Résumé : Le langage dans les représentations spatiales
Chapitre 3 : Mémoire de travail et représentations spatiales
1. Définition de la mémoire de travail
1.1. La mémoire de travail selon Baddeley
1.1.2. La boucle phonologique
O trabalho passou a ser mera mercadoria vendável regida sob a égide do metabolismo social do trabalho, essa é a base para compreendermos sobre a deterioração do trabalho que impacta na saúde e na qualidade de vida do trabalhador. Para tal, Marx (1985), em O Capital aponta a diferenciação entre o trabalho concreto, produtor de valores de uso e o trabalho abstrato, produtor de valores de troca, forma específica do trabalho estranhado sob o jugo do capital.
Essa diferenciação é de suma importância na nossa leitura, pois é o metabolismo social do capital que motiva os acidentes e as doenças do trabalho na atualidade. Ou seja, a preeminência do trabalho abstrato é voltado para a produção de valores de troca, o que configura as mediações de segunda ordem, que deriva por sua vez, do sistema de metabolismo social do capital. (HECK, 2013, p. 33).
Em resumo, as configurações de mediações primárias, na qual o trabalho é produtor de valores de uso, foram subordinadas às mediações de segunda ordem e representam a estrutura social que nos deparamos na sociedade do capital. É por essa razão cremos ser imprescindível compreender o metabolismo social do capital quando se pretende desenvolver a geografia do trabalho.
Portanto, a emergência do metabolismo social do capital e suas mediações alienantes/reificadas resultam das ações dos próprios homens, porque o homem é essencialmente social. (LESSA, 2007). Dessa forma, acreditamos que a sociedade do capital
não é acomodada e muito menos insuperável, assim sendo devemos compreender seus mecanismos de dominação e controle pelo acesso à dinâmica da geografia do trabalho, este é o caminho para descobrirmos as tramas territoriais da luta de classes.
De tal modo, acreditamos que a concepção da subordinação das mediações de primeira ordem às mediações de segunda ordem é necessária para compreender o adoecimento dos trabalhadores na contemporaneidade, isso porque entendemos que, o trabalho subsumido à produção do valor (que degrada/mutila) é essencial ao capitalismo, mas não necessariamente para a humanidade. (THOMAZ JÚNIOR, 2011a).
As mediações de primeira ordem são determinações ontológicas fundamentais de influência mútua entre o homem e a natureza, nessa fase o trabalho é produtor de valores. Já as mediações de segunda ordem surgem com a imposição de poder que somente ocorrem a partir do trabalho no seu formato estranhado/alienado, para tal o homem tem que estar fora da natureza, ou seja, seu trabalho é transformado em trabalho abstrato, essa modalidade de trabalho possibilita a acumulação de capital em poucas mãos, apropriação da riqueza.
São essas formas de mediações históricas que propiciam a degradação do trabalho que impactam na saúde e na vida dos trabalhadores, propiciando os adoecimentos, é a imposição do metabolismo social que transforma o trabalho produzido pelo homem em mercadoria vendável.
Assim, entendemos que os agravos à saúde dos trabalhadores não são problemas particulares desta ou daquela pessoa, obviamente que são vividos singularmente, mas são problemas sociais frutos da organização e relações sociais de trabalho mais gerais, mediado por várias partes que compõem a totalidade do mundo do trabalho e das relações estabelecidas. Os capitalistas não se preocupam com a saúde dos trabalhadores, se a jornada de trabalho é intensa, repetitiva, cansativa e estressante e irá desencadear o adoecimento, conforme afirma Marx (1985, p. 215), “o capital não tem a menor consideração pela saúde e duração da vida do trabalhador, a não ser quando é coagido pela sociedade para ter consideração”, permanece extremamente atual e é fundamental para a compreensão do que queremos expor sobre os efeitos das condições de trabalho para a saúde dos trabalhadores.
Todavia a degradação das relações de trabalho promove o adoecimento, por isso faz- se necessário a conceptualização do que é degradação das relações de trabalho. Heck afirma “está na sua interconexão com o trabalho degradante na fábrica (território), seus impactos na saúde (doenças/acidentes) e vida (dentro e fora do trabalho) dos trabalhadores. (HECK, 2013, p. 40).
Os trabalhadores não são vistos como sujeitos do processo de produção, embora sejam denominados de colaboradores, dessa forma são expostos à degradação do trabalho sob as mais diferentes escalas territoriais, mas é preciso que foquemos nas condições de trabalho que impactam na saúde desses trabalhadores.
Entre os estudiosos que tratam da temática de adoecimentos, corroboramos com as ideias de Thomaz Júnior (2011a, p. 323):
Vis a vis, as doenças ocupacionais relacionam-se menos com as disposições biológicas e anormalidades orgânicas, que têm incidência isolada sobre os trabalhadores, que, fundamentalmente com a organização e a realização da atividade laboral. Isto é, sob determinadas condições que, nas sociedades contemporâneas, primam pela flexibilização, intensificação dos processos exploratórios, ligados aos descumprimentos da legislação trabalhista, acentuando ainda mais a degradação do trabalho. (THOMAZ JÚNIOR 2011a, p. 323).
Os capitalistas visam a lucratividade, isso faz os trabalhadores serem explorados em demasia, com o intuito de obtenção da mais-valia absoluta e dessa forma os primeiros possam acumular mais riquezas. Contudo, os trabalhadores submetidos a tais medidas exploratórias comprometem sua saúde física e mental, acentuando ainda mais a degradação do trabalho e a alienação dos trabalhadores.
Todavia percebemos que o poder de destruição do capital sobre o trabalho é iminente, impactam na saúde dos trabalhadores, vale ressaltar que o setor sucroenergético não é o único submetido a tal degradação, vários trabalhos relatam os impactos nefastos desse modelo de exploração, entre eles podemos ressaltar Heck (2013), que retrata a degradação e o adoecimento de trabalhadores no setor de frigoríficos, o que indica que estes têm adoecido em escala mundial.
Vejamos alguns dados disponibilizados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) que apresentam sobre acidentes de trabalho no empreendimento do setor sucroenergético estudado, bem como os benefícios concedidos de auxílio doença conferidos aos trabalhadores desde 2009 a 2017.
Através da análise da tabela 10, podemos perceber que no ano de 2013 e 2014, respectivamente houve maior número de notificações de Acidentes de Trabalho, perfazendo um total de 43 notificações, seguido pelo ano de 2009 com um total de 40 e o ano de 2015 com 38 informações de trabalhadores que sofreram acidentes trabalhistas. Com relação à concessão de auxílio doença o ano que teve maior índice de notificações foi 2009 com um total de 16, logo após os anos de 2012 e 2013 com 12 e 11 auxílios doença respectivamente.
Tabela 10 - Acidentes de Trabalho e Concessão de Auxílio doença, concedidos aos trabalhadores do setor sucroenergético de Ituiutaba MG
Ano CAT5 B916 2009 40 16 2010 10 7 2011 35 9 2012 34 12 2013 43 11 2014 43 6 2015 38 6 2016 22 5 2017 23 4
Fonte: Ministério do trabalho 3ª região, dez. 2018. Org.: ARAÚJO, N. S. (2018).
Os dados constantes na tabela 10 referentes a acidentes/doenças no trabalho apontam os aspectos da busca desregrada pela acumulação capitalista que impactam na saúde dos trabalhadores, através da degradação do trabalho. Conforme Heck (2013), aponta este processo está relacionado com o trabalho sob o domínio das mediações de segunda ordem, que inverte os princípios ontológicos primordiais para o limitado formato social do trabalho abstrato que adoece os sujeitos do labor.
Conforme a Lei da Previdência, a definição de acidente do trabalho é um evento súbito ocorrido no exercício de atividade laboral, independentemente da situação empregatícia e previdenciária do trabalhador acidentado, e que acarreta danos à saúde, potencial ou imediato, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que causa direta ou indiretamente a morte, a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. (BRASIL, 2006).
Na legislação, inclui-se ainda, o acidente do trabalho ocorrido em qualquer situação em que o trabalhador esteja representando os interesses da empresa ou agindo em defesa de seu patrimônio, assim como aquele ocorrido no trajeto da residência para o trabalho ou vice- versa. Portanto, é necessário que foquemos nas condições de trabalho a que estão sujeitos os trabalhadores em diferentes territórios.
Estudar o meio ambiente de trabalho e os processos de labor, mediante observação direta, bem como por fontes de pesquisas concluídas, de pesquisa documental junto ao MPT e obviamente ouvir os trabalhadores (principais informantes) - pois são eles que vivenciam
5 CAT - refere-se a Comunicação de Acidentes de Trabalho, extraída dos bancos de dados do Instituto Nacional
de Seguridade Social – INSS.
6 B91 - representa a concessão de Auxílio Doença por Acidente de Trabalho: somatório de benefício concedido
todos os dias o labor - é fundamental para entendermos as reais condições de trabalho e os adoecimentos aos quais os trabalhadores estão expostos. Vale ressaltar, que o empreendimento do setor sucroenergético em questão não nos deu permissão para adentramos ao ambiente de trabalho e realizarmos a observação direta das relações trabalhistas, porém analisamos os processos judiciais que envolvem o empreendimento junto ao MPT.
Encontramos um total de trinta processos trabalhistas movidos contra o empreendimento estudado, as ações são originadas por: não recebimento de horas extras, não recebimento de horas in itinere, não pagamento do tempo inter e intrajornada, falta de banheiros para os trabalhadores da área rural, a falta de pagamento integral de 1/3 de férias e adicional de periculosidade. Fato que constata a precarização das relações de trabalho envolvendo o empreendimento junto às condições de labor oferecidas aos trabalhadores.
Mediante nossas pesquisas podemos identificar que as condições de trabalho que afetam a vida dos trabalhadores possuem manifestações muito antigas e arraigadas, conforme demonstra Engels (2010), baseado na observação direta e, em outros estudos sobre as condições de trabalho no século XIX, descrevia em 1845, como as condições de vida e trabalho do operariado de algumas cidades industriais inglesas encontravam-se na raiz de um conjunto de enfermidades que, não raramente, desdobravam-se na morte desses trabalhadores. Com o decorrer do tempo e o aumento da tecnificação, da produção em massa, da ampliação do controle e da intensificação do trabalho foi possível identificar novas formas de adoecimento e acidentes de trabalho vinculados às relações trabalhistas. Antunes (2015), retrata algumas delas que ocorreram no ABC paulista: neurose, pressão alta acompanhada de derrame cerebral e moléstias da coluna vertebral são as doenças profissionais responsáveis pela maior parte das aposentadorias por invalidez, segundo o autor.
Podemos identificar que esses trabalhadores somente foram acometidos por tais adoecimentos devido à intensificação das relações trabalhistas, com uma jornada de trabalho extensa e desgastante, sem folga, sem férias e com o emprego de horas extras que, no decorrer do tempo, causaram aos trabalhadores uma série de problemas de saúde motivados a partir destes fatores.
Muitos estudos apresentam que os trabalhadores são considerados culpados pelo adoecimento e são penalizados pelos empregadores na maioria dos casos pela demissão, após retornarem as suas funções trabalhistas e não apresentarem a mesma produtividade, sendo desta forma, descartados pelo sistema voraz do capitalismo. Para esta afirmação, foram analisados estudos que retratam o adoecimento não só no setor sucroenergético, mas em outros setores da economia.
Para PIGNATI e MACHADO (2005), a relação saúde-trabalho-doença que ocorre no processo produtivo da indústria da madeira em Mato Grosso, os autores observaram que existem situações de perigos à saúde que ocasionam eventos de riscos a acidentes ou doenças. Ressaltaram que suas causas imediatas estão no gerenciamento das indústrias e na atuação reguladora do Estado, facilitada pela baixa organização sindical dos trabalhadores.
Mediante a experiência que tivemos durante a realização das entrevistas junto aos trabalhadores pudemos identificar através de alguns relatos que eles estão submetidos a condições de risco que afetam a saúde ao citar que “todos os dias corremos riscos de acidentes, pois trabalhamos com produtos inflamáveis, agrotóxicos, riscos de incêndios, com materiais cortantes, etc.”, fato que também foi evidenciado nas pesquisas de PIGNATI e MACHADO (2005), porém em um outro setor da economia a indústria de madeira.
Os estudos de Duarte (2010), relatam que os trabalhadores do setor sucroenergético apresentam transtornos mentais que também podem ser considerados como perturbações psiquiátricas, possuem os sintomas de depressões, ansiedades, insônia, fadiga, irritabilidade, esquecimento, dificuldade de concentração e queixas somáticas.
Durante as entrevistas ouvimos relatos de uma grande quantidade de trabalhadores que apresentam insônia após a jornada de trabalho, entre o grupo de trabalhadores que relataram este sintoma todos trabalham durante a noite e um dos trabalhadores nos disse “tenho que tomar três remédios para dormir, pois somente um não está fazendo efeito e se meu celular não tocar para despertar durmo por três dias seguidos”.
O relato acima nos mostra que dentre os trabalhadores tivemos um grupo que demonstrou viver num processo de precarização das relações trabalhistas devido às pressões por produtividade e metas a serem alcançadas pela unidade do setor sucroenergético e como consequência há um excesso da jornada de trabalho que causam no decorrer do tempo de exposição sintomas como foi relatado pelo trabalhador.
Um dos trabalhadores nos disse que “a depressão é uma doença silenciosa, que me pega devido ao isolamento e falta de contato com a minha família, trabalho à noite e vejo meus filhos pouco” quando questionado sobre o período de folga destinado com a família ele relatou que “trabalho cinco dias e folgo um e em escala alternada é muito difícil ter folga durante o sábado e domingo para passearmos e nos divertirmos e quando isso acontece estou cansado e quero dormir”.
Esse relato é comum entre os trabalhadores do setor sucroenergético de Ituiutaba, conforme foi dito pelo trabalhador a jornada de trabalho lhe causa isolamento e distanciamento
com aqueles que mais ama e dessa forma acarreta aos trabalhadores transtornos psíquicos e lhe causa precarização.
Além da rotina acelerada e o esfriamento das relações interpessoais que favorecem o adoecimento mental, tais condições são muito comuns nos ambientes de trabalho das empresas, ainda mais no trabalho do setor sucroenergético em que o sistema de produtividade faz com que a relação de tempo diretamente igual a de rendimentos, e com isso os trabalhadores praticamente ficam condicionados a aumentar a produtividade, trabalhando mais como forma de render lucros ao capital, não atentos muitas vezes ao colega que está próximo.
Todavia em qualquer atividade econômica realizada em determinado território pode existir riscos adicionados a diversos fatores como tempo de exposição às condições de trabalho, idade do trabalhador, condições de saúde, renda e outros fatores que podem e contribuem para o adoecimento e afastamento de diversos trabalhadores, gerando agravos à sua saúde.
Muitos são os fatores que agravam ainda mais a saúde desses trabalhadores, sendo eles: o calor excessivo para aqueles que trabalham no setor das caldeiras, a jornada de trabalho intensa e exaustiva, a poeira que é aspirada e a má alimentação. Tal realidade é vivida pelos trabalhadores, um deles nos relatou que “a gripe é atacada no período da seca em que há maior exposição à poeira emitida durante o transporte ao campo e também do maquinário”.
É comum no discurso dos representantes do capital que, com o desenvolvimento do setor tecnológico, a mecanização do processo produtivo reduziu a carga de trabalho aos trabalhadores. Todavia isso não ocorre, visto que com o advento da tecnologia os trabalhadores são submetidos a outro tipo de carga de trabalho, a psicológica, promovida pela intensa cobrança para o alcance de metas e de produtividade, nem atenuam as cargas de trabalho do tipo físico, químico e mecânico existentes nos insalubres ambientes de trabalho aos quais os trabalhadores estão expostos.
Na realidade, a mecanização promove a acentuação dos impactos do tipo fisiológico e psíquico, uma vez que intensificam o ritmo de trabalho, a subcontratação, o aumento da informalidade e diversas outras violações de direitos, são importantes exemplos de como a “modernização” do setor não tem sido capaz e tampouco lhe interessa de transformar a organização do trabalho em favor da melhoria real da saúde e das condições de vida dos trabalhadores, portanto no item seguinte iremos tratar sobre as doenças oriundas pela sobrecarga de trabalho.