Concretamente, e em relação ao verbo cheirar, classifiquei como ocorrências de perceção sensorial quer as estruturas transitivas (ocorrências do verbo orientado para o sujeito) quer as estruturas intransitivas (orientado para o objeto) que se referem ao uso do sentido do olfato (ou do nariz), como por exemplo:
(52) Quando pára, ao pé das mulheres e crianças que vendem gasolina em garrafões à beira da estrada, cheira sempre e leva um pouco do líquido à boca, para provar, antes de o deitar no depósito. (P950719-054)42
(53) A gente cheira cola não no pensamento de roubar; a gente cheira porque gosta: eu gosto de abusar. (P940207-078)
(54) a. O lixo cheira mal, já se sabe, e quando está em decomposição cheira ainda pior. (P951104-077)
b. Apesar de haver lugar, acabamos por viajar de pé, pois o assento está molhado e a napa cheira a podre. (P941102-099)
Classifiquei como ocorrências de perceção cognitiva as estruturas transitivas e intransitivas que, não se referindo ao sentido do olfato, fazem uso do verbo para validar intuição ou conhecimento, como:
(55) Mas quando um dos dois, ali perto da grande área, cheira a possibilidade do golo, o Brasil volta a ser o Brasil. (P940714-012)
(56) a. O assunto já cheira mal. (P951114-010)
b. Porque é que estas coisas cheiram a esturro? (P940515-085)
Quanto ao verbo saber, classifiquei como ocorrências de perceção sensorial as que se referem estritamente ao sentido do paladar, como:
42 O código P950719-054 refere-se ao número do documento, que identifica o texto no corpus CHAVE.
(57) a. Para nós, comida sem picante não sabe a nada, explica Mateus. (P951118- 133)
b. Os que têm possibilidade compram água engarrafada, os outros vão experimentando a água da torneira, porque a dos depósitos sabe mal e é morna, o que faz recear um surto patogénico. (P940814-040)
Classifiquei como ocorrências de perceção cognitiva as que codificam uma avaliação qualitativa, não dependente da perceção gustativa, e as que enquadram um raciocínio inferencial:
(58) a. Na era da normalização, sabe bem ouvir uma orquestra que não soa como as outras. (P951224-006)
b. Sabe-me muito mal o que se está a passar no São Carlos e a crise não é nada boa para a imagem do Teatro no meio artístico internacional. (P950810-001) c. É verdade que conquistámos a democracia política e nos libertámos de uma guerra injusta e sem saída, mas isto, que já foi muito, sabe a pouco para aquilo que sonhámos. (P950606-103)
(59) a. Em Madredeus, a generalidade da música sabe a já conhecido; o ouvinte é convidado a reconhecer e é esta, na minha opinião, a maior virtude de Madredeus: viver na fronteira entre o bonito e o banal sem nunca cair definitivamente para aqui; fazer aquelas músicas acompanhadas à guitarra e à viola seria entregá-las ao fado pouco inspirado. (P951205-129)
b. Nos Mundiais de Estugarda (14 a 22/8) Manuela Machado obtém uma medalha de prata que sabe a ouro na maratona: 2h30m54s. (P940104-012)
As ocorrências do primeiro grupo de exemplos são parafraseáveis por construções com o verbo ser, respetivamente, “é agradável”, “é(-me) desagradável” (ou “desagrada-me”) e “é insuficiente”, enquanto as do segundo grupo poderiam fazer uso do verbo parecer.
Para efeitos da análise aqui levada a cabo, serão considerados apenas os casos que enquadram um raciocínio inferencial, como em (59), visto que a avaliação qualitativa, tipificada em (58), não codifica uma distância do sujeito enunciador em relação aos enunciados produzidos.
Quanto ao verbo soar, classifiquei como ocorrências de perceção sensorial as que se referem estritamente à perceção ou à produção de estímulos auditivos, como:
(60) a. De repente, soam tiros. (P950718-169)
b. Soam as bandas de música nas nossas praças por determinação do director de corrida, perdendo-se assim o sabor e a espontaneidade de tocarem a pedido do público e por decisão do maestro, como é norma em Espanha. (P941023-067)
(61) Se, porém, outros Estados mais sabidamente dados a fraudes não soam o alarme, o caso do Estado do Rio serve para realçar a necessidade de que os métodos de votação e apuração sejam objeto, desde já, de revisão completa. (FSP941012-013)
O tipo de ocorrências como o ilustrado em (61) só foi encontrado na Folha de São Paulo e sempre com valor metafórico. Apesar do valor metafórico, classifiquei-as com as ocorrências de perceção sensorial, porque o seu sentido literal envolve produção de um som a ser percebido por outros e não a perceção mesma desse som. Note-se que “soam tiros” é parafraseável por “ouvem-se tiros”, enquanto “soam as bandas de música” e “outros Estados não soam o alarme” são parafraseáveis por construções com o verbo tocar: “tocam as bandas de música (por determinação do director de corrida)” e “outros Estados não tocam o alarme”.
Classifiquei como ocorrências de perceção cognitiva as que codificam uma avaliação qualitativa, não dependente da perceção auditiva (62), e as que enquadram um raciocínio inferencial (63):
(62) a. A tese soa bem aos ouvidos da diplomacia portuguesa, que só tem a ganhar com um maior envolvimento da ONU na questão de Timor. (P941116-159) b. A qualidade não se consegue através de palavras bonitas, que soam bem a
quem as diz e mal a quem sabe não corresponderem à realidade. (P941205- 067)
(63) a. A sua indecisão, a propósito dos horários dos hipermercados, soa a falso, talvez a oportunismo. (P950528-076)
b. Soa assim estranho que, este ano, Portugal se tivesse deixado dominar por uma histeria nunca vista [n]o que a tal assunto respeita. (P941014-004)
A análise do corpus revelou o verbo soar como um verbo semanticamente mais complexo que os anteriores. Com os verbos cheirar e saber, é relativamente clara a distinção entre ocorrências de perceção sensorial e de perceção cognitiva, devido,
“o guisado cheira a esturro” e “esta história cheira a esturro”, ou entre “a água da torneira sabe mal” e “essa explicação sabe mal”. Já o verbo soar admite uma grande variedade de objetos de perceção, que podem ser do domínio cognitivo (como em “o dinamismo do ministro soa a falso”), do domínio musical (como em “a música soa bem ao ouvido”, ou “o seu primeiro disco soa por vezes bastante nostálgico”), mas também do domínio verbal, casos em que a avaliação pode incidir sobre o significante (64) ou sobre o significado (65):
(64) a. Eventually deve ser eventualmente, até soa de uma maneira parecida. (P951101-102)
b. P. – Mas porquê este título, que nem sequer tem muito que ver com a letra? R. – É só porque são palavras que soam bem. (P950224-151)
(65) a. A palavra que soa mais adequada foi proferida em Nova Iorque por Richard Dicker, responsável da associação Human Rights Watch/Asia: (…) (P951122-041)
b. A frase soa a fatalismo, mas já a ouvimos utilizada em momentos de contentamento bem longe do triste fado de um resultado adverso. (P951205- 014)
Assim, considerei como ocorrências de perceção cognitiva apenas os casos em que o objeto de perceção não tem realização sonora, ou, no caso de objetos verbais, as ocorrências em que a avaliação incide sobre o significado.
A tabela 8 sintetiza os tipos e a quantidade de ocorrências consideradas para análise.
Verbo Aceção Folha de S. Paulo Público Total / verbo
cheirar
“Dar indícios, parecer” (I) 35 148
188
“Intuir” (T) 2 3
saber “Dar indícios, parecer” (I) 0 15 15
soar “Parecer” (I) 262 139 401
Total / variante 299 305 604
Pode constatar-se a preferência pelo verbo soar, por parte da Folha de São Paulo, enquanto o Público usa, com peso semelhante, cheirar e soar, sendo pouco relevante a utilização de saber.
Outra constatação fundamental é que todas as ocorrências surgem em texto de opinião (maioritariamente) e cartas dos leitores. Aparentemente, o carácter metafórico destas construções e o facto de apresentarem conhecimento baseado em indícios tornam-nas pouco compatíveis com texto informativo.