Com o desenvolvimento desta pesquisa, sobretudo a partir das narrativas dos colaboradores, denotou-se que a trajetória histórica do município de Manari é repleta de lacunas e incompletudes, assim como a historicidade do objeto em estudo. Estas observações são resultantes da análise das entrevistas realizadas, destacando-se entre os entrevistados críticas a ausência de interesse – seja da administração pública ou de uma parcela significativa dos moradores – pela própria historicidade, permanecendo um território com histórias e culturas silenciados, sem que se debrucem sobre suas origens, ou que discutam o surgimento da solenidade religiosa no município, assim como as questões que levaram Zé Pesqueira, a idealizar uma missa para os vaqueiros de Manari. Creio que a ausência de material escrito, seja ele documental ou jornalístico, resulta em um silenciamento de inúmeras histórias e acontecimentos, de pessoas e lugares, de partes de um Brasil que historicamente, não tem tido voz e é deixado de fora dos livros de história. De um Brasil que só é visto pela sua condicionalidade climática e também por sua miserabilidade social.
Em oposição a este silenciamento51, pensar a Missa do Vaqueiro é pensar a própria história do município. Pensar suas origens, requer o romper de barreiras interpostas pela condicionalidade temporal. É mergulhar entre histórias guardadas, através de memórias52 que nem sempre arcarão com a realidade propriamente acontecida, que poderia, imagéticamente ser inventada, já que como aponta Schwarcz (2019, p. 20) é impossível “dominar totalmente o passado” e o ato de lembrar, rememorar, recontar, transmitir a outrem, é uma ferramenta que possibilita repensar o passado no tempo presente, facilitando, neste caso, a escrita e análise do que se rememorou através das entrevistas realizadas, tendo o pesquisador/historiador, consciência de que o passado de seu objeto de pesquisa é impossibilitado de ser revisitado e/ou escrito em toda sua completude.
Neste caso, a memória e a oralidade atuam como recursos metodológicos importantes, que devem ser trabalhados cuidadosamente quando se procura trazer à luz, histórias não escritas, não documentadas ou não registradas, de lugares desprovidos de documentos
51 Este silenciamento parte da realidade vivida pelos munícipes de Manari, em que “estas lembranças de
agrupamentos minoritários são relegados a uma existência reprimida e silenciosa” conforme Rodrigues (2013, p. 57) ao analisar os conceitos de “Memória Enquadrada” e “Memórias Subterrâneas” elaborados por Michel Pollak.
52 A conceitualidade de memória citado por Alberti (2004, p. 35) toma por referencial um texto de Niethammer,
que cita a existência de dois níveis memorialísticos: a ativa e a latente, “a primeira seria aquela de que sempre precisamos e que está permanentemente à disposição, e a segunda, a memória que necessitaria de reconstruções e associações para ser recuperada”, associações que poderiam ser feitas através do uso do questionário para a realização de entrevistas, bem como, com o auxílio de outras fontes e instrumentos, como a fotografia, por exemplo.
palpáveis, como a aludida municipalidade, por exemplo, em que muito pouco se sabe sobre sua fundação, seu processo de ocupação e seus primeiros habitantes, bem como do objeto desta pesquisa. Para os munícipes manarienses, fragmentos de suas histórias têm resistido através dos tempos, pelas transmissões53 orais, passadas de uma geração à outra. Uma história que apesar de não estar inscrita em livros e códices, tornou-se “uma história viva, que se perpetua ou se renova através do tempo” (HALBWACHS, 2003, p. 86). É uma história que perpassa por diferentes detentores de tal historicidade, e coaduna com o presente vivenciado. Alude-se aos fatos transpostos, carregados por toda uma bagagem de memória, sobretudo dos mais velhos, que está impregnada de representações que podem facilmente terem sido tomadas a partir de observações e vivências do tempo presente, e reproduzidas imageticamente, não correspondendo à fidedignidade ou totalidade dos acontecidos de outrora, e que conforme o autor citado há bloqueios, de ordem natural, que impedem o sujeito lembrar de todos os elementos que constituiu dado acontecimento. De acordo com Ferreira (2002, p. 321) “a memória é também uma construção do passado, mas pautada em emoções e vivências; ela é flexível, e os eventos são lembrados à luz da experiência subsequente e das necessidades do presente”.
Atentando-se aos apontamentos destacados no parágrafo anterior, em Manari, a transmissão de relatos orais de uma geração à outra, terminou possibilitando a criação de um acontecimento, atualmente bastante enraizado, já dado e posto, através de inúmeras gerações e que pode ser facilmente considerado imagético aos ouvidos mais atentos, e que de fato revela uma estereotipia construída sobre o sertão, que são os mitos fundadores. Pela ausência documental, tomamos de empréstimo as impressões de Ferraz e Barbosa na obra Sertão:
Fronteira do Medo,
Sobre o sertão de Pernambuco poucos estudos foram publicados, comparativamente ao número de obras que se ocuparam da região litoral-mata (...). As obras mais conhecidas não esgotam informações (...) relativas à ocupação portuguesa, ao desenvolvimento socioeconômico durante os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. As pesquisas são limitadas, sobretudo, quanto à utilização de fontes primárias (FERRAZ e BARBOSA, 2015 p. 14).
53 Essas transmissões orais, feitas pelos sujeitos que detêm o conhecimento sobre a historicidade da aludida
municipalidade, podem, segundo Meneses (2009, p. 450) ser um “lugar de memórias”. Detentores de um conhecimento historicamente produzido/construído e passado de uma geração à outra, guardam em si, a chave para o conhecer-se e encontrar-se, num tempo e espaço, anteriormente posto e histórico. Para tal, Nora (1993) sugere que para ser cognominado como lugar de memória, precisa-se abranger três itens complementares: “material, simbólico e funcional. É material por seu conteúdo demográfico; funcional por hipótese, pois garante, ao mesmo tempo, a cristalização da lembrança e sua transmissão; mas simbólica por definição visto que caracteriza por um acontecimento ou uma experiência vividos por um pequeno número uma maioria que deles não participou” (1993, p. 21 e 22). Com a missão de garantir a continuidade e existência da memória histórica, tornam-se elos de ligação entre os fatos dados e o presente cotidiano.
Com base nas informações apresentadas pelas autoras, e trazendo esta realidade para o local de desenvolvimento desta pesquisa, nota-se que, historicamente, criou-se um enredo em torno da nomenclatura primitiva destas terras, e o que se sabe sobre o aludido, mais parece um mito, do que uma realidade propriamente dita; e talvez, seja o mais enigmático mistério que ronda a ocupação e fundação da atual municipalidade. Segundo Correia,
Reza a lenda (sic) que a Mariana teria saído para apanhar lenha e umbu, e em seguida fora à lagoa pegar água (...) quando chegou lá se defrontou com um rebanho de porcos selvagens, conhecidos como queixadas, que a atacou e a devorou, junto com duas crianças que a acompanhava. Dado o acontecimento fatídico, em sua homenagem, a localidade passou a ser denominada de Alto da Mariana (CORREIA, 2016 p. 22).
Tal ocorrência, apesar de ser uma tragédia, podendo ser considerada como mítica e distante da realidade, já é bastante enraizada e romantizada no transpor da historicidade municipal. Contudo, nota-se diversas incongruências neste relato apontado pelo autor que é fruto da memorabilidade local. Primeiramente, não há registro de que estes porcos selvagens sejam carnívoros ou que ataquem humanos para devorá-los. E, em segundo lugar, a nominata citada, é uma invenção, criação imagética que se transpôs com o passar dos tempos, como se fosse uma verdade absoluta. Quanto à figura que emprestou seu epíteto para o local, suas origens são igualmente incertas, talvez, igualmente míticas. Escravizada ou não, indígena ou afrodescendente, a única certeza que se tem é que a história desta tragédia resiste através dos tempos, como marco inicial da fundação do município.
Assim como a história do próprio município, o evento religioso tem um processo histórico construído por esparsas memórias; e as narrativas orais apresentadas pelos colaboradores da pesquisa, trazem lembranças carregadas de histórias silenciadas, não minutadas, não reveladas até seu esgotamento, também pela impossibilidade de assim o fazê- lo. Daí a importância de se utilizar da História Oral “como recurso para a elaboração de registros, documentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de pessoas e grupos” (MEIHY; HOLANDA 2018, p. 17) que concernente ao objeto de pesquisa, são homens e mulheres agindo como partícipes de sua própria História. Um legado que se materializa no decurso de trinta e dois anos de realização, que vem tomando corpo e ganhando suas primeiras páginas; escritos que ficarão registrados como fontes documentadas para estudos e/ou pesquisas posteriores.
Além disso, é importante frisar que em conformidade com a proposição apontada por Alberti (2013, p. 75) “as fontes da história se diversificaram e passaram a incorporar, ao lado da documentação textual, fotografias, filmes, discos, entrevistas, propagandas, etc.”. Essa
ampliação tomada pelas fontes históricas no decorrer dos últimos anos, abre um leque abrangente de oportunidades para que pesquisadores se debrucem em pesquisas sobre os mais variados acontecimentos, principalmente os relacionados a um contexto micro histórico, assim como sobre minorias culturais, personalidades locais, como Zé Pesqueira (José Pedro Maria), como veremos no item a seguir, ou de lugares desprovidos de registros históricos, por exemplo.