As sociedades mudam, mudam os sujeitos, as relações, as aprendizagens. Ardoino (1969) questiona se o que muda é o mundo, ou a nossa visão dele, pois ambos mudam, pela acção de um sobre o outro em simultâneo.
As instabilidades, os problemas são impulsionadoras de mudança. Como refere Fullan (2003:13) se as sociedades estivessem “estagnadas”, se nada acontecesse, o que impulsionaria a mudança? Que evolução esperar? O autor reforça, ainda, que “ a transformação jamais seria possível sem a inevitável e necessária confusão”. (idem)
Por vezes não é fácil levarmos a cabo processos de mudança. Como profissionais, por exemplo, até que ponto conseguimos alcançar processos de mudança, sob os constrangimentos da instituição onde vamos desenvolver a nossa prática? A instituição/organização, pensamos nós, talvez não mude, mas nós, o nosso olhar enquanto profissionais muda com certeza. Nós sofremos processos de mudança, seja por
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acção do contexto onde nos encontramos, seja pelos casos que vamos tendo em mãos e nos quais temos que intervir. Agora, que a nossa mudança pode influenciar a mudança dos outros não me restam dúvidas. Desta forma, a própria instituição pode repensar as suas práticas.
Segundo Michel Crozier (1882), as capacidades colectivas são imprescindíveis para falarmos de mudança. Este autor prossegue, afirmando, que muitas das mudanças ocorrem, sem que sejamos nós os responsáveis por elas. Contudo, também operam em nós mudança, pelo simples facto de nos relacionarmos com os outros, realçando-se, assim, a capacidade dos sujeitos para se adaptarem às novas situações.
A mudança é um processo bastante complexo. Centremo-nos agora em dois aspectos. Primeiro, que nós indivíduos somos seres dotados de valores, crenças, regras, aspectos enraizados em nós e que não são fáceis de alterar. Isto é, o que em nós está instituído, torna-se de tal forma presente e delimitador que a mudança insurge-se como um ruído a afastar. Segundo, temos o instituinte que exerce em nós uma influência para a mudança, tentando muitas vezes a negação do instituído. Se na acção, a influência do instituinte for grande, de facto pode dar-se a construção de novas normas, de novas relações e práticas sociais, podendo falar-se, quando o instituinte passa a instituído, que se deu uma alteração do sujeito. Este facto coloca instituído e instituinte numa relação mais horizontal e de proximidade.
A questão da mudança que deve partir do próprio sujeito e que deve ser desejada conduz-nos a algumas controvérsias. O que fazer quando a mudança se apresenta como imprescindível, mas o sujeito não tem predisposição para ela? Como incitar a mudança? Como criar todas as condições para que ela ocorra? Será através do envolvimento dos participantes, da partilha de objectivos e de metas, de procedimentos, da criação de relações de confiança e do desempenho responsável por parte do técnico? Pode ser, mas este processo não é tão pacífico e linear.
Se no debruçarmos, novamente, no contexto em que realizei o meu estágio, percebemos que a questão da mudança, conduz-nos a uma contradição. Muitas das famílias de crianças e jovens em risco mostram-se resistentes ao processo de mudança que pretendemos levar a cabo. O agir na urgência e emergência, como na maioria dos processos, não coincide com uma mudança desejada. Quando a mudança pretendida pela entidade está de acordo e parece ser desejada e partilhada pela família, ou pelas próprias crianças e jovens, o processo torna-se mais fácil e, aí falamos de uma mudança
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significativa. Por vezes, a mudança é reconhecida como algo necessário. Desta forma, a família aceita-a, mesmo que não a deseje e que não partilhe do seu significado e sentido. Contudo, participam nesta.
Quando a mudança não é partilhada e não é reconhecida como necessária, o processo torna-se algo muito mais difícil, sendo um obstáculo para a intervenção do profissional. Contudo, o profissional deve ver este obstáculo como um desafio. Inicialmente, terá que se proceder à mudança como uma imposição, não sendo visto aqui o impor, como uma contradição ao processo de mudança, mas antes como condição necessária para que se possa falar de mudança. Apesar do processo de mudança dentro de uma CPCJ ter, numa primeira fase, de ser imposto para, pelo menos ser tido em conta e conhecido pelo sujeito-utente, a mudança, com o decorrer da acção, vai parecendo sugerida. À medida que envolvemos os actores e que estes vão participando na mudança, mesmo que tenha sido uma mudança de fora para dentro e imposta, esta pode tornar-se uma recriação da mudança. Por outras palavras, os sujeitos começam a estabelecer relações de ganhos e perdas, fazem cedências em prol de alguns benefícios. Há, desta forma, uma mudança recriada entre instituído e instituinte. Não será esta uma forma também partilhada de mudança, mesmo que o seu começo tenha sido segundo uma lógica da imposição? Ardoino (1969) considera que a intervenção, para conduzir à mudança, tem de se realizar com o outro e não sobre o outro. Mas, primeiro não teremos de agir sobre o outro, para lhe darmos a conhecer a nossa intervenção e para que ele se depara com o processo de mudança? Por vezes, rejeitamos a mudança sem a conhecermos, só pela carga que uma mudança parece aportar. Sem conhecermos as dinâmicas que ela implica, sem conhecermos os seus efeitos e até melhorias, não será sensato ignorá-la e rejeitá-la. Mas, como é óbvio, falo segundo os exemplos que fui presenciando na intervenção do meu contexto de estágio. Num outro contexto, a mudança poderá ser encarada de outra forma, seguindo por caminhos e lógicas diferentes. Mas essa é a riqueza da diversidade de interpretações, de posturas e práticas que diferentes contextos nos proporcionam.
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