985), período tenso que levaria muitos dos artistas brasileiros ao exílio. Por outro lado, o escritor que ficou no país observa o aumento da pobreza nos grandes centros urbanos como o do Rio de Janeiro, o aumento da violência, dos assaltos que começavam a infligir medo à população. Observa também a miséria social, os excluídos, os meninos de rua. Em paralelo, havia a contracultura na década de 1970, a liberação sexual, o Cinema Novo, e um panorama que se transformava culturalmente. José Carlos Oliveira era também morador de Ipanema, no Rio de Janeiro, o bairro cosmopolita com maior concentração de artistas e intelectuais nesse período. Tudo isso o influenciaria na composição de seus romances, dentre eles: Um Novo Animal na Floresta, Terror e Êxtase e Domingo 22.
Durante as décadas de 1960 e 1970, ele ficaria muito conhecido por ser um cronista profícuo do caderno do Jornal do Brasil, mas também seria nacionalmente conhecido por ter interpretado o personagem Lauro Lemos, na novela global Assim na Terra como no Céu, de Dias Gomes, em 1971.
É a partir deste ano que registra a vida de maneira mais crua em seu diário que irá até 1986. Neste verdadeiro laboratório, vemos um extenso projeto literário de crônicas, reflexões sobre os romances e sobre o próprio fazer literário. Vemos também como questões subjetivas o influenciaram na composição artística, demarcando duas fases - a primeira quando boêmio e descrente em relação a Deus; e a segunda fase, quando se converte ao catolicismo na reta final da sua doença, a pancreatite, que o mataria em 1986. Está refletida nesse diário toda a sua inquietação existencial e como sujeito. É possível perceber que os acontecimentos autobiográficos estavam intrinsecamente ligados com a sua atividade de escritor, pois ele mesmo, os próprios amigos, conhecidos e familiares eram cobaias para a sua ficção. Algumas vezes o escritor confessa no diário – para o uso pessoal – a mecânica do ofício de escritor que se inspira no real para transformá-lo em ficção: “minha substância é de um escritor; quem quer que se aproxime de mim pode virar personagem” (OLIVEIRA, 2005, p.366). Ele registra no diário em 26 de março de 1977:
Os ambientes que conheço, tirante as reminiscências da infância (que configuram outro gênero de literatura), são os bares, as redações de jornal, os ambientes jovens e os lugares por onde circulam os grã-finos. O resto é abstração. Os ambientes de Sheakespeare eram os palácios e tavernas, e seus heróis os reis, rainhas, príncipes, bufões, etc. Na tragédia grega a mesma coisa. Em Machado temos os pequenos funcionários e agregados (OLIVEIRA, 2005, p.38).
Para ele, o escritor escreve sobre o que conhece, sobre o que vivencia. Isso sucedeu para todos os grandes escritores, por isso ele justifica sua escrita, incluindo a memória, ainda que para ele fosse outro gênero. Lejeune (2008) assim reflete acerca da constituição da escrita na elaboração de um texto ficcional:
por ser uma prática solitária, a escrita é dificilmente observável e não precisa explicitar suas operações. Daí a atmosfera de mistério que a cerca e o cuidado arqueológico que se tem para reconstituir as diferentes fases da produção de um texto, reunindo com devoção os vestígios que dela restam ou indo entrevistar os escritores para saber como trabalham (LEJEUNE, 2008, p.118).
O diário se torna importante campo de pesquisa para uma compreensão sobre como o escritor pensava sua própria literatura. Assim como elucida Lejeune, no diário, é possível acompanhar o escritor trabalhando, sua linha de pensamento e suas leituras habituais.
Em O Pacto Autobiográfico: de Rosseau à internet, ele afirma que o diário “é uma escrita quotidiana: uma série de vestígios datados” (LEJEUNE, 2008, p.259). Assim ele expõe a sua concepção deste gênero:
um diário serve sempre, no mínimo, para construir ou exercer a memória de seu autor (grupo ou indivíduo). Quanto ao conteúdo, depende de sua função: todos os aspectos da atividade humana podem dar origem a manter um diário. A forma, por fim, é livre. Asserção, narrativa, lirismo, tudo é possível, assim como todos os níveis de linguagem e de estilo, dependendo se o diarista escreve apenas para ajudar a memória, ou com intenção de seduzir outra pessoa (Lejeune, 2008, p. 261).
Foucault (1976) também teoriza sobre a escrita de si: “A escrita como exercício pessoal praticado por si e para si é uma arte de verdade contrastiva: ou mais precisamente, uma maneira refletida de combinar a autoridade tradicional da coisa já dita com a singularidade da verdade que nela se afirma e a particularidade das circunstâncias que determinam o seu uso” (FOUCAULT, 2009, p.176).
É um espaço de heroicização da vida cotidiana de sujeitos que sofrem negação. Ruy Castro (1999) afirma que José Carlos Oliveira era conhecido por Carlinhos Oliveira talvez pela sua baixa estatura e sua aparente fragilidade física. É possível também que o nome remonte à infantilidade do seu portador, pois, observa Ruy Castro, de certa forma, ele nunca havia deixado de ser um menino. Nos últimos anos de vida, porém:
ele lutou para expulsar o Carlinhos Oliveira que habitava em José Carlos Oliveira – contra quem praticou crueldades muito piores do que se acusava de ter praticado contra os outros. Nessa luta final pelo que julgava ser sua redenção, migrou de vez da “esquerda” para a “direita”; perdeu sua longa batalha contra Deus, converteu-se aos santos e anjos católicos; em busca da “pureza’, trocou efemeramente Ipanema por Vila Isabel e (definitivamente) uísque por chá e o Rio por Vitória. Mas então já era tarde para vencer a tremenda devastação física – ao morrer, aos 51 anos,
aparentava oitenta. Era um atormentado que fingia rir de si mesmo, e seu castigo era saber que José Carlos Oliveira nunca converteria em imortal literatura tudo a que Carlinhos Oliveira fazia jus (CASTRO, 1999, p.73).
José Carlos Oliveira ficou conhecido por Carlinhos Oliveira, porém, via isso como negativo, ele não se considerava frágil: “só me desrespeitam os que chegaram perto de mim e me acharam frágil e vulnerável: os eternos inferiores que não se sentem dignos de amizade profunda com um homem a quem julgam superior” (OLIVEIRA, 2005, p.357). Os amigos assim o chamavam, mas no diário ele considerava isso um modo de o diminuírem como artista e como sujeito:
Eles querem me rebaixar, recusam reconhecer a minha grandeza. Ora, é isso o que acontece. É essa a manifestação invariável do superego coletivo: o conceito que fazem de mim. Para lutar contra isso, no mundo real, seria preciso converter um por um à causa da minha decência, do meu valor literário e de minha grandeza de homem e escritor. Essa tarefa não se afigura possível, mesmo sabendo que a longo prazo vou ganhar a batalha, quando vier, e virá, o reconhecimento da posteridade (OLIVEIRA, 2005, p.315).
Quadros (1986) afirma que o artista elabora elementos vindos do exterior com os sentidos. Eles se dividem em três: as sensações, o que resulta em sensações e impressões alheias decorrentes do convívio social e o que resulta de impressões diretas, colhidas em livros, museus, laboratórios. Esses sentidos são limitados, uma vez que “os dados do exterior serão tanto mais completos e sugestivos quanto maior for a formação da inteligência pelas impressões colhidas no convívio social, ou pelas impressões colhidas em livros, museus, em laboratórios. A soma das primeiras impressões chamamos vulgarmente experiência, cultura à soma das segundas” (QUADROS, 1986, p.55).
Portanto, seria a junção das duas coisas, experiência e cultura, que forma o artista, o escritor. Podemos dizer que desses dois fatores surgirá, dentro do diário de José Carlos Oliveira, uma identidade ficcional. Transformando o diário em um gênero híbrido, pois o seu compromisso em narrar o real se confunde com o ficcional, aflorará um alter-ego do escritor ou em heterônimo como ele preferiu chamar - Frag Mendes. Ou seja, o espaço da confissão se faz ficção.