Quando nos confrontamos com textos místicos, quase que temos a impressão de que o tempo tem uma outra unidade de medida, que o tempo se deixa moldar à interioridade do místico, submetendo-se à sua necessidade.
O tempo é, por excelência, a Noite. A Noite é nada, é nudez, é o despir de tudo o que é valioso, é o deixar vestir-se pelo amado, é morte em vida, é tempo do amante e do amado – Noite um para o outro – na teodiceia do amor, na geogra- fia e antropologia do amor, como encontramos no discurso são-joanino (CB 39; N 1). O caminho para o encontro com o Absoluto realiza-se na Noite escura, sendo esta “a terrível experiência do abismo do nada” (Leitão, 1991, p. 38).
A noite condensa, em si, todo o sofrimento, todo o gozo, todo o ver e esconder tudo o que tem de ser:
É a totalidade da contemplação amorosa, vista do lado da finitude do ser criado. É o feixe de renúncias e exigências, é a condição do deixar tudo e de se deixar inteiramente a si mesmo. Para a amada e o amado, é a ânsia e o gozo de se encon- trar sem se ver. É a pura verdade e a total nudez do ser humano, reclamadas e dadas de graça pela perfeita união de amor. A noite é “guia”, ela prepara a união. Mais ainda, ela é o próprio laço que realiza a união, ela junta o ‘amado com a amada’ (Josaphat, 1998, p. 346). É o tempo da transformação da amada:
Ó noite que guiaste!
Ó noite amável mais do que a alvorada! Ó noite que juntaste
Amado com Amada,
Amada no Amado transformada! (S. João da Cruz, in P 5, 5, p. 70)
A noite é o tempo de transformação da alma em Deus. Esse tempo que não é contabilizado no tempo cronológico. Não se chama segundo, nem minuto, nem hora, como não é assinalável no calendário. Mas é o tempo da alma, o momento do paradoxo de Bion: um clarão de intensa escuridão, como refere Pereira (1994, p. 232), elucidando:
É ao mesmo tempo um processo analítico: iluminar com trevas, de tal modo que todo o objeto mental se torne visível: todo o objeto mental mais próximo de O – já
que os outros objetos, saturados de saber, são visíveis, mesmo ao lado do Sol – todos são falsos. Com efeito, o que caracteriza um objeto bizarro, ou um processo alucina- tório é, precisamente, a hipervisibilidade. A hipervisibilidade da falsa noite.
Santa Teresa, no livro Caminho de Perfeição, di-lo desta forma:
É grande mercê a quem o Senhor a faz, porque estão juntas vida activa e con- templativa. (…) Eu sei de uma pessoa a quem o Senhor punha assim muitas vezes e não sabia entender-se a si mesma. (…) Assim penso: pois a alma está tão satisfeita nesta oração de quietude, que a potência da vontade deve estar quase de contínuo unida Àquele que somente a pode satisfazer. (…) Parece-me que será bom dar aqui alguns avisos. (…) O primeiro é que, como se vêem naquele contento e não sabem como lhes veio, vêem pelo menos, que por si mesmas não o podem alcançar, dá-lhes esta tentação de lhes parecer que poderão retê-lo e assim até nem mesmo respirar quereriam. E é tolice, pois assim como não pode- mos fazer com que amanheça, tão pouco podemos que deixe de anoitecer. (Santa Teresa, CP 31, 5-6)
A noite não tem outro significado que a privação. A privação do apetite é noite para a alma. É o negar e expelir de si o gosto de todas as coisas, é o vazio de tudo (1S 3, 1-2). E, este vazio “é a face mais visível da Noite. É a sua primeira exigência” (Josaphat, 1998, p. 343).
A noite também se deseja. Nela impera o silêncio, a escuta, o vazio e o distanciamento dos outros e do tudo exterior, o clamar pelo Outro, a espe- rança de um amplexo amoroso:
Ninguém consegue chegar a este bem (refere-se às mercês de Deus quando visita a alma) senão através da desnudez interior, purificação e refúgio espiritual de todas as criaturas, isto é, às escuras … É ocultada e escondida que a alma… se vai confirmando na união com Deus. Por amor.
(S. João da Cruz, 2N 23, 12)
A noite é, portanto, a via para alcançar a união, segundo o Doutor Mís- tico. O apofatismo noturno joanino comporta dois momentos sucessivos: a noite do sentido, seguindo-se a parte da noite do espírito (1S 1, 2; 2S 12, 1).
Para Ibn Arabi, as ascensões dos profetas acontecem sempre à noite, pois a noite é o momento do mistério e do ocultamento, é o momento mais amado pelos amantes, pois é quando eles se unem, é o momento da reclusão com o amado.
A noite acontece, porque há excesso de luz que se faz cegante para a capacidade limitada da mente humana. Ela é passiva por ser padecida e ativa na gestação de uma nova vida. Por isso, a noite é um tempo e não tempo, o momento que é instante e eternidade, simplesmente a “hora” do eu, capaz de comunicar o transformado e não a transformação.
A metamorfose escondida na noite – enquanto mudança de forma e estrutura, crescimento e desenvolvimento de todo o pensamento do místico – atingirá o seu estado adulto na União Mística e na comunicação dessa expe- riência:
Amigos! Aproximai-vos do inacessível, Em Nagd, no cimo do monte!
Procurai água fora do acampamento
E permanecei na sombra perplexos e apaziguados! Chegados ao vale predestinado,
Onde o meu coração montou a sua tenda
Da minha parte, transmiti a minha afectuosa saudação Aos que aí pernoitam ou passam!
Escutai o que respondem
Antes de dizer que periga o meu coração Por tanto se lamentar dos seus desejos de amor, Proclamando, sabendo, questionando!
(Ibn Arabi, in Le Chant de l’ardent désir, 17, p. 45)
Na Noite experimenta-se a plenitude mística do desejo, no sentido levi- nasiano da obra Totalidade e Infinito. O desejo que nos empurra num movi- mento para o Outro. Ao contrário das necessidades, o desejo, sofrido na noite, não se satisfaz, pois o seu querer está mais além de tudo aquilo que pode satisfazer a alma mística. O Desejado não acalma o desejo, mas agudiza-o, aprofunda-o (Lévinas, 1983). Este é o drama da profundidade da escuridão da noite mística, o que leva à consciência de que “a verdadeira vida está ausente”, na expressão levinasiana (p. 21). Assim, podemos dizer que, para o místico, a ausência do desejo do Outro seria o raiar da aurora do não-sentido, da não- existência, a vigília da morte da alma, ausência de destino. O desejo que vem da presença do Outro, “é desejo num ser feliz … é a infelicidade do feliz, uma necessidade luxuosa” (Lévinas, 1983, p. 50).
Para os sufis, a viagem noturna irradia os sinais de Deus que por Ele foram impressos na alma. É o tempo do encontro do conhecimento e do amor, expe- rimentado na relação amorosa entre o Amado e a Amada, como tão claramente expressam os místicos sufis e cristãos. A noite é o tempo da ausência e da cer- teza da luz. No Livro Sagrado do Islão, o místico encontra todo o sentido da noite, quando lê:
Em nome de Alah, Beneficente e Misericordioso Glorificado seja Ele que levou o Seu servo De noite,
Do Lugar Inviolável da oração (Meca) Ao mui distante Lugar da Oração (Jerusalém)
Cujas cercanias Nós abençoámos,
Para que pudéssemos mostrar-lhe as nossas maravilhas! Oh! Ele, somente Ele, é o que escuta e o que vê! (Corão, XVII)
E esta experiência é fundamentalmente experiência de relação. Experiên- cia de relação, porquanto é a hora da amada que, descalça e nua, caminha para o Amado. O amanhecer será o experimentar do toque entre os amantes, na União Mística. Não se poderá nunca perguntar quanto tempo é este, apenas se pode afirmar, na ausência da pergunta mística, este é o tempo – a noite mística.