O estudo dos estilos de vida saudáveis na adolescência tem-se tornado um foco importante na área da investigação (Wang, Ou, Chen, & Duan, 2009), tendo ganho proeminência, na passada década de 80, altura em que, a perceção de que os comportamentos de risco adotados durante a adolescência têm origem comportamental, se tornou mais relevante (Igra & Irwin, 1996).
Comportamentos de risco englobam os comportamentos potencialmente prejudiciais à saúde como o consumo de substâncias, comportamentos sexuais de risco, condução perigosa, comportamentos suicidas e homicidas, distúrbios do comportamento alimentar e delinquência, entre outros, e que detêm o potencial de gerar consequências negativas. Conhecer o construto que envolve os comportamentos de risco permite a utilização mais parcimoniosa de intervenções focadas em grupos de comportamentos e adolescentes, em detrimento de intervenções gerais (Igra & Irwin, 1996).
Os comportamentos adolescentes são fenómenos complexos e multidimensionais, influenciados por fatores importantes (Spear & Kulbok, 2001). Os comportamentos de risco adotam diferentes funções e significados nos vários estadios de desenvolvimento da adolescência e adotam geralmente uma trajetória desenvolvimental, aumentando a sua frequência com a idade, ao longo da adolescência, e, são comportamentos que se direcionam para áreas previsíveis, prevendo-se determinados comportamentos, tendo em conta, os já adotados pelos adolescentes. Para além disso, são comportamentos que partilham antecedentes psicológicos, ambientais e biológicos semelhantes (Igra & Irwin, 1996).
Existem fatores ou ações protetoras que facilitam os resultados positivos, ou que reduzem ou evitam os resultados negativos na presença de fatores de risco, fatores estes que se agrupam em dois domínios: individual (autoestima, autoeficácia, regulação emocional) e ambiental (oportunidades positivas providenciadas pelos
adultos na família, escola e comunidade alargada). Os fatores protetores individuais apresentam-se como mais importantes do que os ambientais na prevenção de comportamentos de risco (Wang, Hsu, Lin, Cheng, & Lee, 2009).
Um estudo visando compreender quais os fatores de risco e os fatores protetores dos comportamentos de risco dos adolescentes, realizado em Taiwan, com uma amostra de 878 adolescentes de ambos os sexos e com idades compreendidas entre os 11 e os 15 anos, permitiu concluir que a relação entre a estrutura familiar (famílias monoparentais ou biparentais) e os comportamentos de risco é influenciada pela interação conjunta de outros fatores protetores e de risco. O stresse diário, os comportamentos de risco adotados pela figura materna e, os comportamentos de risco realizados pelos pares explicam de forma significativa os comportamentos de risco nesta faixa etária (Wang, Hsu, Lin, Cheng, & Lee, 2009). Resultados empíricos sugerem que os comportamentos de risco adotados pelos pares se relacionam e predizem os comportamentos de risco adotados pelos próprios adolescentes, explicando uma variância significativa dos mesmos (Prinstein, Boergers, & Spirito, 2001). Os adolescentes mais novos respondem de forma diferente à pressão dos pares em relação aos adolescentes mais velhos, sendo que a idade, por isso, também determina o comportamento dos mesmos (Spear & Kulbok, 2001).
Os adolescentes identificam-se com os pares fora do grupo familiar, sendo que, as características desenvolvimentais da adolescência levam-nos a ser influenciados nos seus comportamentos pelos comportamentos de risco dos pares. Esta influência parece ser moderada pelas competências de regulação emocional. Os adolescentes enfrentam, usualmente, a pressão da necessidade de se identificarem com os comportamentos de risco dos pares e, adolescentes com uma adequada regulação emocional, poderão lidar com o stresse de forma mais adequada, sendo menos afetados pelos comportamentos de risco dos pares. Também a autoeficácia em saúde se encontra diretamente relacionada com a moderação dos efeitos negativos dos comportamentos de risco dos pares nos seus próprios comportamentos de risco (Wang, Hsu, Lin, Cheng, & Lee, 2009).
Wang, Ou, Chen, & Duan (2009) afirmam ainda que os adolescentes que vivem em casa dos pais, nomeadamente, estudantes do ensino secundário, apresentam maior responsabilidade pela saúde, uma vez que são chamados à atenção pelos pais que lhes recordam da necessidade de determinados comportamentos saudáveis. Após a ida para a universidade, estes jovens, caso optem por estudar fora e viver com colegas da mesma idade, terão mais dificuldade em responsabilizar-se e cumprir determinados comportamentos saudáveis, diminuindo a sua responsabilização. Nesta fase surgem geralmente maiores níveis de stresse associados à necessidade de tomar decisões de forma independente, de promover o seu crescimento e de estabelecer relações interpessoais saudáveis. Todas estas condicionantes levam a que os jovens, nesta fase, considerem que têm mais dificuldades ou, uma frequência menor de comportamentos saudáveis, no que respeita ao suporte social, apreciar a vida e gestão de stresse. Um estilo de vida sedentário é um problema sério e comum entre adolescentes a frequentar o ensino superior. Comparando com os indivíduos na idade adulta, a pressão provocada pelo trabalho e exigência de resultados é muito superior nos jovens estudantes do ensino superior, o que leva a que muito do seu tempo e energia sejam despendidos no estudo. Por outro lado, a popularização da internet e computadores leva a que existam escolhas de entretenimento que reduzem o interesse no exercício físico. Também os padrões alimentares nos adolescentes, a frequentar o ensino universitário, são particularmente preocupantes. Esta população frequentemente substitui refeições por fast food e snacks, havendo também alguma propensão a não comer a determinadas refeições, como o pequeno-almoço.
Um estudo realizado por Chen M.-Y. , Wang, Yang, & Liou (2003), autores da AHP
Scale, realizado com uma amostra de 1128 indivíduos, representativa dos
adolescentes tailandeses permitiu concluir que os adolescentes apresentam bons níveis de comportamentos promotores de saúde. A amostra apresentou uma média de 129 pontos e uma mediana de 130, tendo as respostas oscilado de 51 a 176 pontos.
Com vista a examinar a realização de comportamentos promotores de saúde, tendo em conta a realização de exercício físico, Ince & Ebem (2009) realizaram um estudo utilizando uma amostra de 358 adolescentes turcos, de ambos os sexos, que se
encontravam na fase de transição do ensino secundário para a universidade, utilizando a AHP Scale. Independentemente da quantidade de exercício praticado pelos jovens, os valores mais baixos foram obtidos na subescala exercício, e os valores mais elevados, obtidos na subescala apreciar a vida. Os adolescentes que praticavam menos exercício físico apresentaram valores mais baixos em todas as subescalas e comportamentos promotores de saúde.
Chen, Wang, & Chang (2006) utilizaram a AHP Scale para avaliar a prática de comportamentos saudáveis, relacionando-a com o índice de massa corporal e a perceção de saúde dos jovens. A amostra englobava dois grupos de adolescentes de ambos os sexos, que frequentavam o ensino do 7º ao 11º ano de escolaridade. Um dos grupos, com 258 elementos era constituído por jovens sem excesso de peso, e o segundo grupo era constituído por 301 jovens com excesso de peso. Os autores concluíram que, os adolescentes que revelaram pontuações mais elevadas em todas as subescalas da AHP Scale, bem como, no valor total da mesma, classificavam-se como saudáveis ou, com um bom status de saúde, utilizando estes adolescentes o seguro de saúde, de forma menos frequente. O grupo de adolescentes com excesso de peso, apresentou uma frequência de comportamentos saudáveis inferior à frequência do grupo de adolescentes sem excesso de peso, em todas as subescalas, exceto na subescala nutrição.
Um estudo realizado na Turquia, utilizando uma amostra de 1351 adolescentes, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 11 e os 19 anos, permitiu concluir que existem diferenças estatisticamente significativas em relação ao sexo e idade no que respeita à frequência de comportamentos saudáveis. As raparigas apresentaram valores mais elevados de comportamentos promotores de saúde (total da AHP Scale) que os rapazes. O grupo de adolescentes com idades entre os 11 e 14 anos apresentou também valores mais elevados de comportamentos promotores de saúde (total da AHP Scale) que o grupo de adolescentes com idade compreendida entre os 15 e 19 anos (Ortabag, Ozdemir, Bakir, & Tosun, 2011). Na China, aplicou-se a AHP Scale a 407 estudantes universitários, com idade entre os 16 e os 25 anos (média de idade de 21), de ambos os sexos, residentes em áreas rurais e urbanas. A amostra foi dividida em dois grupos de acordo com o número de anos a frequentar o ensino superior, sendo um dos grupos com
estudantes com até 2 anos de frequência e o outro grupo com estudantes com 3 a 5 anos de frequência de ensino superior. Os valores mais elevados foram observados nas subescalas de apreciar a vida, suporte social e gestão de stresse. Responsabilidade pela saúde e exercício físico foram as subescalas que obtiveram pontuação menor. O sexo feminino apresenta valores mais elevados de comportamento promotores de saúde (total da escala) do que o sexo masculino, sendo estas diferenças estatisticamente significativas, bem como, nas subescalas nutrição, suporte social e gestão de stresse. Na subescala exercício físico, o sexo masculino apresentou valores mais elevados. Os adolescentes pertencentes ao grupo que frequenta o ensino superior há menos tempo, apresentaram resultados mais favoráveis nas subescalas apreciar a vida e exercício físico, mas resultados mais baixos na subescala nutrição, sendo estas diferenças estatisticamente significativas. Não foi encontrada qualquer relação entre os comportamentos promotores de saúde e a residência no meio urbano ou rural (Wang, Ou, Chen, & Duan, 2009).
Em Portugal, o estudo Health Behaviour in School-Aged Children (HBSC) 2010 foi o maior e mais recente estudo de comportamentos de saúde e estilos de vida dos adolescentes. Foi recolhida uma amostra estratificada por regiões, compreendendo um total de 5050 adolescentes de ambos os sexos, a frequentar o 6º, 8º e 10º anos de escolaridade e com 11, 13 e 15 anos de idade. Foram avaliados, para além de outros parâmetros os hábitos dos adolescentes relacionados com a alimentação, sono, higiene, imagem corporal, prática de exercício físico, atividade de tempos livres, uso de substâncias, violência, relações de amizade, ambiente familiar, ambiente escolar, bem-estar, comportamentos sexuais e estratégias pessoais e interpessoais (Matos, et al., 2012).
Em relação aos hábitos alimentares, os adolescentes referem na sua maioria tomar o pequeno-almoço todos os dias durante a semana (80,4%) e ao fim de semana (81,6%), sendo que os rapazes referem fazê-lo mais do que as raparigas durante a semana, e os jovens mais novos (6º ano) afirmam também fazê-lo mais do que
os mais velhos (os do 10º ano são os que afirmam tomar menos vezes o pequeno-almoço). Em relação ao consumo de frutas e vegetais, 41,6% refere que
semana. 26,8% afirma comer vegetais pelo menos uma vez por dia e 61,4% diz fazê-lo pelo menos uma vez por semana, sendo os rapazes que dizem consumir frutas e legumes pelo menos uma vez por semana, mais do que as raparigas e os mais jovens que mais afirmam consumir legumes e vegetais pelo menos uma vez por dia. Respeitante ao consumo de doces e refrigerantes, 17,5% refere consumir doces e 23,1% afirma beber refrigerantes pelo menos uma vez por dia, enquanto 66,6% afirma comer doces e 52,8% diz beber refrigerantes pelo menos uma vez por semana. São os rapazes que referem, mais frequentemente, beber refrigerantes, pelo menos uma vez, por semana. Aqui são os jovens mais velhos que afirmam consumir mais doces e refrigerantes (Matos, et al., 2012).
Mais de metade dos jovens portugueses inquiridos (67,4%) refere que lavam os dentes mais do que uma vez por dia, 28,4% afirma lavar os dentes pelo menos uma vez por dia, 3,1% pelo menos uma vez por semana e 1,2% diz que nunca lava os dentes. As raparigas e os jovens mais velhos são os que mais referem lavar os dentes mais do que uma vez por dia. Em relação às horas de sono, 38,6% refere que dorme menos de 8 horas por dia durante a semana, baixando este valor para 21,3% no fim de semana. 26,0% afirma dormir mais de 8 horas diárias durante a semana, valor que aumenta para 66,6%, no fim de semana. Os rapazes referem que, ao fim de semana, dormem menos de 8 horas, enquanto as raparigas afirmam dormir mais de 8 horas com maior frequência do que o sexo oposto. Os mais jovens afirmam com maior frequência dormir mais de 8 horas durante a semana e fim de semana, enquanto os mais velhos referem mais dormir menos de 8 horas durante a semana e mais de 8 horas durante o fim de semana (Matos, et al., 2012).
Calculado o índice de massa corporal (IMC), 66,7% dos adolescentes inquiridos apresentava um IMC normal, 14,8% apresentava um IMC abaixo do normal (magreza) e 15,0% acima do normal (excesso de peso), sendo que 3,4% eram já considerados obesos. O excesso de peso aumentou ligeira mas significativamente desde 2006. Os rapazes apresentavam maior índice de excesso de peso do que as raparigas, e os adolescentes mais velhos apresentavam com maior frequência um IMC normal em relação aos mais novos. As raparigas utilizam mais estratégias saudáveis para controlar o peso do que os rapazes, sendo os adolescentes de idade intermédias (8º ano de escolaridade) que mais utilizam estratégias de
controlo do peso, saudáveis e não saudáveis. 46,9% dos jovens considera ter um aspeto normal e 45,5% diz ter um aspeto bom ou muito bom, sendo os rapazes e os jovens de menor idade os que mais consideram ter um aspeto bom ou muito bom. 49,1% considera ter um corpo ideal, e mais uma vez, os rapazes e os adolescentes mais jovens afirmam-no com mais frequência. Já os adolescentes mais velhos são os que se consideram mais gordos. 78,6% afirma não estar a fazer dieta, embora 22,6% desses digam que deveriam perder peso. As raparigas e os jovens mais velhos são os que mais frequentemente referem estar a fazer dieta. Os rapazes apresentam uma perceção mais positiva da sua imagem corporal quando comparados com as raparigas (Matos, et al., 2012).
No mesmo estudo foi questionada a prática de atividade física dos adolescentes. A maioria (48,2%) afirma praticar atividade física três ou mais vezes por semana, e 13,3% refere fazê-lo diariamente, valor que se mantém estacionário desde 2002, sendo os rapazes os adolescentes mais jovens os que mais praticam exercício físico. Em relação à prática de exercício físico fora do horário escolar, 27,1% afirma fazê-lo cerca de uma hora por semana, sendo os rapazes e os adolescentes mais velhos que praticam mais horas por semana em comparação com as raparigas e com os jovens mais novos. Os padrões de exercício físico têm-se mantido desde 2002, excetuando em 2006, em que os jovens referiram realizar mais atividade física de uma forma geral (Matos, et al., 2012).
Analisando as relações familiares e de pares, 78,0% considera ter facilidade em conversar com a mãe e apenas 55,0% com o pai, enquanto 37,5% refere ter dificuldade em falar com o pai e 19% com a mãe. Os rapazes afirmam ser fácil falar com o pai, enquanto as raparigas dizem ter dificuldades em dialogar com este. Os jovens mais novos são os que têm menos dificuldade em falar com ambos os pais. Os rapazes e os adolescentes mais novos são os que afirmam ter uma melhor relação com a família. Respeitante às relações entre pares, 97,0% considera ter dois ou mais amigos. 79,1% tem facilidade em falar com amigos do mesmo género e 56,7% com amigos do sexo oposto, sendo as raparigas que mais afirmam ter facilidade em falar com outras raparigas, mas dificuldade em falar com os rapazes sobre temas que as preocupam. Os adolescentes mais velhos são os que falam
com mais facilidade sobre o que os preocupa com os amigos de ambos os sexos (Matos, et al., 2012).
Questionados sobre a perceção que têm acerca da sua saúde, a maioria afirma que esta é boa (53,2%), 33,9% afirma que é excelente, sendo os rapazes e os jovens mais novos os que o afirmam mais. Os adolescentes portugueses estão bastante satisfeitos com a vida (7,45 numa escala de 0 a 10), sendo os rapazes e os adolescentes mais jovens os que estão mais satisfeitos. 84,2% diz sentir-se feliz, à semelhança dos resultados em 2006, e mais uma vez, os que mais o afirmam são os rapazes e os jovens mais novos (Matos, et al., 2012).
2.2. IMPORTÂNCIA DA LITERACIA EM SAÚDE NA PROMOÇÃO DE