APPENDIX B PROTOCOLS FOR BINARY
B.3 BSC PROTOCOL (BISYNC)
Após dois governos petistas, a eleição de 2010 marcou a terceira tentativa de retorno dos tucanos ao governo federal. Para Lula, que encerrou o mandato com cerca de 87% de aprovação, o desafio era lançar uma candidatura forte que pudesse substituí-lo e consolidar o terceiro mandato petista. A opção de Lula foi lançar Dilma Rousseff, ex Ministra-chefe da Casa Civil. O PSDB recorreu a José Serra, o candidato que havia enfrentado Lula em 2002, sem sucesso.
Todas as emissoras que tradicionalmente organizavam debates – Bandeirantes, Rede TV, Record e Globo realizaram os encontros no primeiro e no segundo turno. Embora tenha ocorrido uma queda considerável na audiência, o debate da Rede Globo ainda se manteve como o de maior alcance e poder de interferência na decisão de voto às vésperas da eleição.
Gráfico 14 – Eleições 2010: audiência dos debates (grande São Paulo)
Fonte: Retirado do arquivo online UOL24.
Durante a campanha, especialmente no segundo turno, o embate entre os candidatos mais votados Dilma Rousseff e José Serra tornou-se mais acirrado. Algumas questões foram recorrentes nessa fase na propaganda gratuita na TV, na Internet e outros meios de comunicação, especialmente com comparações entre os governos Lula e FHC e um compilado de questões morais em que a opinião pessoal dos candidatos passou a ser questionada e considerada. Os debates passaram pelas questões de gênero em dois momentos: i) pelo questionamento da opinião de Dilma sobre uma possível descriminalização do aborto no Brasil, fato levantado por conta da exibição de vídeos de anos anteriores ao período eleitoral em que a candidata se colocava à favor da descriminalização e ii) o questionamento da opinião de Dilma sobre a regulamentação do casamento homoafetivo. A propaganda do horário gratuito de Serra usou dos valores morais religiosos para questionar tais posicionamentos de Dilma.
Outra questão do passado debatida exaustivamente na opinião pública foi a atuação pessoal de Serra e Dilma durante a ditadura militar. A manipulação de informações pelos comitês de campanha e pelos apoiadores de um lado e de outro, especialmente na Internet, tornou difícil para os eleitores julgarem o que seriam os fatos verdadeiros e os boatos falsos
24 Disponível em https://natelinha.uol.com.br/televisao/2018/10/27/20-anos-de-debates-presidenciais-na-tv-em-
associados a essas questões polêmicas. No entanto, a análise do debate de segundo turno, realizado pela presente pesquisa, mostrou que, pelo menos nesse momento, esses assuntos mais polêmicos foram deixados de lado, ainda que o foco na vida e nas competências pessoais também tenha ocorrido.
Os candidatos responderam às perguntas formuladas por eleitores indecisos que estavam na plateia. O instituto de pesquisas Ibope foi responsável pela seleção dos participantes, oriundos de diferentes estados do país. A definição das perguntas seguiu a seguinte dinâmica: na véspera do debate, cada eleitor indeciso formulou cinco perguntas, individualmente e por escrito, sobre temas de interesse nacional definidos pela produção. Os temas foram saúde, educação, meio ambiente, políticas sociais, previdência, investimento em infraestrutura, política econômica, agricultura, saneamento, política externa, corrupção, transportes, desemprego, segurança, habitação, funcionalismo público, impostos, legislação trabalhista e energia. De um total de 400 perguntas, foram selecionadas as 12 mais representativas de cada tema. As questões não foram específicas ou dirigidas a um dos dois candidatos. O debate foi dividido em três blocos em que os dois candidatos responderam às perguntas dos indecisos. Um sorteio definiu que Serra responderia a primeira questão. A segunda pergunta foi respondida por Dilma e assim sucessivamente, fazendo com que ambos respondessem o mesmo número de questões.
Gráfico 15 – Frequência de temas: Debate televisivo
Fonte: Elaborado pela autora a partir da metodologia do projeto MARPOR.
0 5 10 15 20 25 30 35 Relações Internacionais Valores Democráticos Sistema Político Economia Políticas Sociais Esrutura Social (Lei e Ordem) Grupos Sociais e Minorias Políticas
Sem classificação
Frequência de Temas - Debate Televisivo
O Gráfico 15 mostra que, em relação aos anos anteriores, cresceram de maneira significativa as sentenças de discurso com conteúdo inclassificável. O fenômeno se deve ao movimento de diminuição de propostas mais concretas para o aumento de discursos demagógicos e difusos, fato que fez com que muitas frases não apresentassem de fato uma ideia. As frases em que o/a candidato/a falava sobre a própria competência em gerir projetos ou evidenciavam a falta de competência do/a candidato/a adversário/a a gerir determinado projeto foram classificadas na subcategoria “305,2”, dividindo a sentença para categorizar o tipo de projeto, como um projeto referente ao campo – “703,1” ou a algum programa social de habitação – “504”. Segue exemplo:
Veja que a agricultura familiar, primeiro, ela foi beneficiada pelo Luz para Todos. Tenho certeza que quando você saiu lá da sua terra não tinha luz elétrica ou, se tinha, era das poucas que tinha. Porque no campo, no Brasil, faltava energia elétrica. Hoje tem energia elétrica que permite o uso, né? De, de irrigação, o uso... e a melhoria de vida das pessoas na região. Além disso, o PAA que compra alimento direto do agricultor familiar. Além do PAA, eu queria destacar que 8 dos 10, de 10 tratores vendidos, oito tratores de pequeno e médio porte foram vendidos pra agricultura familiar com o financiamento do governo do presidente Lula. Mas, sobretudo, eu considero que tem de ser dado, e é isso que eu me comprometo, tem que ser dado para o filho do agricultor e para o agricultor as mesmas condições da cidade. Senão, ele sai e vai procurar a cidade porque no campo não tem educação de qualidade, não tem uma habitação adequada. Nós, do Minha Casa, Minha Vida 2 separamos, como também no 1, uma quantidade de habitações só pra zona rural, pra garantir uma qualidade de moradia para as pessoas equivalente à da cidade (INFORMAÇÃO VERBAL DILMA ROUSSEFF, debate 2010).
O candidato Serra mostrou a mesma tendência de 2002 ao aproveitar brechas em questões sobre outros temas para falar sobre sua competência enquanto Ministro da Saúde no governo FHC. Assim foi feito no exemplo que segue, no qual o candidato foi questionado sobre a eficiência dos serviços púbicos com foco na qualificação do funcionalismo
Não pode nomear qualquer um. Quer dizer, o funcionário, pra ir pra lá, tem que ter um currículo, tem que ter uma avaliação, tem que ter uma folha de serviços melhor. Com isso, nós diminuímos a ação da política junto ao funcionalismo, que às vezes implica em pôr não os melhores, não os mais qualificados, mas quem não tem qualificação. Quando eu era Ministro da Saúde, eu fiz isso em relação à Fundação Nacional de Saúde, a FUNASA, com seus coordenadores estaduais. Não por coincidência, depois que terminou o governo, eu até fui candidato de um debate aqui em 2002, esse decreto foi revogado. E í, a FUNASA passou a ser inteiramente politizada nos seus coordenadores estaduais, trazendo muitos problemas pra saúde (INFORMAÇÃO VERBAL JOSÉ SERRA, debate 2010).
O debate seguiu sem grandes polêmicas, diferentemente do restante da campanha, em um contexto cordial entre os dois oponentes. A abordagem dos temas, em relação à prioridade, se deu da seguinte forma:
Tabela 8 – Frequência temática no discurso dos presidenciáveis em 2010 Frequência Temática no Discurso dos Presidenciáveis - 2010
Dilma - PT Serra - PSDB
Relações
Internacionais 0 irrelevante 0 irrelevante Valores
Democráticos 1,162 irrelevante 1,102 irrelevante Sistema Político 11,24 secundária 22,794 prioritária Economia 19,767 secundária 20,588 prioritária Políticas Sociais 29,457 prioritária 24,632 prioritária Esrutura Social (Lei e Ordem) 5,813 pouco relevante 3,308 pouco relevante Grupos Sociais e Minorias Políticas 22,093 prioritária 7,352 pouco relevante
Fonte: Elaborado pela autora a partir do debate televisivo do 2º turno – TV Globo.
Um ponto interessante foi o de notar que, pela primeira vez, nenhuma categoria referente ao domínio 1 – Relações Internacionais – foi citada por nenhum dos dois candidatos. O fato demonstrou que o tema, na agenda de 2010, não foi considerado como uma questão de formação de interesse na opinião pública.