A pesquisadora foi pega desprevenida. Achava que as profissionais do sexo trabalhassem apenas no entorno do Parque, mas nunca dentro dele. Havia lido sobre o esquadrinhamento do espaço (FOUCAULT, 1987), achou que aquele fosse um desses lugares bem demarcados. Para Foucault, a utilização do espaço foi e é uma das estratégias utilizadas no controle e na conformação dos corpos. Os indivíduos foram rigorosa e eficientemente distribuídos pelo espaço através de diversas técnicas de poder/saber durante o desenvolvimento da modernidade. Locais esses que não apenas fixam pessoas, recortando segmentos individuais que indicam valores, como que também permitem a circulação. Com o intuito de garantir a obediência das pessoas e uma melhor economia do tempo e dos gestos, constituem-se ‘quadros vivos’ que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas (1987, p.126-127).
Quadra para jogar bola, aparelhos para idosos se exercitarem. Dentro do parque: crianças, famílias, idosos. Ao redor do parque: prostitutas. Ao redor das prostitutas: casas de noivas. O encontro causou uma irritação nela, que não parava de pensar
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52 se a sua saia estava curta demais, quem aquele cara pensava que era?, se ela tinha cara de puta. De repente riu de si mesma e percebeu que fora capturada pelo pensamento hegemônico de que puta tem cara, roupa curta, o mesmo passado triste e presente vitimizante. Tudo aquilo que a pesquisadora pretendia colocar em análise. Colocar em análise aqui entendido como partir de uma realidade em constante transformação e movimento, uma realidade composta por diferentes contextos a serem considerados, conforme nos diz Altoé (ALTOÉ, 2004). Analisar acompanhando as forças que compõem uma determinada paisagem: a constituição das profissionais do sexo do Parque Moscoso.
Deu uma nova olhada em volta, agora em alerta de que talvez não estivesse olhando direito. O dentro-fora-ao-redor do parque não resistia a um segundo olhar. Percebeu as movimentações, as mulheres, os homens... Só que nossa pesquisadora insistiu em olhar só com o olho-do-visível, captando apenas formas14. Para além delas, podemos perceber que noivas, homens, mulheres, crianças, pesquisadores e putas não existem a priori, mas emergem como efeitos de relações. Relações nas quais sujeito e objeto emergem em um mesmo plano de consistência. Plano que não é nem interior, nem exterior, é entre, relacional (ROLNIK, 2011). Perceber essas relações de forma dicotômica faz com que criemos a divisão entre mulher de família e prostituta. A prostituta deixa então de ser mulher nessa relação em que ou se é uma coisa ou outra. Duas pessoas diferentes, entre elas um fosso. Seguindo esse pensamento, ser confundida com uma profissional do sexo é ofensa das graves. Estamos presos, nesse momento, a uma ideia possível de mulher: a boa, cidadã, digna e pura. Estamos presos em um território de noivinhas...
O Centro de Vitória de manhã abriga putas, noivas, mães, trabalhadoras, variadas formas de ser mulher. É possível ver mulheres entrando nas centenas de hotéis distribuídos nos arredores do Parque Moscoso. É possível ver homens entrando, acompanhados ou não, no Cine-Erótico. Na Unidade Básica de Saúde da região, uma infinidade de pessoas circula, entre usuários e trabalhadores. Em sua frente,
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Quando o olho-do-visível se torna nossa única referência, se torna dualista, ancorado na moral (ROLNIK, 2011).
53 uma infinidade de pessoas se utiliza dos antigos “hotéis”, entre clientes e trabalhadores. Inúmeras noivas vêm ao Centro todos os dias procurar seus vestidos, o de suas madrinhas e damas. Às vezes trazem junto os noivos, a procura do terno para a cerimônia de casamento. Em volta e de um lado do Parque, casas especializadas em noivas. Do outro lado, ruas repletas de casas especializadas em sexo.
Encontramos um lugar para posicionar a câmera: nos demos conta da infinidade de casas de noivas presentes ao redor do Parque e no resto da região. A pesquisadora mesmo já havia alugado ali vestido de dama de honra, mas nunca havia sequer reparado que eram tantas lojas. Nem pensado na sua proximidade com as casas de prostituição. Figuras tão marcantes, de polos opostos. Mas como criamos essa oposição? Há mesmo esse local tão demarcado para putas e noivas, ou carregamos dissolvido em nós um pouco de cada uma dessas figuras?
Se de dia o local parece bem esquadrinhado e as pessoas o coabitam displicentemente, a noite parece um pouco diferente. O Parque fecha, as lojas baixam suas portas, as noivinhas voltam para a segurança da família. Em frente aos hotéis, o movimento cresce. Nas ruas, prostitutas de barriga de fora, travestis e grupos de mulheres reunidas por entre as calçadas. Mexem com quem passa, de carro ou à pé, a procura de um programa.
A câmera foca o esquadrinhamento: “Cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar, um indivíduo” (FOUCALT, 1987, p.123). Noivado, namoro, casamento. Ritos que não se encaixam na vida da outra mulher - a pecadora, a puta. Mas putas desejam15: noivam, namoram e casam. Sonhos que atravessam e sustentam esse esquadrinhamento. Sonhos tornados padrões de conduta. Necessários à normalização e à disciplinarização da população, eles envolvem a todos em uma vigilância atenta, constante e permanente em relação ao que desvia deles. Vigilância possível graças à imensa quantidade de técnicas, normas e táticas criadas pela modernidade com o intuito de estabelecer padrões e conceitos que determinam
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Desejo entendido como o movimento de produção de universos psicossociais. Deixar passá-lo é acolher a multiplicidade da existência. A pura diversidade que somos (ROLNIK, 2011).
54 como o corpo e os sonhos devem ser e quais são os comportamentos aceitáveis socialmente.
NOIVINHAS - O sonho da família burguesa tradicional parece alimentar a
imaginação de algumas profissionais. Nota-se, ainda hoje, este ideal dicotômico do ser mulher presente nas práticas sociais de muitas prostitutas16. Muitas acreditam em um futuro casamento com um cliente, uma relação duradoura e estável. O fato de receberem para praticar o sexo e de buscarem o próprio sustento não parece aqui ser uma tentativa de ir contra o modelo de ser mulher. Elas, hegemonicamente, não parecem estar nesse trabalho por uma ideologia de liberação do corpo da mulher, por uma ideologia de afirmação de outros modos-mulher. Vender o corpo não faz delas libertárias ou revolucionárias. Ao contrário, o trabalho é sentido com vergonha, feito na “indignidade”.