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C. concolor

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ABSTRACT

A- C. concolor

Abramo (1994) nos ajuda a compreender o surgimento da juventude no contexto do século XVII. Para a autora, Phillipe Ariès é o autor que melhor apresenta o caráter histórico da infância e da juventude e que, portanto, é um dos autores básicos para compreensão do surgimento da juventude. Aos poucos a juventude vai surgindo como “[...] uma fase socialmente distinta [...] mediante a progressiva instituição de um espaço separado de preparação para a vida adulta” (ABRAMO, 1994, p. 05).

No século XVII ocorrem dois fenômenos que incidem nas formas de socialização das crianças e que marcam o início das compreensões sociais sobre a infância e a juventude. Uma das mudanças é a da família, que, ao se fortalecer e retrair-se para esfera privada torna-se elemento fundamental da formação das crianças. A socialização antiga na qual a criança, assim que conseguia algum tipo de desenvolvimento físico passava diretamente aos jogos e trabalhos adultos foi, aos poucos, substituída pela socialização familiar, a preparação da criança para integrar o mundo público.

Segundo a autora, o segundo fenômeno que demarca essa construção social é o surgimento da escola substituindo a aprendizagem informal. A criança, que já não aprendia mais a viver a vida diretamente com os adultos da comunidade passava então maior tempo na escola e assim, instituía novas formas de

socialização. Assim ganhava visibilidade etapas intermediárias como a infância e juventude, entre o nascimento e o mundo adulto. Percebeu-se posteriormente que a juventude, marcada pela escolarização também acentuava as distinções, por exemplo, entre o povo geral (que cursaria a escola – provavelmente o Ensino Fundamental dos dias de hoje) e a burguesia que iria posteriormente aos liceus (Ensino Médio). Viver aquele tempo da vida na escola não era para todos. Esses acontecimentos marcam o início da visibilidade da juventude.

No entanto, é no século XX que se percebe com mais força essa distinção da juventude. Ela aparece como um problema da modernidade, ao perceber-se que surgiam comportamentos que fugiam do padrão, considerados “anormais” “[...] por parte de grupos de jovens delinqüentes, ou excêntricos, ou contestadores, implicando todos, embora de formas diferentes, um contraste com os padrões vigentes” (ABRAMO, 1994, p. 08).

A juventude começa a ser percebida através da noção de sujeitos sociais, com experiências próprias e ideias que contrariam a lógica hegemônica. Um dos acontecimentos importantes para essa compreensão segundo Abramo (1994) são os acontecimentos da Primeira Guerra Mundial, em que, morreram milhares de jovens, ao serem colocados em linha de frente, em oposição aos oficiais mais velhos que ficavam na retaguarda. A autora declara que então, entra em vigor uma crise de valores, principalmente pelo “ressentimento” em relação aos adultos e a busca da valorização da vida juvenil, e as possibilidades de vivê-la intensamente.

Pais (1990) chama atenção que, essa construção ou percepção sobre a juventude é em grande parte marcada pela noção de “problemas sociais”. Os jovens sempre são vistos como um problema:

[...] eles são os problemas de inserção profissional, os problemas de droga, os problemas de delinquência, os problemas com a escola, os problemas com os pais, só para focar alguns dos problemas socialmente mais reconhecidos como específicos dos jovens (PAIS, 1990, p. 144).

Por isso, a sociologia ocupa um grande papel: problematizar as representações sociais sobre a juventude e, investigar a juventude em seu cotidiano para então, poder falar um pouco sobre a realidade dos jovens, e não reproduzir o senso comum. Entender a juventude como uma construção social implica então desconstruir os “mitos” sobre uma juventude ou algumas juventudes homogêneas e,

abrir possibilidades para exploração, tanto das similaridades, quanto das diferenças (PAIS, 1990).

A juventude ganha destaque como questionadora da ordem social, também bastante marcada pela delinqüência e criminalidade, tornando-se foco de muitos trabalhos realizados nas décadas de 1920 e 1930. Embora estas características tornaram-se centrais ao se falar em juventude, Abramo (1994, p. 10) declara que:

Paralelamente foi se estruturando, por contraposição, uma caracterização da “juventude normal” que, no entanto, não deixa de conter elementos que a definem como uma condição que guarda sempre, em potência possibilidades de descontinuidade e ruptura de das regras sociais.

A autora destaca que, nos anos 1950 surge a ideia de uma cultura juvenil genérica, que buscava mapear alguns comportamentos juvenis por grupos. Embora considere que isto é perigoso e que pode encobrir condições e experiências sociais diversas, crítica também feita por Pais (1990), entende, no entanto, que é importante conhecer estes grupos que aos poucos foram se articulando.

A primeira ideia que se destaca é a de uma juventude pós-guerra, vinculada a conflito geracional com os adultos, que valoriza o tempo livre, tem uma menor carga horária de trabalho e busca diversão e entretenimento.

Está montando, assim, o cenário de uma juventude ligada fundamentalmente ao seu tempo de lazer, em lanchonetes ouve rock‟n roll em juke box ou em programas de auditório; consome novas mercadorias, de guloseimas (refrigerantes, chicletes etc.) a roupas (jeans, jaquetas de couro) e meios de locomoção (a motocicleta), todos marcada e distintivamente juvenis. Esses elementos aparecem como característicos de um novo padrão de comportamento – que inclui maior liberdade e autonomia para os jovens – interpretado como uma diminuição geral da autoridade e controle paternos (Morin, 1987), paralelamente a uma valorização do prazer e do consumo como fontes de gratificação imediata (ABRAMO, 1994, p. 29).

Outra ideia de juventude e cultura juvenil é a vertente que se vinculou mais ao existencialismo de Sartre e Beauvoir, indo contra restrições normativas e cerimoniais, buscando uma vida mais livre. Destaca o movimento beat que busca o contato com os “[...] setores marginalizados da sociedade americana, como os negros, os músicos de jazz e os andarilhos” (ABRAMO, 1994, p 31).

Surgem também os “rebeldes sem causa”, envolvidos na diversão, no consumo e na violência, buscando formas de lazer, criando confusões em espaços públicos com um visual próprio. Estes, não em torno da criminalidade, mas

buscando ocupar o tempo livre se metem em confusões nas torcidas de futebol, nos shows de rock, quebrando cadeiras, vitrines, automóveis, tudo sem um motivo aparente. Isso acabou reforçando o estigma da juventude como um problema social.

Esses grupos juvenis são só alguns dos já vistos e dos constantemente produzidos. A juventude da década de 1960 foi marcada com os hippies, jovens manifestantes, movimentos estudantis, ocupações em universidades, entre outros. A juventude desempregada na década de 1980 em torno do pop, do punk, organizando-se em torno da música também foi uma forma de ser jovem.

Nessa breve introdução buscamos ressaltar que a juventude é uma construção social e histórica. Não quer dizer que não existissem jovens antes da década de XVII, porém, a juventude ganha visibilidade em um contexto de mudanças tanto nas organizações familiares, como na divisão social do trabalho, a entrada na modernidade como período histórico marcado pelo capitalismo, entre tantos outros aspectos. Também percebemos que existem diferentes formas de expressar essa juventude, tanto na música, no vestir, no falar e no comportamento.

A juventude precisa ser reconhecida em duas formas: como unidade e como diversidade. Como uma fase da vida distinta da infância e da vida adulta, e como uma diversidade social, marcada por diferentes atributos sociais. Como nos lembra Pais (1990), não existe um conceito de juventude que defina “a juventude” como algo completo e homogêneo, mas sim, é preciso de diferentes formas reflexivas para praticar o exercício sociológico de pensar quais atributos são constituidores das juventudes. Neste sentido, o capítulo segue buscando discutir apenas algumas das características que envolvem o ser jovem de diferentes formas hoje.

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