2.7 Autres approches envisag´ees pour am´eliorer le rendement
2.7.2 Bobine composite
A recolha de opiniões relativamente às condições de vida em meio prisional revelou-se como uma importante fonte de informação para a compreensão mais abrangente do quotidiano dos reclusos.
Em síntese, pode-se concluir que embora alguns dos aspectos das condições de vida nas prisões tenham sido alvo de apreciações bastante negativas, como a alimentação, o alojamento e as condições de higiene, outros há que foram avaliados de modo positivo, como o sistema de visitas, o desporto e tempos livres e o ensino. A valorização positiva destes aspectos evidencia situações de apreciação favorável à organização e funcionamento do sistema prisional, facto que é de destacar sobretudo por se tratar de contextos de fechamento e reclusão. Concluiu-se ainda que os aspectos relacionados com a gestão quotidiana, e que surgem como menos positivos, são avaliados mais negativamente quanto maior é a dimensão da prisão. São também alguns grupos específicos de reclusos, como os homens, mais jovens, em prisão preventiva e com anteriores reclusões, os que avaliam de forma mais negativa as condições de vida nos estabelecimentos prisionais.
As principais preocupações dos reclusos são as doenças infecto-contagiosas, a sobrelotação e as drogas. Estes factores conjugados traduzem as particularidades do sistema prisional português, nomeadamente, as que dizem respeito às elevadas prevalências de HIV e Hepatites, à omnipresença das drogas e à taxa de sobrelotação portuguesa, também muito expressiva no contexto internacional. Verificou-se igualmente a existência de maiores índices de preocupação com qualquer um destes aspectos à medida que aumenta a dimensão do estabelecimento prisional.
Sobre as medidas a implementar no interior das prisões relacionadas com a toxicodependência há uma clara adesão dos reclusos aos programas terapêuticos, sejam eles de apoio psicoterapêutico, grupos de auto ajuda, etc., seja a criação de mais/alas unidades livres de drogas. Não é de descurar também a relativa importância que adquirem entre os reclusos as medidas mais vocacionadas para a redução de riscos e minimização de danos, como os programas de substituição, os programas de troca de seringas e as salas de injecção assistida. Particular importância é dada a
estas medidas pelos reclusos que declararam já ter consumido drogas alguma vez na vida.
A convergência notável de opiniões acerca dos toxicodependentes evidencia claramente uma perspectiva não criminalizante. São por isso as ideias de que são doentes e de que é preciso recuperá-los as que recolhem maior concordância entre a população reclusa. Claro que estas perspectivas se associam mais fortemente aos que já consumiram drogas alguma vez na vida, sendo por isso, mais frequentemente a opinião de homens, jovens, reincidentes e condenados.
Relativamente às opiniões sobre drogas e prisão nota-se, claramente, um forte cepticismo dos reclusos quanto à possibilidade de controlo da entrada de substâncias ilícitas nos estabelecimentos prisionais. De novo, e em consonância com o cepticismo demonstrado face ao controlo da entrada de substâncias ilícitas, é a perspectiva terapêutica que prevalece, sendo a solução mais advogada para o problema da toxicodependência nas prisões, a que passa pela criação de mais programas de apoio para quem depende do consumo de drogas.
Se no início da pesquisa, provocava alguma estranheza a ideia de que a circulação das drogas no interior das prisões se processa de um modo bastante fácil, fica mais uma vez clarificado através das opiniões dos reclusos que este fenómeno é realmente omnipresente, de difícil controlo, sendo mesmo objecto de banalização para quem tem a experiência de viver por dentro o meio prisional. Estes são elementos importantíssimos para o desenho de estratégias de intervenção e para a adopção de medidas relacionadas com a toxicodependência em meio prisional.
6 Perfis dos reclusos nas prisões portuguesas: três grupos em presença
Na tentativa de esboçar perfis dos reclusos, a partir de um conjunto de variáveis básicas de caracterização social, quanto à situação prisional e quanto ao consumo de drogas, realizou-se uma análise de correspondências múltiplas (Figura 6.1). Esta permitiu distribuir num espaço topológico as categorias das seguintes variáveis: sexo, idade, níveis de escolaridade, número de reclusões, situação que motivou a detenção, situação relativamente ao consumo de drogas.
Figura 6.1
Perfis dos reclusos nas prisões portuguesas
1,5 1,0 ,5 0,0 -,5 -1,0 -1,5 1,5 1,0 ,5 0,0 -,5 -1,0 -1,5 1ª reclusão 4ª reclusão ou + 3ª reclusão 2ª reclusão Mulheres Homens
Crimes c/relação directa e indirecta/e c/drogas Crimes c/relação ind. c/drogas
Crimes c/relação directa c/drogas Crimes s/relação c/drogas
Consumidores de drogas alguma vez na vida Não consumidores de drogas
46 e + anos
36-45 anos
26-35 anos
16-25 anos
10º ano até ens. superior
Até 9º ano esc.
Até 6º ano esc. Sem escolaridade Dimensão 1 Dimensão 2 PERFIL A PERFIL B PERFIL C
A análise do eixo horizontal (Dimensão 1) permite distinguir de forma muito nítida dois segmentos de reclusos.
• O lado negativo do eixo (de –1,5 a 0) põe em evidência a relação entre um conjunto de características dissociadas do universo das drogas: nunca ter consumido drogas e motivos de detenção não relacionados com elas. Estas categorias encontram-se associadas a estar detido pela primeira vez, a escolaridades elevadas ou muito baixas (ensino secundário ou superior, ou sem escolaridade) e a idades elevadas ou intermédias (46 e mais anos ou 36-45 anos).
• Do lado positivo desta dimensão (de 0 a 1,5) surgem as categorias claramente associadas ao fenómeno das drogas. Aparece então a associação entre ser consumidor de drogas e estar detido por crimes relacionados directa e indirectamente com drogas (ou seja, tanto por tráfico e/ou consumo como por outros crimes para obter dinheiro para consumir drogas). Estas características encontram-se nitidamente associadas a ser reincidente na reclusão (2ª, 3ª ou mesmo 4ª vez), às faixas etárias mais jovens (16-25 anos e 26-35 anos), ao sexo masculino e a escolaridades intermédias (6º ano ou 9º ano).
No eixo vertical (Dimensão 2), o principal factor discriminativo é a situação que motivou a detenção e sua relação com o fenómeno das drogas, associada em grande medida a algumas das variáveis de caracterização social. Temos do lado positivo do eixo (de 0 a 1,5) os crimes cuja motivação não teve nada a ver com drogas e do lado negativo (-1,5 a 0), os que se relacionam directamente com elas.
Conjugando a leitura desta dimensão com a anterior torna-se evidente a distinção entre três perfis de reclusos no sistema prisional português.
• um primeiro perfil é caracterizado por estar detido por crimes relacionados directa e indirectamente com drogas (muitas vezes associados à obtenção de dinheiro para o consumo de drogas como por exemplo, o roubo e o furto). Muito perto destas categorias encontram-se as que remetem para o consumo de drogas. É ainda evidente a associação entre ter consumido drogas alguma vez na vida, com reincidências duas ou três vezes na reclusão e com o grupo etário dos 26 aos 35 anos.
• um segundo perfil caracteriza-se pela associação entre crimes relacionados directamente com drogas (tráfico e/ou consumo de drogas), idades compreendidas entre os 36 e os 45 anos, e ainda, o sexo feminino.
• finalmente, um terceiro perfil associa estar detido por crimes sem qualquer relação com drogas, ter pelo menos o 10º ano de escolaridade, ter 46 e mais anos, nunca ter consumido drogas e estar preso pela primeira vez.
Embora a análise de correspondências múltiplas não permita quantificar com precisão o peso relativo de cada perfil na amostra, resultados complementares aos da Figura 6.1 obtidos através de uma análise de clusters mostram de modo muito nítido a predominância, sobretudo, do primeiro e do segundo perfis identificados. Assim, no Perfil A – os “consumidores de drogas” – encontram-se 52,8% dos reclusos, no B – os “traficantes” – estão 19,3% e, finalmente, o Perfil C – os “outros” é constituído por 27,9% dos inquiridos (Figura 6.2).
Figura 6.2
Peso relativo dos perfis dos reclusos (%)
52,8 19,3 27,9 0 10 20 30 40 50 60 70 80
Consumidores de drogas Traficantes Outros
O mesmo tipo de conclusão tinha aliás sido já avançado quando se mostrou que existe uma predominância do fenómeno das drogas no interior dos estabelecimentos prisionais visível quer pelo número elevado de detenções relacionadas directa e indirectamente com drogas, quer pela proporção de indivíduos que declarou ter consumido drogas alguma vez na vida.
Esta predominância do fenómeno não deixa contudo de coexistir com outras modalidades de crime que não têm qualquer relação com drogas, associadas a reclusos mais velhos que admitem nunca ter consumido drogas na vida e que podem ter escolaridades elevadas ou, pelo contrário, nunca ter frequentado a escola. Incluem- se aqui, provavelmente, os indivíduos que cometeram homicídios, crimes sexuais, burlas, etc., bem como outra criminalidade não associada a drogas, praticada neste caso por indivíduos com idades mais jovens.
As transformações ocorridas em meio prisional, sobretudo durante a última década, motivadas pela entrada de um contigente de indivíduos cujos crimes cometidos estiveram directa e/ou indirectamente relacionados com o fenómeno das drogas, veio a constituir-se como uma mudança paradigmática no sistema prisional português, semelhante à que ocorre à escala mundial.
7 Auscultação aos directores e aos serviços clínicos: avaliações, preocupações, opiniões, estimativas e perfis
A auscultação aos directores constituiu-se como outro instrumento fundamental da pesquisa. Aplicou-se um pequeno questionário auto-administrado e enviado pelo correio aos directores e serviços clínicos dos 47 estabelecimentos prisionais em que se realizou o inquérito aos reclusos.
Pretendia-se através destes questionários recolher as opiniões dos directores sobre as condições de vida nos estabelecimentos prisionais, a quantidade e qualificações do pessoal prisional, o fenómeno das drogas nas prisões portuguesas, suas consequências e possíveis medidas para o solucionar e o modo como os directores encaravam a toxicodependência e os toxicodependentes. Era também importante obter informação dos serviços clínicos referentes ao estado de saúde dos reclusos, à realização de testes de despistagem do consumo de drogas e às estimativas sobre a prevalência de consumos e doenças infecto-contagiosas.
Dado que se trata de um número limitado de respostas194 – 43 – os resultados obtidos
têm de se ler como tendências globais de apreciação, não sendo os resultados dos cruzamentos com algumas variáveis suficientemente representativos para aferir as diferenças de distribuições das avaliações, preocupações e opiniões dos directores. Contudo, ao longo deste capítulo, apresentam-se pontualmente algumas tendências de distinção entre eles que não podem de modo algum ser tomadas como estatisticamente significativas.
Esta auscultação possibilitou ainda a realização da análise comparativa de avaliações, preocupações e opiniões de reclusos e directores, dado que, propositadamente, foram formuladas algumas perguntas iguais nos dois questionários aplicados. Conseguiu-se assim ter uma perspectiva suficientemente ampla através da recolha de apreciações dos dois tipos de protagonistas relevantes do sistema prisional – directores e reclusos.
194 Lembre-se que as 43 respostas obtidas à auscultação aos directores são resultado do envio dos
questionários para os 47 estabelecimentos prisionais onde foi realizado o inquérito aos reclusos. Destes 47, quatro EP’s não responderam aos questionários, perfazendo o total de 43 respostas. E dessas 43, existiram duas prisões que não remeteram as respostas dos directores. Receberam-se assim 41 respostas das direcções e 43 dos serviços clínicos.
7.1 Avaliações dos directores: apreciações maioritariamente positivas da