No jogo de futebol, todo o tempo, jogadores e equipes, absorvidos pelo jogo, são atraídos a configurações sistêmicas, tendendo ao equilíbrio e a estabilidade, e ao desequilíbrio e instabilidade. É, analogamente, uma permanente “balança”, que hora pende para um lado, hora para o outro, hora passa pelo centro.
No sistema “jogo”, além do gol (alvo) de ataque e de defesa, e da bola, como atratores que “magnetizam” a configuração do sistema, é possível, como já foi mencionado, que jogadores em campo acabem ocupando espaços, em função das características dos elementos do sistema (nesse caso os próprios jogadores), ou do compartilhamento de uma intenção comum, norteadora da equipe. Os esquemas táticos, podem ser, uma das referências, que se expressam na intenção comum.
Da mesma maneira, para o cumprimento da lógica do jogo de futebol, e o alcance ao objetivo máximo, o gol, outros elementos podem surgir, integrados a complexidade do jogo, como referências norteadoras de uma intenção comum, e que de certa forma acabem configurando atratores de um sistema “jogo”, mais elaborado.
Claro, um sistema se auto-organiza, em busca de manter sua identidade, e no caso do jogo de futebol, poderiam ser muito produtivas, auto-organizações que aproximassem a equipe do cumprimento da lógica do jogo.
Se por um lado, é a busca pela autonomia dos elementos do sistema que se deseja alcançar, por outro, é preciso, para que o todo se fortaleça, – ao mesmo tempo em que se fortalece a autonomia dos elementos – que haja referências que norteiem os elementos autônomos do sistema (D’OTTAVIANO; BRESCIANI, 2004), de maneira que as respostas criativas, aos problemas do jogo, compartilhem uma intenção comum.
De maneira geral, o que as equipes deveriam buscar, quando jogam o jogo, é fazer gols, de maneira mais rápida, eficaz e com menor número de ações possível. Ganha o jogo quem faz mais gols. No entanto, o que tem se seguido, é uma lógica que passa pelo “fazer e não sofrer”. Ainda que não pareça óbvio, a primeira lógica (fazer mais gols que o adversário) se aproxima mais do real significado da lógica do jogo.
No entanto, para não alongarmos essa discussão (não é o objetivo neste momento), em qualquer uma das condutas norteadoras que se assuma, haverá a necessidade de que existam referências para a ação autônoma da equipe.
Com base na teoria sistêmica, grande parte (senão todas) das referências do jogo de futebol, discutidas na literatura (sob os nomes de princípios, estruturas ou meios táticos) correspondem a uma intenção evidente de, com bola, tornar grande o espaço de jogo, com jogadores bem espalhados, gerenciando e atuando sobre o maior espaço possível, disponíveis para receber a bola, com boa movimentação e o gol como foco; e sem bola, tornar pequeno o espaço de jogo, com jogadores próximos, para se ajudarem e para diminuírem as linhas de passe adversárias, e com uma movimentação que desorganize o mínimo possível o sistema defensivo (e que não devesse perder nunca, a meta ofensiva como foco) (Figura 17).
Figura 17 – Referências para a ocupação do espaço
Não se trata aqui, de desconsiderar as referências, como são apresentadas normalmente, diminuindo sua relevância como base para novas reflexões ou excluindo-as como conteúdo para nortear o trabalho de treinadores ou treinamento de equipes. O fato, é que as referências para a ocupação do espaço de jogo, comumente discutidas na literatura especializada – que com base em Hughes (1974), Vásquez Folgueira (2001ª, 2001b), Bangsbo; Peitersen (2002ª, 2002b), Parreira (2005) e Leitão (2008b), são: a) as de ataque: abertura ou amplitude,
penetração, profundidade, mobilidade, apoio e ultrapassagem; b) as de defesa: temporização ou retardamento, cobertura, equilíbrio, flutuação, recuperação, compactação, bloco e direcionamento; c) as de transição ataque-defesa e defesa-ataque: balanço, proporção e densidade (todas elas, de defesa e de ataque) – podem, se não houver cuidado, acabar por reduzir
Então, a partir de uma visão sistêmica, conforme podemos visualizar na Figura 18, está na essência da construção dessas referências (campo grande a atacar, campo pequeno a defender; grande movimentação dos jogadores para abrir espaço para atacar, espaços reduzidos e jogadores próximos para defender; etc.), a configuração do sistema, quando a equipe está de posse da bola, ou sem ela, sendo que, integradas, funcionam como uma macro-referência para a organização do sistema – podendo em um nível elaborado de jogo, configurar um atrator do sistema.
No jogo, portanto, a ocupação coletiva do espaço pode ser atraída para determinadas configurações, tendendo por vezes ao equilíbrio e por vezes ao desequilíbrio. Da mesma maneira, ao se estabelecer referências fortes que possam alimentar a intenção para a ocupação de determinado espaço, as configurações poderão, já em um nível mais elaborado de entendimento do jogo, ser levadas a organização desejada.
E da mesma forma, que é importante construir referências de ocupação do espaço, é necessário compreender o que baliza a ação coletiva, em relação a um elementar atrator do jogo: a bola.
Quando uma equipe está com, ou sem a posse da bola, sem perder de vista o objetivo máximo do jogo, que é fazer o gol, ela pode se orientar por alguns princípios, que podem, de certa forma, levar a organização da equipe para determinadas configurações. Esses princípios foram chamados, por Claude Bayer (1992), de princípios gerais do jogo.
Esses princípios são comuns a todos os jogos esportivos coletivos, apresentando algumas variações no caso do voleibol. Segundo Bayer (1992), influenciado por obras de outros autores franceses, esses jogos possuem objetivos comuns, condutores da leitura e interpretação do jogo por parte dos jogadores e equipe, que se expressam como princípios gerais dos jogos esportivos coletivos (os de ataque, segundo o autor são: manutenção da posse da bola, progressão ao ataque ou ao alvo, finalização da jogada; e os de defesa: recuperação da posse da bola, impedir progressão do adversário, proteção do alvo).
Quando uma equipe está com a posse da bola, sem perder de vista o objetivo máximo do jogo, ela pode agir orientada coletivamente e de maneira prioritária, ou para conservar essa posse, ou para progredir ao ataque (ou ao alvo), ou para buscar atacar efetivamente a sua meta ofensiva, finalizando ao gol. Seja qual for o princípio que predomine no jogo de uma equipe quando ela está com a bola, é fato que ele (o princípio) pode agir no sistema
como um atrator, que a cada circunstância opera ao “prazer” do jogo; porém, em um jogo mais elaborado, servir realmente de referência norteadora para a ação coletiva intencional da equipe.
Isso quer dizer que, apesar do jogo atrair as configurações do sistema para determinada organização, para se alcançar um jogo de elementos criativos e autônomos, que constituem um todo superior, os princípios podem se tornar referências para ação de um jogo elaborado. Então, ao invés da circunstância atrair a organização da equipe para uma configuração qualquer, é a compreensão da circunstância, por parte da equipe, que a levará a buscar determinada configuração.
O mesmo vale, para quando a equipe está sem a posse da bola, porque ela pode agir coletivamente com intenções distintas, o que levará o sistema para diferentes configurações. Então, se sem bola, a equipe coletivamente buscar, ou recuperá-la, ou impedir progressão do adversário ao ataque, ou proteger efetivamente sua meta de defesa, poderá agir melhor, norteada por uma orientação coletiva comum, do que se sofrer as forças de um atrator do jogo, que dificulte para ela o cumprimento da lógica.