Seguindo nossa proposta de análise da perícope, nos deteremos, num primeiro momento, nos movimentos e insinuações de ação que a marcam. Começamos destacando o seu caráter narrativo, a presença do ְו (wav conjuntivo) que é usado como conjunção. Contudo, seu uso costumeiro é muito maior do que o conectivo “e”. Com frequência, inicia frases (WEBER, 2001, p. 371), conforme observamos na pericope analisada.
Em nossa perícope, esta partícula inicia todos os versículos, o que amarra (cadencia) e exprime bem a caraterística narrativa do texto. Ela, numa tradução literal, pode ser traduzida por “e”. Trazendo para a língua falada, poderia ser visto como “então” ou, simplesmente, desaparecer na fala do narrador. Mesmo não apresentada, esta expressão mostra bem o estilo literário. Nascimento comentando Selin e Fohrer (apud NASCIMENTO, 2012, p. 57) lembra que “uma linguagem com ação, mobilidade, tende a ser prosaica. Marca dessa prosaicalidade são os waw‟s consecutivos nas narrativas”.
A perícope inicia contando o motivo do deslocamento de Moisés até o monte Horeb: pastorear ovelhas. Cuidar de um rebanho miúdo. Moisés não só se desloca, mas conduz algo. Seria algo específico da pessoa de Moisés, ou o autor nos traz uma cena comum de sua época? Se, como outros pesquisadores, encararmos como uma cena comum, podemos perguntar-nos: “Quem eram os pastores ao redor do Egito? O que significam os descolamentos destes?” Segundo Coleman (1991, p . 213)
já desde a época dos primeiros patriarcas sempre houve diversos tipos de povos nômades deslocando-se pelo territória de Israel [...]
Os nômades a que nos referiremos eram pastores de gado ou de ovelhas, que se deslocavam de uma região para outra em busca de pastagens para o rebanho.
O verbo
גהנ
(nhg) se emprega para falar da atividade do pastor (COPPES, 2001, p. 930); guiar ou conduzir o rebanho (SCHÖKEL, 2004, p. 422). Tendo sua origem na expressão alimentar, o verbo pressupõe um movimento. No Antigo Testamento encontramos esta mesma conjugação ao tratar de Jacó que conduz seu rebanho (Gn 31, 18) e com Davi, também, na ação de conduzir ovelhas (1Sm 23, 5). Contudo, é um verbo muito empregado. É encontrado em 31 versículos. Encontramos o mesmo verbo no Êxodo, para dizer que Javé conduziu o vento que trouxe os gafanhotos (Ex 10, 13) e, também, que os egípcios tinham dificuldade de conduzir seus carros (Ex 14, 25).É um verbo que fala dos primeiros deslocamentos presentes na perícope: guiar as ovelhas para lugares onde elas conseguiriam elementos necessários para a subsistência. A atividade que Moisés desempenhava o coloca em constantes descolocamentos. De um canto a outro, vai buscando um lugar mais seguro para seu rebanho. Lugar que tenha água e alimento, sombra e proteção. A perícope em questão nos mostra Moisés que vai mais longe, além do deserto, lugar. Moisés, de certa forma, deve fazer o mesmo caminho que Abraão (GALLAZZI, 1999, p. 34). Já este primeiro deslocar-se nos conecta com a dinâmica que marca os povos seminômades, bem como toda a narrativa do Êxodo, um povo que vive em êxodo, saída, itinerância, movimento. Nesta perspectiva, falar de deslocamento é falar da corporeidade na Bíblia.
A imagem do êxodo ajuda a se pensar em um corpo em movimento, que busca sua auto-superação em diversas dimensões de sua existência – constituindo-se não apenas em movimentos de caminhada em direção a algo ou a algum lugar, mas também em movimentos alimentados pelas festas, pelo jogo de corpo e pela luta de cada dia, ainda que marcados por contradições – o corpo é locus privilegiado da experiência com o que nos transcende. Uma corporeidade em movimento, em suas conquistas micros no cotidiano, é um eixo epistemológico fundamental que queremos avançar nas esperanças ante as adversidades dos tempos presentes (SAMPAIO, 2008, p. 50).
Aqui nos colocamos diante das micro relações de poder, que marcam os corpos dos pastores da época de Moisés e, também, dos nossos contemporâneos. Corpos marcados por uma estrutura social. A corporeidade não é paralela às relações sociais assimétricas. Nossas pesquisas, seja no campo da Bíblia, seja nos contextos juvenis, se deparam com corpos que buscam, reivindicam e constroem pistas, saídas e atalhos.
“No cotidiano expresso no Êxodo, mais do que grandes mudanças sistêmicas, o que se percebe são muitas parcelas de poder que se aliam para garantir a vida” (SAMPAIO, 2008, p. 51). Corpos em movimentos que garantem vida. Vida que se manifesta nos enfrentamentos, mas também no descobrir brechas: as beiras que tornam o cotidiano possível. Outro traço da tradição do êxodo também presente na PJ.
Temos, ainda, três verbos que trazem deslocamentos. É preciso também mencionar que quando falamos de deslocamentos abordamos não só processos externos, mas, também, internos. Os verbos
רוס
(swr),ברק
(qrb) eרתס
(str) trazem movimentos bem diversos, mas que abordam bem a experiência feita por Moisés.רוס
(desviar-se, afastar-se) encontramos este verbo nos versículos 3 e 4. Intenção e execução do que foi pensado. Encontramo-lo no Antigo Testamento em 285 versículos. Seusentido básico seria desviar-se, sair do caminho (HOLLADAY, 2010, p. 361; KIRST, 2013, p. 166; PATTERSON, 2001, p. 1034; SCHÖKEL, 2004, p. 464). “Em muitos casos é um simples verbo de movimento, expressando a ação de se desviar” (PATTERSON, 2001, p. 1035). Diante de algo inusitado, Moisés não caminha direto, mas vai contornando, desviando, se aproximando da forma com cautela e admiração. Como na vida dos pobres desta terra em todos os tempos e culturas, por vezes, é preciso se esgueirar, descobrir caminhos.
Na primeira vez que este verbo aparece na perícope
אֵָּ֣נ־ה ָּרֵֽ ּסאָ
(‟asurah-na‟) encontramos o verbo no qal imperfeito, na primeira pessoa singular. Aparece, unicamente, no Antigo Testamento neste versículo. A presença da partículaא ֵָּ֣נ
( na‟) “partícula enclítica de urgência, tradução difícil de especificar, e.g., por favor (vá!) (entre!)- apenas (me ouça)” (HOLLADAY, 2010, p. 317). Na visão de Schökel é usada para “expressar desejo ou acrescentar-lhe ênfase” (2004, p. 414). Aqui ela potencializa a ideia que está sendo apresentada. O que nos permite traduzir Ex 3,3: Me afastarei agora ou rapidamente, ou aindaafastar-me-ei, agora (FRANCISCO, 2013, p.193). O realce pode ser visto, também, dentro do
contexto de admiração em que se encontra toda a cena ou denotar a presteza que a experiência pede de Moisés. Diante de tal fenômeno é preciso agilidade para se reconhecer. É preciso que o deslocamento se dê com urgência.
Já no emprego do mesmo verbo no versículo 4, temos a divindade observando Moisés realizar o que já tinha intentado em seu coração.
רֵָּ֣ס
(sar) é o verboרוס
no qal singular masculino perfeito 3ª pessoa. É interessante pensar que, para se aproximar de Deus, é preciso que Moisés se desvie. A expressão empregada pela Bíblia Edição Pastoral (1990) échegar mais perto; a Bíblia do Peregrino (2002) fala em aproximar-me; a Bíblia de Jerusalém
(1987) em Darei uma volta. Já a interlinear (FRANCISCO, 2013), devido sua preocupação com a literalidade, traduz por afastar-me-ei. O contexto do versículo torna pouco própria a tradução de afastamento, mas traz presente que o caminho feito é curvo. A aproximação nem sempre é feita em linhas retas para se aproximar; por vezes, são necessários afastamentos.
Martini encontra, na geografia do lugar, uma chave para a escolha das palavras
O texto na tradução da CEI15 diz: “Quero aproximar-me e ver este grande espetáculo”. A versão não me parece muito boa. A Bíblia de Jerusalém, na edição francesa, diz: “Je vais faire um détour”, que corresponde melhor ao verbo hebraico
sur, que significa “fazer um desvio, dar uma volta longa” e que dá a ideia de uma
vontade explícita: quero tomar conhecimento. Parece-me que se possa supor uma
15
A sigla quer dizer Conferenza Episcopale Italiana (Conferência Episcopal Italiana) a responsável pela tradução da Bíbla sobre a qual o autor versa.
situação desse tipo: no deserto há diferentes mesetas, uma acima da outra, e com frequência é necessário dar uma longa volta para subir à meseta superior; Moisés se encontra num plano mais baixo com suas ovelhas, vê num plano mais alto a sarça e diz: “Vou subir; darei uma volta, quero ver de que se trata”. Isto implica deixar o rebanho, talvez em perigo, subir sob o sol etc. (1985, p. 26-7).
Quanto ao verbo
ברק
(qrb) “basicamente a raiz denota estar em posição mais próxima e íntima do objeto (ou sujeito)” (COPPES, 2001, p. 1367). Aqui entrevemos o motivo do interdito, da exigência do afastamento. Poderíamos, também, vislumbrar toda a busca humana: estar próximo, íntimo, do “totalmente outro”. Contudo, da mesma forma, podemos reconhecer uma advertência presente em todo o Antigo Testamento, o perigo de se instrumentalizar o sagrado. A aproximação de Deus deve dar-se no contexto de reconhecimento do sagrado. Assim, no versículo 5, temos a expressãoב ֵַ֣רְקִת־לאַ
(‟al -tiqrab) formada pela particulaלאַ
(‟al) e a conjugação verbalב ֵַ֣רְקִת
(tiqrab)que tem sua origem numa partícula do advérbio qrb. O verbo aí se encontra no qal imperfeito, 2ª pessoa masculino singular. Seu significado é “estar prestes a chegar” (KIRST, 2013, p. 218), “aproximar-se” (HOLLADAY, 2010, p. 460). “No campo cultual: acercar-se. Aceder, apresentar-se” (SCHÖKEL, 2004, p. 590). Outro “uso técnico do verbo se encontra no contexto do culto público e tem a conotação de cada passo que o homem dá para apresentar a sua oferta a Deus. Esta ideia começa a se desenvolver com Moisés se aproximando de Deus (Ex 3.5)” (COPPES, 2001, p. 1368).Por fim, ao falar de deslocamentos, não podemos deixar de mencionar a atitude de Moisés no versículo 6. Esta é expressa pelo verbo
רתס
. Emר ַ֤ תְסַיַו
(wayyasetter) temos um waw consecutivoו
e o verbo no hiphil imperfeito, 3ª pessoa singular masculino. Patterson (2001, p. 1063), afirma que “no grau hifil, que é encontrado um maior número de vezes, desponta a ideia de esconder. O uso mais significativo, talvez esteja na expressão idiomática „esconder o rosto‟” (2001, p. 1063), quando o sujeito é uma pessoa de forma a afastar os perigos diante da visão do sagrado, estando em um lugar santo (HOLLADAY, 2010, p. 370).O fato de Moisés cobrir o rosto chama a atenção. Ele está ligado à visão de mundo de seu tempo (ANDIÑACH, 2010, p. 57). Neste caso, o movimento exterior denota uma profunda reverência, um tremor próprio de quem começa a tomar consciência do que se passa. Uma maneira de Israel dar significado a esta experiência tensa que marcará a vida de Moisés: