2.4 D´ etermination des param` etres g´ eom´ etriques de la bobine PCB
2.4.3 Calcul de la capacit´ e parasite ´ equivalente
Eu vinha investigando o termo formação contínua no âmbito de minhas experiências e referências e como decorrência natural senti que precisava desdobrá-lo por meio de novos sentidos, significados e relações elaboradas pelos educadores. A necessidade de saber como eles entendiam esse termo para projetar relações com as experiências do projeto educativo do MCSP levou-me a propor a questão “O que é formação contínua para você?” no roteiro do primeiro grupo focal com RSB e CBB.
Na análise do material desse grupo percebi que as colocações dessas duas educadoras situaram como formação contínua as relações entre momentos diferentes de seus percursos como estudantes e profissionais, e ambas localizaram a experiência vivenciada no projeto nesses percursos. RSB estabeleceu inicialmente relação entre a sua formação acadêmica na área de História com a sua entrada no projeto, sendo este momento compreendido como oportunidade de extensão do que havia estudado na faculdade e como espaço para reciclar, atualizar e adaptar à prática seus estudos e conhecimentos. Aproximo esta ideia de RSB das minhas primeiras experiências como educadora nas exposições de Arte, também percebidas como extensão dos conhecimentos aprendidos na graduação. CBB considerava que havia entrado no projeto sem experiência anterior por compreendê-lo inicialmente no âmbito da história e não da área de sua formação acadêmica, a Arte. Segundo seu entendimento, por ser formada numa área diferente da que o projeto abrangia, a experiência inicial como educadora folguista40 apresentou-se como oportunidade para uma preparação gradual, já que as unidades do MCSP onde ela atuou inicialmente recebiam poucos visitantes nos finais de semana, possibilitando mais tempo para “estudar, aprender, crescer dentro dessa experiência” e depois “assumir com mais segurança” seu papel como educadora fixa 41 na Capela do Morumbi.
Seja a vivência no projeto compreendida como extensão de uma experiência anterior ou preparação para situações futuras, ambas situam relações de continuidade nos
40
Educador(a) folguista: termo usual utilizado para os educadores com contratos apenas para os finais de semana, para substituírem outros em folga. O termo técnico usado no contrato de trabalho é horista.
41 Educador(a) fixo(a): termo usual utilizado para designar educadores selecionados e contratados para atuar
numa única e determinada unidade, com transferências de local de trabalho previstas legalmente mas evitadas pela contratante. O caso de CBB é exemplo de contratos que sofreram alteração de horista para mensalista, termo técnico para este perfil de contratação..
percursos de formação, nos aproximando da ideia de Dewey (2010) do principio de continuidade da experiência como aquilo que levamos de uma situação a outra, nestes casos, possibilitando expansão. No desenrolar da conversa, após terem lembrado e compartilhado as experiências que consideraram formadoras no projeto, pedi que retomassem a ideia de formação contínua. RSB reforçou aspectos que já havia colocado ao longo da conversa e que reconheço também na minha formação continuada nos projetos no CCBB: de que para ela a formação contínua no projeto ocorria em função das constantes trocas de experiências com outros educadores e com o público, qualificando todo o projeto “como uma ação continuada” por considerar que desde seu início houve aprendizado:
Na verdade, o projeto em si é uma ação continuada, desde o início todas as pessoas que passaram por você, que de certa forma te ensinaram coisas novas, um tema sobre arte ou sobre história... ou sobre mediação. Temas estudados, trazidos nas conversas, nas trocas que existiam nas reuniões, entre você e sua dupla42 [...] de repente você tava lendo um livro e tinha uma interpretação sobre aquilo e a outra pessoa lia também e enxergava outra coisa que você não tinha visto. Isso é muito importante na formação contínua porque... nada é feito sozinho né... precisamos de pessoas para concretizar coisas. Nada é único, sozinho. Tem que ter troca com outras pessoas para fazer você aprender, refletir... (Educador RSB. Registro verbal, arquivo da autora).
Na reflexão de RSB a ideia de expansão – de novos e diferentes temas, interpretações, pontos de vista e reflexões – possibilita agregar à ideia de continuidade um novo sentido, o de crescimento CBB comparou a experiência de formação contínua que o projeto proporcionou com outra situação profissional onde primeiro “teve um treinamento e depois a aplicação do trabalho, como se eu já tivesse formada, qualificada”, diz ela, “e isso era inquestionável, ou eu era competente ou não”. Ao se depararem com o novo e o diferente, o projeto do MCSP ofereceu as educadoras a possibilidade de perceberem-se como seres em formação, em crescimento, no sentido atribuído por Dewey (2010) de que as escolhas e respostas do sujeito ao ambiente e suas condições conduzem ao crescimento, pois, contribuem para a construção de experiências significativas, em nosso caso, de formação.
Na passagem do primeiro para o segundo grupo, talvez por considerar que a primeira conversa havia oferecido boas reflexões, arrisquei sintetizar a questão “O que é formação contínua para você?” para “O que é formação para você?”. Esse tipo de procedimento é comum como educadores quando operamos algumas alterações entre uma aula e outra, uma visita e outra, mas, como pesquisadora, talvez eu devesse ter sido mais rigorosa e mantido uma única questão. Dessa forma, o terceiro grupo recebeu a mesma questão do segundo, porém não a respondeu no início, mas como síntese, fechamento,
42
conclusão da conversa no final da dinâmica. Obviamente, para o segundo grupo a questão trouxe outro sentido, o de abertura da roda de conversa favorecendo um foco do grupo sobre o tema no início da dinâmica e no seu desenrolar.
A ideia de continuidade que o primeiro grupo estabeleceu em relação a momentos mais específicos de seus percursos de formação também foi colocada pelo segundo grupo, porém, no decorrer da conversa, a ideia de formação passou a considerar percursos mais extensos, como o da própria vida assim como a ultrapassar as situações de formação formalizadas na universidade ou no trabalho, como podemos acompanhar em trechos da conversa:
KCS: O que é formação? Formação é uma coisa muito ampla, é uma pergunta difícil de responder!
ACB: Falar de formação é complicado, mas falando de mim, formação é dar continuidade, é não ficar estacionado.
LAT: Formação, como ACB falou, é um processo contínuo... com o tempo a gente tende a ficar um pouco estagnado, sempre (atendendo) o mesmo grupo, a mesma faixa etária, então a formação vem para trazer outros olhares, fazer ver as coisas de outro modo.
ALG: A ideia de formação para mim é mais ampla, começa desde que a gente nasce. Cada experiência que a gente tem vai formando a gente, desde a família, as amizades, até os filmes que você assiste, as peças que você vê, as pessoas com que você conversa, o público que você recebe, tudo que você estuda ou deixa de estudar, se aprofundar, faz parte da sua formação... então... ela não para nunca, até a morte, você nunca vai parar de se formar [...] é um poço sem fundo, você esta com um diploma e quer outro diploma, mas ele significa apenas uma pequena parcela, você continua...e vai encontrar pessoas que você admira que vão te influenciar, e então a tua ideia muda, e as coisas vão mudando e transformando, suas ideias vão mudando com o tempo. Você não é uma coisa fechada, sempre vai buscar coisas novas.
PCS: Formação é um conjunto de tudo o que os colegas falaram e me vem a ideia de crescimento. Parece que depois que você termina a faculdade é que você começa a estudar, começa a querer se formar, a olhar para si, a dizer: agora é isso. Começa a precisar tomar decisões [...]. Toda parcela de vida é formação para a gente que lida com pessoas, a forma de se relacionar com as pessoas, de aprender a conversar...
MPL: Para mim formação foi a oportunidade de conhecer melhor o bairro43 que vem se transformando muito [...]. Tive uma formação que foi um marco, na faculdade, quando comecei a licenciatura, depois de certo embasamento teórico sobre como fazer visita num museu, pude começar a desenvolver na prática, fazer roteiros, visitas, “pegar” o tempo do grupo que é mais importante do que o teu tempo, saber como o grupo está reagindo ao que você está falando, tentar absorver aquilo que o grupo está dizendo, para poder devolver. Mas é lógico que a visita só com embasamento teórico não vale nada. Às vezes ela é muito mais uma coisa de vida, dos lugares que você andou, viajou, os filmes que você assistiu, às vezes ela não esta
43
Bairro do Tatuapé, zona Leste da cidade de São Paulo onde está localizada a Casa do Tatuapé, unidade do MCSP onde MPL atuou como educador.
diretamente relacionada a isso, mas isso te ajuda, pode ser fundamental, e isso é formação, é pra sempre, quanto mais vive vê que não sabe nada... (Registro verbal, arquivo da autora).
Sendo assim, dizer o que é formação gera dúvida, parece ser algo amplo ou complicado demais. Mas podemos dizer que formação não é algo que nos estaciona, aquilo que proporciona movimento, novidade. Seu começo é quando a gente nasce, percorre a família, as amizades, a cultura e chega até a morte. É um “poço sem fundo” de desejos por mais diplomas, por coisas e ideias novas que nos influenciam e transformam. É olhar para si, é tomar decisões, é poder dizer “eu sei”. É estabelecer sentidos entre aquilo que estudamos e aquilo que fazemos. E é olhar o outro. É possibilidade de reagir, absorver, devolver na relação com o outro. Formação é considerar todo o nosso repertório de vida, sim, mas, é também dizer: “quanto mais vive vê que não sabe nada...”
Nos grupos 1 e 2 a formação acadêmica é uma referência significativa, por exemplo, RSB e MPL estabelecem relações claras de complementaridade entre ela e as experiências no trabalho. Mas, a ambigüidade entre a ideia mais expandida de formação como processo de viver e aquela circunscrita ou formalizada na universidade causam angustias, devaneios, questionamentos e busca por novas respostas por meio de analogias, no trecho a seguir onde também situo minha interferência como mediadora:
KCS: A palavra formação vem de “dar forma” e não “enformar”, vem de ver o mundo de outro jeito [...]. Por trás vem a ideia de academia, de texto, de leitura assim como de tudo aquilo que você não leu. Ao mesmo tempo formação pode ser tudo, tem uma relatividade nisso, então poderia ser vida, mas até a morte, é angustiante, essa coisa da formação, da continuidade... Viver já é continuidade, independente de você ir para a universidade ou não! Até o menino que mora na rua também esta se formando, alguma coisa ele esta aprendendo!
Mediadora: Qual seria a diferença entre se formar e viver?
ALG: A formação engloba tudo [...]. Acho que quando a gente fala em formação acadêmica, é como se a gente colocasse um sobrenome em nossa formação [...]. A gente também tem a formação da rua, dos lugares onde a gente vive, da nossa cultura, desde pequenos, é como se ela fosse aquele brinquedo que não tem forma, uma forma que se molda e vai mudando, como uma escultura, a gente tem uma ideia de uma forma e quando começa a fazer, vai fazendo de outra forma[...]. Nunca estamos satisfeitos, quando achamos que terminamos, percebemos que não estamos terminados, como uma escultura para o artista, por mais que os outros achem que aquele trabalho esta terminado, você sabe que ainda precisa mudar, tirar, refazer, fazer de uma forma diferente, depende de você.
PCS: É como o processo de escrever e pesquisar [...]. Você acha que esta num caminho, mas ele vai se transformando [...]. Aí você tem que publicar aquele texto, mas sabe que não está pronto, você vai passá-lo pra frente, mas sabe que não está terminado [...]. Formação e vida estão muito interligadas [...]. Parece que dizer “me formei” ou “sou formado em tal coisa”
não significa nada, dá um vazio, pois é um processo de transformação (Registro verbal, arquivo da autora).
2XWUDDQDORJLDSLVFLQDYD]LD&DVD0RGHUQLVWD Nessas narrativas a formação situa-se como busca e realização, como necessidade de preencher um vazio, ou seja, daquilo que parece ser ou estar incompleto, inacabado, insatisfeito. Neste sentido, inspirada por Dewey (2010) posso imaginar a formação como um processo constante e até mesmo incansável por estes educadores, pois vital, como busca por equilíbrio entre situações de expansão, preenchimentos e crescimentos com as de contratação, como as que nos remetem as sensações de vazio e incompletude.
Na visão do grupo em comentários mais difusos e breves, a formação vai além da formação acadêmica, considerada como mais erudita. A sensação ainda presente de que a ideia de formação é ambígua, pois ampla e infinita, até mesmo inalcançável ao mesmo tempo em que pode estar circunscrita no tempo e no espaço em situações mais singulares, impulsiona-me a intervir com a questão “e a formação no projeto?”, instigando-os a delimitar a ideia de formação no âmbito do projeto como coloca ACB:
Minha formação no projeto começou quando eu decidi enviar meu currículo para trabalhar no MCSP, então, a partir daí, eu já estava me permitindo, me desarmando. Eu trabalhava em arte contemporânea, lógico que tem relação, mas quando entrei no projeto, fui querendo conhecer, sem estar armado, me dediquei à pesquisa sobre a história, arregacei as mangas. E os encontros mensais, foram fundamentais pra trocar (Registro verbal, arquivo da autora).
Compreendo no relato de ACB que a sua formação se inicia quando ele toma uma decisão, a de experimentar uma nova situação, um trabalho diferente, numa cidade diferente. ACB é natural de Minas Gerais (BH) onde havia atuado como educador no Instituto Inhotim44, um complexo museológico de arte contemporânea. O início daquilo que considera sua formação no projeto é possível de ser demarcado e antecipado pelo desejo e abertura para aprender, nos acometendo a ideia de Dewey (2010) de que ao por em prática suas intenções e escolhas o sujeito limita o ambiente em que esta atuando, tornando-se mais sensível e responsivo a ele, favorecendo situações que o levem ao crescimento.
A formação individual parece completar-se na relação com o outro, seja com as “pessoas que você admira que vão te influenciar” como diz ALG anteriormente, seja com o grupo de estudantes que participam de uma visita no museu, seja nas relações com os colegas de trabalho nos encontros de formação do projeto, nos espaços de trocas. Na convivência diária com o outro, com os seus pares de profissão, percebo que os aprendizados dos educadores ocorrem gradual e sensivelmente no espaço da intimidade e da cumplicidade, como uma zona de segurança, mas não de acomodação ou estagnação que impediriam o crescimento (DEWEY, 2010), como nos relatos conclusivos de TGAC e AKR, do terceiro grupo analisado:
TGAC: Para mim foi importante na Casa Modernista o fato de que estava na licenciatura e fazia relações diretas [...] e de ter trabalhado com três educadores, cada um de uma área diferente. Aprendi com eles. Com uma sobre pesquisa, com outro, da área de História, que queria falar sobre tudo, sobre toda a casa (risos) fomos conversando sobre rever o tempo, os assuntos [...]. De final de semana, quando ficava sozinha45, era horrível! No começo eu não gostava de falar, mas com o tempo fui aprendendo a entrar nas discussões com os meus colegas [...]. E os momentos de estudo também são importantes, acho que é inter, multidisciplinar tanto nos temas como nas maneiras de aprender.
AKR: O que mais marcou, e a gente debateu sobre tudo isso, mas o que eu aprendi mais, o que mais contribuiu na minha formação foi não ter trabalhado com alguém de História [...]. Não ia me acrescentar, eu ia me pegar toda hora ou me acomodar. Não ia me ver na obrigação de pensar em outro modo de ver, não teria tantos tentáculos na minha forma de me comunicar com as pessoas, eu tinha um único caminho e hoje, na forma como sou, tenho mais formas, mais pausadas de falar, mais relaxada, de ouvir mais os outros, algo que me faltava como educadora antes. Se o projeto é multidisciplinar, você tem a sua base, mas você não fica preso... (Registro verbal, arquivo da autora)
Nesses relatos é positiva a convivência com colegas formados em outras áreas: TGAC era estudante de Artes e havia atuado com um educador formado em História, AKR estudava História e havia atuado com um educador formado em Música no MTM e com
44
Para consultar sobre o Instituto, acessar o endereço eletrônico: http://www.inhotim.org.br/
45
Em algumas unidades de menor índice de visitação aos finais de semana e em determinados períodos do contrato com o MCSP, apenas um educador atuava na unidade enquanto o outro cumpria folga.
educadores formados em Artes Visuais na Capela do Morumbi. O aspecto multidisciplinar do projeto percebido por elas oferece a possibilidade de aprender com o diferente, o diverso, o amplo ao mesmo tempo em que as singulariza no âmbito de suas referências e saberes. Assim, se a formação é construída na relação com os outros, em processo de partilha e socialização de saberes nas experiências cotidianas, ela também é lugar da alteridade vivenciada e conquistada no percurso de uma vida, como podemos ilustrar com a reflexão seguinte a partir de relato de uma história de infância, de APA:
Incomoda-me a ideia de formação como forma, fôrma, algo que te molda. Se você fizer um esforço, vai se lembrar de outros momentos que te formaram que não necessariamente estão na escola, na academia. Há muitos momentos que te formam, quando você chega à academia, você já está formado [...], a sua visão de mundo nasceu em processos outros, na família e em outros contextos e com a forma como você se relacionou com tudo isso, por exemplo, com a experiência de escrever na escola.
Na 1ª serie, a professora Ruth colocou um texto na lousa para todos os alunos copiarem: “Copa do Mundo de 94”. Pelo titulo eu não percebi que era meu mas, quando ela começou a ler, percebi que era meu texto. Fiquei nervoso, azul, não acreditava! Ai ela colocou o nome do autor: AA e disse que o texto era de um colega dos alunos. Aquele momento foi preponderante para mim. Toda vez que eu assino algo autoral, um poema, eu assino AA. Naquele momento ela me deu uma identidade. Por isso penso que a formação tem continuidade, então, acho que por isso o educador tem um papel fundamental, e, ao contrário, pode acabar também com estes momentos, matar algo que poderia ser bonito. Acredito na ideia de formação que altera, mais na infância, na idade adulta é mais difícil, já estamos cheios de mapas. (Registro verbal, arquivo da autora
Com essa história, APA demarca um momento significativo em sua formação por ter proporcionado-lhe a descoberta e percepção de si como autor. Ao mesmo tempo, sua história e reflexão também indicam a sua compreensão da infância como tempo e território férteis de possibilidades, aprendizados, descobertas e modificações e, ao situar-se como educador, dá a compreender o modo como percebe o outro e o seu papel em relação à formação do outro.
O sentido mais profundo das relações com os outros na formação dos educadores, mais especificamente com o público nos processos de mediação, é assunto da categoria que analisaremos a seguir.