O conceito de resistência em Foucault é desenvolvido em vários momentos de sua obra. Mas, especificamente para essa dissertação e para fins de direcionar a discussão para essa relação do discurso sobre os corpos e sua sexualidade, voltaremos nossa atenção para o desenvolvimento da resistência no livro de Foucault (2015) A história da Sexualidade I: Vontade de Saber (HSI). Neste é possível notar cinco momentos do desenvolvimento teórico da resistência: (1) como movimento a ser suprimido pelas estratégias de controle – como a confissão; (2) numa relação dialética com o poder, em que um se torna condição de existência para o outro; (3) a resistência como um interlocutor irredutível; (4) o caráter efêmero e isolado que pode aparecer nos atos de resistência e, após, Foucault então apontará (5) o caráter paradoxal da resistência.
Nesse livro, Foucault (2015) irá fazer uma construção genealógica da confissão que perpassa algumas fases históricas. Na antiguidade, havia dispositivos que funcionavam como uma confissão, eram certas práticas pautadas nos exames de consciência, o ato de relatar ao médico – ou diretor de consciência – a verdade sobre seus corpos, para que pudesse enfim construir direcionamentos desse corpo que fala; assim, na Antiguidade, a verdade em questão era a verdade dos discursos verdadeiros. Após, o autor passa para uma leitura pautada nas fases iniciais da estabilização do cristianismo, quando esse dizer sobre si tem uma implicação direta com a ideia de “salvação”, construindo, assim, um modo essencial de captação subjetiva para essa época. Um outro dispositivo que ele pontuará sendo homologo à confissão, é quando ele vai explorar a diferença entre a ars erotica e scientia sexualis, em que a primeira é a verdade do sexo extraída pelo prazer sobre o sexo, enquanto a segunda, permeada pelos discursos da psiquiatria, aparece como um procedimento de saber-poder. Então, pode-se pensar que:
[...] a confissão é um ritual de discurso onde o sujeito que fala coincide com o sujeito do enunciado; é, também, um ritual que se desenrola numa relação de poder, pois não se confessa sem a presença ao menos virtual de um parceiro, que não é simplesmente o interlocutor, mas a instância que requer a confissão, impõe-na, valida-a e intervém para julgar, punir, perdoar, consolar, reconciliar; um ritual onde a verdade é autenticada pelos obstáculos (FOUCAULT, 2015, p. 90)
E para que esse discurso opere e aja como um mecanismo de controle e sujeições de corpos, as resistências passam por processos de supressão. A confissão torna-se uma arma poderosa para o controle das resistências, para as outras formas de relação com o corpo – geralmente os corpos associados à marca do pecado, do errado, do disfuncional, do disfórico. Assim, com o ritual da confissão era possível um exercício de controle das resistências, pois a confissão trata-se de um ritual onde a enunciação em si, independentemente de suas consequências
externas, produz em quem a articula modificações intrínsecas: inocenta-o, resgata-o, purifica-o, livra-o de suas faltas, libera-o, promete-lhe a salvação (íbid, p.90).
Será a partir dessa reflexão sobre a confissão que Foucault (2015) poderá então deduzir que a resistência não se encontra numa exterioridade das relações de poder – ela é um efeito destas:
Elas [relações de poder] não podem existir senão em função de uma multiplicidade de pontos de resistência que representam, nas relações de poder, o papel de adversário, de alvo, de apoio, de saliência que permite a apreensão. Esses pontos de resistência estão presentes em toda a rede de poder (FOUCAULT, 2015, p. 91)
É por isso que Foucault recusa a ideia de Marcuse30 sobre a “grande Recusa”. E vai delimitar que as formas de resistências seriam de múltiplas formas, que a luta contra sistemas coercitivos e de poder só poderia acontecer em uma esfera micro – numa instância que invoca algo de autoral daqueles que resistem.
Portanto, não existe, com respeito ao poder, um lugar da grande Recusa [...] Mas sim resistências, no plural, que são casos únicos: possíveis, necessárias, improváveis, espontâneas, selvagens, solitárias, planejadas, arrastadas, violentas, irreconciliáveis, prontas ao compromisso, interessadas ou fadadas ao sacrifício; por definição, não podem existir a não ser no campo estratégico das relações de poder
(FOUCAULT, 2015, p. 91)
Acreditamos, permeados pelo pensamento de Foucault, que qualquer trajetória que um sujeito autorize a seu corpo não é sem consequências. O caráter heterogêneo necessário para a existência de um poder estabilizado é permeado por qualquer trajetória corporal, todos os sujeitos estão imbricados nessa relação de poder, seja o poder pela sexualidade, seja pelas posições políticas e/ou sociais. Não há escapatória das relações de poder, mas o posicionamento crítico – as resistências – frente a esse poder é o que Foucault (2015) chamará de o interlocutor irredutível:
As resistências não se reduzem a uns poucos princípios heterogêneos; mas não é por isso que sejam ilusão, ou promessa necessariamente desrespeitada. Elas são o outro termo nas relações de poder; inscrevem-se nestas relações como o interlocutor irredutível. Também são, portanto, distribuídas de modo irregular: os pontos, os nós, os focos de resistência disseminam-se com mais ou menos densidade no tempo e no espaço, às vezes provocando o levante de grupos ou indivíduos de maneira definitiva, inflamando certos pontos do corpo, certos momentos da vida, certos tipos de comportamento. (p. 90-91- negrito nossos)
Outro aspecto que Foucault (2015) destacará no pensamento sobre a resistência é que são pontos móveis e transitórios, pois introduzem na sociedade clivagens que se deslocam, rompem unidades e suscitam reagrupamentos, percorrem os próprios indivíduos, recortando-os e os remodelando, 30 Herbet Marcuse, considerava que a única estratégia viável, para a saída do capitalismo, seria a Grande Recusa – uma recusa absoluta do sistema de vida estabelecido, uma recusa tanto mais irrazoável quanto mais esse sistema desenvolvia sua produtividade e suavizava o fardo da vida In: MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
traçando neles, em seus corpos e almas, regiões irredutíveis (p. 92). A resistência é, nesta perspectiva, a peça chave para a luta contra os poderes coercitivos, sendo essa relação dialética entre poder e resistência que cerceará toda a construção do paradoxo abordado em HS1, aparecendo, assim, um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta (FOUCAULT, 2015, p.95).