da entrevista
Mesmo que procurando respeitar a subjectividade valorativa e a não - realização de juízos de valor, não deixa de censurar, mesmo que discre- tamente, a ausência de afectividade face à vivência da sexualidade Veiculação de alguns dos seus Valores pessoais associados ao preser- vativo, contextualizando este com uma reduzida afectividade e/ou pro- miscuidade (imagem negativa).
Quadro IV - Síntese da análise qualitativa vertical (entrevista e aula) do Professor - Colaborador 1
"Os Valores e a Ética do professor na abordagem da contracepção: da visão particular à sala de aula"
3.3.3 A n á l i s e vertical d o P r o f e s s o r - c o l a b o r a d o r P2
I. Aspectos em que se observam consonância entre os pontos expressos na entrevista e os processos observados em contexto de sala de aula
l.l. Convergências ao nível da Nova Filosofia da Ciência/Aprendizagem sócio - construtivista
Ponderando a postura da docente face à diversidade de opiniões em Ciência, é possível constatar uma persistência dos seus pontos de vista - expressos na entrevis- ta - no decurso da aula. P2 encara a actividade e o conhecimento científico como objectivos, produtores de resultados socialmente reprodutíveis e aplicáveis, indepen- dentemente do contexto, motivo que permite compreender que, na entrevista, manifes- te incompreensão - mesmo espanto - quando confrontada com as diferenças nas taxas de sucesso na utilização do preservativo em laboratório e em contexto real. Segundo o seu ponto de vista, a diversidade de opiniões em Ciência não resulta de factores humanos inerentes à produção científica, como as diferenças de opinião ou de interpretações acerca de factos, mas apenas em resultado da existência de pres- sões sociais (de índole institucional e comercial) impedirem os cientistas de serem totalmente objectivos. Portanto, apenas por um incumprimento ético dos agentes da Ciência é que o conhecimento por esta produzido não pode ser considerado totalmen- te objectivo. Face à opinião anteriormente expressa, compreende-se que considere a incerteza e a diversidade de opiniões associada ao conhecimento científico como indesejável, pois implica uma redução da credibilidade desse mesmo conhecimento junto dos alunos, aumentando os seus níveis de incerteza. Por este motivo, a docente
menciona preferir optar previam* ite por ur.~ posição (a defesa do preservativo, embora alertando para a sua não absoluta eficácia), em vez de confrontar os alunos com a diversidade de posicionamentos da comunidade científica acerca deste método contraceptivo.
Na aula, actua de acordo com a posição expressa na entrevista, não explorando a diversidade de opiniões no seio da comunidade científica, muito embora os textos for- necidos aos alunos (preparados a partir dos documentos fornecidos, na entrevista, ao docente) apresentem diferentes posições desta acerca do preservativo (a diversidade de opiniões com que os alunos são confrontados tinha já sido reduzida, recorde-se, com a docente a dividir a turma em dois, sendo que cada 1/2 analisava apenas um dos textos, homogéneo nas suas posições em ordem ao preservativo). Esta atitude preva- lece na discussão com os alunos, não procurando explorar, trazer para o debate as
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eventuais diferentes opiniões dos alunos que exploraram textos diferentes, com distin- tos pontos de vista, sobre o mesmo assunto: a eficácia do preservativo na prevenção das DST's. O debate decorre de um modo rápido, procurando apenas a formulação de uma resposta a cada uma das questões feitas, sem uma preocupação visível com a clarificação valorativa e/ou ética das respostas dadas ou em auscultar a eventual diversidade de posições acerca da mesma. Essa ausência de preocupação em pro- mover uma discussão mais aprofundada é ainda perceptível quando a docente aceita - e veicula como correcta - respostas dadas pelos alunos que se limitam a ser trans- crições de zonas de um dos textos fornecidos, sem buscar o contraponto nos alunos que exploraram o texto com um posicionamento diferente. Deste modo, ocorre tam- bém uma desvalorização (ou não exploração) do modo como cada sujeito (aluno) interpreta a informação que lhe é disponibilizada e a mobiliza na formulação de opi- niões próprias, reduzindo-se ainda mais a diversidade de opiniões em debate. Ao lon- go da aula, torna-se perceptível a influência do posicionamento epistemológico da docente em ordem à objectividade do trabalho científico, através do modo como na sala de aula é (ou não é...) explorada e analisada a variedade e diversidade de posi- ções acerca da eficácia de um método contraceptivo, o preservativo, que é, simulta- neamente, um produto da Ciência. Não existe, também, uma abordagem dos Valores e das questões Éticas passíveis de serem associadas à utilização do preservativo, em parte resultante da não abertura da discussão a aspectos externalistas da produção científica e uso social dos produtos da Ciência, que poderia permitir a inserção (na discussão) e ponderação de opiniões diversas sobre o assunto em debate (a eficácia do preservativo).
A sintonia entre pontos de vista expressos e observados na sala de aula prosse- gue ao nível da Concepção de conhecimento, ponto que revela, de um modo claro, como as concepções epistemológicas do docente se espelham na abordageip educa tiva junto dos alunos. No seguimento do ponto anterior (Diversidade de opiniões em Ciência), constata-se que o professor- colaborador n.°2 (P2) não estabelece uma dis- tinção entre produtos da Ciência e uso humano dos Produtos da Ciência, deixando de parte a consideração pelos factores externalistas que possam afectar o uso humano dos produtos da Ciência, e estabelecendo uma similaridade entre conhecimento em si e conhecimento em acção, como sendo uma e a mesma coisa, pois considera o conhecimento científico como objectivo e claro. Esta concepção assume desde logo reflexos no modo como encara e planifica as actividades educativas, valorizando o conhecimento em si e e a veiculação de informação no processo de Educação para a Sexualidade, salientando as fichas informativas como a sua ferramenta didáctica favo- rita. Aliás, das posições de P2 é possível percepcionar um maior enfoque no conheci- 1X4
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mento dos conteúdos e não tanto no desenvolvimento de competências e na funda- mentação ética e valorativa de comportamentos. Na aula, o enfoque é dado à clarifica- ção da informação, centrando a discussão na formulação de respostas certas às ques- tões formuladas, relegando para um plano secundário (e mesmo ausente) a promoção de discussões e de reflexão, assim como o confronto (e a eventual conjugação na formulação de respostas) das diversas opiniões decorrentes do modo singular como cada indivíduo adquire e mobiliza o conhecimento. A não distinção entre conhecimento em si e conhecimento em acção é também patente na ausência de debate, com os alunos, acerca das diferentes taxas de eficácia do preservativo em diversos contextos de uso humano e a sua comparação com os Valores obtidos laboratorialmente.
Este último exemplo é também tradutor do modo como a docente se posiciona quanto à influência dos factores humanos na aplicação social dos produtos da Ciência. Na entrevista revelava a ausência de uma imagem da Ciência como actividade huma- na, dissociável de quem, quando e onde é realizada. A ausência da tomada em conta de aspectos extemalistas da actividade científica permite contextualizar as dificuldades que revela em compreender determinados problemas sociais associados a produtos da Ciência, como as já mencionadas diferenças nas taxas de eficácia no uso do pre- servativo. P2 procura interpretar estas-apenas em resultado de um défice de informa- ção ou "inconsciência" , não tomando em linha de conta outras componentes huma- nas, susceptíveis de interferir nos resultados da aplicação dos Produtos da Ciência. Aliás, esta ausência de tomada em conta das componentes humanas em ordem à Ciência e seus produtos é perceptível também quando considera que as diferenças de opinião na Comunidade Científica se devem apenas à existência de pressões sociais pouco claras (de cariz económico e institucional) que impedem a sua total objectivida- de.
Estás ideias prosseguem r> s m expressão no contexto da aula, que decorre com uma discussão centrada na ideia de que os produtos da Ciência são eficazes, inde- pendentemente do seu contexto de uso (não sendo por isso necessária qualquer dis- cussão acerca da sua contextualização ou papel social...), falhando apenas em resul- tado de um défice de informação ou em resultado de defeitos de fabrico. A falta de informação é o único aspecto abordado na discussão com os alunos como susceptível de influenciar as taxas de eficácia do preservativo, não sendo abordados outros facto- res, como Valores, princípios Éticos e afectos. A não tomada em conta de factores antropológicos na aplicação social dos produtos da Ciência é ainda perceptível pela ausência de debate em torno da diversidade de opiniões no seio da comunidade cien- tífica acerca do preservativo (e das consequências sociais daí advenientes), bem como pelo modo como a docente não busca a expressão de ideias, das opiniões dos
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