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7.4 Lie Bracket
Na época em que vivemos a sexualidade libertou-se dos entraves de algumas décadas atrás. Na adolescência quase tudo gira em torno da sexualidade e a s questões sexuais tendem a ser apresentadas de forma explicita, sem os constrangimentos de outrora. A comunicação mediática encontra-se saturada de referências eróticas e sexuais contudo, não é certo que este tipo de mensagens corresponda às necessidades informativas e formativas dos jovens. Pais e adolescentes, parecem ter consciência deste facto, pelo que importa promover um sentido crítico, de modo a não ceder face a uma indesejável banalização da sexualidade (Machado Pais, 2012).
Vieira (2012) verificou que, para os jovens, a aquisição de uma sexualidade activa surge como uma consequência lógica do próprio desenvolvimento e trajectória juvenil, e a ideia de aguardar pelo casamento para iniciar actividade sexual, revela-se como
ultrapassada. Os jovens conferem importância ao relacionamento sexual, como forma de dar continuidade ao relacionamento amoroso.
Os jovens de hoje dão sinais de afirmação de uma subjectividade própria no que respeita aos sentimentos que a sexualidade envolve, e reclamam a existência de espaços apropriados onde possam ouvir e ser ouvidos por especialistas, a propósito de aspectos da sua sexualidade e dos seus afectos. Na escola e na família, os modelos dominantes de educação sexual colocam ainda ênfase na reprodução, restringindo assim a abordagem da sexualidade a uma espécie de “sexo seguro”, excluindo de algum modo a dimensão afectiva. E se existe consenso sobre a necessidade de a escola se envolver na educação sexual dos jovens, já não existe acordo sobre a sua forma de concretização, particularmente sobre quem, na escola, se deve responsabilizar pela educação sexual e, se os docentes se encontram preparados para desempenhar essa tarefa (Machado Pais, 2012).
O comportamento sexual é sempre incluído na lista de “problemas de comportamento” e de “comportamentos de risco” da adolescência. À medida que o estudo do comportamento sexual do adolescente se estabeleceu nas disciplinas da ciência social, aplicam-se, no presente, as mesmas perspectivas que se aplicam a outros comportamentos de risco (Udry & Bearman, 1998).
A investigação sobre o desenvolvimento do adolescente centrou-se em grande medida nas transições que definem e modelam as experiências dos adolescentes. Relativamente à sexualidade do adolescente, Graber, Brooks-Gunn & Galen (1998) referem que esta não tem sido encarada como uma transição na maioria dos estudos sobre comportamentos de risco na adolescência, mas como uma série de comportamentos como a relação sexual ou o uso de contraceptivos, pelo que consideram que esta área tem sido uma área “não estudada” verdadeiramente nas investigações.
Se por um lado, experimentar e explorar, são tendências naturais do desenvolvimento do adolescente por outro, a ocorrência de comportamentos de risco não mediados pelo pensamento, inscrito nas condutas agidas, coloca o adolescente em risco de consequências negativas, a curto e longo prazo, para uma vida adulta saudável. Boruchovitch (1992), num artigo de revisão de literatura sobre os factores associados à não utilização de anticonceptivos na adolescência, apresenta estudos que oferecem contribuições que, embora distintas, se enriquecem e complementam. Assim, o conhecimento que o adolescente detém sobre fisiologia reprodutiva, gravidez e VIH; as
atitudes e crenças relativas ao uso de anticonceptivos; variáveis motivacionais e de personalidade; variáveis biológicas; o momento em que a puberdade começa; variáveis cognitivas; relações familiares e comunicação com parceiros, constituem factores que influenciam a decisão face ao comportamento de risco.
Nesta área estamos de acordo com Boruchovitch (1992) e com Graber, Brooks-Gunn & Galen (1998) na medida em que mais do que apurar o uso ou não uso de contraceptivos, é importante ajudar o adolescente a desenvolver formas de pensamento, de reflexão sobre o seu próprio processo de desenvolvimento, sensibilizando-o para os riscos reais que ele corre, sem contudo o censurar ou adoptar atitudes moralizadoras da sexualidade, permitindo-lhe a continuação de um processo de procura, de exploração de novas experiências, indispensável para a formação da sua identidade e autonomia.
Falar de comportamentos de risco sexuais na adolescência é inevitavelmente falar de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH). De acordo com dados da população brasileira, a incidência de DST entre adolescentes tem aumentando e pode ter como consequências imediatas uretrites, salpingites e, a longo prazo, infertilidade, gravidez ectópica ou neoplasia do colo do útero (Taquette et al, 2005). É difícil precisar os dados epidemiológicos da população brasileira e da portuguesa, quer pelo número de casos notificados ser baixo, por recurso a tratamento em farmácias, quer pelo facto de existirem estatísticas deficientes nas áreas dos comportamentos de risco sexuais nos adolescentes.
Para Kresevic (1995), os três principais métodos de transmissão do VIH são: 1) por contacto íntimo com secreções, particularmente sémen e secreções vaginais envolvidas na relação sexual, 2) o contacto com sangue infectado, através de transfusões de sangue ou partilha de agulhas e seringas durante o uso de drogas por via intravenosa e 3) transmissão mãe-filho através da placenta ou amamentação. Pelo que se deduz que as experiencias sexuais não protegidas e o uso de drogas injectáveis, são os principais comportamentos de risco para a transmissão do VIH. Também Lucas (1993), refere que a melhor forma de combater a transmissão do VIH, é o conhecimento aprofundado da sexualidade humana, o que implica encarar a sexualidade não só como um factor de risco para a saúde, mas também como um elemento fundador da saúde. Este aspecto releva do facto de o maior risco de contaminação, estar fortemente associado ao comportamento sexual dos indivíduos. Para este autor, o grupo com risco significativamente maior, é o dos indivíduos solteiros sem parceiro regular. Lucas
(1993) encontrou uma forte associação com a idade; aos 18-19 anos, 34% dos rapazes e 12% das raparigas iniciados sexualmente, encontram-se na situação de solteiro sem parceiro regular; aos 20-24 anos, 27% dos indivíduos do sexo masculino e 14% do sexo feminino, passam pela mesma experiência.
A gravidez indesejada na adolescência pode constituir também um risco importante, para o processo de desenvolvimento da adolescente. No plano psicológico, a gravidez acidental traduz, de um modo geral, um profundo mal-estar na adolescente, perturbações na sua identidade sexual ou dificuldades nas suas relações com os pais (Braconnier & Marcelli, 2000). Para os autores, quanto mais jovens forem as adolescentes, maior é o risco que a gravidez representa, para a mãe e para o bebé, uma vez que as complicações ginecológicas e obstétricas, são tanto mais frequentes, quanto mais jovem for a mãe. De igual modo, também as anomalias genéticas parecem ser mais frequentes, em mães muito jovens.
Segundo (Marcelli & Braconnier, 2005), a frequência das gravidezes acidentais na adolescência, apresenta uma evolução variável consoante os países, sendo que na Europa se encontra em franca regressão; em França, a taxa de fecundidade (número de crianças nascidas por 100 mil mulheres da mesma idade) passou, aos 15 anos, de 43 em 1977 para 25 em 1986; aos 16 anos: de 134 em 1977 para 66 em 1986; aos 17 anos: de 314 em 1977 para 147 em 1986. Pode aceitar-se que a informação sobre a contracepção e a legislação relativa à interrupção voluntária da gravidez, permitiram essa diminuição. O envolvimento em comportamentos de risco relacionados com a sexualidade, pode ser significativamente potenciado pelo uso de substâncias alteradoras do estado de consciência, particularmente no que respeita à transmissão de doenças infecto- contagiosas e gravidez acidental. McAloney et al (2010) num estudo com uma amostra de 2139 indivíduos entre os 17 e os 19 anos, verificaram que o facto de se ser sexualmente activo e participar em comportamentos sexuais de risco, está associado com o consumo de um conjunto de substâncias lícitas e ilícitas; 91,8% dos indivíduos consumiam álcool; 70,4% eram fumadores; 45,3% experimentaram cannabis e cerca de 20% usaram ecstasy ou cocaína (13,6% e 13,0% respectivamente). 52,9% referiram já ter tido relações sexuais pelo menos uma vez, os consumidores de álcool apresentaram uma probabilidade quatro vezes maior de serem sexualmente activos, em relação aos que não consumiam álcool, enquanto que os consumidores de tabaco, cannabis e
ecstasy apresentavam uma probabilidade duas vezes maior de serem sexualmente activos.
Mais libertos de controlo repressivo e moralista em relação à sexualidade, os adolescentes sentem-se hoje mais libertos para comunicar e exercer a sua procura e exploração da identidade sexual. A sociedade, e particularmente a comunidade educativa, esforçam-se por encontrar estratégias que permitam uma vivência saudável da sexualidade entre os jovens. O perigo de contágio de doenças infecciosas e a possibilidade de gravidez involuntária, potenciados pelo eventual consumo de substâncias, exercem um efeito de ameaça sobre a saúde dos adolescentes, e promove o sentido crítico face aos comportamentos relacionados com a sexualidade.