18 No entendimento de Nietzsche, como afirma Scarlett Marton, “Kant não hesitou
em delimitar o campo de atuação da razão, excluindo de seu alcance o domínio moral, para torná-lo irrefutável, pois incompreensível” (2010, p.115).
19 JGB/BM, § 5.
20 De acordo com Érico de Oliveira, já na Gaia Ciência Nietzsche denunciava a
intenção kantiana de promover o discurso popular ao patamar de fundamento metafísico: “– Kant quis demonstrar, de maneira chocante para ‘todo o mundo’ que ‘todo o mundo’ tem razão – eis a secreta pilhéria dessa alma. Ele escreveu contra os eruditos, em favor do preconceito do povo, mas para eruditos, não para o povo” (FW/GC, § 193).
21 OLIVEIRA, 2010, p.175.
22 JGB/BM, § 11. Para este § 11 de Além do bem e do mal, utilizamos a tradução de
Rubens Rodrigues Torres Filho encontrada no livro Ensaios de filosofia ilustrada, p.31-33.
essência de nossa espécie, mas que acaba objetivada na “impureza” transcendental do imperativo categórico23, tudo isso em um tempo, tal como assinala, “quando ainda não se sabia evitar de confundir ‘achar’ e ‘inventar’!24”
Neste contexto, Nietzsche assinala que a psicologia do final do século XIX não ousou descer às profundezas por estar presa a preconceitos morais que penetraram no mundo mais espiritual, tal como escreve:
A força dos preconceitos morais penetrou profundamente no mundo mais espiritual, aparentemente mais frio e mais livre de pressupostos – de maneira inevitavelmente nociva, ofuscante, deturpadora25.
Nesse sentido, a faculdade dos juízos sintéticos
a priori
, em consonância com as exigências do cristianismo, parecem incluir-se nestes preconceitos morais indicados por Nietzsche, uma vez ao mesmo tempo em que estesacrifizio dell’ intelletto
tornou as coisas mais cômodas e alegres para os corações necessitados de devoção e conservação, acabou contribuindo para que a psicologia do período se tornasse mais superficial, deixasse de ser o caminho para os problemas fundamentais e, consequentemente, perdesse o título de rainha das ciências.Avançando nesta vereda encontramos, na primeira dissertação da
Genealogia da Moral,
mais uma referência à psicologia. Ali, após sugerir falta de valentia e de desejo de verdade nos “psicólogos ingleses”, Nietzsche assinala que estes microscopistas da alma estão23 Nesse sentido, Rubens Rodrigues Torres Filho assinala que para Nietzsche a
questão é pensar “o transcendental como um desarraigamento da terra que não leve a enraizar-se em nenhum sobrenatural, um supra-sensível em que esse “supra” não indique nenhum lugar; não ceder às ilusões topológicas do pensamento objetivante que projeta espaços além do mundo ou, em suma, poder ler a palavra utopia em sua etimologia mais estrita (ouk topos); pensar o transcendental, literalmente , em sua ‘pureza’, sem nenhum ‘idealismo objetivo’, sem nenhum ‘imperativo categórico’[...] (TORRES FILHO, 1987, p.49).
24 TORRES FILHO, 1987, p.49. 25 JGB/BM, § 23.
presos ao erro de buscar a fonte do conceito de “bom” não no
pathos
da distância, mas na oposição entre “egoísmo” e “não egoísmo”, uma oposição característica do instinto de rebanho que só viria a se impor à consciência humana depois de muito tempo, com a rebelião escrava na moral e o consequente declínio dos valores aristocráticos. Sobre este aspecto escreve Nietzsche:
É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que essa oposição “egoísta” e ‘não egoísta” se impõe mais e mais à consciência humana – é, para utilizar minha linguagem, o instinto de rebanho, que com ela toma finalmente a palavra (e as palavras). E mesmo então demora muito, até que esse instinto se torne senhor de maneira que a valoração moral fique presa e imobilizada nessa oposição (como ocorre, por exemplo, na Europa de hoje: nela, o preconceito que vê equivalência entre “moral”, “não egoísta” e “désinteréssé” já predomina com a violência de uma “ideia fixa” ou doença do cérebro)26.
Por seu turno, a rebelião citada tem inicio quando o ressentimento, oriundo do ódio insatisfeito de seres privados da possibilidade de reação, torna-se criador de valores, a partir de um olhar que nega um mundo oposto e exterior ao seu, concebe seu inimigo como “mau” e pensa a si próprio como “bom”, tal como escreve Nietzsche:
[...] já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação27.
Nesse sentido, o homem do ressentimento é caracterizado por não ser franco nem honesto consigo, “ele entende de silêncio, de não esquecimento, da espera, do momentâneo apequenamento e da
26 GM/GM I, § 2.
humilhação própria28”, desse modo, em maior escala, uma raça de tais homens resultará necessariamente mais inteligente do que qualquer raça nobre e venerará muito mais a inteligência, uma vez que nela está sua condição de existência de primeira ordem. Em contrapartida, no homem nobre29 primeiro e de forma espontânea é concebida, de dentro de si, a noção básica de “bom” e só depois é criada uma representação de “ruim”, ou seja, este homem busca seu oposto apenas para dizer “sim” a si. Nesta perspectiva, sua felicidade está condicionada a ação, uma vez que em primeiro plano está à honestidade consigo. No nobre há um excesso de forças plásticas propiciadoras do esquecimento, de modo que ele não consegue levar a sério por muito tempo seus inimigos e por isso reclama-os para si, assim como também reclama o perigo, por ser possuidor de certa imprudência, valente precipitação e entender que tanto nos inimigos como no perigo reside a possibilidade de sua distinção, portanto, dadas estas características, mesmo que no homem nobre apareça o ressentimento, ele não será por este envenenado devido a sua postura ativa30.
Nesse contexto, ao pensar a origem do “bom” a partir da perspectiva do ressentido, Nietzsche enfatiza a impotência deste homem que exige da força que ela não queira dominar, vencer e subjugar, ou seja, que não se expresse como força. Deste modo, evidencia-se uma aversão à força e sua expressão, como se por trás do homem nobre houvesse uma liberdade para expressar ou não a sua força, o que possibilita que a fraqueza seja interpretada como liberdade e seu ser assim como mérito, raciocínio motivado por um instinto de autoconservação, no entanto, não existe tal liberdade, “não
28 GM/GM I, § 10.
29 Oswaldo Giacóia Junior destaca que a diferenciação moral nobre X moral escrava
está fundamentada em outra distinção, a saber, ação X reação, que por sua vez introduz o par de opostos forte e fraco, complementar a ativo e reativo, nobre e escravo (2001, p.79s).
30 De acordo com Marco Brusotti: “a diferença específica quanto ao forte consiste,
assim, (1) no fato de que nele o ressentimento não necessariamente se apresenta e ainda (2) no fato de que, mesmo que o ressentimento advenha, o forte está em condições de reagir imediata e completamente. O fraco [...] não está em condições de reagir, já o forte nem mesmo tem essa necessidade” (2010, p.380).
existe ‘ser’ por trás do fazer, do atuar, do devir; ‘o agente’ é uma ficção acrescentada à ação – a ação é tudo31”. Na verdade, é bastante ardiloso que o homem do ressentimento cultive a crença de que a ave de rapina é livre para ser ovelha, porque, desta forma, responsabiliza o nobre pela expressão de sua força, o que justifica que o oprimido, pisoteado e ultrajado seja “bom” como todo aquele que não ultraja, não fere, não promove acerto algum de contas. Neste sentido, ganha relevo a defesa de uma vida vivida na sombra e a mínima exploração das possibilidades da própria vida, com a justificativa de que viver assim representa paciência, humildade e, em última palavra, bondade, contudo, isto nada mais significa do que uma confissão: “nós, fracos, somos realmente fracos; convém que não façamos nada para o qual não somos fortes o bastante32”, assim, graças a uma profunda desonestidade consigo, a fraqueza dos fracos passou a ser vista como algo desejado, voluntário, escolhido, ou seja, a impotência disfarçou-se de virtude que cala, renuncia e espera.
O presente artigo partiu do texto de Nietzsche para chegar a elementos indicados pelo autor que contribuíram para que a psicologia do final do século XIX tenha deixado de ser reconhecida como “rainha das ciências”. Assim, entendemos que contribuem para a superficialidade desta psicologia, tanto o
sacrifizio dell’ intelletto
promovido por Kant, que culmina com a validação dos juízos sintéticos
a priori
, como a atuação dos psicólogos ingleses, regulada por uma oposição característica do instinto de rebanho que viria a se impor à consciência humana com a rebelião escrava na moral. Referências:ALMEIDA, G. A. “Liberdade e moralidade segundo Kant”. In: Analytica vol. 2, n.1, 1997, p.175–202.
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