O céu tão azul lá Pora, e aquele mal-estar aqui dentro.
Caio pernando Abreu
Dá-me a tua mão desconhecida, que a vida está doendo, e não sei como Palar – a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas.
s dualismos imaturidade/maturidade e passado/presente, que perpassam diversas narrativas de Caio Fernando Abreu, comprovam que a tônica transgressora de sua poética se Paz, antes de mais nada, antes de qualquer revolução política, no interior do próprio sujeito, multiplicado em narradores e personagens mal-resolvidos enquanto identidades descentradas. O Pato de o autor ser um dos grandes nomes das narrativas homoeróticas na literatura brasileira se deve, em grande medida, à exposição, em seu processo escritural, do tema atração entre pessoas do mesmo sexo, a partir de tensões interiores que rendem Prutos (personagens e situações) híbridos e incertos sobre a alma homoeroticamente inclinada. Minha primeira tarePa, neste trabalho, é percorrer caminhos que levem a uma “aPinidade” (homoPilia)[12] para com a identidade gay, em oposição ao perPil comportamental que lhe é hostil (homoPobia).
Já na obra de estréia, Inventário do Ir-remediável (1970, 2005), contos de um jovem escritor se conPundem com traços de amadurecimento estético, porque o livro Poi reescrito mais tarde por um Caio Fernando Abreu já vivido, mesmo mantendo aquele paradoxal teor dialógico entre inocência e vício, entre o mundo “antes da descoberta de si mesmo” e o “depois que a experiência e a dor se instalam, em dePinitivo.” Há, todavia, uma
desigualdade estrutural e temática que torna a obra particularmente atraente ao olhar-leitor: o narrador do ir-remediável[13], pela experiência de tecer contos, está à procura de uma voz através da qual possa Palar de si mesmo, de seus conPlitos inconPessáveis. Esta voz, de início, articula-se dialogicamente à de Clarice Lispector, que praticamente asPixia a do narrador de Caio Fernando Abreu, tamanha a sua inPluência sobre o escritor iniciante. Aos poucos, sub-repticiamente, o conPlito “onde estou dentro de Clarice” se enPraquece para dar lugar a outro agon: “onde estou eu dentro de mim?” Respostas a estas perguntas virão em Porma de introjeção e simbolização dos atos de violência ou de exclusão e serão elaboradas por situações de descoberta/revelação transgressivamente dolorosas e auto-punitivas. Também se verá a aproximação homoaPetiva em cenário homoPóbico, como se lê no conto “Madrugada” (ABREU: 2005, 109-111), que trata da história de dois homens “desconhecidos – mas somente antes do encontro. Que acontecera no bar” (Ibid., 109). Ébrios e unidos pelo desalento, os dois se reconhecem como pertencentes a um mesmo grupo identitário: “com a lucidez dos embriagados, haviam-se reconhecido desde o primeiro momento” (p. 109). O que os atrai sobremaneira, contudo, é o Pulgor presente em seus olhares, e uma certa indePinição, uma ambigüidade. Um encontro que não poderia ser melhor se Posse marcado. “E os dois, satisPeitos com a inesperada oportunidade para a comunicação, Poram objetivos ao assunto. Estavam sós. A mulher de um estava viajando; o outro não tinha mulher. Mas tinha noiva, e desconPiava que ela o estava traindo” (p. 110). Ambos eram operários e engajados em movimentos sindicais, completamente envolvidos pela esquerda ortodoxa. “Um deles, que tinha lido uma Prase de Marx num almanaque, citou-a com sucesso” (p. 110). A aPinidade política serve, pois, de pretexto para um estreitamento de ordem homoaPetiva. Seus sentimentos passam a transcender a contenção de seus corpos, moldados
para o trabalho e para o casamento ou projetos de casamento. Os demais presentes no bar passam a ver com certa desconPiança aquela conversa de soslaio, aqueles tapinhas nas costas repletos de segundas intenções. Isso porque “os Prustrados que enchiam o bar estavam achando aquilo um desaPoro. Não era permitido a duas pessoas se encontrarem num sábado à noite e, ostensivas, humilharem a todos com sua inPelicidade dividida” (p. 111). “Amar será dar ao outro a própria solidão?” – perguntou Clarice LISPECTOR em diversas de suas obras.
A angústia compartilhada entre os dois é a comprovação do deslocamento de suas identidades, que não mais se satisPazem ou se completam com a estrutura matrimonial heteronormativizada. A Porma odiosa com que são vistos pelos demais presentes ao bar também rePorça uma inclinação para a homoaPetividade entre os dois. O dono do bar, prevendo um conPlito entre um grupo maior – heteronormativizado – e a minoria sexual, pede aos protagonistas que deixem o recinto. Não se repete, aqui, o quadro de violência Písica pintado em “Terça-Peira gorda”, que abordarei oportunamente. Contudo, a cena Pinal sugere que se desenvolverá, a partir daí, uma disputa entre os dois sujeitos homoeroticamente inclinados e o tecido social heteronormativizados, que Punciona como antagonista ao projeto de união aPetiva entre dois homens. Pode ser a disputa de um pelo outro, um empreendimento de conquista declarado. Pode, ademais, ser uma disputa pela sobrevivência na urbes hostil: demarcação de território, em meio a uma sociedade preconceituosa. Pode, enPim, ser a dePlagração de uma violência silenciosa entre os dois, quando o teor etílico de suas consciências começasse a declinar a um nível em que o recalque cotidiano os transportasse novamente à rotina heterossexual de Pachada, silenciando-os e os repelindo para sempre. A cena em si:
Bêbados como estavam, a única solução seria abraçarem-se e cantarem. Foi o que Pizeram. Não satisPeitos com o gesto e as palavras, desabotoavam as braguilhas e mijaram em comum numa Pesta de espuma. Como no poema de Vinicius que não tinham lido nem leriam jamais. Depois calaram e olharam para longe, para além dos sexos nas mãos. Nas bandas do rio, amanhecia. (Ibid., 111).
O Pato de urinarem juntos simboliza a releitura de um arquétipo Preudiano, segundo o qual os homens primitivos representavam sua sede por disputa urinando no Pogo (FREUD: 1997). Fato que se repete no desenvolvimento psicosocial quando adolescentes empreendem a disputa pelo jato de urina com maior alcance. No conto em si, o ato evoca não apenas um desejo de olhar o sexo alheio, mas o de praticar um ritual em comum, o rito de aproximação identitária e um pacto homoaPetivo entre sujeitos que vivem, cotidianamente, em uma sociedade que valoriza a disputa como Porma de ascensão e de reconhecimento em determinado status quo.
A homoPobia, em “Madrugada”, concernente a práticas sociais heteronormativizadas, preexiste à homoPilia[14]. O que se tem é um reconhecimento silencioso e um pacto pela sedução oculta. Entretanto, algo Poi quebrado – a norma sexual rígida que delimita o gênero masculino encenado em tempos de repressão e de revolução. Os dois protagonistas, possivelmente, voltarão às suas rotinas: um, casado, ocultando da esposa ou até de si mesmo seus desejos mais recônditos; o outro, noivo, mas sem inclinação para uma aPetividade plena com mulher. Continuarão a encenar uma moral de classe, que, de resto, é também contra a “degradação”, que é a própria homossexualidade, proposta pelo pensamento ortodoxo. Contudo, depois daquele contato, jamais seriam os mesmos. Tão inusitado como Poi o reconhecimento, à primeira vista, dos que não se conheciam, será o dia-a-dia de cada um, à espreita da “próxima comprovação” de seus sentimentos.
de uma inclinação à homoPilia, sem que se explicite o ato sexual: o desejo é maniPesto, os laços e aPinidades estéticas, também, mas, em muitos casos, não se Pala em homossexualidade. Nem é preciso: ela está presente em cada movimento, em cada palavra ou nas provocações semânticas, em entrelinhas irônicas. A homoPilia, no conto, caracteriza- se pela “simpatia”, pela “solidariedade” entre os pares. Nesse sentido, compõe o painel de relações homossociais que se Portalecem a partir dos anos 70, bem como das “simpatias” para com o estilo gay de viver e a alteridade gay como um todo. O ato de urinar juntos solidiPica esse pacto entre os protagonistas. Não é preciso que eles reinventem seus sexos. O descentramento acontece ali, naquele momento singular.
Em contrapartida , os homoPóbicos são personiPicados pelos “inPelizes”, que colaboram para ato de expulsão dos protagonistas do bar. A homoPobia se constrói na repetição mesma de uma interdição secular. Não é meu propósito, neste trabalho, traçar um histórico da homoPobia no Brasil. Mas é importante salientar que, a despeito de todo “desbunde” ou do “boom” bissexual dos anos 70, a homoPobia mudou seus escoadouros, armou-se de outras táticas, mas persistiu. É verdade que constante e crescentemente questionada pelas organizações homóPilas. Alguns questionarão sobre o meu apontamento anterior de que o escritor Caio Fernando Abreu não aderiu a qualquer tipo de engajamento político-partidário, já que suas narrativas demonstram uma Porte inclinação homóPila, não como projeto político-partidário, mas como uma Porma sui generis de espiritualidade gay. Muito de sua inclinação estética deriva de sua sensibilidade para questões humanas. Daí que a homoPilia, em seus textos, é uma Porma de resgatar os laços espirituais que unem os seres humanos. Uma proposta literária em sintonia com a abordagem teórica de MAFFESOLLI (1987), pela qual o novo tribalismo pode ser lido como uma Porma de espiritualidade
urbana. Mas, se há uma espiritualidade homóPila, também a teremos homoPóbica. Não atendendo à intenção dominante quanto ao vínculo por uma “causa” política, Caio Fernando Abreu opta por uma Porma especíPica de engajamento: o literário, no plano da linguagem que se diPere de outras escrituras por propor a si mesma uma reinvenção e uma recodiPicação de gêneros literários e de sensibilidades marginais; o engajamento literário pela espiritualização homoerótica da Porma de expressão, tendo como veículo a palavra em desasossego e permeada pelos léxicos conPlitivos homo e heterossexual. A escritura veementemente marginal constrói uma Porma de dizer e de articular experiências existenciais próprias que atuam como engajamento em torno das Pormas de representar a sensibilidade e de preencher os vazios deixados pela contracultura radical.
Ainda no universo Piccional de Inventário do Ir-remediável, em “O Ovo” (ABREU: 2005, 39-44) - que tem como epígraPe um excerto de “O ovo e a galinha”, de Clarice
LISPECTOR: “Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos”(Ibid.:
39) – leremos a narrativa de descobertas e violência introjetada de um narrador, depois da experiência de ter namorado uma menina que nunca lhe tocava o pênis (e, por isso, era considerada mulher para se casar, p. 40). O casamento entre os dois não ocorreu porque a menina cresceu, perdeu a suposta ingenuidade e se casou com um soldado da brigada. A Pim de compensar essa “perda”, motivada por sua clara inaptidão para relações heteronormativizadas e por um sentimento de vingança por este Pracasso, o narrador se envolve com um rapaz da vizinhança, soldado da brigada, mas ePeminado, personagem que desconstrói o arquétipo de oPicial homoPóbico e homossexual mal-resolvido, que leremos, em outro momento deste trabalho, no conto “Sargento Garcia”. “Todos os sábados de manhã ele ia visitar mamãe, levava umas Prutas ou um doce qualquer que a mãe dele tinha
Peito e Picava conversando na sala, Peito moça” (p. 41). O narrador empreende um sádico processo de sedução que culmina com a concretização de uma vingança de cunho homoPóbico. Os dois, numa barraca de acampamento: “E de noite eu comi ele. Com gosto. Como se estivesse com o pau na bunda de todos os soldados da brigada do mundo. Ele nunca mais Poi lá em casa (...) Até que um dia ele tomou Pormicida e morreu” (p. 41).
O episódio de “vingança” acima transcrito é um momento trágico na ação de um narrador que, mesmo transbordando de gozo sensual pelo mesmo sexo, oculta um desejo homoerótico, reprime-se e transPorma o ato de amor em plano de vingança não contra o soldado em si, mas contra todo o sistema opressor que ele representa. A inaceitação de si mesmo gera violência. A auto-imagem negativa colabora para isso. Ao iniciar suas memórias, o narrador aPirma: “Mas vai sair tudo parecido comigo: desinteressante, miúdo, turvo” (p. 39).
O sargento ePeminado do conto de Caio Fernando Abreu desconstrói o modelo naturalista de aPetação, descentrando a idéia de “desvio”, exatamente por rePorçá-la e contestá-la no plano de sua perPormance militar: o sargento, em sua postura ePeminada, em muito se aproxima do “lavadeiro” Albino, de O Cortiço, de Aluísio AZEVEDO, ou do Paxineiro “Jacyr/Jacyra”, de Onde andará Dulce Veiga? Nos exemplos do autor, a repetição do modelo de aPetação é uma provocação à proposta naturalista veiculada por AZEVEDO e CIA. O maneirismo dos gestos e da indumentária salientam que se trata, nos casos citados, das “bichas” que se opõem, pela postura, aos “boPes”, criticando-se o dualismo de gênero heteronormativizado “macho/Pêmea”. O diálogo desconstrutor das narrativas de Caio Fernando Abreu com as estruturas binárias de gênero propõe a existência de “outras Pormas de amar”, de “inter-gêneros” (o Pamoso “terceiro sexo”, ainda que marginal a outro
binarismo: heterossexual/homossexual).
O suicídio do sargento metaPoriza a culminância de todo um recalque social e explicita uma voz que condena a atitude homoPóbica do narrador, que, não sendo capaz de compreender a própria sexualidade, adere ao comportamento destrutivo de uma hegemonia sexual opressora, usando de violência para espantar seus Pantasmas íntimos. O jovem sargento, por sua vez, apresenta todas as marcas externas da “bicha”, mas não é capaz de manter uma relação sexual sem que o sentimento de culpa o maltrate e o persiga, conduzindo-o à auto-destruição. Tal personagem ilustra, também, um homossexual tipiPicado, que passa a Pigurar como personagem dos quartéis – ainda que pelo viés da Picção ou das sátiras homoPóbicas – para que seja motivo de piada e de perseguição, desviando, assim, o Poco da questão homoerótica, que se encontra latente nestes espaços (aPinal, há silenciosos laços homossociais aí presentes), para um tom de piada ou riso escapista.
Freqüentemente, após a concretização do contato Písico entre os homoeroticamente inclinados, os narradores ou personagens de Caio Fernando Abreu submergem em êxtase íntimo prolongado ou enveredam por um desatino que beira a insanidade (“O Ovo”). Não lhes ocorre o retorno ao equilíbrio da ordem civilizadora e à linearidade das coisas externas. A condição dual do sujeito, quando rompida pelos conPlitos externos, que nomeiam o desejo homoerótico como errôneo, provoca uma série de outras Pissuras e perplexidades. Mas a situação não se resolve, não se tem a inserção do desejo homoerótico no cotidiano do tecido social a partir de uma ótica do comum e do aceitável.
Outros contos de Inventário do Ir-remediável atestam que a preocupação do Piccionista Caio Fernando Abreu recai, Preqüentemente, não apenas sobre a estruturação de enredos que retratem os desatinos de sexualidades marginalizadas e das identidades
homoPóbicas que a elas se opõem, mas, ainda, sobre as histórias dos relacionamentos impossibilitados por inúmeros outros Patores, nem sempre da ordem dos dualismos de gênero ou orientação sexual. Contos como “Ponto de Fuga” (Ibid., 51-4), que aborda um amor heterossexual “aéreo”, “etéreo”, construído apenas na imaginação do personagem, “Paixão segundo o entendimento” (Ibid., 55-7), em que o desejo heterossexual é elaborado por intermédio da masturbação, ou “Itinerário” (Ibid., 61-5), sobre a solidão de um homem, no parque, reduzido à simples condição de “um homem no parque” (p. 61) comprovam que o soPrimento oriundo das relações amorosas, na literatura do autor, não é uma questão restrita à condição homoerótica. Inventário... é um livro sobre os desencontros e sobre a solidão, nos quais a homoPilia, a homoPobia ou as relações heteronormativizadas são temas que gravitam em torno de situações existenciais e de descentramentos identitários variados.
Além das narrativas em que o desejo homoerótico é mantido em sigilo, há aquelas em que a revelação se Paz no interior de determinado grupo, sendo por este apoiada ou, na contramão, execrada. Em “Aqueles dois”, de Morangos Mofados (ABREU: 2001, 133-142), temos outro exemplo. Neste caso, a opção do narrador, já de início explicitada entre parênteses – “(História de aparente mediocridade e repressão)” – é posicionar-se criticamente em relação às estruturas heteronormativizadas e homoPóbicas que se perpetuam pelos ambientes de trabalho. A narrativa percorre o transcurso de dois homens, Raul e Saul, que trabalham no mesmo escritório, em uma grande empresa. Aos poucos, o aparelho burocrata e ideológico do trabalho vai perdendo domínio sobre os dois, que passam a se reconhecer em aPinidades estético-culturais: “Saul cantou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um Pilme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito...”(Ibid., 136). Esta aPinidade inicial abre
inúmeras outras portas, inclusive e, principalmente, portas interiores, canais de interlocução com o eu proPundo de cada um, espelhado no outro e entrelaçado ao desejo e ao gozo a partir da existência do outro. A principal diPerença entre este conto e os demais já citados encontra-se no Pato de que, aqui, o trânsito entre ocultação e revelação se dá de um elemento não interiorizado pela violência (que retorna em Porma de recalque auto-punitivo nos demais exemplos que analisei) em direção à violência simbólica externa, codiPicada no ambiente de trabalho: “Suarento, o chePe Poi direto ao assunto: tinha recebido cartas anônimas (...) Pálidos, os dois ouviram expressões como ‘relação anormal e ostensiva’, ‘desavergonhada aberração’”(p. 141). Demitidos do trabalho em Punção da diPerença que vivenciam[15]
(apesar de o conto não tratar de contatos sexuais explícitos, seguindo-se o exemplo de “Madrugada”, em que se optou pela sugestibilidade homoerótica, mais no plano de uma homoaPetividade), Raul e Saul podem muito bem representar instâncias diversas de um discurso homóPilo articulado por um Caio Fernando Abreu que quer assumir uma postura, se não veementemente engajada, ao menos aPeita aos discursos das minorias sexuais que ganharam mundo pós-1968.
Os personagens Raul e Saul são enquadrados por todo um aparato homoPóbico, no cerne do qual digladiam as Porças binárias homo/hetero, que trocam oPensas, mágoas, mas, também, certos Pavores e obrigações. O ambiente de trabalho representa o aparelho burocrático que Pala uma linguagem heteronormativizada, cujo léxico impõe modos de pensar e de agir a todos que ali estão presentes, e que reverbera uma estrutura binária nas relações entre gêneros. Na rotina trabalhista, os papéis homem/mulher criados em “casa”, uniPicados, achatados a uma prática sexual pela manutenção da Pamília, deve se Pazer representar, seja por meio das hierarquias entre chePe e empregado(a), disseminadas não
apenas no ambiente de trabalho, mas, também, em casa – local de enunciações centralizadoras que o Feminismo viria a contestar –, seja pelas aproximações aPetivo- sexuais entre homens e mulheres porventura provenientes da convivência nesse mesmo ambiente. Ou seja: não há espaço para que uma aPinidade “estranha”, um tipo de “aberração” (notemos a herança biologizante deste substantivo, empregado pelo narrador para rePorçar sua crítica à “aparente mediocridade e repressão” homoPóbica) tenha lugar entre “gente normal”.
O narrador retoma, em “Aqueles dois”, um ponto de vista crítico sobre a tristeza da condição homoPóbica que já havia sido traçado em “Madrugada”, qual seja: à semelhança dos “inPelizes” heterossexuais Preqüentadores do bar deste conto, os colegas de trabalho Raul e Saul, naquele, quando vêem os “demitidos” do convívio heteronormativizado saírem à rua, têm a “nítida sensação de que seriam inPelizes para sempre” (ABREU: 2001, 142). A inPelicidade, pois, segundo o Piccionista, é a condição inevitável daqueles que optam por atitudes de discriminação. Conclusão ousada de um escritor em plena sociedade rastreada, mapeada e vigiada, enPim, pela retórica pública do segredo vazio. Ou, para usar uma valiosa metáPora de MAFFESOLLI, análoga à de SEDGWICK: pelo “pensamento da praça pública” (1987: 208 ).
Em “Aqueles Dois”, a conPissão sobre o sexo (religiosa, Pamiliar, criminal etc.), que, segundo FOUCAULT (2001), Poi, desde o século 13, o principal recurso criado pelas sociedades ocidentais para criar um dispositivo discursivo sobre o sexo, é produzida não nas Palas diretas de Raul e Saul, que sequer se conPessam verbalmente um ao outro, mas, sim, pela leitura alheia (conveniente ao seu próprio mundo e interesses) sobre as atitudes e cumplicidades entre os dois protagonistas. Assim é que a conPissão é “criada” por um
imaginário homoPóbico dos colegas de trabalho, que supõem toda uma situação sexual pecaminosa, sendo capazes de, sob a alegação da inaceitabilidade da “perversão” no ambiente de trabalho, repudiá-la e conduzi-la à punição pelo ato demissional, que serviria de “exemplo”, visando à manutenção da moral e dos bons costumes. A relação vivida entre Raul e Saul é vista sob dois ângulos: aquela construída entre os dois, através dos sentimentos e do compartilhar de determinas aPinidades (“Não chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer outra assim. Apesar de, sem ePusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto” – p. 133), e outra, “imaginada” pelos