Segundo Aires (2003), predominou no Ocidente católico, especificamente na França, entre a Idade Média e o século XVIII, uma proximidade entre os vivos e os mortos. A esse período o autor denominou “morte domesticada”, ou seja, que exigia uma relação muito próxima do morto em convívio com os seus entes queridos, sendo, por exemplo, o próprio
velório realizado nas residências. Isso teria sido praticado até o século V, e a partir de então passaram a ser realizados nas igrejas e posteriormente nos cemitérios.
A relação estreita entre os vivos e os mortos era, muitas vezes, confundida com falta de temor à morte. No entanto, não é isso que afirma Reis:
Não é que a morte e os mortos nunca inspirassem temor. Temia-se, e muito, a morte sem aviso, sem preparação, repentina, trágica e, sobretudo, sem funeral e sepultura adequados. Assim como se temiam os mortos que assim morriam. Mas desde que os vivos cuidassem bem de seus mortos, enterrando-os segundo os ritos adequados, eles não representariam perigo espiritual ou físico especial. Tais ritos eram experimentados por vivos e mortos de maneiras a marcar com ênfase a passagem para o outro mundo (REIS, 1991, p. 74).
Para amenizar esse temor, era preciso seguir alguns passos para se ter uma “boa morte’’. No século XVII, a influência da igreja católica sobre o que se devia fazer era clara, sobretudo, quando pregava que para se obter a salvação era preciso estar próximo de Deus; e que, para tal, era necessário contribuir de alguma forma com a igreja. Em alguns casos, as pessoas faziam testamentos deixando seus bens para a instituição, em troca teriam um funeral cheio de regalias, com caixões luxuosos, missas, cortejos com presença de santidades e um local privilegiado dentro da igreja para ser enterrado. Quanto mais próximo do altar, maior seria a chance de salvação (REIS, 1991 e CASTRO 2007).
A morte ideal foi descrita por Reis:
A morte ideal, acima de tudo, não devia ser uma morte solitária. Durante a sua agonia, o moribundo carecia de gente a sua volta, animando-o a partir com segurança e protegido por rezas e outros meios de bem morrer. Concluída a agonia, o ideal era que muita gente cercasse o morto de cuidados, que o velasse e acompanhasse até a sepultura, de preferência no interior de uma igreja. Era uma morte solidária. E espetacular. Marcavam os melhores funerais o barulho de rezas, cânticos, sinos, orquestras, tambores, palmas, fogos de artifício; a profusão de cores, emblemas, formas que adornavam caixões. As pessoas acompanhavam a pé o amigo, parente, conterrâneo, o irmão espiritual ou apenas se juntavam de bom grado ao cortejo de um morto desconhecido, pelo dever de solidariedade e investimento na própria salvação. Os funerais antigos eram manifestações emocionantes da vida social (JOÃO JOSÉ dos REIS In: RODRIGUES, 1997, p. 12).
A autora Claudia Rodrigues (2002) realizou uma pesquisa sobre os testamentos e inventários cariocas entre os séculos XVIII e XIX, e observou que neste período ocorreram mudanças, estas estariam ligadas ao desligamento dos fiéis a pedagogia do “bem morrer”. Isso teria levado a igreja a perder, de certa forma, o controle e influência que exercia sobre a sociedade.
na Bahia não apenas lavava-se o corpo antes que enrijecesse, como também cortava-lhe os cabelos, a barba, as unhas e perfumava-se o defunto e o ambiente para garantir que o espírito desencarnado não ficasse vagando pela casa. Na maioria das vezes, quem vestia o morto era o mesmo profissional que vestia os vivos, o alfaiate. (REIS, 1991, p. 115).
Durante a Contra Reforma do Catolicismo constitui-se o chamado “enterro barroco”, caracterizado pela grandiosidade dos enterros. Embora pareça existir uma dicotomia entre o que a igreja pregava “quanto mais pobre e desapegado dos bens materiais, mais próximo estará de Deus”, esses funerais iam de contra partida. Entretanto, parece que a virtuosidade se aplicava apenas na forma mais externa do ritual, pois o corpo do morto era caracterizado com simplicidade, o qual geralmente era vestido de uma mortalha simples, que podia ser encomendada e vestida pelo alfaiate mesmo, um serviço cobrado à parte da costura. Se o defunto fosse membro de alguma ordem religiosa, os hábitos próprios da irmandade e os religiosos eram sepultados com suas vestes eclesiásticas (REIS, 1991, p. 115).
Quanto à deposição dos corpos, Rodrigues (1997) aponta alguns costumes mencionados por Thomas Ewbank ao visitar o Brasil em 1846. As mulheres casadas eram postas com as mãos descansando nos cotovelos opostos, vestidas de preto; ou mulheres solteiras, vestidas de noivas com as mãos fechadas “em adoração”; já homens e meninos eram sepultados com as mãos cruzadas sobre o peito segurando uma taça; autoridades com roupas oficiais e “crianças de menos de 10 ou 11 anos são vestidas de frades, freiras, santos e anjos” (RODRIGUES, 1997, p. 196).
Albuquerque (1995), ao falar da Igreja da Graça de Olinda apresenta relatos importantes sobre o modo como os corpos eram enterrados no período colonial:
Túmulos coletivos que poderiam restringir-se apenas aos membros da família (mormente da família nuclear), ou aos membros de uma irmandade; ou túmulos coletivos, de um modo mais amplo. Nos túmulos coletivos desta igreja, utilizou-se como prática, tanto a superposição dos fardos funerários, quanta a exumação dos mais antigos, cedendo lugar aos seus novos ocupantes. Dois, três ou mesmo mais, oito, sepultamentos, superpunham-se. Articulados, intactos, ou apenas ligeiramente deslocados pelos exumados foram muitas vezes re-sepultados no mesmo tumulo, ao lado ou acima, dos novos sepultamentos. E a exumação ou não nas covas coletivas, perece que não estaria relacionada necessariamente a serem ou não túmulos de família. Poderia antes constituir-se em uma prática de cada época, ou ainda a existência ou não de outros membros da família. Quando me refiro à existência ou não, de outros membros da família, penso no caráter restritivo de alguns túmulos, em que estavam pré-definidos aqueles que poderiam ocupa-lo [“sepultura... para todos os seus herdeiros que são mulher e filhas"]. Penso ainda na prática tão difundida, sobretudo a partir do século dezenove, de conservar em pequenas urnas os ossos exumados, mantidos não mais nos carneiros ou no interior do solo, mas guardados pelos familiares, frequentemente nas igrejas, disponíveis para exposição, sobretudo no dia dos mortos (ALBUQUERQUE, 1995, p. 305- 306).
Quanto à posição dos membros superiores, Albuquerque argumenta que a postura dos braços variava em função de dois principais fatores: primeiro, devido ao mobiliário funerário, pois o ato de segurar uma cruz, um ramalhete de flores artificiais ou portar uma espada (vestígios típicos dessa prática religiosa), podia orientar a posição dos membros; segundo, a compleição física da pessoa a ser sepultada, por exemplo, indivíduos com ventres maiores dificilmente manteriam as mãos sobre a cintura (ALBUQUERQUE, 1995, p. 320).
Em relação à posição das mãos, ele descreve em três posições básicas: mãos entrelaçadas sobre a cintura; cruzadas sobre o tórax; ou cruzadas sobre a pelve (Figura 34). Além da posição, ele identifica duas posturas gestuais: mãos abertas, testemunhando que “deste mundo nada se leva”; ou mãos fechadas, encerrando a “verdadeira riqueza”, podendo estar relacionadas a relíquias, imagens de santo, medalhas e rosários. Estes dois últimos foram os preferidos enterrados na Igreja da Divina Graça de Olinda (ALBUQUERQUE, 1995, p. 321).
Figura 34: Sepultamento 69, com as mãos sobre a pelve.
Fonte: ALBUQUERQUE, 1995.
Os mortos eram transportados em esquifes de uso comum (seja da Santa Casa de Misericórdia, seja de irmandades), que apenas levavam os mortos ao seu túmulo, mas não eram enterrados com eles. O caixão individual, segundo a documentação textual, não foi de uso frequente até o século XIX. Apenas os “ricos” assumiam a despesa de mandar armar, revestir e decorar um caixão para nele ser enterrado (ALBUQUERQUE, 1995, p. 307).
Somente quando as ideias da medicina higienista começaram a ganhar força política e a fazer parte das discussões urbanísticas das cidades é que os enterros passaram a ser
realizados em cemitérios públicos extramuros. A população teve resistência em aceitar tais ideias, pois seus costumes fúnebres estavam muito atrelados ao elemento “salvação”, conforme visto anteriormente. Impedir que novos sepultamentos fossem realizados nas igrejas chegou a causar revoltas, como a Cemiterada de Salvador, ou necessitaram de muito traquejo político das autoridades para evitar conflitos.