O presente estudo teve como objetivo verificar a influência do tempo de desaquecimento vocal nos sintomas de desconforto do trato vocal e nos parâmetros acústicos e perceptivos da voz em um grupo de cantores populares.
A partir do resultado obtido na Tabela 2, o sintoma de garganta irritada foi o mais intenso no G10 em ambos os momentos pré e pós-desaquecimento (0,53). Outros estudos com profissionais da voz (FERREIRA, SANTOS e LIMA, 2009; LUYTEN et al, 2016) que também encontraram a prevalência de garganta irritada justificam que esses resultados podem estar relacionados à maior demanda vocal desses profissionais. Desta forma, a intensidade do sintoma de garganta irritada no G10 também pode estar relacionada ao uso intenso da voz.
Apesar dos profissionais da voz, mesmo sem queixas vocais, apresentarem normalmente piores escores em instrumentos de avaliação (DASSIE-LEITE et al, 2014), os cantores do presente estudo mostraram baixos escores de intensidade de sintomas vocais após o canto. O sintoma de garganta irritada foi o mais intenso de maneira geral, com média de 1,08 (Tabela 2), e encontra-se abaixo do escore médio de outro estudo realizado com cantores árabes – o sintoma mais intenso foi a coceira na garganta, com média de 1,84 (DARAWSHEH, NATOUR e SADA, 2017). De forma similar, cantores evangélicos, mesmo cantando de forma abusiva, também apresentaram baixos escores na EDTV (PINHEIRO et al, 2017).
Vale salientar que todos os cantores desta pesquisa têm a música como profissão e, em média, fazem 4 shows por semana com duração média de 3 horas. Ainda assim, conseguem manter todos os compromissos e ainda almejam aumentar o número de shows a fim de incrementar sua renda.
Neste sentido, há estudos que referem a possibilidade de cantores não serem sensíveis a aspectos relacionados a sua voz. Poucos cantores evangélicos perceberam suas alterações vocais ou valorizaram tais alterações e isto pode estar relacionado ao fato da maioria praticar o canto durante anos sem fazer uso de técnica vocal (PINHEIRO et al, 2017). Em outro estudo, a experiência e o conhecimento acerca da anatomia e fisiologia vocais foram determinantes para que cantoras fossem capazes de avaliar pontualmente quais exercícios utilizados para o desaquecimento vocal ajudaram a melhorar suas vozes (RAGAN, 2016).
Durante a aplicação da EDTV no presente estudo, muitos cantores demoraram a responder sobre os sintomas porque precisavam pensar sobre e/ou senti-los, já que nunca haviam atentado a eles. Corroborando os estudos citados acima, pode ser que estes profissionais não percebam os sintomas por várias razões: por desconhecimento acerca do funcionamento de seu aparato vocal e de normas de saúde vocal; por dificuldade em relação à consciência corporal; ou por menosprezarem os sintomas pelo fato de não limitarem sua atividade profissional, estando acostumados aos mesmos, ou por acreditarem que estes são inerentes a sua carreira profissional.
Quanto ao efeito do desaquecimento vocal sobre os sintomas de desconforto do trato vocal, a garganta irritada foi o único sintoma que mudou significativamente no G10 após o desaquecimento, tendo seu escore reduzido de 1,08 para 0,50 na média geral (Tabela 2). De acordo com Mathieson et al (2009) os descritores “secura”, “coceira”, “garganta irritada”, “queimação” e “garganta sensível” referem-se a sensações relacionadas à mucosa da laringe e hipolaringe, com possíveis mudanças inflamatórias ou danos ao tecido. Sendo assim, talvez o ato de cantar por 3 horas consecutivas sem intervalo tenha contribuído para o surgimento de danos à mucosa das pregas vocais, que acabam trabalhando com maior compressão medial devido às exigências do trabalho em si.
Neste caso, os exercícios de ressonância são indicados após o trabalho vocal por promoverem vibrações glóticas de maior amplitude e com menor impacto. Especificamente, o aumento da amplitude da onda mucosa durante estes exercícios pode ajudar a limitar o influxo de mediadores inflamatórios para dentro do tecido e, ao mesmo tempo, aumentar a concentração de mediadores anti-inflamatórios, limitando danos decorrentes de um fonotrauma agudo. Em resumo, o aumento da amplitude da vibração glótica pode agir como um fator de “cura” biológico, enquanto a redução do impacto na adução glótica pode funcionar como um mecanismo “preventivo” por limitar novos danos ao tecido durante o período de recuperação (VERDOLINI-MARSTON et al, 1995; VERDOLINI et al, 1998; BERRY et al, 2001; PETERSEN e PEDERSEN, 2005; KEYLOCK et al, 2008; ABBOT et al, 2012).
A partir deste pressuposto, é possível que o programa de desaquecimento utilizado tenha proporcionado adução glótica adequada, prevenindo a persistência do sintoma e favorecendo uma recuperação vocal mais rápida.
De acordo com os resultados (Tabelas 4 e 5), homens e mulheres não apresentaram diferenças na intensidade dos sintomas do trato vocal antes e após o desaquecimento, como também não houve diferença nas repostas quando os gêneros foram comparados (Tabela 6), o que demonstra que o desaquecimento vocal não promoveu impacto diferente entre os sexos. Corroborando esses achados, dentro da população árabe, homens e mulheres também responderam de forma semelhante à EDTV(DARAWSHEH, NATOUR e SADA, 2017).
Quanto à análise acústica (Tabela 3), o shimmer local dB (SLdB) revelou diferença estatisticamente significante após o desaquecimento no G5, mas houve piora do jitter dentro do âmbito geral e do sexo masculino neste grupo. Já no G10, o
jitter foi o parâmetro acústico que demonstrou melhora significante de modo geral e
no sexo masculino, porém observou-se um incremento dos valores de shimmer em todas as comparações (SL no geral, shimmer % nas mulheres e SLdB nos homens). O jitter é definido como um parâmetro de variação da frequência ciclo a ciclo e pode ser afetado, principalmente, pela falta de controle da vibração das pregas vocais (TEIXEIRA e FERNANDES, 2014). De modo geral, o shimmer pode ser alterado pela redução da resistência glótica, correlacionando-se à presença de ruído e soprosidade na emissão vocal (TEIXEIRA e FERNANDES, 2014).
A explicação para estes resultados possivelmente esteja relacionada a mudanças da fisiologia vocal promovidas pelos exercícios de desaquecimento vocal utilizados neste estudo. As técnicas do “b” prolongado, de vibração de lábios e de língua e dos sons nasais são classificadas como Exercícios de Trato Vocal Semiocluído (ETVSO) por serem realizadas com algum tipo de oclusão no trato vocal. Estes exercícios modificam a impedância acústica do filtro vocal, aumentando a interação entre fonte e filtro, já que é gerada uma energia retroflexa através da oclusão parcial do trato vocal, favorecendo, assim, melhor adução e consequente adequação da vibração das pregas vocais (CIELO et al, 2013).
De acordo com Titze (2006), as vibrações sonorizadas promovem mudanças nos padrões vibratórios, com aproximação adequada das pregas vocais, fluxo de ar glótico e redução do impacto entre elas. Neste sentido, pode-se inferir que a realização do desaquecimento por 5 minutos foi importante para adequar a vibração das pregas vocais em relação a sua amplitude. Por outro lado, o tempo de 10 minutos pode ter favorecido melhor periodicidade glótica (PIMENTA et al 2013).
A configuração laríngea no sexo feminino favorece o escape de ar à fonação devido à fenda triangular posterior fisiológica. A associação desta característica ao aumento de tensão muscular com consequente elevação laríngea decorrentes do uso intenso da voz, favorece maior atrito entre essas estruturas (BEHLAU et al, 2001; MELO et al, 2001). Neste sentido, acredita-se que o quadro de fadiga vocal após uso profissional da voz tenha sido minimizado pela execução das técnicas de desaquecimento vocal por 5 minutos, proporcionando economia vocal e menos trauma mecânico (TITZE, 2006). Entretanto, talvez o tempo de 10 minutos tenha proporcionado retorno ao padrão de fadiga neste sexo.
Quanto ao jitter, este resultado pode ser explicado porque as vozes masculinas (que são maioria no G10) apresentam f0 mais grave, de modo que seu ciclo glótico é mais extenso do que o das mulheres, esperando-se assim, maiores possibilidades de perturbação em cada ciclo (TEIXEIRA e FERNANDES, 2014). Talvez, por este motivo, este parâmetro foi favorecido pelo maior tempo de desaquecimento vocal.
Através dos dados exibidos na Tabela 10, observa-se que ambos os grupos apresentaram melhora significativa com relação à análise perceptiva após o desaquecimento. No G5, houve redução quanto ao grau geral de desvio nas frases e na vogal sustentada, quanto ao grau de rugosidade e de tensão nas frases. Já no G10 houve redução do grau geral de desvio, do grau de rugosidade e do grau de tensão nas frases e na vogal sustentada. Estes resultados revelam que, independente do tempo de desaquecimento vocal realizado, foi possível perceber auditivamente que houve redução do esforço e maior controle à fonação tanto nas frases, quanto na vogal sustentada.
No G5, homens e mulheres obtiveram melhora no grau geral do desvio tanto na fala encadeada quanto na vogal prolongada. No G10, as mulheres apresentaram redução do grau geral e de tensão nas frases e os homens apresentaram redução do grau geral e de rugosidade na vogal prolongada, sendo essas mudanças significativas (Tabelas 11 e 12). Sabe-se que na fala encadeada há padrões vocais variáveis e que estão presentes no uso vocal diário, de forma que a identificação perceptual de uma disfonia nem sempre é possível nesta tarefa. Por outro lado, a emissão da vogal prolongada exige mais controle da eficiência glótica (MARYN et al, 2010; MARYN e ROY, 2012).
Neste sentido, é possível que o tempo de 10 minutos de desaquecimento tenha provocado maior desgaste nas mulheres deste estudo, já que houve redução da
eficiência glótica necessária para uma emissão sustentada e equilibrada da vogal. Aliando este fato à piora do shimmer (%), um parâmetro extraído exclusivamente da vogal sustentada, acredita-se que, possivelmente, as mulheres do G10 realizaram esforço vocal, podendo ter iniciado um quadro de fadiga vocal.
A fadiga vocal provoca mudanças nas propriedades biomecânicas do tecido das pregas vocais e desequilíbrio químico muscular. De acordo com Hunter e Titze (2009), estas mudanças podem causar desconforto ou alteração nas propriedades visco-elásticas do tecido, produzindo possíveis mudanças no padrão vibratório das pregas vocais, com redução da força e da velocidade de contração, resultando, assim, em menor estabilidade à fonação.
A qualidade vocal está relacionada aos ajustes motores empregados, tanto em relação à glote (fonte) quanto às cavidades de ressonância (filtro). Os exercícios de vibração de língua sonorizada utilizados no presente estudo podem ter promovido adequação da qualidade vocal do ponto de vista perceptivo e corrobora Rosa e Bompet (1999), ao observarem nos resultados de seu estudo melhor ajuste vocal e maior facilidade na emissão vocal após a aplicação dessa técnica em cantores líricos e populares. Estes resultados reforçam a indicação de ETVSO para equilibrar a emissão e a qualidade vocal também após voz cantada (SCHWHARZ, 2006).
Em relação ao tempo de desaquecimento, a partir de uma busca detalhada na literatura sobre este tema, foi possível observar que este é o primeiro trabalho que busca, in loco, verificar seu efeito imediato em cantores populares brasileiros, de ambos os sexos, após uma situação real de trabalho vocal profissional. Ribeiro et al (2016) realizaram uma revisão sistemática e encontraram estudos sobre diversos protocolos de desaquecimento vocal que variavam de 5 a 15 minutos, mas nenhum deles foi realizado com cantores. De forma geral, poucos estudos relataram os efeitos do desaquecimento vocal em cantores (FRANCATO et al, 1996; GOTTLIEBSON, 2011; BEHLAU, MORETI e PECORARO, 2014; RAGAN, 2016; ONOFRE et al, 2017; MEZZEDIMI et al, 2018), e em apenas 4 deles o tempo de desaquecimento foi especificado.
O tempo de 5 minutos no presente estudo foi capaz de gerar mudanças significativas no valor de SLdB do AVQI e na avaliação perceptivo-auditiva, mas não nos parâmetros de autoavaliação (EDTV). Francato et al (1996) desenvolveram um programa mínimo de desaquecimento vocal com duração média de 5 minutos em grupos corais e relataram mudanças em muitos aspectos, como melhora da
percepção auditiva, consciência vocal, afinação, projeção e homogeneidade do som. O que pode justificar esta divergência entre os dois estudos reside no fato de que coralistas geralmente apresentam uma demanda vocal menos intensa que cantores populares, com carga horária reduzida de ensaios e apresentações. Além disso, a dinâmica necessária para um coro exige emissão de voz mais suave para equilíbrio entres as vozes, o que não acontece com o cantor solo, que precisa de emissão de voz firme por muito mais tempo. Por estas razões, o tempo de 5 minutos pode não ter sido suficiente para uma maior restauração dos padrões vocais dos cantores desta pesquisa.
Mezzedimi et al (2018) utilizaram o tempo de 8 minutos para desaquecer a voz de cantores que estudavam canto de estilos diversos - incluindo pop, pop rock e bossa nova, como os cantores do presente estudo. O desaquecimento aconteceu após 20 minutos de canto intenso, tendo como resultado a redução significativa da f0.
Onofre et al (2017) optaram pela utilização do repouso vocal passivo por 30 minutos como método de desaquecimento vocal em cantoras líricas (sopranos), o que não foi suficiente para que a musculatura intrínseca da laringe voltasse ao seu estado modal. Os autores acabam sugerindo que talvez o desaquecimento só possa ser promovido através de técnicas específicas para reduzir a frequência fundamental e assim favorecer o encurtamento das pregas vocais e a redução da tensão vocal, prevenindo a permanência do estresse muscular incorporado no ato de cantar.
Sendo assim, a metodologia adotada no presente estudo corrobora as sugestões destes autores e a ideia de que a mobilização de tecidos do corpo pode facilitar respostas musculares mais regenerativas. Dados preliminares coletados no laboratório de Abbot et al (2012) sugerem que a resposta celular à movimentação das pregas vocais pode, de fato, imitar outros tecidos conjuntivos do corpo, apontando para o fato de que o repouso vocal pode não ser o método mais eficiente para otimizar a regeneração de danos laríngeos em todos os pacientes.
Portanto, é possível inferir que a realização de exercícios de desaquecimento vocal propiciou efeitos positivos na recuperação vocal de cantores populares que realizam shows acústicos, independente do tempo de realização (5 ou 10 minutos). Esta recuperação torna-se muito importante para o uso profissional da voz cantada, visto a alta demanda vocal neste grupo, por evitar o efeito cumulativo da fadiga e possíveis interferências na performance como um todo e no seu sustento, por consequência.
Um aspecto fundamental da terapia vocal é que, algumas modalidades, especialmente aquelas que exigem maior pressão sonora e impacto do estresse, como acontece no canto popular, por exemplo, causam mais danos ao tecido do que outras modalidades (BERRY et al, 2001). Além disso, é normal que haja muita variabilidade nas respostas tanto com relação à demanda vocal quanto aos danos causados por ela, variabilidade esta que pode ser baseada em aspectos como genética, estilo de vida, condições de saúde e demanda vocal (ABBOT et al, 2012) e que deve ser levada em consideração no momento da escolha do tempo de execução e das técnicas de desaquecimento.
Outro fator importante a ser considerado está relacionado às características biológicas com relação ao sexo.
De modo geral, sabe-se que a prática do desaquecimento é benéfica após o uso profissional da voz, entretanto, as pesquisas relacionadas ao tema em cantores ainda são escassas. Este estudo traz resultados inéditos e que podem contribuir para pesquisas futuras na área.