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Ecoturismo

Abordar a busca pela natureza lapidada por valores culturais e espirituais demanda um olhar teórico sobre como se estruturou o segmento fundamentado na viagem aos ambientes naturais. Nosso estudo de caso, o Caraça, está inserido em um contexto mais amplo das áreas protegidas. Por esta razão, reconhecemos que existem outros segmentos que também se vinculam de alguma forma ao nosso estudo, como o turismo cultural ou o turismo religioso, mas, no entanto, encontramos no ecoturismo o nosso recorte teórico por algumas razões que serão explicitadas no corpo do texto. De forma inicial, adiantamos que elas se sustentam nas seguintes premissas:

. O ecoturismo está diretamente relacionado à questão ambiental. A emergência da própria atividade tem vínculo direto com abordagens mais amplas, como a estruturação de áreas protegidas e a valorização da natureza em resposta às adversidades encontradas no meio urbano;

. Ao ser colocado como uma atividade capaz de auxiliar a conservação do meio ambiente, o ecoturismo se deparou em seu desenvolvimento com questões vinculadas à problemática ambiental. Entre elas, os casos de insucesso resultantes do isolamento e da criação de ilhas – áreas protegidas – nos quais o envolvimento com as comunidades locais pouco se manifestou; a valorização estética desses ambientes, resultado de políticas e abordagens que nos remetem à natureza intocada (DIEGUES, 2004); assim como a estruturação da atividade baseada no consumo dos recursos naturais, sem o necessário envolvimento e responsabilização do turista perante às singularidades do local visitado.

Embora os cenários estudados e observados ao redor do ecoturismo não estarem de fato equilibrados com as propostas iniciais da atividade, acreditamos e essa tem sido a nossa tese, de que associar os valores culturais e espirituais das comunidades locais existentes, pode contribuir para os processos de conservação biológica. Isso em parte se deve a elementos que buscaremos estruturar e evidenciar em nossos argumentos associados ao nosso estudo de caso. Como exemplo direto podemos mencionar o envolvimento direto dos valores culturais e

espirituais locais com a experiência dos turistas, o que confere uma ideia ressignificada de natureza. Esta, que a princípio figura como intocada nos imaginários, é então lapidada por significados históricos que lhe conferem singularidade e vida, conforme estruturaremos nos itens posteriores sobre o espírito de lugar.

Outro elemento bastante importante é como essa presença humana, histórica e simbólica no espaço natural, influi em processos de valorização desse ambiente, associados ao encontro que os turistas têm com questões que no meio urbano já se encontram desgastadas e pouco presentes em seu cotidiano, como a contemplação, o silêncio, a ressignificação dos processos de consumo e a sociabilidade entre os seres humanos. Esses argumentos, vão de encontro a um enfoque mais atual do turismo, com bases nos olhares antropológicos. Lembremo-nos também que nossa tese de doutorado é desenvolvida em um ambiente interdisciplinar das ciências ambientais, o que somado ao nosso estudo de caso, uma área protegida, demanda-nos um recorte teórico associado a essas questões.

Dissertar sobre o ecoturismo a priori, possibilita-nos ingressar no campo da busca pela natureza associada às narrativas de espiritualidade, como veremos mais adiante.

Héctor Ceballos-Lascurain foi o primeiro autor a abordar o turismo baseado na natureza com o título de ecoturismo. Sua primeira definição surgiu na década de 1980 e tinha como

pressuposto inicial uma resposta ao turismo de massa103, cujo histórico apontava para uma

destruição do ambiente natural com forte impacto nas culturas receptoras (CEBALLOS- LASCURAIN, 1996; WEARING & NEIL, 1999). Em contra à larga escala praticada pelo

turismo naquele período, o turismo alternativo104 proclamava uma série de premissas para o seu

desenvolvimento. Entre elas uma menor escala de visitação, uma baixa densidade; uma dispersão para as áreas não urbanas e foco em um público intelectualizado, com uma renda alta (WEARING & NEIL, 1999).

103 Ceballos-Lascurain (1996, p. 20) explica o contexto: “[…] uncontrolled mass tourim has and continues to

contribute to the degradation of many areas of natural and cultural significance, entailing the loss of biological and cultural significance, entailing the loss of biological and cultural diversity, as well as of important sources of income. Clearly, what is needed is an environmentally responsible approach to tourism, or ‘sustainable tourism’”.

104 Baseado em uma classificação proposta por Mieczkowski(1995), Wearing e Neil (1999) destaca que o

ecoturismo, enquanto atividade alternativa ao turismo de massa, englobaria também interesses referentes aos aspectos culturais, educacionais, científicos, de aventura e também uma valorização dos elementos vinculados ao meio rural. O autor define turismo alternativo como “forms of tourism that set out to be consistent with natural,

social and community values and which allow both hosts and guests to enjoy positive and worthwhile interaction and shared experience.” (WEARING & NEIL, 1999, p. 3).

O ecoturismo veio também como uma resposta às práticas de turismo baseadas na natureza. Estas, lapidadas por um consumo do ambiente natural, não traziam em seu bojo uma necessária preocupação com a manutenção e com a conservação do meio natural (CEBALLOS- LASCURAIN, 1996). Com um parêntesis necessário, destacamos de forma óbvia que as viagens aos ambientes naturais são anteriores a essas nomenclaturas, oriundas dos processos de segmentação turística. Ceballos-Lazcurain (1996, p. 22) esclarece que as origens dos deslocamentos às áreas naturais são remotas. O autor aponta o que para ele seriam os três grandes percursores desse movimento, desde uma perspectiva ocidental:

[...] Herodotus was one of the first nature tourists. His extensive travels included visits to the Black Sea, Egypt, southern Italy, Athens and the Aegean Sea. Inference drawn from his remarks show that he was deeply interested not only in history, but also in geography, the natural environment and ancient monuments (such as the pyramids of Egypt). Aristotle also practiced nature tourism. After he failed to become master of the Academy following Plato’s death in 347 BC, he went to the island of lesbos in the Aegean Sea where he spent his time studying marine animals. Other notable precursors of ecotourism include Pytheas, Strabo and Pliny the Elder, all of whom travelled, moved by a desire to see the natural and cultural environments of the world in which they lived.

Em períodos mais tardios, temos os relatos de personagens como Marco Polo, Ibn Batuta, Bernardino de Sahagún, entre outros, cujas narrativas denunciavam as novas paisagens descobertas ao longo de suas viagens. Desde uma perspectiva do naturalismo e das ciências, podemos também citar um grupo de viajantes que que se dedicaram a deslocamentos em direção às áreas remotas, com o objetivo de descobrir, estudar e descrever outras paisagens e seus elementos constitutivos. Entre eles, Charles Darwin, James Cook, Alexander von Humboldt, dentre outros. O século XIX, do qual muitos desses naturalistas empreenderam viagens, foi também um período bastante singular para as viagens aos espaços naturais, pois foi berço da criação do conceito de áreas protegidas. Neste processo, o turismo atendeu como argumento econômico e político para sustentar tal estratégia (CEBALLOS-LAZCURAIN, 1996).

Já o século XX, em particular após a II Guerra Mundial105, o mundo assistiu a um

número cada vez maior de pessoas com acesso ao universo das viagens e com isso tivemos o

desabrochar do chamado turismo de massa106. O desenvolvimento no campo da tecnologia, das

105 Krippendorf (1982) em seu atigo “Towards new tourism policies”, explica de maneira mais clara as associações

entre o pós guerra e o boom do turismo de massa.

106 Urry (1996), em sua obra “O olhar do turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas”, estabelece as

comunicações e dos meios de transporte (em especial da aviação) permitiu que o setor de viagens pudesse estar mais acessível a uma camada cada vez maior da população (HONEY, 2008; DOWLING, 2013). Por conta desse processo de aumento exacerbado de turistas, impactos negativos passaram a figurar nas agendas que se dedicavam ao estudo e à crítica da atividade. Um dos cernes estruturais dessas críticas centravam-se, segundo Fennel (2015), no fato deste tipo de turismo não se dar como um processo endógeno, isto é, protagonizado por atores locais, e, em conseguinte, não gerar os benefícios econômicos e sociais para a população residente, mas sim para as grandes organizações internacionais que atendem a uma agenda de mercado hegemonica.

De fato, os lugares explorados para o turismo, com vistas aos benefícios economicistas, desencadeou um movimento de busca intelectual e reinvenção mercadológica por outras formas de desenvolver a atividade, cunhando uma proposta que ficou conhecida como turismo

alternativo107 (KRIPPENDORF, 1982; WEARING & NEIL, 1999). Wearing e Neil (1999)

argumentam como a proposta, que englobava uma série de segmentações108, tinha o intuito de

promover um turismo oposto aos moldes tradicionais daquele período. Dentre essas premissas estavam o fato da atividade ter como prioridade a preservação e a proteção dos recursos que são base para a mesma; o desenvolvimento dos atrativos que são utilizados, desde uma escala que pudesse melhorar a perspectiva local; a minimização dos impactos no meio ambiente, oriundos principalmente do alto número de visitantes (quando estruturado em alta escala), principalmente nas áreas mais remotas incorporadas pela atividade; assim como uma ênfase não apenas nos elementos naturais, mas também nos culturais que de alguma maneira são impactados pela presença do turismo.

Krippendorf (1982, p. 136) desenvolveu um artigo nesse período onde explanava as bases, desde sua perspectiva, importantes para as novas políticas em turismo. Segundo o autor, a atividade como vinha se desenvolvendo até então, não se sustentaria em detrimento dos próprios impactos ocasionados aos ambientes que, a priori, tinham sido os mesmos a atrair e fomentar a vinda dos próprios turistas. Em suas palavras, “However the mass phenomena of

operária inglesa e a conquista de direitos trabalhistas, tais como a instituição das férias remuneradas e o direito de viajar de trem.

107 A ideia de turismo alternativo configurou um termo genérico que abraçava uma série de propostas que surgiam

em detrimento do diagnóstico dos impactos negativos ocasionados pelo turismo de massa naquele período (FENNEL, 2015).

108 Mieczkowski (1995) distinguiu uma série de formas nas quais o turismo alternativo se desenvolvia, entre elas

figuravam o espectro cultural, educacional, científico, de aventura e rural. Todas essas, para este autor, se opunham ao tradicional turismo de massa, caracterizado pelo seu viés convencional, padronizador e realizado em larga escala (WEARING & NEIL, 1999).

modem tourism have initiated the paradoxical process "Tourism destroys tourism". The landscape loses its tourist value through its use, or rather over-use, by the tourist”. A percepção do potencial negativo resultante da atividade em larga escala poderia ser sintetizada em três principais frentes, segundo o autor. São elas a econômica, a social e a ecológica. Esta última, por exemplo, compreendeu por influência da questão ambiental emergente, que os processos geradores de impactos ao ambiente provocavam cenários de difícil reversão aos estados originais e anteriores ao desenvolvimento da atividade.

Nesse sentido, Krippendorf (1982, p. 144) passou a defender em seus argumentos a necessidade de novas políticas:

This aim implies that new tourism policies will no longer concentrate on economic and technical necessities alone, but will emphasize the demand for an unspoiled environment and consideration of the needs of the people affected, the tourists and the local population. I would call a kind of tourism which fulfils these demands 'soft tourism', and that which obeys purely economic and technical forces, 'hard tourism'.

A proposta inserida no que ele chama de “soft tourism”, congregava essa ideia de um turismo alternativo e propunha, dentre outras coisas, uma atenção maior aos elementos naturais e socioculturais já nas etapas iniciais de planejamento da atividade e não após o seu desenvolvimento e maturação.

Com a emergência reflexiva e empírica de tais questões, nasce no debate acadêmico a proposta do ecoturismo. Apesar da falta de precisão sobre o período exato do surgimento da expressão, teria sido Hetzer (1965) o primeiro autor a fazer referências entre o turismo e meio ambiente, durante seu artigo “Environment, tourism, culture” (CHEIA, 2013; FENNEL, 2015). Nesse trabalho o autor cunhou quatro pilares para o desenvolvimento de um turismo mais responsável, dentre eles: mínimo impacto no meio ambiente; um mínimo impacto e o máximo de respeito pelas culturas receptoras; benefícios econômicos para as comunidades visitadas e a garantia de uma satisfação de recreação para os turistas (DOWLING, 2013; FENNEL, 2015). Apesar desse trabalho precursor, o termo ecoturismo se integrou de maneira mais clara ao debate acadêmico na década de 1980 (CEBALLOS-LASCURAIN, 1996; DOWLING, 2013; FENNEL, 2015). Fennel (2015) aponta que a primeira utilização do termo, no meio científico, tenha sido realizada pelo mexicano Ceballos-Lascurain, no ano de 1983, durante o

desenvolvimento da PRONATURA, uma organização não governamental do México. Naquele período, o autor teria proposto:

Ecotourism is that tourism that involves travelling to relatively undisturbed natural areas with the specific object of studying, admiring and enjoying the scenery and its wild plants and animals, as well as any existing cultural aspects (both past and present) found in these areas. Ecotourism implies a scientific, aesthetic or philosophical approach, although the 'ecotourist' is not required to be a professional scientist, artist or philosopher. The main point is that the person who practices ecotourism has the opportunity of immersing him or herself in nature in a way that most people cannot enjoy in their routine, urban existences. This person will eventually acquire a consciousness and knowledge of the natural environment, together with its cultural aspects, that will convert him into somebody keenly involved in conservation issues.

O ideal da definição presente na fala de Ceballos-lascurain (1983) refletia parte dos pressupostos sobre natureza, no campo científico, existentes naquele período, bem como das necessidades de se repensar alternativas frentes o crescente impacto ecológico denunciado até então. Como podemos observar, a utopia de uma natureza intocada era presente, assim como uma visão romantizada do ambiente natural. Dowling (2013, p. 16) desenvolveu um quadro no qual procurou sintetizar como e em que medida a relação entre turismo e meio ambiente se manifestou no caldo emergente da questão ambiental (tabela 2.1).

Tabela 2.1. As relações entre turismo e meio ambiente.

Fonte: Dowling, 2013.

A década de 1970, como contexto temporal no qual os impactos da atividade turística começaram a ser denunciados e criticados, estimulou, portanto, a construção de reflexões e

alternativas para se repensar a prática e suas possibilidades perante às necessidades vigentes de conservação. É essa integração entre ambos os termos – turismo e conservação – que sustenta a gênese do termo ecoturismo. No entanto, conforme sublinha Honey (2008), em um contexto mais macro e global, o respectivo conceito apresenta também uma grande panaceia, em virtude da série de idealismos presentes em sua composição. Entre eles, podemos destacar a possibilidade de arrecadar financiamentos para a pesquisa científica e para a conservação, a compreensão da atividade como uma ferramenta para a conservação de ecossistemas frágeis e “intocados” – ideal de natureza daquele período -, a geração de benefícios econômicos para populações rurais, a promoção de desenvolvimento de países pobres, a sensibilização do mercado turístico e a promoção de uma consciência mais ecológica perante o planeta.

Esses ideais foram transplantados para as primeiras definições formuladas por estudiosos. Wearing (1996) após analisar uma série destas, observou a presença de quatro elementos centrais. São eles o deslocamento para áreas pouco alteradas e/ou protegidas, a natureza como elemento motivador primordial, o foco desejado na conservação e, por fim, a compreensão de uma dimensão educativa perante os elementos ecológicos entre seus praticantes.

No contexto brasileiro, Paulo Pires (1998) foi o estudioso que fez uma compilação e uma análise conceitual e reflexiva da atividade. Em seu artigo “As dimensões do ecoturismo”, o autor apresentou as definições dos principais atores envolvidos – os ambientalistas, os organismos oficiais, o trade, a academia e os consultores da área – buscando identificar as premissas que envolviam esta modalidade frente à realidade até então praticada. Como resultado, o autor define o que para ele, o ecoturismo deveria englobar para se desenvolver (PIRES, 1998, pp. 86 e 87):

Então o que se tem, antes de mais nada, é um tipo de turismo voltado para a natureza ou turismo baseado na natureza ou, simplesmente, turismo na natureza. A partir então dessa condição fundamental, se estabelecidos outros condicionantes para a prática da atividade - educação ambiental, participação das comunidades locais, mínimo impacto, sustentabilidade...- a mesma, além de turismo na natureza, tornar-se- á ecoturismo. Dessa forma todo e qualquer ecoturismo supõe, antes de tudo, o turismo na natureza, a natureza elevada à condição de motivadora primordial da iniciativa turística, em seu estado natural sem alterações humanas significativas. [grifo do próprio autor]

Contudo, diante da realidade observada naquele período, Pires (1998) também estabeleceu críticas à apropriação do termo “eco” para tipologias de viagens que na prática não compactuavam de forma integral com as premissas estabelecidas pela teoria. O conjunto que, a princípio, deveria embasar a atividade – enfoque em locais de natureza, com a presença e o protagonismo de populações locais; educação ambiental e sustentabilidade nas dimensões sociais, econômicas, ambientais e culturais – não estavam se concretizando na realidade empírica. De fato, a década de 1990 assistiu a uma revisão sobre as utopias criadas ao redor do ecoturismo. Honey (2008) destacou o fato dos cenários práticos apresentarem uma complexidade maior frente as matizes estanques estabelecidas pelos modelos e premissas teóricas e ideológicas.

Para exemplificar, a autora relembrou alguns casos como o das Ilhas Galápagos, “Begining in the 1990s, there were an alarming reports that the Galapagos Islands – a unique ecosystem and one of the world’s fragile most fragile, often cited as the place were ecotourism began – was being permanently altered by an uncontrolled influx of tourists, immigrants, and commercial fishermen.” (HONEY, 2008, p. 5). Impactos também foram observados na paisagem norte americana. Pioneiro no estabelecimento de parques nacionais, o país teve um aumento de 33 % na demanda por esses espaços, entre os anos de 1980 e 2000. O Parque Nacional de Grand Canyon, o segundo mais visitado chegou a atrair uma média de 4,5 milhões de turistas na década de 1990. Como resultado eram observados uma série de impactos não desejados pela literatura da área, como toneladas de lixo, engarrafamento nas vias de acesso e música alta (HONEY, 2008; FENNEL, 2013).

Para além dos impactos negativos no espaço físico, a literatura identificou um processo de marginalização das comunidades locais residentes nas intermediações dessas áreas (FENNEL, 2013). Honey (2008, p. 103) destaca que durante a década de 1990, as principais agências e os órgãos internacionais de fomentos ao ecoturismo por vezes ignoravam uma contradição central no desenvolvimento da atividade, “they continue to advocate both community-based ecotourism and open trade and investment markets as if the two fit seamlessly together.”. Este fato resultou em impactos que podem ser sintetizados em três grandes frentes.

São elas a negligência do envolvimento e da autonomia das comunidades locais frente aos processos decisórios de implantação e gestão da atividade, a elitização deste segmento de viagem e uma ausência de sensibilização e conscientização dos turistas perante a importância

dos recursos naturais e dos valores culturais associados ao mesmo, na escala do território visitado. Esses efeitos, nas palavras de Sharpley (2009), resultaram em uma apropriação da natureza como mercadoria de consumo por grande parte do público praticante, influindo em possíveis questionamentos acerca da veracidade da fronteira entre os turistas de massa e os ecoturistas.

Alguns autores brasileiros, do campo da geografia e da antropologia, ajudam-nos a compreender as possíveis razões pelas quais o ecoturismo se deparou com antagonismos entre sua proposta e a prática observada.

Cruz (2003) estabelece relações semelhantes àquilo que Honey (2008), em uma perspectiva internacional, colocou. Para a autora, o interesse ao redor dos ambientes naturais e

do resgate da natureza foi orientado por iniciativas público e privadas109 de proteção dos

recursos naturais. Como resultado, apesar do discurso contrário ao turismo de massa, a atividade viu-se inserida em um contexto mais amplo de cultura de massa, uma vez que é esta a que escolhe as paisagens mais atrativas, segundo um ideal hegemônico de estética e de padrões de consumo. Como exemplos desse cenário, podemos ressaltar a diferença nos padrões de valorização estética de biomas brasileiros.

Em um artigo publicado no periódico “Turismo em Análise”, a geógrafa Teresa Paes – Luchiari (2000) utilizou-se da abordagem da mitificação de lugares naturais pelo turismo para

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