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4. MECANISMES DE FRITTAGE

4.1 C ROISSANCE GRANULAIRE

A discussão sobre os resultados apresentados requer a compreensão do contexto em que os sujeitos vivem. Desse modo, faz-se imprescindível a discussão à luz da realidade do local de coleta de dados, a cidade de São Carlos-SP, e do contexto brasileiro, com base em algumas pesquisas publicadas na área.

Em relação à caracterização da amostra estudada, foi possível identificar que a maioria dos sujeitos apresentou-se na faixa etária de idosos (média de 62 anos) e com o diagnóstico de Acidente Vascular Encefálico, tendo a diabetes mellitus e a hipertensão arterial como fatores de risco para futuras deficiências.

Esses resultados não foram surpreendentes uma vez que os fatores de risco acima identificados caracterizam um problema de saúde pública no Brasil, foco das políticas de atenção primária. É importante destacar que a morbidade referida pelos sujeitos desta pesquisa não é diferente da encontrada em uma amostra de idosos de baixa renda no município de São Carlos. Feliciano, Moraes e Freitas (2004) em pesquisa sobre o perfil epidemiológico do idoso de baixa renda no município de São Carlos, identificaram que 61% de sua amostra referiu a hipertensão arterial, 35% problemas circulatórios, 19,5% diabetes mellitus e 14,9% a obesidade. Em outros dois estudos desenvolvidos neste município também se identificou na população são-carlense a

diabetes mellitus e a hipertensão como os fatores de risco mais prevalentes (BOSI et al., 2009;

FELICIANO; MORAES, 1999).

É importante comentar que o Brasil, no contexto da saúde, vem passando historicamente por transições demográficas que abrangem o envelhecimento da população e a transição epidemiológica, evidenciada pelo aumento da morbi-mortalidade e também das doenças crônico-degenerativas, demanda identificada no estado de São Paulo e no município de São Carlos, requerendo dos serviços de saúde uma adequação às transformações que ocorrem na dinâmica da população brasileira e as suas consequências no processo de saúde-doença dessa população (FELICIANO; MORAES, 1999).

A atenção aos problemas desses sujeitos, considerando-se a deficiência e os fatores de risco para outros comprometimentos, inclusive o Acidente Vascular Encefálico – que

representa a doença cerebrovascular mais frequente na presente pesquisa –, destaca a importância das ações de prevenção e promoção de saúde com enfoque incluindo a pessoa com deficiência. Tais ações fazem-se essenciais na medida em que a permanência desses fatores pode provocar novas deficiências e, consequentemente, limitações das condições de saúde dessa população.

Segundo Lotufo (2005), a taxa de mortalidade por doenças cerebrovasculares em muitas cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, até o final da década de 80, ultrapassava os Estados Unidos e Canadá e se assemelhava a de países do Leste Europeu e Japão. Segundo esse autor, embora em nosso país o Acidente Vascular Encefálico seja o maior problema de saúde pública, ainda há pouco controle dos seus fatores de risco, como os acima identificados, além de pouca organização dos cuidados médicos e verbas para pesquisas no campo das doenças cerebrovasculares (LOTUFO, 2005).

O fato desses sujeitos apresentarem deficiências físicas coloca em questão a prevenção de novas deficiências e, consequentemente, maiores comorbidades, e os custos com reabilitação e tecnologias pelos órgãos públicos. Essa preocupação também foi o foco da Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência. Nessa política, é discutido que, em muitos casos, as doenças e eventos crônicos como a hipertensão arterial, a diabetes, o infarto, dentre outros agravos, podem ser evitados, em parte, por hábitos de vida saudáveis, diagnóstico precoce e tratamento adequado (BRASIL, 2010). O abuso de álcool e drogas muitas vezes acarreta traumas e lesões pelo crescente índice de violência e de acidentes. Logo, uma política pública integrada e intersetorial para a promoção de melhoria das condições de vida como moradia, educação, lazer e mudança de hábitos da população deverá ser incentivada (BRASIL, 2010).

A Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência dispõe que a atenção integral à saúde é uma diretriz de responsabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS), bem como da rede de unidades, as quais se referem aos cuidados a serem ofertados às pessoas com deficiências, garantindo desde ações básicas até aquelas mais complexas, da reabilitação e do recebimento da tecnologia assistiva (BRASIL, 2010).

Para o desenvolvimento dessa Política, a Atenção Básica tem grande importância, com a Estratégia Saúde da Família e os Agentes Comunitários de Saúde (ACS), trabalhando em áreas territoriais de abrangência, preconizando o cuidado à saúde e aproximando as comunidades, famílias e indivíduos aos serviços (BRASIL, 2010). O Ministério da Saúde criou os Núcleos de

Apoio à Saúde da Família (NASF) pela Portaria MS/GM n.154, de 24 de janeiro de 2008, com uma equipe multiprofissional que pode incluir o fisioterapeuta, o médico, o acupunturista, o fonoaudiólogo, o terapeuta ocupacional e o profissional da educação física (BRASIL, 2010).

Em São Carlos, o programa de atenção básica à saúde destina-se à promoção, prevenção, cuidados e reabilitação da saúde das famílias. Os atendimentos, realizados nas unidades de saúde e por meio de visitas domiciliares, são desenvolvidos pelos membros da equipe de saúde, com atuação interdisciplinar. Atualmente, são atendidos por esse programa aproximadamente 39.768 habitantes da cidade de São Carlos (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO CARLOS a).

As USFs da cidade de São Carlos são constituídas de médico generalista, enfermeira, dentista, auxiliar de dentista, técnico e auxiliar de enfermagem e ACS. Existem apenas sete terapeutas ocupacionais contratadas pela Prefeitura Municipal de São Carlos. Essas terapeutas estão distribuídas da seguinte forma: cinco nos Núcleos Integrados de Saúde (NIS), que são regionalizados, e atendem tanto ao NIS quanto ao território com todos os equipamentos presentes nele: Unidade Básica de Saúde e USF. Apenas duas terapeutas ocupacionais estão no NASF e cada uma atende a oito USF. As ações dessas terapeutas ocupacionais residem no matriciamento das equipes, na realização de grupos, no atendimento domiciliar e na participação em projetos como, por exemplo, trabalho com álcool e drogas no território e junto às escolas de bairros empobrecidos da cidade, ações que, embora necessárias, refletem a pouca atenção desses profissionais em relação à pessoa com deficiência física (FERREIRA, 2011).

Por outro lado, a Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência destaca a necessidade de interlocução entre as redes de reabilitação e o NASF, a fim de que a população possa ser contemplada com as diferentes ações em saúde, também, no tocante ao cuidado de reabilitação:

É fundamental que haja uma interlocução entre as redes de reabilitação e os NASF (considerando as suas ações em reabilitação) e o atendimento em reabilitação nos serviços especializados (ambulatorial e hospitalar), sendo fundamental a comunicação com as ações de promoção da saúde, prevenção de agravos/deficiências e reabilitação das UBS, integrando todos eles em uma rede de assistência (BRASIL, 2010, p. 16).

No tocante à reabilitação de pessoas com deficiências físicas nesse município, destacam-se dois centros principais: o Centro Municipal de Especialidades (CEME) e a Unidade

Saúde Escola (USE). Entretanto, em ambos, não há terapeutas ocupacionais especializados em disfunção física e tecnologia assistiva.

O CEME é um ambulatório de referência, que abrange 24 especialidades em saúde, dentre elas a de neurologia, oncologia, ortopedia, fonoaudiologia, fisioterapia, enfermagem, entre outras, atendendo à cidade de São Carlos e microrregião, sendo os agendamentos feitos diretamente nas UBS e USF (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO CARLOS b). No momento atual, não há um terapeuta ocupacional nesse serviço.

Já a USE, vinculada à Universidade Federal de São Carlos, em seu princípio, é definida como:

proposta inovadora no que se refere à integração do ensino, pesquisa e extensão, à interdisciplinaridade e à integralidade do cuidado. Proposta que incorre na necessária interação de vários departamentos e cursos, na articulação dos interesses da pesquisa e do ensino de graduação e pós com a extensão em saúde, na interação do corpo docente, discente e técnico administrativo, no atendimento às demandas internas e externas à Universidade, bem como do Sistema Único de Saúde e Diretoria Regional de Saúde de Araraquara (DRS 3) (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, 2011, p. 2).

Esse serviço oferece o atendimento por especialidades em duas linhas de cuidado, a saber: Linha de Cuidado da Criança e do Adolescente e Linha de Cuidado de Adulto e do Idoso (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, 2011). A equipe é composta por enfermeiro, técnico de enfermagem, assistente social, fonoaudiólogo, psicólogo, cardiologista, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional. Atualmente, há dois terapeutas ocupacionais contratados pela USE, entretanto, um atua na área de Gerontologia e sem especialização em disfunção física e tecnologia assistiva e o outro responde pela área de Saúde Mental.

Cabe destacar que a discussão sobre a presença do profissional terapeuta ocupacional nas equipes de saúde implica em uma série de serviços e ações de reabilitação no que se refere às Atividades da Vida Diária, na promoção da independência e da autonomia, na utilização da tecnologia assistiva e no incentivo aos indivíduos para o engajamento em ocupações.

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