O esquema 11 outorga-nos enxegar que, no seio do campo pedagógico, há um conjunto de esferas e formações discursivas que o compõe – diretor, coordenador, professores [...]. Esse fato, ajudou-nos a delitimitar o lugar de atividade deste discurso à qual cena se remete. Uma cena enunciativa englobante de um diálogo institucionalizado e informal locado no campo pedagógico, na esfera discursiva da gestão escolar. Mas, porquê dizemos que a segunda cena enunciativa é institucionalizada e informal? Porque, se vale de termos peculiares a cena genérica acadêmica, e informal por trazer no seu bojo elementos discursivos da cibercultural. No entanto, não é apenas com este quadro cênico que nos confrontamos, mas com uma cenografia digital no primeiro momento.
Na primeira unidade de fala da segunda cena enunciativa, temos a interlocução da diretora administrativa Érica (figura 10), que responde à convocação de forma positiva, ao valer-se do recurso línguístico de um emoticon, a qual pressupõe o efeito de sentido “estarei presente na data e horário determinados.” O emotion utilizado remete a um ambiente de contexto informal, mesmo tratando de relações profissionais e que, dadas as circunstâncias, estabelecem uma relação de hierarquia entre os sujeitos. A mensagem, no entanto, é entendida e aceita pelo seu coenunciador (Diretor), ao passo que emudece a sua interlocução.
Um outro aspecto a ser destacado nessa interlocução da diretora Érika e que se remete a cenografia digital, é o espaço de tempo entre a convocação e sua interlocução. Pois, a convocação ocorre às 12h15, e sua resposta às 12h16. Com efeito, retomamos aqui a ideia de sincronia e instantaneidade apontada nos capítulos anteriores. A simultaneidade que ocorre este evento comunicativo, expõe materialmente, as propriedades exclusivas deste novo espaço social, ao passo que depreende-nos uma cenografia digital. Essa, constituída pelo uso do emoji, do efeito sincrônico e instantâneo da interlocução, como também, da desteritorialização do evento comunicativo, por ocorrer no ciberespaço.
No entanto, temos na progressão desta interlocução uma quebra de expectativa quanto a uma convocação institucional. Tanto a Orientadora Educacional (OE), quanto a coordenadora de curso de segurança do trabalho (CST), nas unidades de fala dois e quatro, têm dificuldades de comparecerem à reunião, em razão de estarem em lugares e horários diferentes da convocação emitida. Não obstante a isso, o diretor retoma as unidades de fala dois e quatro reapresentando a urgência da reunião “precisamos fazer essa reunião”. Por um lado, a OE especificamente retoma a unidade de fala, mostrando-se flexível para adequar-se às necessidades da Escola, uma vez que, segundo ela, irá verificar a possibilidade de trocar o
horário na outra unidade escolar. Por outro, a CST mostra-se inflexível, não abrindo possibilidade para consultar a outra unidade escolar. A cenografia institucional se constitui não apenas em elementos administrativos, mas também de embates, discussões, de convergências e divergências.
O grupo no todo participa (in)diretamente da discussão, embora não se manifeste explicitamente alguns membros estando em “silêncio” durante o evento enunciativo. Digo em silêncio, pois o senso comum aponta que o fazer e o ouvir se permeiam somente da presença de som oriundo da enunciação em palavras, mas o silêncio neste mote é discursivo. Isto é, o silêncio dos demais integrantes do grupo de gestão (de 10 participantes apenas 2 participam da interlocução), aparentemente fundante, é descrito por Orlandi (1997, p.13) como “a ‘respiração’ (o fôlego) da significação; um lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido”.Segundo a autora, “há um modo de estar em silêncio que corresponde a um modo de estar no silêncio e, de certa maneira, as próprias palavras transpiram silêncio. Há silêncio nas palavras;” (ORLANDI, 1997, p. 11). “Assim, quando dizemos que há silêncio nas palavras, estamos dizendo que: elas são atravessadas de silêncio; elas produzem silêncio; o silêncio fala por elas; elas silenciam” (ORLANDI, 1997, p. 14). O silêncio é a garantia de que haverá movimento de sentidos, segundo a autora. Ele não é apenas complemento de linguagem, ele tem significância própria e possui caráter necessário pois o silêncio representa as possibilidades de se significar. Nesse sentido, o “silêncio” dos integrantes no grupo aponta para um elemento de construção do ethos discursivo institucional, pois há uma relação de poder e hierarquia. Ou seja, o silêncio dos sujeitos abre a perspectiva de – vou me silenciar no sentido de concordar, quanto para discordar para não criar um embate com quem falou. Assim, fazendo ecoar uma voz ideologicamente sinalizada pela autocracia e de apagamento dos sujeitos.
Nesta cena enunciativa (figura 10), temos três formas responsivas “sim”, “talvez” e “não”, “de afirmações”, “possibilidades” e “negações,”. Nelas há uma cenografia de embate institucional, ou seja, “o estar”, ou “não estar” é fruto de comporem não apenas o quadro de colaboradores da ETEC Anhanguera, mas de outras unidades de ensino, que de igual modo, necessitam dos seus colaboradores no que tange ao atendimento de suas demandas no mesmo dia e horário da convocação. Por conseguinte, além da cenografia digital, há a tensão profissional entre diretor e CST, como também, o pressuposto de um embate institucional.
4.1.3 – Cena enunciativa III
Na cena enunciativa seguinte, na figura 11, temos 8 posts do diretor e uma interlocução da OE. A primeira unidade de fala retoma o uso dos emojis. Neste é usada uma carinha com boca aberta suando frio, que, segundo o site emoticons e seus significados33, tem o sentido de “estou chocado!”, ou/e “carinha amedrontada com suor escorrendo da testa” ou/e “está preocupada”. O suor do emoji e a boca entreaberta descrevem um sujeito tomado pelo estresse emocional.” Como podemos observar na figura a seguir:
Figura 11 – Terceira parte do corpus: 9 posts
Fonte: Elaborado pelo autor da pesquisa, 2019.
Nesta cena (figura 11), permanece a objetividade das sentenças, mas agora acrescida do não verbal, promovendo efeitos de sentido aos coenunciadores. Há de se perceber a presença do iconotexto, como aponta Maingueneau (2015), ou seja, o WhatsApp, nessa cena acaba promovendo uma reflexão sobre a própria concepção de texto – iconotexto.
33C, Smile MB Strategies. Emoticon significado. Disponível em: https://www.emoticonsignificado.com.br/lista-
Os emojis são signos de imagem digital, também chamados de iconotextos, utilizados com frequência em chats, para expressar múltiplos sentimentos; são uma forma alternativa de interação comunicativa descomplicada, informal e lúdica. Os emojis se remetem a valores com traços de sentidos específicos e expressam elementos de uma afetividade universal, como indica a figura usada pelo sujeito Reginaldo (Diretor) ao expressar o “cansaço" em relação à tentativa de marcar uma reunião com o grupo, sem ter êxito, no primeiro momento, em relação à participação de todos.
A imagem sempre foi importante para a comunicação humana. Ducrot e Todorov (1998, p. 237) afirmam que “em sentido lato, escrita é qualquer sistema semiótico visual e espacial; em sentido restrito, é um sistema gráfico de notação da linguagem”. Em relação ao sentido lato, os autores, ao explicarem o significado de mitografia, destacam a importância da pictografia – desenhos figurativos – para a comunicação: mitografia é um sistema em que anotação gráfica se refere à linguagem (verbal), mas forma uma relação simbólica independente. A parte mais importante da mitografia é formada pela pictografia, isto é, desenhos figurativos, utilizados com uma função de comunicação.
Retomando o corpus, percebemos a importância que a imagem ganha também, no processo comunicacional no âmbito digital, ratificando a ideia de que vivemos em uma civilização da imagem e, como o smartfone se vale de resursos visuais, os emojis – por simular na imagem a expressão humana – são considerados signos de imagem digital. Os emojis são signos representativos da afetividade humana e a dois tipos de representação, uma “oficial” e a outra “real”, na qual seus enunciadores atribuem aos emojis outros significados; isto se dá pela limitação de emoji que representam uma realidade social, bem como pelo pouco domínio dos significados dos seus coenunciadores.
A imagem apresentada na primeira unidade de fala da figura 11, por exemplo, o emoji inaugura uma nova convocação, selada pelo estresse gerado pelas cenas anteriores, passando a construir uma cena englobante híbrida formada por um diálogo informal, estabelecida pelo discurso no ciberespaço, mas formal, por se tratar de uma cena corporativa, evidenciado pelo uso do pronome de tratamento “Prezados” e pelo termo administrativo “reunião” citado por duas vezes nesta 2ª convocação. Esta mesma cena sugere uma cena genérica de convocação, porém traz um elemento novo em contraste com a primeira CW e a CI: o emoji. A seguir, apresentamos um esquema a fim de obtermos um panorama desse fenômeno: