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33 Cadres administratifs et techniques de la fonction publique

O bordado que trago nestas linhas, a combinação dos fios que lhes dou a ver, é um modo de manejar as agulhas, um modo de olhar para as interlocuções produzidas no contexto da pesquisa. Digo isso porque outros bordados, outros modos são possíveis, olhares outros!

Somos tecelãs de nossas histórias. Fios e agulhas, escola e crianças, professoras e espaço da pesquisa, professora/pesquisadora. Eram elas – professoras iniciantes – tecendo os primeiros pontos no processo de ensino e aprendizagem. E era eu, manejando as agulhas nos primeiros pontos do ser pesquisadora.

Resistir: a pesquisa se configurou em um espaço de conversa, de escuta, de resistência. O que nos ajudou a resistir? O coletivo. O espaço que se construiu.

A cada encontro, com cada uma das professoras, no entremeio da realidade do cotidiano escolar, da professora iniciante e de tantos anseios, incertezas e inseguranças, muitas vezes o desejo de desistir da docência, a parceria se mostrou o fio de esperança para recuperar sonhos e ideias, para manter vivo o desejo de transformar a vida de cada criança através do acesso às práticas de leitura e escrita. Elas diziam das dificuldades emergentes do cotidiano escolar: controlar a turma, planejar as aulas, lidar com a heterogeneidade das crianças em sala de aula, relacionar-se com seus pares, com os gestores e com os pais de seus alunos. Eu, testemunhando o emaranhado de sentimentos materializados nas interlocuções, tateava réplicas que contribuíssem para o ajuste dos pontos.

Meu grande desafio foi analisar cada enunciado, identificar as necessidades das professoras e propor para estudo textos que de alguma forma provocassem a professora em constituição, oportunizando a elaboração dos momentos vividos com os alunos e no espaço de conversa construído na pesquisa. Esse movimento exigiu muito estudo e esforço da professora/pesquisadora. Perdi as contas das vezes que recorri à minha orientadora pedindo ajuda para “olhar”. Olhar para planejar e eleger a composição de fios que conduziriam nossas conversas.

O bordado pode? Pode! E o que me encanta é a possibilidade de retomar o bordado, desfazer e refazê-lo quantas vezes necessário for.

Fomos bordando juntas e construindo nossos motivos no tecido. Elas me diziam de suas práticas, de seus cotidianos com as crianças, de suas (in)certezas

sobre o processo de alfabetização: “posso ensinar?”, “posso contar?”, “posso mostrar?”, o fio do construtivismo se fez presente em nossos bordados, ele estava posto no cesto. E assim, entre os pontos, alguns nós se formaram. Eu conduzia para a desconstrução dos nós, para desmanchar o bordado, eleger novos fios e construir motivos outros. Outros enredos foram possíveis para compor nossa história.

Entre linhas, crianças, agulhas, escola, professoras iniciantes e professora pesquisadora, os nós foram sendo desfeitos, compreendidos, e depois dos fios soltos, avistamos um horizonte para o livre traçar, para manobrar as agulhas na construção dos enredos possíveis a cada realidade, a cada turma, fomos construindo uma maneira própria e singular de bordar(se).

O avesso tem? Sempre haverá o avesso! O avesso não nos deixa acomodar. Precisamos sempre estar atentos ao avesso, o avesso nos mobiliza e, mobilizadas, reconstruímos o bordado. Outros fios passaram a ser enunciados, “deu muito certo”, “foi diferente”, “essa forma de abordar”, a alfabetização como processo discursivo, fios que, dados a ver, ficaram nos enredos, e se configuraram em modos outros de olhar e pensar o processo de apropriação de leitura escrita, o cotidiano escolar.

Outra história há? O que registro nestas páginas é apenas um lado das muitas histórias que fomos tecendo e entretecendo no contexto da pesquisa, é a história contada pela professora/pesquisadora. Mas poderia ser a história contada por Caroline, Helen, Marcelina, Isabel, Adriana, Bruna, Ana e Eliane ou então por seus alunos, digamos umas 200 crianças! Ou até mesmo pelas 200 famílias que ouviram as narrativas da aula em acontecimento pelas vozes das crianças.

Em síntese, compreender as inquietações das professoras iniciantes possibilitou trazer para o espaço de conversa construído na pesquisa leituras que nos levaram a refletir sobre as práticas de ensino mobilizadas no cotidiano escolar. As interlocuções produzidas nesse contexto evidenciaram o processo de afetamento e transformação a partir da reflexão acerca da própria experiência, o que também se configurou como formação continuada.

Nos primeiros encontros, as angústias e incertezas foram dadas a ver no movimento dialógico e, uma vez elaboradas, deram espaço à discussão sobre perspectivas assumidas para olhar a prática de alfabetização. A perspectiva construtivista mostrou-se hegemônica e, no movimento de conversa e escuta – um processo de formação continuada –, outro modo de se conceber a alfabetização passou a ser considerado e passou a fazer parte do discurso das professoras –

indiciando alterações em suas práticas –: a alfabetização como um processo discursivo.

Certa vez, ouvi de um colega durante uma aula, já no mestrado: “Mas pra que serve essa pesquisa?”. Estávamos a ler trabalhos acadêmicos para conhecer o gênero, que não era familiar a todos os colegas do programa de mestrado profissional; muitos haviam se distanciado da vida acadêmica. Ele não se referia à minha pesquisa, mas me fez pensar sobre ela!

Hoje, tentando amarrar os fios para finalizar este texto/bordado, me ocorre que a pesquisa desenvolvida por mim junto a essas professoras serviu para nos transFORMAR no movimento vivo da pesquisa. Serviu para pensar as práticas de alfabetização, para mobilizar muitas outras a partir dos nossos estudos e conversas. Serviu para apurar olhares para as individualidades: o meu para cada professora que se colocava em minha presença, o das professoras para mim e para cada aluno que foi sendo marcado pelas práticas mobilizadas e ainda pela reverberação do trabalho escolar nas famílias de cada aluno. Serve ainda para tantos outros professores iniciantes que se identifiquem com nossas histórias, ou ainda professoras experientes, para rememorar que todos nós iniciamos um dia, ou reiniciamos a cada dia!

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