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Na Bahia, além de Salvador, as comemorações festivas ao Senhor do Bonfim podem ser verificadas em Ilha de Maré, Macaúbas, Senhor do Bonfim, Feira de Santana, Muniz Sodré, Muritiba, Chorrochó, Nilo Peçanha, Xique-Xique, Jiquiriçá, Mucurerê, Santo Amaro da Purificação, Nova Lima, Amélia Rodrigues, Anguera, Barra do Choça, Ibititá, Itabuna, Jussari, Palmeiras, Tremendade, Rio do Pires, Mata de São João, Nilo Peçanha, Piatã, Rio do Pires e Canavieiras.

Em outros estados brasileiros, podem ser notadas em diversas cidades: Campo Grande, em Mato Grosso do Sul; Grajaú, Pirinópolis e Silvania, em Goiás; Catas Altas, Bocaiúva, São João del Rei, Ouro Preto, Diamantina, Aracitaba e Bonfinápolis, em Minas Gerais; Rio de Janeiro (mais precisamente, em Copacabana), Angra dos Reis e Magé, no Estado do Rio de Janeiro; Olinda, Pernambuco; Aparecida e Sorocaba, em São Paulo; Salgado e Laranjeira, em Sergipe; Marechal Deodoro, em Alagoas; Serra da Raiz, na Paraíba; Fortaleza e Crateús, no Ceará, e outros pontos.

1.2 Caracterização dos participantes da Festa: primeiras abordagens

A partir do ano de 1754, com a inauguração da igreja do Senhor do Bonfim e em decorrência da presença constante de romeiros de diversas localidades de Salvador e outras cidades como do Recôncavo e do Sertão da Bahia, a Colina Sagrada – como ficou conhecido o lugar onde se localiza o templo – passou a ser frequentada por uma legião de pessoas que tornaram-se adeptos ao Santo. A intensa presença de fiéis de distintas localidades, tanto no cotidiano das idas à igreja quanto no contexto da Festa que homenageia o Senhor do Bonfim, contribuiu para o processo de deslizamento cultural. (TEIXEIRA, 2008) Neste sentido, a diversidade cultural então representada

através das origens e condições sociais dos fiéis favoreceu nas dinâmicas de circularidade cultural (GINSBURG, 2006), uma vez que, na perspectiva da origem social, os fiéis passaram a compartilhar, a partir das suas distintas formações culturais, diferentes modos de cultuar o Senhor do Bonfim na Bahia.

Da mesma maneira, em virtude da grande movimentação de fiéis, principalmente no mês de janeiro, verificamos que, no âmbito imobiliário, os anos iniciais do século XX já registrava uma intensa procura por imóveis para alugar ou comprar na Cidade Baixa, sobretudo nas localidades de Itapagipe, Mont Serrat, Baixa do Bonfim e Ribeira, o que ocasionou no processo de expansão urbana do lugar, promovendo o aumento da busca para comprar, alugar ou construir residências e estabelecimentos comerciais naquela região. Isto é recorrente nos periódicos consultados para esta pesquisa. Tais demandas possibilitaram também a descentralização da Cidade Alta como localidade preferencial em Salvador para morar e comercializar.

No que concerne à caracterização dos participantes na Festa do Senhor do Bonfim, em nossos dias, é possível dizer que a maior parte dos grupos que participam da Festa é formada pelas autoridades eclesiásticas católicas, pelos membros da Irmandade Devoção do Senhor do Bonfim, por Iyalorixás, Babalorixás, ogãs, ekedes, yaôs e abiãs dos terreiros de Candomblé, tanto de Salvador quanto de outros Estados; pelas baianas estilizadas de todas as idades, ícones importantes desta Festa; pelos imponentes e sedutores integrantes dos Filhos de Gandhi; por representantes do Bloco Ilê Aiyê, assim como por diversos grupos de samba, batucadas e charangas de Salvador e demais cidades do Recôncavo da Bahia; pelas agremiações de capoeiristas; por políticos de diversas tendências partidárias que aproveitam- se da ocasião para promoverem-se; por militantes de diversos movimentos sociais; igualmente por profissionais liberais de diversas categoriais, sindicalistas, artistas e intelectuais.

Ainda, por vendedores ambulantes que comercializam comidas (feijoada, maniçoba, sarapatel, churrasquinho, cachorro-quente, pipoca, dentre outras), bebidas (água, água de coco, refrigerantes, cervejas, dentre outras), frutas, fitinhas do Bomfim, chapéus de palha, viseira, bonés e camisas com motivos da Festa; por policiais militares e civis que cuidam da manutenção da segurança particular e pública; por profissionais da saúde (médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagens) que, geralmente, são encontrados em desconfortáveis unidades móveis de atendimento à população para os casos de emergência sofridas nas agressões físicas e nos casos de etilicidade; por profissionais da imprensa local, nacional e estrangeira que cuidam dos registros das festividades e por mais uma legião de outros participantes de diversas classes sociais, credos, tendências sexuais, idades e ocupações trabalhistas que circularam na extensão da Festa que se inicia na quinta-feira com a lavagem das escadarias do adro da igreja e terminam no domingo.

Sobre os participantes das Festas do Senhor do Bonfim no contexto da invenção da tradição de cultuá-lo em Salvador, existem registros que se diversificam nos tipos pictóricos e relatos de viagem de cronistas e viajantes, alguns destes reproduzidos nos jornais que circulavam em Salvador no contexto de sua passagem pela Cidade. Quase sempre depreciativos, a maioria dos registros elaborados por cronistas e viajantes em suas diversas representações sobre as práticas culturais soteropolitanas, dão ênfase às formas de vestir e ao comportamento cotidiano dos negros e pobres. Como a Festa do Senhor do Bonfim tornou-se conhecida em diversos pontos do mundo, “não havia viajante que chegasse a Salvador e não fosse até a colina”, como o fez D. Pedro II quando de sua passagem pela Bahia no ano de 1859. (SANTANNA, 2009, p. 180)

Outros, ainda que não estivessem em Salvador no contexto da Festa do Senhor do Bonfim, por conta da dimensão que a Festa alcançou e por terem tido contato em seus países com algum tipo de representação sobre a igreja do Senhor do Bonfim e as homenagens a Este Santo, contribuíram para fomentar a curiosidade de conhecer o lugar, como fizeram, no século XIX,

Charles Robert Darwin, Daniel Parish Kidder, Conde Suzannet, Robert Avé- Lallemant, Ferdinand Maximilian von Habsburg (Maximiliano de Habsburgo) e Jean Louis Rodolphe Agassiz. (BIASIN, 2011)

De passagem por Salvador no ano de 1860 no contexto das celebrações festivas do Senhor do Bomfim, o naturalista Ferdinand Maximilian von Habsburg, arquiduque austríaco, ficou assustado com o que considerou como profanação do sagrado entre as pessoas nas homenagens ao Senhor do Bonfim. O ilustre visitante foi conduzido até à Colina Sagrada numa carruagem em estilo rococó, por ele qualificada como de “luxo extravagante”. Sobre os grupos de pessoas que viu no lugar, registrou:

[...] Em longa fila, estavam sentadas, junto a uma das paredes, moças negras, alegres – sua graça bronzeada não estava escondida, mas envolta em gazes transparentes e lenços de cores berrantes – em meio a um falatório estridente, nas posições mais confortáveis, sensuais e desleixadas, vendendo, parte em cestos, parte em caixas de vidro, todas espécie de bugigangas religiosas, amuletos, velas e comestíveis. Para um católico respeitável, todo esse alvoroço deve parecer blasfêmia, pois nessa festa popular dos negros, misturam-se, mais do que permitido, resquícios do paganismo na assim chamada romaria. (HABSBURGO, 1982, p. 129)

Através dos registros de viagem do nobre, percebemos qual o seu incômodo com a população local nas suas práticas de mercadejar nos festejos do Senhor do Bonfim. Em outras referências analisadas, Maximiliano de Habsburgo qualifica a Festa como “louca bacanal” por nela registrar a presença de negros africanos, escravos de ganho, ex-escravos, libertos e mulatos vestidos em suas roupas pitorescas, coloridas e berrantes. Mulheres negras e pobres que contraditoriamente usavam trajes exuberantes e decotados, portando correntes douradas e prateadas, contas de vidro e amuletos em diversas formas. Provavelmente, descrevia o austríaco as quituteiras em seus tabuleiros. Homens e mulheres negras que conduziam vassouras como troféus envolvidos com a música, a dança, a comida e a

bebida que, em abundância, proporcionavam barulho e gritos estridentes no adro da igreja do Senhor do Bonfim.

Para a sua maior decepção, o austríaco adentrou no templo. Nele encontrou um “padreco amarelo” que “como se, naquela festa popular, estivesse apresentando um número” numa “sala de dança” realizava um “sabá negro” para um “povo ignorante”, numa devoção “decadente”. Indignado, constatou que estava “numa igreja”. Reafirmando a sua estranheza com relação às práticas culturais dessa população, considerou o lugar um quadro com toque oriental e selvagem na moldura “civilizada” de uma Baía que vivia “sob o rico e dourado esplendor solar dos trópicos; novo continente, onde só a natureza impera com seu luxo incontido”. (HABSBURGO apud BIASIN, 2011, p. 25) Através das lentes dos cronistas e viajantes, flagramos a maneira como desqualificavam a população de Salvador, fortemente marcada por uma estrutura social escravista. De modo geral, a população negra e pobre de Salvador, ainda que não mais escrava, era tratada como uma sub-classe, inferior, logo, indigna de conviver entre os letradas e pertencentes aos estratos sociais elevados. Num contexto de rígida hierarquização social, as elites locais se incomodavam com a presença de negros e pobres em celebrações religiosas públicas. (BACELAR, 2011)

José Eduardo Freire de Carvalho Filho, médico, presidente do Centro Católico da Bahia e Intendente Municipal entre 1900 e 1904, tesoureiro da Mesa Administrativa da Irmandade Devoção do Senhor do Bonfim entre os anos 1884 e 1923, em seu livro A Devoção do Senhor J. do Bom-Fim e sua História (1923) referindo-se às pessoas que frequentavam as homenagens a Este Santo, descreveu:

[...] Não raro viam-se no interior da Capella mulheres lamentavelmente descompostas pelo arregaçado das saias e decotes das camisas. Homens e mulheres derramavam água e com vassouras esfregavam o lagedo em uma vozeria pelos cânticos de bemditos e outras rezas desencontradas e diversas, ao mesmo tempo em que eram erguidos estrepitosos vivas ao Senhor do Bom-Fim e N. Senhora da Guia. Difícil era conter essa

gente que assim o fazia, por entender, creio eu, que desse modo não desrespeitava a Deus e bem servia ao Senhor. (CARVALHO FILHO, 1923, p. 154)

Com sua participação ruidosa, os fiéis das classes populares não eram tolerados pelos membros da Irmandade, padres, sacerdotes da Igreja e “pessoas da melhor sociedade” (idem, 1923, p. 31), embora, tenha sido notável a participação dos enjeitados fiéis no processo de edificação da igreja do Senhor do Bonfim, inclusive com dinheiro e doações.

Neste sentido, qual relação que os membros da Irmandade Devoção do Senhor do Bonfim e os dirigentes da Igreja do Senhor do Bonfim mantinham com essa parcela da sociedade baiana na época? A maneira como o Dr. Carvalho Filho qualificava os pobres não contradiz com as missões estabelecidas no Estatuto da Irmandade? Quais eram então os setores sociais para os quais a Irmandade, através do compromisso de divulgação da fé ao Santo, pretendia alcançar?

No início do século XIX, em Salvador, foi introduzido o hábito de limpar o interior das igrejas para a realização das festas religiosas. Na Basílica do Senhor do Bonfim, um grupo formado por homens e mulheres costumava refazer a caiação das paredes, a pintura das janelas e imagens, lavar e arear o chão. Dentre os praticantes deste costume, encontravam-se romeiros, filhas-de-santo, ganhadeiras, quituteiras, aguadeiros, carroceiros, saveiristas, como também moçoilas casadoiras e senhoras que moravam nos arredores da igreja que, com vassouras, bacias, tinas, moringas e esfregões, esmeravam-se para agradar ao Senhor de sua devoção. (SANTANNA, 2009, p. 144)

Também compareciam “os fidalgos, os poderosos e bem assim os comerciantes ahi se apresentavam montados em bonitos animaes, ricamente ajaezados”, mas que não passavam de meros expectadores da lavagem da igreja, não pegando nas vassouras. (QUIRINO, 1922, p. 118) Neste sentido, notamos que embora as autoridades eclesiásticas e os membros da Irmandade Devoção do Senhor do Bonfim se incomodassem

com a presença de populares, negros e pobres nas celebrações do Senhor do Bonfim, foram eles que, efetivamente, até a proibição de lavar o interior das igrejas, prepararam o lugar para a Festa do Santo.

No ano de 1889, através da Portaria nº 1, D. Antônio Luís dos Santos, respaldado no poder local representado por Manoel Vitorino, então governador da Bahia, reafirmou a proibição de lavar o interior das igrejas no contexto das festas religiosas de Salvador, fato ao qual os jornais em circulação na Cidade deram ampla cobertura. D. Antônio Luís dos Santos proibiu a lavagem no interior das igrejas de Salvador em função de tal prática ser considerada abusiva e contrária às normas e padrões de conduta considerados civilizados, posto que alguns fiéis “entoavam chulas e cançonetas” regadas a comida e bebida, (MARQUES, 1920, p. 162). A Portaria deveria ser obedecida por todas as igrejas. Em uma carta enviada ao padre Pedro dos Santos, responsável pela freguesia de Nossa Senhora da Penha, o arcebispo D. Antônio Luís dos Santos comunicou que,

[...] quanto ao asseio do templo para a festa, que seja feito muito particularmente, em outro dia qualquer, de portas fechadas, sem o menos sinal de festa ou cantoria, e com toda a decência compatível com a casa de Deus. (DOS SANTOS in APEB, 1889)

Cumpre ressaltar que, desde meados do século XIX, já se notava o desejo entre as elites soteropolitanas de extirpar da Festa dedicada ao Senhor do Bonfim a população negra e pobre, como é possível flagrar na notícia publicada em janeiro do ano de 1860 Diário da Bahia:

[...] A bacanal de outrora, que escandalizava os costumes, a moral e a religião, não tornará a se repetir. Não se verão mais mulheres brancas ou negras vestidas sumariamente, com atitudes impudicas, embreagando-se [...] Como muitos podem imaginar, a extinção quase total dessa lavagem, cantada e verso, não é coisa fácil [...] a nossa civilização vem da Europa e não da costa africana [...] A lavagem do Bomfim, seja na nave ou no adro, dentro ou fora do templo, com seus ares de bacanal, está morrendo. Quando no início, eram os peregrinos e os penitentes

que, por devoção ao Santo Padroeiro, iam lavar a Igreja, então sim, era um ato de humildade cristã. (Diário da Bahia, 12 de janeiro de 1860)

O teor da notícia, sobretudo referente à participação popular nas celebrações festivas do Senhor do Bonfim, no texto adjetivada como louca bacanal, em nada se diferencia da forma como cronistas e viajantes descreviam em seus relatos de viagem esta Festa. Na Legislação da Província da Bahia, no mesmo ano, a Resolução de 2 de agosto, através do art. 6º, “proibiu a qualquer hora, batuques, danças e ajuntamentos de escravos, sob pena de serem castigados ou de pagarem a multa de 2$ rs. cada um”, e no art. 28 da mesma Resolução determinou estarem “proibidos os lundus e vozerias nas ruas da vila e povoações do município, em horas de silêncio, sob pena de 5$000 rs. de multa ou de dois dias de prisão por cada infrator. (FUNCEB, 1996, p. 130 e 131)

Porém, o hábito de lavar como uma espécie de penitência não se arrefeceu e, ao invés do interior da igreja, os fiéis passaram a lavar o adro e posteriormente apenas as escadarias da igreja do Senhor do Bonfim, mantendo a tradição secular de reverenciar Este Santo.

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