• Aucun résultat trouvé

BOUHOURD ISOL

Dans le document 01/01/2021 au 31/01/2021 (Page 150-161)

RESTO 72 SOCIETE PAR

M. BOUHOURD ISOL

Humberto Gessinger nasceu em Porto Alegre no dia 24 de dezembro de 1963. Filho de pais professores, o ambiente familiar favoreceu o contato precoce com a música e a literatura. Família de classe média, alguns fatores foram importantes para que tivesse acesso também a boas escolas. Esse contexto é descrito pelo próprio músico, com destaque para a presença da música que permeia as suas lembranças. Argumentando como a música chegava com facilidade à sua vida, ele explica quê:

Um conhecido dos meus pais trabalhava numa sociedade arrecadadora de direitos autorais, por isso ganhava uma quantidade enorme de discos. Sem ter o que fazer com eles, deixou todos com a gente. Era uma coleção fascinante por ser completamente aleatória. Ninguém compraria aqueles, e só aqueles discos. No meio de todas as possibilidades musicais que os LPs ofereciam, eu

192

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia, vol. 3 /Tradução de Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1996, p. 14.

voltava sempre para Os Incríveis, conjunto da Jovem Guarda, e José Mendes, cantor missioneiro. A causa do fascínio eram duas canções com uma característica comum: narravam uma história. Como um filme ou uma ópera. Histórias tristes, sem final feliz.193

As recordações da infância e adolescência são maculadas com a longa doença e o posterior falecimento do pai, quando Humberto Gessinger tinha catorze anos. As distrações não eram muitas, embora intensas, ocupando consideravelmente o tempo. Em meio à formação que recebia, alguns itens contribuiriam de maneira significativa para a bagagem cultural que mais tarde seria revelada em várias de suas letras. Esportes, leituras, passeios e sempre música, muita música, como ele mesmo confirma:

O que havia de bom nessa época era ouvir música. Descobrir novos grupos nas revistas compradas no segundo andar do mercado público. Mais do que ouvintes, éramos torcedores das bandas. Quanto mais obscura e menos conhecida, mais gostávamos.194

A paixão pela música cresceu e foi ganhando diferenciados contornos. Aos quinze anos o presente é uma guitarra e um amplificador. Uma nova etapa musical se abre a partir daí: não apenas ouvir mas também fazer música. Aulas de violão, letras de música escritas em má caligrafia, introspecção e amadurecimento. Fases, estados emocionais e atividades que se complementam em sua vida; novos agenciamentos existenciais que se formavam a cada instante.

Em 1981 Humberto Gessinger começa a cursar Arquitetura, na UFRGS, abrindo uma nova etapa de descobertas. Com traço ruim, o interesse ficava mais com as matérias teóricas como história da arte e história das cidades. Outras experiências também surgiram na faculdade. Aproveitando as atividades culturais paralelas que os estudantes organizavam no verão de 1985 para aliviar o tédio das aulas em pleno mês de janeiro devido a uma longa greve, Humberto Gessinger se junta

193

GESSINGER, Humberto. Pra ser sincero: 123 variações sobre um mesmo tema. Caxias do Sul, RS: Belas-Letras, 2009, p. 12.

a mais três colegas para uma primeira e única apresentação em um auditório do campus. Essa estreia quase por acaso é narrada assim:

Estreia e despedida dos Engenheiros do Hawaii aconteceriam no dia 11 de janeiro de 1985, dia da abertura do primeiro Rock in Rio. Tentamos convencer algumas pessoas de que seria melhor nos ver tocar ao vivo do que assistir aos monstros sagrados pela TV. Eu tinha alguns cadernos de canções que incluíam trechos do que viria a ser Infinita Highway, Nada a Ver, e outras músicas que eu gravaria depois. Não mostrei nenhuma delas. Escrevi uma dúzia de canções no espírito da época, pós-punk. Tinham aquele humor nonsense, niilista. Engenheiros do Hawaii, uma delas, acabou dando nome ao grupo.195

A receptividade foi melhor do que a esperada e depois da apresentação modesta na faculdade outros convites surgiram para shows. Os lugares eram variados: outras faculdades da região, restaurantes, bares, onde havia público e possibilidade para mostrar o som que faziam. O material das apresentações também, ou seja, as músicas foram se alternando. Com o tempo as colagens que faziam de outras bandas famosas e com repertório conhecido deram espaço para divulgar as próprias músicas que os Engenheiros do Hawaii já possuíam, levando a banda a deixar o circuito conhecido da capital para fazer imersões ao interior do Rio Grande do Sul, divulgando ainda mais o seu nome junto ao público.

Foi com esse início de liberdade para escrever que Humberto Gessinger pôde explorar outras nuances, trazendo à luz novos agenciamentos196, e outros devires que permeariam a apreensão de mundo que ele mais tarde usaria em seu trabalho. Suas letras abrem perspectivas novas para a interpretação do rock produzido por sua geração, dando mais espaço a algo que não se incluía no formato que as gravadoras e os produtores estavam construindo para aquele momento musical do Brasil. O fortalecimento do rock dentro dos anos oitenta foi orientado por um padrão musical e estético que tinha uma orientação fortemente comercial. Por esse caminho, a grande oportunidade dos

195

Ibid., p. 16. 196

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia, vol. 2 /Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 24.

Engenheiros do Hawaii surgiu quando uma gravadora do centro do país resolve lançar uma coletânea de rock apenas com bandas do Rio Grande do Sul. Seriam cinco as escolhidas e a banda de Humberto Gessinger foi uma delas. O disco se chamou Rock Grande do Sul.

Mesmo contrariando as previsões, o sucesso da coletânea com as bandas gaúchas de rock proporcionou aos Engenheiros do Hawaii o contrato com uma gravadora para que pudessem gravar e pensar no que faziam de modo mais profissional e planejado. Aproveitando as músicas que já possuíam, o primeiro álbum da banda teve um título peculiar: Longe Demais das Capitais.

Com Carlos Maltz na bateria, Marcelo Pitz no baixo e Humberto Gessinger na voz e guitarra, o LP de estreia ganha um Disco de Ouro e alça a banda ao sucesso nacional, paralelamente à trajetória de turnês que a banda começava a fazer. Esse primeiro álbum trouxe letras que engenhosamente trabalhavam com conceitos aparentemente antagônicos, como em Toda Forma de Poder, uma letra que, como Humberto Gessinger justifica, “cometeu quatro pecados capitais: colocou Fidel e Pinochet na mesma frase, tinha participação de um ícone da MPG, estourou no Brasil inteiro e entrou numa novela (nessa ordem).”197

Entre outras singularidades que seu trabalho revela, a capacidade de politizar temas quase despercebidos, o domínio de uma linguagem articulada e uma abrangência de assuntos ao mesmo tempo cosmopolitas e regionais conferem a Humberto Gessinger uma posição sui generis entre os principais letristas de rock dos anos oitenta. Em versos como Fidel e Pinochet tiram um sarro de você que não faz nada tem-se uma amostra da leitura de mundo que ele consegue fazer, demonstrando uma liberdade corajosa para não cair na ilusão de qualquer ideologia totalizante.

Dans le document 01/01/2021 au 31/01/2021 (Page 150-161)

Documents relatifs