Ao problematizar e discutir sobre as crianças e suas infâncias na atualidade tem sido indispensável considerar as configurações culturais sob as quais vivemos hoje. Diante desse cenário, os Estudos Culturais em Educação se apresentam como uma alternativa para buscar compreender, na sociedade contemporânea, as relações entre a cultura midiática e as culturas infantis.
Surgem como uma linha de estudos e pesquisas, em 1964, no Centro de Estudos Culturais Contemporâneos, na Universidade de Birmingham na Inglaterra, no contexto histórico Pós Segunda Guerra Mundial, provocando uma série de transformações no modo de se compreender a cultura.
As bases teórico-metodológicas dos Estudos Culturais estão fundamentadas nas produções teóricas de Richard Hoggart – em sua obra Uses of literacy, Raymond Willians – em seu livro Culture and society e E. P. Thompson – em seu volume The making of the English working class. (SILVA, 1999).
Constituem-se como um campo de pesquisa e de estudo bastante amplo, abarcando uma multiplicidade de objetos de estudo, metodologias e teorias e revolucionado a compreensão de cultura, já que por meio dos Estudos Culturais a cultura é compreendida para além das manifestações eruditas, abrangendo os modos de viver e as experiências e práticas que estão presentes nas sociedades, incluindo as manifestações da cultura popular. (SILVA, 1999). Corroborando com essa ideia nos esclarecem Costa, Silveira e Sommer (2003, p.1) “Cultura deixa, gradativamente, de ser domínio exclusivo da erudição, da tradição literária e artística, de padrões estéticos elitizados e passa a contemplar, também, o gosto das multidões. ”
Stuart Hall, um dos mais relevantes integrantes da escola de Birmingham destaca o papel da centralidade das discussões culturais, especialmente a partir da segunda metade do século XX. Para este autor (1997) as profundas alterações culturais que estão sendo vivenciadas não podem ser explicadas tendo como base apenas as relações econômicas.
Nesse contexto, Hall (1997) tem se ocupado em analisar a cultura tal como se dá hoje, afetada pelo comércio de produtos culturais vem crescendo, especialmente, após a Segunda Guerra Mundial. Conforme o autor (HALL, 1997, p. 17) nos esclarece
A cultura tem assumido uma função de importância sem igual no que diz respeito à estrutura e à organização da sociedade moderna tardia, aos processos de desenvolvimento do meio ambiente global e à disposição de seus recursos econômicos e materiais. Os meios de produção, circulação e troca cultural, em particular, têm se expandido, através das tecnologias e da revolução da informação. Uma proporção ainda maior de recursos humanos, materiais e tecnológicos no mundo inteiro são direcionados diretamente para esses setores. Ao mesmo tempo, indiretamente, as indústrias culturais têm se tornado elementos mediadores em muitos outros processos. (Hall, 1997, p.17).
Para Hall (1997) essa revolução cultural que estamos vivenciando tem conduzido nossas vidas em todos os âmbitos através das tecnologias de informações e da mídia, principais responsáveis pela veiculação da cultura global.
Dessa forma, a cultura global no século XXI tem sido responsável tanto pelas trocas econômicas, produção e comércio de matéria-prima e serviços, quanto pelas representações sociais que se fazem presentes nas nossas vidas, nos ensinando modos de ser, agir, padrões de beleza e determinados valores. A respeito de como essa cultura opera na constituição e legitimação das identidades contemporâneas, discorre Hall (2006, p. 75):
Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”.
Hall (2006) nos mostra, ainda, que as identidades contemporâneas além de estarem interconectadas globalmente, tem se tornado cada vez mais instáveis não mais vinculadas a uma nacionalidade, temporalidade ou espacialidade específica. De tal maneira, se tomarmos como exemplo a boneca Barbie a qual crianças do mundo inteiro tem acesso, independente da nacionalidade, da classe social ou da língua, podemos dizer que as crianças/meninas estão cercadas por uma espécie de “pedagogia universal” que as torna globalmente interligadas. (SILVEIRA, 2009). Outro exemplo bem atual são as redes sociais que possibilitam que pessoas – inclusive crianças – de várias partes do mundo se conectem e compartilhem interesses, estilos, hobbies, enfim, uma infinidade de experiências sem necessariamente estarem vinculadas a um espaço e tempo especifico.
Nesse contexto, Hall discute a centralidade da cultura nos processos de organização da sociedade e ressalta a sua importância na formação das subjetividades. De tal modo, a centralidade da cultura aponta o modo como a cultura alcança cada esfera da vida social contemporânea, estendendo-se a ambientes e mediando tudo à nossa volta. Nessa perspectiva, ressalta que outra fronteira precisa ser mencionada, “ [...] a centralidade da cultura na constituição da subjetividade, da própria identidade, e da pessoa como ator social” (HALL, 1997, p. 20).
A esse respeito Veiga-Neto (2003) aponta a importância de entender a centralidade da cultura para pensar o mundo na atualidade. Esclarece também que a instância cultural não é superior a outras instâncias sociais como a política, a educacional ou a econômica, por exemplo, mas perpassa todas estas, atravessando-as.
É relevante ressaltar que os Estudos Culturais questionam e se distanciam da concepção universalista e exclusiva de cultura e consideram, inclusive, mais adequado se falar em culturas, no plural, ao invés de cultura. Corroborando com esse entendimento Hall (1997) nos esclarece que toda ação social é cultural pois “[...] todas as práticas expressam ou comunicam um significado e, neste sentido, são práticas de significação”. (p. 16). Assim, com base nessas ideias, podemos dizer que a cultura pode estar relacionada a práticas do nosso cotidiano que produzem significados e por eles são produzidas, incluindo aquelas vinculadas às configurações culturais da mídia e do consumo.
Além disso, a cultura é vista pela ótica dos Estudos Culturais como o lugar do tensionamento, de conflitos e de lutas. Por isso, os teóricos dos Estudos Culturais ressaltam que a discussão do conceito de cultura não deve ocorrer apenas do ponto de vista epistemológico, mas como algo inseparável da dimensão política e das poderosas forças econômicas e sociais que atuam “[...] em busca pela imposição de significados e pela dominação material e simbólica” (VEIGA-NETO 2003, p. 11). De tal maneira, podemos dizer que na atualidade é no campo da cultura que tem se dado os maiores conflitos, conforme nos esclarece Momo (2007, p. 52) “Se antes as disputas ocorriam em campos específicos como a economia e a política, agora, cada vez mais elas se concentram no campo da cultura”. De modo específico, em relação à cultura da mídia Kellner (2011) nos aponta que:
Portanto, vemos a cultura da mídia como um terreno de disputa que reproduz em nível cultural os conflitos fundamentais da sociedade, e não como um instrumento e denominação. (p.134).
Nesse sentido, na contemporaneidade os Estudos Culturais têm buscado reconhecer as diferenças culturais e as relações de poder que marcam a sociedade globalizada. Nesse contexto, a mídia tem sido considerada como um campo fértil para a análise dos modos pelos quais as crianças têm sido produzidas e representadas por meio dessa cultura midiática.
Assim, para esse campo teórico, a criança é tomada com base em sua existência concreta e em diálogo com perspectivas diversas e valores sociais que se constituem historicamente em diferentes contextos culturais. A esse respeito nos esclarece Buckingham (2012, p. 98) “Sob esta perspectiva, o significado de ser criança não é algo fixo ou dado, mas algo que é socialmente construído e negociado”.
Por isso, é possível afirmar que a cultura nos ensina através de suas mais variadas instâncias – inclusive através da mídia – e os Estudos Culturais nos ajudam a entender como ela atua na nossa constituição e nos nossos modos de olhar o mundo. A esse respeito discorre Momo (2007, p. 56) “Mídia e consumo produzem, em certa medida, a cultura cotidiana da qual participamos e assim acabam por regular, de alguma forma, nossas condutas”. De modo específico, no que diz respeito a relação das crianças com as mídias, Buckingham (2012, p. 114) afirma que essas relações “[...] são estruturadas e restringidas por discursos e instituições sociais mais amplos, que (entre outras coisas) procuram definir a infância de formas particulares”. Dito de outro jeito, a criança, na perspectiva dos Estudos Culturais, embora seja considerada, em determinado modo, um sujeito ativo, tem sua infância regulada por discursos e representações vinculadas à cultura midiática.
Dessa forma, justifica-se a vinculação desta pesquisa e deste texto dissertativo com a área da educação, considerando que as crianças não aprendem sobre o mundo somente através da família ou da escola como acontecia há alguns anos atrás, mas também a partir de outras instâncias culturais como a mídia e o consumo que lhes fornecem, inclusive, elementos para as suas criações.
Já que na perspectiva dos Estudos Culturais tanto o conhecimento presente na escola quanto uma propaganda “[...] expressam significados social e culturalmente construídos, ambos buscam influenciar e modificar as pessoas, estão ambos envolvidos em complexas relações de poder”. (SILVA, 1999, p.136). Ou seja, nos ensinam determinados valores, crenças, comportamentos, modos de ver o mundo. De tal forma, um filme, uma música ou uma roupa não são apenas manifestações culturais, mas, conforme nos apontam Costa, Silveira e Sommer (2003),
Eles são artefatos produtivos, são práticas de representação, inventam sentidos que circulam e operam nas arenas culturais onde o significado é negociado e as hierarquias são estabelecidas. (p. 38).
Steinberg e Kincheloe (2001) estudando a produção corporativa da cultura infantil afirmam que se vive uma nova era da infância, na qual a mídia, as tecnologias de informações e o consumo têm exercido importante papel nessa mudança de rumo histórico, desconstruindo a visão tradicional de infância que surgiu no período moderno. Se no passado se aprendia a ser criança através da igreja, da família, da escola e de outras instituições modernas, na contemporaneidade o aprender a ser criança e a ideia que se tem de infância se amplia para além dessas instituições.
Além disso, os autores Steinberg e Kincheloe (2001) utilizam o termo pedagogias culturais para explicitar que a educação não se limita à escola, mas ocorre numa multiplicidade de lugares, que se constituem como áreas pedagógicas. Nesse sentido, os brinquedos, as propagandas, os programas de televisão, as redes sociais, dentre outros, também se constituem instâncias culturais que educam nossos modos de ser, estar e agir no mundo e fornecem elementos para as nossas criações. De tal maneira, o boneco do Homem-Aranha, por exemplo, não é simples boneco, mas um brinquedo que ensina sobre comportamento, padrão de beleza, força e masculinidade. Corroborando com essa ideia, Steinberg e Kincheloe (2001) nos esclarecem que:
O entretenimento das crianças, como em outras esferas sociais, é um espaço público disputado, onde diferentes interesses sociais, econômicos e políticos competem pelo controle. (p. 19).
Nessa perspectiva, o universo da fantasia e do desejo criado pelas organizações comerciais tem sido utilizado para seduzir as crianças e leva-las ao consumo. A esse respeito aponta Buckingham (2012):
No caso das crianças, suas relações com a mídia são estruturadas e restringidas por discursos e instituições sociais mais amplos, que procuram definir a infância de determinadas formas. (p. 93).
A cultura global, veiculada pela mídia, é a forma mais ou menos comum de cultura que atinge grande parte das pessoas que vivem no mundo atual, tece as
nossas vidas, nos diz como devemos ser, agir, comportar-se. Como nos esclarece Kellner (2001, p.9):
Há uma cultura veiculada pela mídia cujas imagens, sons e espetáculos ajudam a urdir o tecido da vida cotidiana, dominando o tempo de lazer, modelando opiniões políticas e comportamentos sociais e fornecendo o material com que as pessoas forjam sua identidade.
Provêem também as crianças de modelos e materiais para que constituam suas identidades, seus valores, lidem com suas emoções, sentimentos, além de fornecer matéria-prima para os seus processos imaginativos.
Desse modo, pensar a infância na contemporaneidade, especialmente nos grandes contextos urbanos, implica em pensar na criança vivendo sob as configurações culturais da mídia, pelos usos das novas tecnologias e pelo consumo de produtos e serviços. Assim, a partir do que foi problematizado sobre a infância na perspectiva dos Estudos Culturais, faz-se necessário questionar:
Será que estamos percebendo as crianças a partir desse contexto atual que as envolvem?
Para problematizar a infância na contemporaneidade, de certo modo produzida pelo universo midiático e tecnológico, escolhi por trazer algumas imagens do contexto pesquisado que representam o desafio que se constitui estudar a criança e a infância na contemporaneidade. Ou seja, esclareço que opto por, ao longo da dissertação, já ir articulando, em algumas partes do texto, informações empíricas obtidas na escola investigada com as discussões teórico-metodológicas da pesquisa.
Fonte: Arquivo pesquisadora (2018)
Imagem 2: Álbuns e figurinhas da Lol
Fonte: Arquivo pesquisadora (2018)
Imagem 3: P (menino) com tatuagem do Dragão na perna
Imagem 4: Bolo de aniversário da Frozen
Fonte: Arquivo pesquisadora (2018)
Imagem 5: L (menino) com fantasia do Homem Aranha e relógio do Ben 10
Fonte: Arquivo pesquisadora (2018)
Imagem 6: ME (menina) mostrando a foto que tirou com seu smartphone
Imagem 7: R (menina) exibindo as unhas pintadas e pulseira
Fonte: Arquivo pesquisadora (2018)
Imagem 8: C (menina) exibindo sua sandália de salto das princesas
Fonte: Arquivo pesquisadora (2018)
Essas imagens expressam a vivência de uma infância produzida, em certa medida, por uma cultura global, o que é facilmente observado nos ícones que estampam as roupas e brinquedos das crianças, como também nos artefatos que elas têm trazido para o ambiente escolar como celulares e relógios e, além de tudo, nas suas falas e brincadeiras.
De modo particular, as imagens de R (menina) com pulseira e unhas pintadas, de ME (menina) com seu smartphone, de C (menina) com o salto alto das princesas e de P (menino) com uma tatuagem na perna, assim como tantas outros registradas no contexto pesquisado, me remetem a imagem das crianças como mini adultos, o que me faz lembrar de Postman (1999) e a sua ideia de que as fronteiras entre crianças e adultos delimitadas a partir da Idade Média estariam sendo desconstruídas, já que as crianças tem acesso a informações do mundo dos adultos através da televisão e das outras tecnologias de informações. Logo, observa-se que as crianças estão ganhando novos contornos na sociedade contemporânea,
mudando as vestimentas, a alimentação, as brincadeiras e seus modos de se relacionar.
A esse respeito Postman (1999, p. 86) nos esclarece, ainda, que o surgimento do telégrafo, “[...] alterou o tipo de informação a que as crianças podiam ter acesso, sua qualidade e quantidade, sua sequência, e as circunstâncias em que seria vivenciada”. Com esta nova configuração, “[...] a informação adulta é incontrolável; agora, a criança vê o mundo como ele é (ou pelo menos como é descrito pelos produtores de informação corporativos) ”. (STEINBERG; KINCHELOE, 2001, p. 34).
De tal maneira, observo que a presença massiva das mídias e das tecnologias na vida das crianças, desde bem pequenas, faz com que se perpetue a ideia do fim da infância, de um certo tipo de infância, já que os modos de brincar e de se viver a infância vem se modificando com o passar dos anos. Porém, se considerarmos que as crianças dessa geração nasceram e crescem imersas nesse universo como nativos digitais e a nossa geração ocupa o papel de imigrantes digitais já que “[...] estamos num processo de aprendizagem de uma nova linguagem” diferente dos nativos que passaram a vida inteira em meio a ela (PRENSKY, 2001), podemos pensar em um novo jeito de viver a infância, de se constituir sujeito, de brincar, de construir relações e de elaborar processos criativos. Sobre essa questão Sarmento (2003) explica que não há um desaparecimento da infância, mas o período que ele chama de segunda modernidade modificou de modo radical as condições da infância, embora essas modificações continuem mantendo essa infância “[...] como categoria social, com características próprias” (p.10).
Nesse sentido, é importante citar que grande parte das pesquisas sobre as crianças na perspectiva dos Estudos Culturais em Educação tem problematizado as configurações culturais contemporâneas, especialmente relacionadas à mídia e ao consumo. Em sua maioria, preocupam-se com os modos pelos quais a cultura midiática tem produzido subjetividades infantis na atualidade, com foco em aspectos relacionados à centralidade das tecnologias; aos novos jeitos de brincar e ser criança; às questões relativas a identidade de gênero e aos conteúdos que músicas, desenhos, programas e propagandas tem transmitido às crianças. Conforme nos mostra Buckingham (2012, p. 93) “[...] público é ativo, mas atua sob condições que não são de sua própria escolha”. De tal forma, é importante reafirmar que este trabalho não deixa de considerar que as crianças são constituídas por meio dessa cultura midiática no âmbito dos grupos sociais das quais fazem parte.
2.3. A infância sob a ótica da Sociologia da Infância: crianças