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SECTION 1 - Présentation du programme

2. La présentation générale du programme

2.2 Les buts du programme

A maioria das mulheres participantes se declaram como trabalhadoras e no exercício de diferentes funções, sendo que muitas, como apontando anteriormente, são qualificadas a nível superior. Nestas condições, observa-se que o ambiente de trabalho é um espaço produtor de inúmeras violências de gênero, dentre as quais, a violência moral sobressai-se como frequente e capaz de produzir intensos sofrimentos e inclusive rupturas, simbolizadas pela desistência do emprego:

“[...] vítima de perseguição sexista e assédio moral no trabalho e tive que abandonar meu cargo de diretora de um departamento, pois eram cinco diretores homens e somente eu de mulher, minhas opiniões eram constantemente desconsideradas e minha autoridade ignorada! Não suportei tanta pressão e sai do cargo!”

“Sofri vários tipos de violência ao longo da minha vida e da militância. Desde ameaça a mim e a meus filhos até violência obstétrica no parto. Ainda sofro violência moral e institucional por avaliarem as minhas propostas como menores em relação às demais. Na infância fui vítima de violência sexual por um primo mais velho.”

“Meus chefes me assediaram moralmente, psicologicamente, e até sexualmente [...] Meu avô me bolinava regularmente. Meu companheiro e ex companheiro me exploram financeiramente [...]”

“Embora com renda financeira e melhor nível de educação sofria com a superioridade de meu esposo simplesmente por ser homem [...]”

“Difícil passar ilesa por uma sociedade machista, moralista e excludente.”

“[...] a discriminação por ser mulher no ambiente de trabalho [...] próximo a assédio moral praticado tanto por superiores do sexo masculino como por colegas mulheres.”

“Assédio moral no trabalho, com frequência, por chefe homem.”

“Já fui assediada moralmente no local de trabalho [...]”

Nestes relatos é perceptível que a reprodução de violências e assédios se desenvolve também por mulheres, situação que ratifica a importância do desenvolvimento prático e apreensão do conceito de lugar de fala, proposto por Djamila Ribeiro (2017). Em seu livro, “O que é Lugar de Fala?”, a autora demonstra a impossibilidade de “se colocar no lugar do outro”, recurso comumente utilizado a fim de promover o processo de empatia para o entendimento da realidade do outro.

O exercício de empatia, mais que um recurso afetivo, é principalmente, uma construção intelectual30 que requer a compreensão do que é lugar social, demanda esforço e disponibilidade para aprender e ouvir, em um processo que se aproxima do pensamento de Paulo Freire em relação a transformação da realidade a partir da união entre consciência e prática. Assim, mais empático um sujeito será quanto maior conhecimento da realidade e suas opressões ele tiver (BERTH, 2019), em um processo que demanda compreender, portanto, quais grupos foram e são historicamente legitimados a falar e de que lugar, portanto, determinados grupos falam (ou não).

Sendo assim, como mulheres, é fundamental que possamos compreender que enquanto grupo vivenciamos opressões que são comuns. Entretanto, somos diferentes umas das outras e essas diferenças produzem lugares de partida também diferentes. Nesse sentido, demarcar estes lugares, implica em produzir condições para que possamos questionar, nos comprometer e visibilizar os diversos modos de ser mulher, bem com as desigualdades e deslegitimidade discursiva e existencial que certos grupos de mulheres, negras sobretudo, enfrentam (RIBEIRO, 2017).

A partir desta compreensão, portanto, é possível exercitar o processo de empatia, que requer tanto percepção da realidade marcada por opressões estruturais e estruturantes, quanto a escuta das narrativas de grupos diferentes dos quais pertencemos, tal como a percepção de si a partir desta escuta, pois, deste modo é possível se questionar e responsabilizar enquanto mulher

30 Precisamos promover uma coexistência ao nosso redor. RIBEIRO, D. 2018. Disponível em:

pertencente a um grupo privilegiado no reconhecimento destes privilégios, do lugar de poder ocupado e no compromisso em não reproduzir opressões e discursos contra grupos de mulheres que não acessam as mesmas condições sociais e, portanto, possibilidades de reconhecimento enquanto humanas, com direito a cidadania e oportunidades.

Os privilégios das mulheres da Saúde Coletiva se explicitam em seus processos identitários. Ao se autodeclararem majoritariamente mulheres brancas, cisgênero, heterossexuais e com nível superior completo. Condição que evidencia a permanência da branquitude em espaços de poder (por exemplo, aqueles que exigem acesso à formação técnica e superior) e a dificuldade da população negra em acessar e manter-se como pertencente a este espaço institucional e acadêmico, visto que este retrato das mulheres atuantes na Saúde Coletiva, revela o baixo índice de mulheres pardas, pretas e indígenas que se graduaram.

Ocupar espaços privilegiados, entretanto, não as livram de estarem expostas a situações de violência (por sua implicação de gênero), mas ainda assim, as colocam em condições diferenciadas para vivenciar e enfrentar essas violências (quanti e qualitativamente), quando comparadas com outras minorias atravessadas por outros aspectos interseccionais, como a classe social, a raça e a orientação sexual.

Ainda no que se refere ao conceito de lugar de fala, de que forma seu papel como profissional de saúde pode interferir para produzir deslocamentos no cenário da violência de gênero? Esse papel a deixa mais vulnerável ou mais empoderada para se relacionar com o tema? Considerando-se o proposto por Berth (2019) e Ribeiro (2017), é possível apreender que maiores e melhores condições de acesso à informação, ampliam concomitantemente o acesso a recursos e conhecimentos produtores de fortalecimento e que favorecem o processo de empoderamento. Assim sendo, como transformar a realidade com base neste maior aporte de recursos? Como se implicar no processo de análise crítica da realidade e dos privilégios da branquitude? Como contribuir para que mais mulheres e grupos marginalizados possam vivenciar processos de protagonismo, em que sejam atuantes e não apenas objetos de estudo?

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