O tema ao qual se propõe essa seção já fora abordado anteriormente, mas não como objeto central da investigação e, aqui, pretendemos sanar essa falta. A abordagem do tema
da escrita parece se impor ao trabalho dedicado ao conceito voltairiano de história, mesmo nos pontos em que o esforço estaria concentrado em outra questão, pois, para o filósofo, a história seria essencialmente a história escrita. No entanto, devemos reconhecer, essa não foi a definição sobre a qual estiveram respaldadas, até agora, as nossas explicitações. Partimos da definição apresentada no verbete “História” da Enciclopédia, a qual distinguira os relatos sob a perspectiva da veracidade ou falsidade que lhes são atestados. Com tal enfoque, não é de se estranhar que passamos as duas últimas seções tratando daqueles que seriam os critérios metodológicos e epistemológicos estabelecidos por Voltaire para o estudo histórico. No entanto, se faz necessário abordar o conceito de história também através da sua relação com o desenvolvimento da arte de escrever e, dada a relevância da questão, a ela estará reservada toda essa última seção do capítulo.
Ao tratar da concepção de verdade em Voltaire, recorremos à crítica de Pomeau ao caráter primitivo do método voltairiano, circunscrito à obra escrita, e procuramos mostrar ainda outras circunscrições que teriam sido estabelecidas por tal método. O tema da escrita já fora mencionado também por uma via algo negativa: a fábula não seria considerada, por Voltaire, documento histórico, pois esse estatuto estaria reservado ao relato escrito verídico. Assim considerada, portanto, a abordagem do tema estaria limitada aos conteúdos daquela que seria a teoria voltairiana da história, ou seja, ao exame das condições de possibilidade do conhecimento histórico próprias ao pensamento do filósofo. Mas, a atividade histórica não parece sujeita somente a condições epistemológicas, mas também a condições concretas de desenvolvimento e a arte da escrita parece inserida, sobretudo, nesse último conjunto.
Com efeito, a linha de separação entre as condições epistemológicas e concretas da história talvez seja muito mais tênue do que a sua formulação deixa transparecer, principalmente em uma filosofia tal como a de Voltaire, cuja concepção de aperfeiçoamento da razão parece estreitamente vinculada a indicadores muito palpáveis de melhoria da vida humana. É justamente por essa mútua permeabilidade que insistiremos naquela separação, tomando-a como um recurso metodológico da presente investigação, para, assim, abarcar as especificidades de cada um dos âmbitos. Logo, considerando a concepção histórica do filósofo, não bastaria a aplicação daqueles critérios de verificação para conhecer a história propriamente dita, pois concorreria para o desenvolvimento daquele conhecimento fatores externos ao exercício da pesquisa, fatores tais como a estabilidade das instituições políticas e a diminuição do controle exercido pelas instituições religiosas, o estabelecimento de relações comerciais econômicas que possibilitariam a
riqueza e de relações comerciais culturais que possibilitariam a tolerância, tempos de guerra e de paz.
Importante ressaltar, porém, que uma concepção histórica considerada nesses termos, ou seja, sujeita ao exercício crítico do historiador181 e às circunstâncias específicas do momento histórico, parece pretender que apenas uma narrativa de um determinado passado subsista. Sobre a perda, intencional ou não, dos fatos não registrados, já nos alertara Lefebvre, que afirma:
Grande número de ações e de palavras não deixam, de fato, qualquer marca. Principalmente ações e palavras de interesse coletivo, porque o indivíduo não lhes atribui grande importância, sobretudo se não está em jogo a sua própria pessoa. Se, portanto, fatos históricos não forem anotados em documentos, gravados ou escritos, ei-los que se perdem. Foi o que aconteceu com todos os que se referem às origens da humanidade. Da Pré- História apenas nos chegaram objetos, desenhos, algumas ossadas, que nos informam sobre a constituição física, os costumes, a vida material dos primeiros homens, mas não sobre os fatos históricos de que foram atores ou testemunhas. (LEFEBVRE, G. O nascimento da
moderna historiografia, p. 13).
O passado delimitado por escolha ou acidente, o início da história concomitante ao desenvolvimento da escrita e, portanto, a pré-história considerada pouco elucidativa são preceitos sustentados pelo autor, o qual os insere no que G. Palmade denominara o “panorama de uma história atualmente considerada clássica”182
. Recordemos, porém, que em uma das menções anteriores a Lefebvre, procuramos mostrar que o autor rejeitara a alcunha de filósofo a Voltaire e procuramos mostrar também que discordamos de tal interpretação183. Apesar disso, as concepções históricas de ambos parecem alinhadas, ao menos, naquilo que concerne aos preceitos acima citados. E, ainda que distantes temporalmente, Voltaire e Lefebvre se aproximariam, portanto, sob essa perspectiva classicista da história. Restaria estabelecer mais precisamente o que, aqui, fora tomado por classicismo, mas a questão talvez ultrapasse em alguma medida o escopo da seção; assim, por ora, seria suficiente acompanhar a elucidação de Palmade que apresenta a história clássica como a história narrativa ou ainda como a “primeira forma de história”184.
181 Desempenho crítico considerado, aqui, como o desenvolvimento daquela circunscrição do estudo histórico à historiografia dada como útil.
182 PALMADE, G. “Prefácio”, in: LEFEBVRE, G. O nascimento da moderna historiografia, p. 1. 183 Cf. acima n. 89.
184 Tal concepção de história clássica não parece diferir daquela explicitada por Le Goff na distinção entre a história como narrativa dos eventos e não como os eventos eles mesmos. Cf. a seção 3.1. O
Desse problema pretendemos ressaltar ainda dois pontos: 1) a convicção no protagonismo do homem possibilitado pelo desenvolvimento do documento escrito; e 2) o estabelecimento de uma pré-história. Sobre o primeiro ponto seria preciso notar que, para Voltaire, os documentos escritos seriam os “monumentos incontestes” da história que informariam justamente esse “interesse coletivo” – a constituição físico-geográfica, os costumes, a vida material dos homens originários e dos atuais – que, para Lefebvre, ao contrário, seria o estrato de pesquisa possível a partir dos artefatos da pré-história, dos monumentos não escritos. Em outras palavras, a delimitação do passado segundo a concepção voltairiana de história se daria através da convicção na autoridade do documento escrito, porém pretende estabelecer não o protagonismo de atores históricos individuais, mas sim o do gênero humano. Esse seria, inclusive, um dos aspectos da crítica do filósofo à historiografia tradicional, que, ocupada com detalhes, guiada pela cronologia da sucessão dos reis, circunscrita aos interesses da corte ou da Igreja, deixaria de considerar a diversidade das manifestações humanas decorrente do aperfeiçoamento racional: as múltiplas formas de civilizações, suas artes e costumes.
Parece, lendo as histórias, que a terra foi feita por alguns soberanos e por aqueles que serviram às suas paixões; quase todo o resto é abandonado. Os historiadores nisso parecem a alguns tiranos dos quais eles falam: eles sacrificam o gênero humano a um só homem. (VOLTAIRE. “Nouveau plan d’une histoire de l’esprit humain”, Mercure de France, avril 1745, in: VERSAILLE, A (org.). Dictionnaire de la pensée de Voltaire par lui-même, p. 516).
A tirania dessa classe de historiadores, ao registrar o passado de apenas um indivíduo, significaria, portanto, no limite, condenar o homem à ignorância do decurso histórico compreendido como um todo e, assim, à ignorância dos desenvolvimentos estabelecidos pelo gênero humano ao longo desse trajeto. E se, em Voltaire, o protagonismo da história retornaria ao ator coletivo mesmo em uma pesquisa que estivesse de posse de documentos históricos, isso não se daria pela precariedade das informações obtidas, mas antes pela capacidade de generalização alcançada pela razão através do exercício comparativo da diversidade dos costumes. Uma última consideração sobre esse primeiro ponto: o monumento não escrito, para o filósofo, não parece considerado apenas
critério da verdade histórica para Voltaire. PALMADE, G. “Prefácio”, in: LEFEBVRE, G. O nascimento da moderna historiografia, p. 1.
como uma fonte precária de informação; ele consistiria sobretudo no indicador de uma irracionalidade primitiva da qual não se tem ou não se quer ter registros.
O segundo ponto que pretendemos ressaltar daquela concepção clássica de história parte dessa consideração acerca do passado engendrado pela pesquisa histórica, tal como a estabelecera Voltaire, para tentar compreender qual seria, portanto, o estatuto concedido pelo filósofo ao tempo que antecedera o desenvolvimento da escrita e que, para ele, não poderia ser propriamente denominado história. Para tanto, porém, propomos retomar alguns aspectos da discussão do segundo capítulo sobre os limites estipulados ao conhecimento humano. Circunscrito ao que seria observável no mundo, segundo a concepção histórica voltairiana, ao conhecimento histórico humano competiria ter por objeto apenas as mudanças pelas quais passaram o mundo físico e a diversidade das manifestações dos homens. Assim, para além do observável, acerca do começo do mundo e dos desígnios divinos a ele relacionados, poderia pronunciar-se somente a imaginação, compreendida nesse contexto como fonte da credulidade humana.
Devemos nos recordar que, no diálogo Nature, a personagem do Filósofo, diante da resposta pouco conclusiva da Natureza, questionada sobre sua definição, declara-se conhecedora das leis que regem os decursos naturais, mas admite que permanece o mistério acerca da Inteligência Suprema que presidiria aquela regularidade. Na ocasião, ficara estabelecido que as obras do Eterno Geômetra não poderiam ser conhecidas pelo Filósofo, porque o âmbito metafísico no qual estariam inseridas seria vetado até mesmo ao mais sofisticado dos conhecimentos humanos, a demonstração obtida pelas operações matemáticas. Voltamos, portanto, ao tema da distinção dos valores epistemológicos concedidos à certeza matemática e à certeza histórica, distinção essa que afirmara a superioridade da primeira. No entanto, procuramos mostrar que apesar de distintas sob o aspecto da capacidade demonstrativa, os conteúdos da matemática e da história estariam, todos, disponíveis ao conhecimento humano e para cada uma dessas disciplinas fora desenvolvido o seu próprio aparato metodológico de pesquisa e verificação. O mesmo não poderia ser afirmado do conjunto de saberes que escapam a um tal exame racional, visto que o estabelecimento dessa restrição parece abranger grande parte do tempo pré-histórico no qual as faculdades humanas estiveram insuficientemente aperfeiçoadas e a totalidade das manifestações eram contrárias aos preceitos racionais. Assim, talvez possamos afirmar que os limites do conhecimento humano, na concepção epistemológica de Voltaire, encerram-se na apreensão do mundo que, considerado racional, teria já em seu cerne os instrumentos da crítica.
Não admitamos em física além daquilo que é provado e em história aquilo que é de maior probabilidade reconhecida. Pode ser que os países montanhosos tenham sofrido por vulcões e por abalos da terra tanto quanto os países planos; mas por toda parte onde tiveram fontes de rios, tiveram montanhas. Mil revoluções locais certamente mudaram uma parte do globo na física e na moral, mas nós não as conhecemos; e os homens são avisados tão tarde para escrever a história que o gênero humano, tão antigo que é, parece novo para nós. (VOLTAIRE. Essai sur les mœurs, vol. I, p. 203).
Diante do exposto, para responder à questão acerca do período anterior à escrita, seria preciso não apenas identificar o desenvolvimento dessa arte como parte do aperfeiçoamento racional, mas sobretudo compreender a relevância de tal desenvolvimento. Sendo assim, o surgimento da arte de escrever entre os homens, para Voltaire, seria o indicador de uma razão cultivada o bastante para, além de elaborar uma língua e convenciona-la, também instituir as condições materiais de registro e arquivamento pressupostos na formalização desse conhecimento. Insistimos que, na compreensão de Voltaire, a escrita enquanto manifestação da racionalidade humana seria respaldada pela reunião de tantos outros aperfeiçoamentos culturais, políticos e sociais que, a partir de tal manifestação, estaria traçado talvez o mais significativo dos limites epistemológicos: a existência do homem como gênero humano. Vejamos o argumento pela via inversa: à ausência da escrita estaria pressuposta a transmissão do pensamento sob a lógica da oralidade e, portanto, a fragmentação dos homens compreendidos como indivíduos dispersos pelos territórios e também a fragmentação do conhecimento pouco convencionado. Nesses termos, ao tempo durante o qual se mantivera aquela ausência não parece restar outro estatuto que aquele engendrado pela desconfiança generalizada.
Sobre esse hiato entre a origem do universo e o desenvolvimento da escrita relatam os monumentos erigidos pelos homens, monumentos esses que, segundo Voltaire, “servem somente para constatar a antiguidade remota de certos povos”185, mas pouco esclarecem acerca das suas especificidades. E, assim, vemos consolidar-se a noção voltairiana de documento histórico, a qual já fora mencionada antes neste trabalho, mas não como objeto específico da análise186. Para tanto, devemos considerar que ao documento sobre o qual se debruçaria a pesquisa histórica estabelecida pelo filósofo seria exigida a formalização escrita, pois somente ela seria capaz de transmitir um determinado gênero de informações:
185 VOLTAIRE. “História” (verbete da Encyclopédie, VIII, 1765), in: A filosofia da história, p. 8. 186
as informações dignas da posteridade. Expliquemo-nos. Voltaire afirma a escrita como “a arte que transmite os fatos”187
e por isso deveríamos compreender a capacidade de informar acerca das ações dos homens, ou melhor, dos seus costumes. Em outras palavras, somente a partir do desenvolvimento da arte de escrever e da racionalidade a ela pressuposta seria possível elaborar uma obra cujo objeto específico seria o próprio homem e a diversidade de suas manifestações. Importante ressaltar que, assim como o testemunho ocular, também o documento histórico, apesar de gozar da autoridade da escrita, não obtém a validação irrestrita do seu conteúdo. Estarão ambos sujeitos àquela crítica que se desdobra em critérios verificadores da verossimilhança do relato tanto da historiografia antiga quanto da moderna, pois, apesar de somente a primeira se aproximar temporalmente dos tempos originários e desconhecidos, ambas seriam suscetíveis à prejudicial ação da ignorância.
A partir daqui, podemos recuperar, em uma abordagem mais ampla, o conceito voltairiano de historiador, já que na seção anterior ele fora abordado sobretudo sob a perspectiva da pesquisa histórica: estabelecidos os preceitos metodológicos de tal pesquisa, o homem incumbido de aplica-los seria aquele capaz de racionalizar o mutável, ou seja, o historiador-filósofo. Mas, como vimos, o aperfeiçoamento da razão humana, em Voltaire, parece obedecer a um regime de gradação que permite inferir de cada capacidade desenvolvida, seus pressupostos e suas decorrências. A possibilidade de diferenciar o antes e o depois, de estabelecer o surgimento e o aprimoramento das faculdades conforme o caráter processual da racionalidade, tal como a compreende Voltaire, seria aquilo mesmo que confere à temporalidade da sua concepção histórica um caráter multiforme. Tendo isso em vista, pretendemos mostrar em que momento e sob quais condições se daria o surgimento do historiador. Isso porque, tal como a arte de escrever e a história, ele mesmo seria constituído como o resultado da confluência de outros tantos condicionantes. E, a bem dizer, essas três manifestações da racionalidade humana – escrita, história e historiador – não apenas seriam resultantes da mesma sequência de aperfeiçoamentos e, portanto, apresentariam uma origem comum, como também concorreriam mutuamente para os seus desenvolvimentos.
Mas, por enquanto, afirmamos de maneira geral apenas que para tais acontecimentos históricos dignos do relato historiográfico estariam pressupostas as tão somente condições epistemológicas e materiais. Apresentaremos, portanto, duas delas: o estabelecimento das sociedades, o que para Voltaire seria a reunião dos homens em corpo
187
de povo e o cultivo da arte que promove e garante tal reunião, a agricultura. Povoamento e fertilidade da terra parecem se impor como constantes da pesquisa histórica, pois, reciprocamente desenvolvidos, seriam a articulação entre a liberdade humana e o determinismo natural. Ao comparar o povoamento da América com o da Europa e o da Ásia, Voltaire afirma que prejudicara a população dessa “quarta parte do nosso universo”188
ser “coberta de pântanos imensos que tornam o ar muito insalubre”189; sobre os fenícios, afirma que eles “foram provavelmente reunidos em corpo de povo tão antigamente quanto os outros habitantes da Síria”190
e que podem ser “menos antigos que os caldeus, porque o país deles é menos fértil”191
; e afirma sobre os indianos, que:
(...) às margens do Ganges, talvez sejam os homens mais antigamente reunidos em corpo de povo (...). Os homens ter-se-iam reunido por conta própria nesse clima feliz; não teriam disputado um terreno árido para estabelecer nele uns magros rebanhos; não teriam guerreado por um poço, uma fonte, como fizeram os bárbaros na Arábia Pétrea”. (VOLTAIRE. Essai sur les mœurs, vol. I, pp. 58-59; trad. “Introdução ao Ensaio sobre os
costumes”, in: A filosofia da história, pp. 94-95).
Não percamos de vista o tema do surgimento do historiador em uma dada sociedade, mas tenhamos assente que a análise histórica de Voltaire pretende abarcar os aspectos do mundo físico e moral que teriam possibilitado tal acontecimento. Da observação dos traços geográficos do território decorrem informações acerca da fertilidade dos seus solos e das características climáticas da região, com o que seria possível avaliar as condições mais ou menos favoráveis para a fixação dos homens e o gradativo estabelecimento de uma sociedade. Ressaltemos que, em Histoire de Charles XII, os moscovitas são caracterizados por Voltaire como um povo ignorante que há pouco quisera “queimar em Moscou o secretário de um embaixador da Pérsia”192
, mas que a partir dos feitos de Pedro, o Grande, aqueles homens “conheceram gradativamente o que é a sociedade”193
. E a sequência da exposição narra a abolição das superstições, a centralização do poder político e a submissão do poder religioso.
188 VOLTAIRE. Essai sur les mœurs, vol. I, p. 31; trad. “Introdução ao Ensaio sobre os costumes”, in: A filosofia da história, p. 67.
189 Ibidem, p. 30; ibidem, p. 66.
190 VOLTAIRE. Essai sur les mœurs, vol. I, p. 46; trad. “Introdução ao Ensaio sobre os costumes”, in: A filosofia da história, p. 81.
191 Ibidem.
192 VOLTAIRE. Histoire de Charles XII, in: Œuvres historiques, p. 69.
193 A passagem em questão afirma: “Os moscovitas conheceram gradativamente o que é a sociedade. As superstições foram abolidas, a dignidade do patriarca foi extinta: o czar se declara o chefe da religião e
Examinados os elementos dos domínios físico e moral, bem como a relação estabelecida entre eles, o estudo histórico empreendido por Voltaire parece atestar sobretudo a existência de fatores de resistência ao aperfeiçoamento humano. Externos e internos, tais fatores seriam aquelas características geográficas relacionadas à maior ou menor indústria de um povo, os conflitos entre nações e os conflitos entre cidadãos de uma mesma nação, as ações dos soberanos, os costumes viciosos como a atividade naturalmente fabuladora dos homens e a intolerância, ou seja, de maneira geral, as dificuldades enfrentadas pelo homem para desenvolver melhorias para sua vida. Como exemplo, podemos remeter à narrativa dos acontecimentos que teriam mudado a face da Europa no século XVIII, narradas em Remarques sur l’histoire (1742), na qual Voltaire exalta o estabelecimento de relações entre os continentes e afirma “uma correspondência perpétua que liga todas as partes, malgrado as guerras que a ambição dos reis suscita e mesmo malgrado as guerras de religião, ainda mais destrutivas”194
. Noutras palavras, se a pesquisa de Voltaire consiste em “acompanhar a marcha do espírito humano abandonado a si mesmo”195
e se, por tal abandono, deveríamos compreender a rejeição da causalidade divina, não parece correto afirmar que o decurso histórico esteja completamente desvencilhado de condicionantes. Ao invés disso, o movimento do progresso dos homens, alheio aos desígnios divinos, parece ser a resultante de vetores de atraso e aceleração que a história daria a ver ao historiador-filósofo196.
No entanto, tratamos somente daquilo que denominamos fatores de resistência, mas haveriam também aqueles que impulsionam o progresso, sobre os quais trataremos adiante. Por ora, pretendemos mostrar ainda que uma afirmação tal qual a explicitada antes acerca da antiguidade do povo indiano estaria respaldada na avaliação dos fatores que, concorrentes ao processo de aperfeiçoamento, denunciariam a quantidade de tempo transcorrido. Além disso, condicionada a tais fatores, à concepção voltairiana de progresso