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Ele não tem casa, nem bens, nem família, nem tradição, nem sedentarismo, nem constituição de família, nem sentido de pátria.

Wady Safady

Quando imigrou da Palestina, meu avô Hissa Hazin e os irmãos Cauás se estabeleceram em Parnaíba no Piauí. O pai e os tios de João Sales Asfora em Pimenteiras, no mesmo estado. E como eles, muitos outros imigrantes palestinos pioneiros optaram por se estabelecer em alguma capital ou em pequenas cidades do interior do Nordeste. Mais uma vez eu pergunto por que estes imigrantes não escolheram São Paulo ou Rio de Janeiro como fez a maioria dos imigrantes sírios e libaneses? A pesquisa que fiz com os filhos e netos dos primeiros imigrantes palestinos que chegaram à região não apresentou uma resposta consensual e as alegações apontadas muitas vezes eram contraditórias. Mas, o relato de um desembarque casual em um porto qualquer do Brasil é recorrente entre os imigrantes árabes em outras pesquisas no País e também aparece com frequência entre os meus entrevistados.

João Lobo, um sírio cristão cuja família imigrou para Floriano, dá o seguinte depoimento acerca da viagem de seu pai entre a Síria e o Piauí:

Vinha com apenas 18 anos, sem saber exatamente para onde ia. Sem saber a língua, sem carteira de identidade, sem passaporte, sem recursos. Vinham soltos no mundo, jogados num navio e passavam dois, três meses viajando para aportarem na América do Norte, para os Estados Unidos. Mas nesse período. O excesso de imigrantes fez que eles ficassem rigorosos na alfândega, criassem barreiras, principalmente na área de saúde. Eles eram muito exigentes na área de saúde. Quando não entravam lá, continuavam a viagem para a América do Sul. (PROCÓPIO, 2006, p.24).

Ao que parece, o destino final nem sempre era muito relevante para o imigrante árabe pioneiro que normalmente detinham pouco conhecimento sobre o País ou a cidade escolhida. Para ele, o que importava era ‘fazer a América’. Essa podia ser a América do Norte ou a América do Sul, podia ser Estados Unidos ou Brasil, e para os palestinos em particular, Chile, Honduras, Peru, Colômbia ou qualquer lugar que os acolhessem.

Com exceção de poucos [dos imigrantes árabes], toda essa boa gente não fazia nenhuma distinção entre uma parte das Américas e outra. Tudo era apenas uma Mérica. Alguns poucos referiam-se a Nova Iorque, significando os Estados Unidos como um todo e o Brasil designando toda a América do Sul. Daí inferiam que alguém em Nova Iorque deveria ter conhecimento de todos os seus conterrâneos nos Estados Unidos, e alguém no Brasil deveria ter contato com todos aqueles rumados para a América do Sul e América Central (NAIMY, apud TRUZZI, 2008, p.233).

Elizabeth Hazin narrou uma história de um grupo de Palestinos que viajava para o Chile e terminou ficando em Recife:

Eles iam pro Chile [...]. O navio iria para o Chile e não sei por que parou no Brasil. [...] Ele parou no Brasil e aí resolveram descer, acho que eles já estavam cheios de andar e resolveram descer. O que significa que um grupo ficando aqui, já torna mais fácil que outro venha, não é?

Em sua narrativa Hellen Khoury Asfora também sugere que a escolha da região Nordeste pelos imigrantes pioneiros teria sido meramente circunstancial, em função da posição geográfica do porto de Recife, parada obrigatória da maioria dos navios que procedia da Europa com destino à América do Sul no início do século passado. Ao chegarem ao Brasil, sem muito conhecimento sobre o País, não faziam distinção entre o Recife, Rio de Janeiro ou São Paulo. Ela própria relata que a sua viagem foi muito ‘penosa’. Durou mais de um mês e que seus pais sofreram bastante com náuseas e que só não desembarcaram em Recife, o primeiro porto depois da travessia do Atlântico, porque seus tios os esperavam em São Paulo:

Quando a gente veio de navio, nossa primeira parada no Brasil foi Recife. Era o primeiro porto. A gente só desceu pra São Paulo porque tinha meu tio lá. Se não tivesse ninguém, a gente teria desembarcado aqui, sem dúvida. Porque olha, em 1960 que o navio já era muito melhor do que em 1906 [ocasião que meu avô chegou ao Brasil], foi um desastre a viagem. Foi um mês que você só vê água, água, água, quando vai atravessar o equador quase que o navio é ‘derrubado’ porque pegamos

uma tempestade, então quando você vê terra e vê que você chegou você não quer mais continuar no navio. [...] Porque até Dom João quando fugiu de Portugal, ele baixou primeiro aqui. Era o primeiro porto e eu acho que naquela época é mais por aí.

O relato de Elizabeth e principalmente o de Hellen, que enfrentou pessoalmente as adversidades de uma longa travessia de navio no início dos anos 60, argumentando a favor de uma escolha meramente circunstancial com base na posição geográfica da cidade e no fato de o Recife se encontrar na rota das principais companhias de navegação até algumas décadas atrás parece razoável. O Porto do Recife era de fato um dos mais movimentados do Brasil até a primeira metade do século XX e a maioria dos navios que procediam da Europa e dos Estados Unidos fazia escala na cidade (fotografia 62). A maioria dos relatos dos imigrantes árabes que seguiam para o Sul e Sudeste ou mesmo para o Norte ou outros estados do Nordeste menciona uma escala no Porto de Recife79.

Fotografia 62: Porto do Recife na década de 1910, quando chegaram os primeiros imigrantes palestinos. Fonte: Blog Alberto de Sampaio. Acesso em 12.07.2016. Disponível em:

http://www.albertodesampaio.com.br/recife-no-seculo-xix-e-xx/

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