A short description of the legal sequences:
MESSAGE PARITY ERROR
7. General Exception Handling
7.6. Bus Parity Error Handling
Publicou-se O Mandarim em 1880, primeiro em folhetim no Diário de Portugal e, ainda no mesmo ano, com algumas alterações a acrescentos, em volume. Esta obra do género fantástico e humorístico abre com estas palavras de implícita ironia, num pequeno prólogo constituído por uma réplica de dois amigos em registo teatral: «repousemos do áspero estudo da realidade humana… partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas onde se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as ruínas do Idealismo… Façamos fantasia!...». A isto responde o segundo amigo: «mas sobriamente, camarada, parcamente! (…) Misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta…»191
O Mandarim de Eça de Queirós seria, se não uma queda ou irresistível fuga para o sedutor imaginário fantasista pessoal, uma primeira amostra da «rebeldia ao naturalismo». E não tanto por imaginar uma China que estava bem longe da observação do autor – pois até voltou o diabo ao imaginário do escritor. Naturalmente que, para o crítico coevo Reis Dâmaso, «naturalista ortodoxo», O Mandarim presentava «um abuso literário» lamentável que traía o compromisso inerente ao percurso anunciado no Padre Amaro e n’O Primo Basílio e, portanto, Eça estava a «retrogradar.»192 Isto apesar da tese de jeito naturalista da primeira
parte, com abundante ironia: Teodoro é a personagem central que, oriundo do Minho, fez a universidade, ‘certamente decorando a sebenta’, e depois se integrou perfeitamente na sociedade lisboeta, em consequência de uma natural correspondência do seu amolecido temperamento e hábito de submissão com o ambiente mental e social da capital. Lisboa e Teodoro, Teodoro e Lisboa,
191 Quando escreveu O Mandarim, Eça tinha em mãos A Capital e Os Maias. Por não estarem prontos
para publicação os prometido folhetins de Os Maias é que Eça se sentiu obrigado a oferecer O Mandarim aos leitores do Diário de Portugal, do seu amigo e companheiro de Coimbra Lourenço Malheiro, que se refere ao conto como sendo «um formoso capricho fantástico» resultante do «exuberante e multíplice talento de Eça de Queirós». (Cf. O Mandarim, ed. Beatriz Berrini, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1992, p. 19).
166
caracterizam-se aqui pela mediocridade, superstição, supina ambição luxuriosa, bajulação sistémica – «Enguiço era com efeito o nome que me davam na casa – por eu ser magro, entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter à cabeceira da cama uma litografia de Nossa Senhora das Dores que pertencera à mamã, e corcovar. (…) Esta atitude, de resto, convém ao bacharel». E ainda: «Eu pertenço à classe média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora das Dores: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil réis, implorei a benevolência do senhor deputado; igualmente para me subtrair à tísica, à angina, à navalha de ponta, à febre que vem da sarjeta, à casca de laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males públicos, necessito ter uma protecção extra-humana.»193
Descolando do ambiente do romance social, Eça sobrepõe à cidade observável de Lisboa as ‘cidades invisíveis’ da imaginação – o visualismo da descrição de Pequim é fascinante e recria a capital do império do sol nascente de um modo que, sem perder os seus referentes icónicos, passa a ter uma existência autónoma no livro, uma existência literária imaginária pela literatura. Mas até nesta obra de imaginação, Portugal não está ausente, e não apenas Lisboa pequena burguesa – espaço de movimentação de Teodoro –, mas como tópico inevitável da narrativa queirosiana: o general chinês, condescendentemente, diz para Teodoro: «Portugal é um belo país!». Ao que responde o português, exclamando ‘com secura e firmeza’: «É uma choldra, general.»194 Mas uma choldra que é, afinal, o ambiente
natural e acolhedor de Teodoro que não descansa enquanto não volta ao conforto da «Repartição, de espinhaço curvo.»195
Apesar da advertência inicial da obra, O Mandarim não é apenas produto de fantasia de costas voltadas para o naturalismo em que se tinha instalado o autor de O Primo Basílio. O Mandarim balanceia suspenso na atmosfera de efabulação romântica de que Eça, verdadeiramente, nunca se desliga, e o olhar em picado de formação realista-naturalista que se inculcou no seu processo crítico de escrita com que configura o ambiente social lisboeta em que se move o protagonista Teodoro, e que o condiciona psicologicamente e modela mentalmente, amesquinhando-o, no
193 Ibidem, pp. 83 e 89. 194 Ibidem, p. 153. 195 Ibidem, p. 189.
167
seguimento do processo anterior da sua formação, aliás, e no calorzinho pachorrento de Lisboa. Acresce ainda que O Mandarim é a primeira peça eciana com uma estrutura claramente assente na dicotomia dialéctica que será essencial nas obras subsequentes e cujo desenvolvimento e relevância ficou bem documentado e demonstrado por Ana Nascimento Piedade no seu estudo sobre Ironia e Socratismo em A Cidade e as Serras.
Nos romances realistas antes publicados por Eça, a oposição crítica de um ou outro personagem é sempre excepcional e individual, nunca é estrutural, e por isso não chega a constituir-se como força dialéctica: Amaro e Luísa não se confrontam com um mundo que se lhes opõe, antes são absorvidos por esse mundo. Foi Guerra da Cal quem viu que «a estrutura d’O Mandarim anuncia um processo de composição que o autor desenvolveria na sua obra posterior: a confrontação antitética de dois mundos. Dum lado o Portugal do Constitucionalismo, satiricamente desvalorizado – e do outro, cosmos de evasão estética, geográficos ou históricos, liricamente estilizado, com subtil ironia poética. Aqui é o exotismo asiático da China – velho tema português; n’A Relíquia será a Judeia mítica, e, na Casa de Ramires, a Idade Média Lusitana. A dinâmica d’O Mandarim apoia-se na mecânica da viagem – outro recurso favorito da arte eciana.»196
Apresentado como passageiro exercício criativo, este ambiente de cedência fantasista de O Mandarim permanece, no entanto na obra eciana. E em 1884 quando se publicou em volume O Mistério da Estrada de Sinta, Eça reconhece, melancolicamente recordando os anos de juventude, ventura e idealismo: «para os que na idade madura foram arrancados pelo dever às facilidades da improvisação e entraram nesta região dura das coisas exactas, entristecedora e mesquinha, onde, em lugar do esplendor dos heroísmos e da beleza das paixões, só há a pequenez dos caracteres e a miséria dos sentimentos, seria doce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs de sol, ao voltar da Primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a dourada abelha da fantasia.»197
196 Apud «O Mandarim», in Dicionário de Eça de Queiroz, ed. cit., pp. 851-853.
197 Carta-prefácio ao editor de O Mistério da Estrada de Sinta, apud Ana Nascimento Piedade,
168
Ainda em 1884, Eça de Queirós escreve uma outra carta-prefácio, para a publicação em francês de O Mandarim na Revue Universelle Internationale, de Paris, onde deixa importantes considerações de ordem estética.198 Afirma nesse
texto que esta «modesta» novela resultava de um exercício de «licence esthétique», pois se desviava relativamente à corrente estético-literária dominante mas que, em todo o caso, representava bem a tendência do gosto português. Paradoxalmente, detecta nesse desvio fantasista ao realismo razões que bem poderiam ser consideradas da ordem da observação realista: o natural temperamento dos portugueses, esse povo meridional, emotivo, habitando num recanto soalheiro do mundo, dado à fantasia, muito idealista e lírico, gostando de tudo envolver em azul, preferindo os enamoramentos celestiais, que dispensava a tortura da análise, a impertinente tirania da realidade. A transcrição das palavras de Eça é aqui insubstituível: «une belle phrase nous plaira toujours mieux qu’une notion exacte. (…) Toujours nous considérerons la fantaisie et l’éloquence comme les deux signes, et les seuls vrais, de l’homme supérieur. (…) Des idées juste, exprime dans une forme sobre, ne nous intéressent guère: ce qui nous charme, ce sont des émotions excessives traduites avec un grand faste plastique de langage.»199.
198 As cartas públicas de um escritor (e também a correspondência privada – ‘até as contas do alfaiate
interessam’… pois que, ‘se não aumentam a sua glória», servem «para alargar e completar o conhecimento» desses grandes homens – Eça de Queirós, Textos de Imprensa, apud A Correspondência de Fradique Mendes (Memórias e Notas), p. 31, nota 25), as crónicas sobre o estado da arte, os textos prefaciais em geral, e os de Eça em especial, permitem uma leitura programática que ilumina o seu percurso poético-estético. Em Eça, são cruciais os prefácios de O Mandarim francês (1884), do Azulejos do Conde de Arnoso, d’O Brasileiro Soares de Luís de Magalhães (1886), e d’As Aquarelas de João Dinis (1889). Sobre o texto de 1884, v/ A. Campos Matos, «A propos du Mandarin. Lettre qui aurait dû être un préface», in Dicionário de Eça de Queiroz, ed. cit., pp. 129-131.
199 «A propos du “Mandarim”. Lettre qui aurait dû être une préface», in O Mandarim, Lisboa, Imprensa
Nacional – Casa da Moeda, 1992, p. 197. Não esquecendo nunca o disfarce da sua ironia muito pessoal, que impede uma leitura inocente, à letra, é interessante ver como o também português José Maria Eça de Queirós se olhava, comparativamente aos seus compatriotas, aqui numa expressão que funde o homem e a sua obra literária (pois um escritor é essencialmente a sua obra): «Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada. Em tudo o mais, francês, de província. Nem podia ser de outro modo: já no Pátio da Universidade, já no Largo do Rossio, eu fui educado, e eduquei-me a mim mesmo, com livros franceses, ideias francesas, modos de dizer franceses,
169
Esta carta não chegou a Paris a tempo de prefaciar O Mandarim, mas constitui um documento de grande importância para se perceber o circuito poético- estético queirosiano, como bem nota Ernesto Guerra da Cal: «Quando Eça escreveu estas linhas a sua libertação das normas doutrinais do realismo já estava bastante adiantada pois, embora tivesse começado Os Maias em 1880, não os terminou nem os publicou até 1888, quando já havia vindo a lume O Mandarim e A Relíquia. A declaração estética que denuncia a sua incompatibilidade íntima com o ‘documento humano’ e a sua entrega consciente ao lirismo e à fantasia, é de 1884 [precisamente a data da carta francesa de O Mandarim].»200 Diz ainda o autor de
Língua e Estilo de Eça de Queiroz: «A partir do seu abandono da ortodoxia do realismo – que nele foi sempre mais teórica do que prática –, seu ‘eu’ artístico mais recôndito e autêntico, o mais inalienável, o ‘dos poemas em prosa’ da Gazeta de Portugal, o que sempre se encontrara vagamente incómodo na exigente descrição das ‘formas várias da baixeza humana’, começa a aflorar novamente no estilo.»201
E esse ‘eu’ artístico de Eça de Queirós é, essencial e intimamente, lírico e fantasista.
Procurado delimitar, dentro das possibilidades do convencionalismo periodológico, mas de modo fundamentado, o período do chamado Último Eça, é neste «Prólogo» para O Mandarim que Ana Nascimento Piedade vê também uma convencionada linha de partida desta terceira fase que depois se manifesta plenamente n’A Correspondência de Fradique Mendes, A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras, todas obras semipóstumas.
O salto para a esfera da imaginação e do maravilhoso, ocorre precisamente com esta pequena novela de O Mandarim¸ à qual, à cautela, na sua correspondência, Eça de Queirós não parece dar grande importância, como se não fosse texto para levar muito a sério, mas apenas um exercício de súbita liberdade estética saído da pena do autor já conhecido do Padre Amaro e do Primo Basílio. O Mandarim, escrito de jacto num período de férias, foi publicado Diário de Portugal, em Julho de 1880.
sentimentos franceses, e ideais franceses». (Carta a Oliveira Martins, 10 de Maio de 1884, in Correspondência, p. 52).
200 Ernesto Guerra da Cal, Língua e Estilo de Eça de Queiroz, p. 351, nota (24). 201 Ernesto Guerra da Cal, op. cit., p. 317.
170
Uma década decorrida, Eça dirá, com graça e certamente lembrado da experiência de O Mandarim: «O positivismo científico considerou a imaginação como uma concubina comprometedora de quem urgia separar o homem – e apenas se apossou dele, expulsou duramente a pobre e gentil imaginação, fechou o homem num laboratório a sós com a sua esposa clara e fria, a razão. O resultado foi que o homem começou a aborrecer-se monumentalmente e a suspirar por aquela outra companheira tão alegre. (…) E um dia não se contém, arromba a porta do laboratório, espanca o Sr. Aulard, que o guardava, e corre aos braços da imaginação, como quem larga a vaguear de novo pelas maravilhosas regiões do sonho, da lenda, do mito, do símbolo.»202
Terá sido no mesmo ano de O Mandarim que Eça deu início à escrita de uma outra obra, nascida sobre o esquema ‘deturpado’ do Realismo-naturalismo mas trespassada pela dimensão fantástica e forte ironia subversiva: A Relíquia. É uma obra híbrida também pela posição que ocupa no percurso estético queirosiano. Originariamente um conto, A Relíquia foi várias vezes revista antes da publicação em 1887. Apesar deste longo período de maturação – durante o qual toda a atenção se voltava para Os Maias – o romancista não terá ficado plenamente satisfeito, como se depreende pela confidência a Luís de Magalhães: «falta-lhe ser atravessado por um sopro naturalista de ironia forte, que daria unidade a todo o livro. (…) O único valor do livreco está no realismo fantasista da Farsa.»203
Na respeitada opinião de Ernesto Guerra da Cal, «Eça lançou-se nesta obra em busca de uma nova estética mais de acordo com as exigências imaginativas do seu temperamento do que com o realismo de escola. Fatigado da observação, solicitado já pelo lirismo, já pelo instinto de deformação cómica, entrega-se à invenção irrealista – dentro porém das fronteiras poucos rígidas da realidade artística.»204
Esta é talvez a obra de Eça que mais divergência suscita na crítica. O farsante Teodorico Raposo não chega a produzir o efeito moral que o realismo desejaria – a tal «lição forte» ao abrir da obra – não explora até ao limite a fantasia
202 «Positivismo e Idealismo», in Notas Contemporâneas, pp. 253-257. 203 Carta a Luís de Magalhães, 2 de Julho de 1887.
171
que pede a coerência do seu retrato psicológico – como aliás o próprio autor reconhece ao dizer que Raposão, em vez «de se deixar assombrar pela solenidade histórica, devia rir-se dos Judeus e troçar dos Rabis.»205
A larga fortuna d’A Relíquia é conhecida. A sua epígrafe tornou-se numa espécie de ex-libris do autor, e foi gravada no soco da escultura marmórea alvacenta – a original, entretanto guardada devido a constante vandalismo, não a réplica de bronze, hoje exposta – de homenagem a Eça de Queirós, do escultor Teixeira Lopes, inaugurada em 1903, no Largo Barão de Quintela, em Lisboa: «Sobre a nudez forte da Verdade – o manto diáfano da Fantasia».206
Para Gaspar Simões, O Mandarim e A Relíquia são manifestações da evidente «heterodoxia realista» de Eça de Queirós face à «ortodoxia naturalista» que marcou O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e outras obras desta fase, que o escritor guardou na gaveta, tendo sido levadas ao prelo postumamente, designadamente A Capital e A Tragédia da Rua das Flores.
Procurando mostrar o predomínio da dimensão fantástica na obra de Eça de Queirós, Maria do Carmo Sequeira considera O Mandarim uma obra referencial por ser a primeira em «obediência maior a um modelo de construção fantástica», que depois se vai alargando na obra subsequente. Defende, aliás, que no âmbito da «estética previsível» realista, Eça sempre se revelou com um «estatuto de diferenciação», pois a sua passagem pela escola seria «passageira e episódica.»207
Deste modo, o que ficará documentado na sua obra é uma extraordinária versatilidade, e subjectividade criadora, permanecendo capaz de manter, através da imaginação, “significações perdidas” que, instaladas na superfície ou na profundidade do texto, restabelecem formulações de um imaginário romântico, apreendidas de formas variadas, uma das quais, e que nos importa aqui ressalvar, será a de um original e polifacetado universo fantástico.»208 Conclui defendendo
que «a parte dita naturalista da [sua] obra é bem mais pequena e conturbada do
205 Carta a Luís de Magalhães, 2 de Julho de 1887.
206 Vide Ana Nascimento Piedade, «A Estátua de Eça de Queirós em Lisboa: entre a nudez forte da
verdade e o manto diáfano da fantasia», in Outra Margem…, pp. 95-107.
207 Maria do Carmo Castelo Branco de Sequeira, A Dimensão Fantástica na Obra de Eça de Queirós,
p. 203.
172
que se acredita» porque, em grande medida «as marcas de irrealidade (…) interseccionam verdadeiramente toda a obra queirosiana.»209
Mas a dimensão fantástica da obra de Eça de Queirós, vista por vezes como remanescência romântica, talvez seja menos continuidade do que inovação porque, como constata Eduardo Lourenço, «até Eça, nós não tínhamos tido nenhuma inclinação para o fantástico»210, que é, naturalmente, outra (ir)realidade diferente
da que nos oferece o primeiro romantismo com a sua imaginação românico-gótica. Isto não invalida afirmar que «a ficção de Eça de Queirós conserva as marcas desta vivência do tempo próprio do Romantismo, não apenas como obra fascinada pela tentação, mal disfarçada pelo seu carácter paródico, de se instalar em épocas onde tudo era ainda como que imune à desilusão dos tempos modernos ou, ao contrário, de se imaginar alegoricamente, em tempos – lugares utópicos, como sucedâneos de sonho do velho e para sempre perdido Paraíso.»211