O documento Language Vitality and Endangerment (2003), da UNESCO, traz um modelo de interpretação e classificação das línguas, para diagnosticar seu estágio vitalício, ou seja, procura descobrir, por meio de uma investigação ampla, se a língua está salva, se ela se encontra sob ameaça ou até mesmo em extinção. Desse modo, o órgão pretende analisar individualmente as diversas línguas e verificar sua vitalidade para, se necessário, intervir com o intuito de recuperá-la ou ao menos registrá-la.
Para tanto, o documento apresenta seis fatores de análise do grau de vitalidade, dois fatores de avaliação de atitudes linguísticas e um fator adicional, para avaliar a urgência de se registrar e documentar a língua. O documento alerta que nenhum deles deve ser tomado por si só; contudo, se tomados em conjunto, eles nos darão um panorama da situação vitalícia da língua. Vamos, então, aos fatores:
Fator 1: Transmissão intergeracional da língua – Este é o fator mais comumente usado para avaliar o grau de vitalidade da língua. Por meio de seis graus, verifica-se se a língua é ou não transmitida de geração para geração. A vitalidade é medida num continuum que vai da estabilidade até a extinção. Mesmo na posição de
segura, a língua não tem sua vitalidade assegurada, porque a qualquer momento os
falantes podem parar de transmiti-la para seus descendentes.
QUADRO 4: Grau de transmissão intergeracional da língua.
Fonte: UNESCO, 2003, p. 8-9.
Grau de ameaça Nível População falante
Segura 5 A língua é usada por todos os grupos etários, inclusive pelas crianças.
Insegura 4 A língua é usada por algumas crianças em todos os domínios; ou é usada por todas as crianças em alguns domínios.
Ameaçada 3 A língua é utilizada principalmente pelas gerações dos pais e as que estão acima destes.
Severamente ameaçada 2 A língua é usada pelas gerações dos avós e dos que estão acima destes.
Criticamente ameaçada 1 A língua é conhecida por muito poucas pessoas que estão principalmente na geração dos bisavós.
Fator 2: Número absoluto de falantes - É impossível dar um número exato de falantes de uma língua, mas, quanto menor o número de falantes de uma língua, dentro de um grupo, mais risco ela terá de ser substituída por outra língua (UNESCO, 2003, p. 09).
Fator 3: Proporção de falantes dentro da população local - O número de falantes em relação à população total de um grupo é um importante indicador da vitalidade da língua. O grupo, para esta avaliação, pode referir-se ao grupo étnico, religioso, regional ou nacional, com o qual a comunidade falante se identifica. A escala seguinte pode ser usada para avaliar graus de ameaça.
QUADRO 5: Proporção de falantes dentro da população local.
Grau de ameaça Nível Proporção de falantes dentro da população total de
referência.
Segura 5 Todos falam a língua.
Insegura 4 Quase todos falam a língua.
Ameaçada 3 A maioria fala a língua.
Severamente ameaçada 2 A minoria fala a língua.
Criticamente ameaçada 1 Poucos falam a língua.
Extinta 0 Ninguém fala a língua. Fonte: UNESCO, 2003, p. 9.
Fator 4: Domínios que a língua abarca - Onde, com quem e a gama de temas para os quais a língua é utilizada afeta diretamente se ela irá ou não ser transmitida para a próxima geração.
QUADRO 6: Grau de ameaça segundo os domínios e funções abarcados pela língua.
Grau de ameaça Nível Domínios e funções
Usada universalmente 5 A língua é usada em todos os domínios e para todas as funções.
Paridade (igualdade)
multilingue 4
Duas ou mais línguas podem ser utilizadas na maioria dos domínios sociais e para a maioria das funções. Normalmente, a língua ancestral é rara no domínio público.
Diminuição dos domínios 3
A língua é usada nos domínios do lar e para muitas funções, mas a língua dominante começa a penetrar nos domínios, inclusive nos do lar.
Domínios limitados ou
formais 2
A língua é usada em domínios sociais limitados e para várias funções.
Domínios altamente
limitados 1
A língua é usada somente em um domínio muito restrito e para muito poucas funções.
Extinta 0 A língua não é usada em nenhum domínio. Fonte: UNESCO, 2003, p. 10-11.
Fator 5: Resposta aos novos domínios e aos meios de comunicação - Novas áreas de uso da linguagem podem surgir com a mudança das condições de vida da comunidade. Enquanto algumas comunidades linguísticas têm êxito na expansão de sua própria linguagem para o novo domínio, a maioria não o tem. Escolas, ambientes de trabalho e novas mídias, incluindo meios de radiodifusão e internet, geralmente servem apenas para ampliar o alcance e o poder da língua dominante em detrimento das línguas ameaçadas. Se a língua tradicional da comunidade não consegue responder aos desafios da modernidade, ela se torna cada vez mais irrelevante e estigmatizada (UNESCO, 2003).
QUADRO 7: Resposta aos novos domínios e aos meios de comunicação.
Grau de ameaça Nível Domínios e Novas Mídias abarcados pela língua ameaçada de
extinção.
Dinâmica 5 A língua é utilizada em todos os novos domínios.
Robusta/ativa 4 O idioma é utilizado na maioria dos novos domínios.
Receptiva 3 A língua é usada em muitos domínios
Suficiente 2 A língua é usada em alguns novos domínios.
Mínima 1 O idioma é utilizado em poucos domínios novos.
Inativa 0 A língua não é usada em nenhum dos domínios novos. Fonte: UNESCO, 2003, p. 11.
O tipo e o uso desses novos domínios irão variar de acordo com o contexto local. Inevitavelmente, haverá diferentes níveis de veiculação da língua em diferentes mídias. Todos os novos domínios, seja na educação, emprego, ou mídia, devem ser considerados em conjunto, para se avaliar o grau de ameaça de determinada língua.
Fator 6: Materiais para Educação e Alfabetização - Segundo o documento em questão, o ensino da língua é essencial para a vitalidade da mesma, ou seja, quando a língua da comunidade é ensinada na escola, ela correrá menos riscos de substituição e, eventualmente, de extinção.
QUADRO 8: Materiais para Educação e Alfabetização. Grau de ameaça Acesso a materiais escritos.
5
Há uma ortografia estabelecida, uma literatura de ficção e não-ficção e uma mídia de publicação diária escrita. A língua escrita é usada na administração e educação.
4
Existem materiais com a língua escrita, e, na escola, as crianças estão desenvolvendo a alfabetização na língua. A língua não é usada na forma escrita, na administração.
3
Existem materiais com a língua escrita, e as crianças podem ser expostas à modalidade escrita na escola. A alfabetização não é promovida por meio de mídia impressa.
2
Existem materiais com a língua escrita, mas elas só podem ser úteis por alguns membros da comunidade e, para os outros, eles podem ter um significado simbólico. Alfabetização na língua não faz parte do currículo escolar.
1 A ortografia prática é conhecida da comunidade, e algum material está sendo escrito.
0 Não há ortografia à disposição da comunidade.
Fonte: UNESCO, 2003, p. 12.
Para ampliar o nosso entendimento sobre o grau de vitalidade de uma determinada língua e entender por que ela chegou a tal nível, alguns outros fatores são indicados pelo mesmo documento. Seu objetivo é avaliar as atitudes e as políticas relacionadas às línguas dominantes e não dominantes. Por meio desses fatores, pode-se verificar até que ponto os falantes e a política linguística contribuíram para a manutenção/substituição de certas línguas. São eles:
Fator 7: Atitudes Governamentais, políticas e institucionais - O apoio oficial das línguas dominantes e não dominantes pode ser classificado de acordo com a seguinte escala:
QUADRO 9: Atitudes oficiais em relação à língua.
Grau de suporte Nível Atitudes oficiais em relação à língua.
Igual apoio 5 Todas as línguas são protegidas.
Apoio diferenciado 4 As línguas minoritárias são protegidas, principalmente como a língua do domínio privado. O uso da língua é prestigiado. Assimilação
passiva 3
Não existe uma política explícita para as línguas minoritárias. A língua dominante prevalece no domínio público.
Assimilação ativa 2 O Governo incentiva a assimilação da língua dominante. Não há nenhuma proteção para as línguas minoritárias.
Assimilação
forçada 1
A língua dominante é a única língua oficial, enquanto as línguas não-dominantes não são reconhecidas nem protegidas.
Proibição 0 As línguas minoritárias estão proibidas.
Fonte: UNESCO, 2003, p. 14.
Fator 8: Atitudes dos membros da comunidade para com a sua própria língua - Os membros de uma comunidade de fala não são neutros em relação a sua própria
língua, conforme vimos anteriormente. Eles podem vê-la como essencial para a sua comunidade e identidade, passando a promovê-la, ou podem envergonhar-se dela e, portanto, não promovê-la, ou ainda podem vê-la como um incômodo e evitar usá-la ativamente.
Quando as atitudes dos membros da comunidade são muito positivas, a língua pode ser vista como um símbolo-chave da identidade do grupo. Assim como as pessoas valorizam as tradições familiares, festas e eventos da comunidade, elas podem ver sua língua como um valor cultural fundamental, vital para a sua comunidade e identidade étnica. Se, por outro lado, os membros veem a língua como obstáculo à mobilidade econômica e à integração na sociedade, podem desenvolver atitudes negativas em relação a ela (UNESCO, 2003).
QUADRO 10: Atitudes dos membros da comunidade com relação a sua própria língua.
Nível Atitudes dos membros da comunidade com relação a sua própria língua
5 Todos os membros dão valor a sua língua e desejam vê-la promovida. 4 A maioria dos membros apoia a manutenção da língua.
3 Muitos membros apoiam a manutenção da língua; os outros são indiferentes ou, até mesmo, podem apoiar a substituição da língua.
2 Alguns membros apoiam a manutenção da língua; os outros são indiferentes ou apoiam a substituição da língua.
1 Poucos membros dão apoio à manutenção da língua; os outros são indiferentes ou apoiam a substituição da língua.
0 Ninguém se importa com a substituição da língua; todos preferem usar uma língua dominante.
Fonte: UNESCO, 2003, p. 14-15.
Como fator final de verificação da vitalidade linguística, a UNESCO propõe um guia para que se verifique a documentação, ou seja, os materiais escritos que uma dada língua tem. Segundo o documento, é de suma importância que haja materiais escritos, bem como gravações audiovisuais da língua. Tais materiais são importantes, na medida em que ajudam os falantes da comunidade linguística a formular e desempenhar tarefas específicas e permitem aos linguistas conceberem projetos de colaboração com os membros da comunidade.
QUADRO 11: Documentação da língua. Natureza da
documentação Grau Documentação da língua
Superlativo 5
Existem gramáticas abrangentes e dicionários, textos extensos e um fluxo constante de materiais de linguagem. Abundante quantidade de áudio de alta qualidade e existem gravações de vídeo.
Bom 4
Há pelo menos uma boa gramática, alguns dicionários, textos, literatura, mídia todos os dias, áudio de alta qualidade e gravações de vídeo.
Razoável 3
Pode haver uma gramática adequada, alguns dicionários e textos, mas não há meios de comunicação escrita diários; gravações de áudio e de vídeo de alguma qualidade podem existir.
Fragmentada 2
Há alguns esboços gramaticais, listas de palavras e texto útil para a pesquisa linguística restrita, mas com cobertura inadequada. Podem existir gravações de áudio e de vídeo com diferentes graus de qualidade, com ou sem qualquer anotação.
Inadequada 1
Há apenas alguns esboços gramaticais, lista de palavras curta e fragmentos de textos. As gravações de áudio e vídeo não existem, são de qualidade inutilizável, ou são completamente não anotadas.
Não documentada 0 Não existe nenhum material. Fonte: UNESCO, 2003, p. 16.
Esse fator de avaliação também é um importante alerta para o registro e documentação das línguas, uma vez que, se for detectada uma língua em fase de substituição/extinção que não tenha registro, deve-se fazê-lo com urgência.
Tendo-se descrito o documento Language Vitality and Endangerment, nesta Seção, na próxima apresentaremos a proposta de Fishman (1991, 2000) para evitar a extinção de uma língua.
3.2.6.2 Línguas ameaçadas de extinção podem ser salvas? Lendo a proposta de Fishman (1991, 2000)
Fishman (2000) nos chama a atenção para o fato de que, na primeira metade deste século, milhares de línguas - uma grande proporção das que conhecemos agora - estão morrendo e outras milhares estão destinadas a morrer. Essa situação é real e também lamentável, pois, como lembra o documento da Unesco (2003), com a morte das línguas, perdemos também a cultura do povo que a fala.
Fishman (2000) também reconhece os danos dessa perda. Para ele, "línguas específicas estão relacionadas com culturas específicas e suas identidades culturais inerentes no nível do fazer, no nível do conhecimento e no nível do ser" (FISHMAN, 2000, p. 03). Tal afirmação demonstra que muitos comportamentos religiosos, morais, éticos, de socialização (jogos, cumprimentos, estabelecimento de amizades), etc, só podem ser expressos por uma língua em particular. Ele conclui: "línguas específicas são parte e parcela dessa herança 'essencial' que uma geração passa para a seguinte" (FISHMAN, 2000, p. 05).
O lamento e os prognósticos generalizados da extinção linguística, apesar de nos alertarem para o problema, não são suficientes para resolvê-lo. Dessa forma, com o objetivo de tentar salvar as línguas em risco de extinção, Fishman (1991) criou o movimento Reversing Language Shift (RLS). Para entendê-lo, é preciso, primeiramente, visualizar sua proposição de escala de línguas ameaçadas20. Os estágios propostos pelo autor são diferentes dos propostos pela UNESCO (2003), no entanto, vamos vê-los agora para assim entender a proposta do autor. A priori, deve-se lembrar que o autor acredita que os estágios não devem ser tomados isoladamente, mas sim sobrepostos e interactantes. Então:
QUADRO 12: Escala de línguas ameaçadas.
Estágio Situação
8 Os poucos falantes restantes da língua minoritária estão em isolamento social. 7 A língua minoritária é usada pelos mais velhos e não o é mais na geração jovem. 6 A língua minoritária é passada de geração em geração e utilizada na comunidade. 5 A alfabetização é feita na língua minoritária.
4 A escolaridade obrigatória está disponível na língua minoritária.
3 Usa-se a língua minoritária em áreas de trabalho menos especializadas, que envolvem a interação com falantes da língua da maioria.
2 Os serviços públicos mais baixos e meios de comunicação estão disponíveis na língua minoritária.
1 Há algum uso de línguas minoritárias disponíveis no ensino superior, no governo e na mídia nacional.
Fonte: FISHMAN, 1991.
20
Fishman (1991) também apresenta uma escala para averiguar o grau de vitalidade de uma língua, a qual não foi apresentada na Seção anterior porque preferimos basear-nos somente no documento oficial da UNESCO (2003), que tem o mesmo propósito.
Depois de se identificar o estágio em que se encontra a língua minoritária, Fishman (1991) propõe oito medidas para evitar sua extinção. Para cada estágio, há uma medida específica, como se vê abaixo.
Estágio 8 - Este é o pior estágio de ameaça para a língua. Neste caso, o melhor e mais urgente é recolher o máximo de informações possíveis dos poucos sobreviventes da comunidade linguística. Deve-se gravar a língua em áudio para que, mais tarde, seja possível fazer sua reconstrução.
Estágio 7 - Nessa fase, há que se multiplicar a linguagem na geração mais jovem. Com esse intuito, mães e pais devem ser estimulados a educar os seus filhos na língua minoritária, pois a transmissão intergeracional no âmbito da família é essencial para garantir a continuidade da linguagem.
Estágio 6 - Esta etapa é vista como a fase crucial para a sobrevivência de uma língua. Neste caso, deve-se apoiar e incentivar a família a continuar repassando-a às futuras gerações. Além disso, não se deve deixar a língua fora dos domínios do planejamento formal. Uma possibilidade é inserir a língua minoritária nas creches, por exemplo.
Estágio 5 - Nesta fase, deve-se buscar apoio financeiro para a alfabetização, pois, dessa forma: (1) facilita-se o acesso do grupo aos meios alternativos de comunicação, independentemente da distância geográfica e do tempo; (2) melhora- se a imagem e o status da língua minoritária, dada a presença da língua escrita e dos materiais impressos; e (3) garante-se uma maior variedade de funções para a língua.
Estágio 4 - A alfabetização na língua minoritária pode ser alcançada através do esforço da comunidade local. Por isso, escolas podem ser criadas e apoiadas pela própria comunidade da língua minoritária, sem ter que passar necessariamente pelo financiamento governamental.
Estágio 3 - Nesta fase, a criação de uma base econômica mais ampla para a língua minoritária torna-se importante.
Estágio 2 - Nesta penúltima etapa, deve-se ampliar o uso da língua minoritária nos serviços públicos mais baixos e nos meios de comunicação.
Estágio 1 - Nesta etapa final, pode-se: (1) incluir a língua da minoria no ensino de nível universitário; (2) fortalecer a produção de mídia de massa na língua minoritária; e (3) aumentar e estender o uso da língua a todos os serviços governamentais. Nesta fase, a linguagem vai ser oficialmente reconhecida na legislação do país. (FISHMAN, 1991).
Apesar de todas essas medidas prescritivas, Fishman (1991) acredita que o mais importante, mas também o mais difícil, é incentivar o uso da língua minoritária no contexto familiar e comunitário. Para o autor, a língua falada informal e intimista, reproduzida através das gerações, é o pivô da substituição linguística (FISHMAN, 1991, p. 192).
Na opinião de Fishman (1991), a fase 6 é fundamental, mas o autor é particularmente cauteloso quanto à ação e ao poder da educação bilíngue na reversão da substituição linguística.
Depois de uma década de implementação do RLS, Fishman organizou um novo livro, chamado Can threatened languages be saved? (2000), no qual trata de vários casos de reversão de línguas ameaçadas e também revisa e refina sua proposta inicial de 1990. O autor assume que as línguas ameaçadas estão com uma "síndrome" (FISHMAN, 2000, p. 01) bastante complexa, que varia de tipo e grau, cujo diagnóstico e cura dependerão de cada caso/língua.
Fishman aponta que "[…] qualquer teoria e prática de assistência a línguas ameaçadas [...] deve começar com um modelo de diversificação funcional de línguas" (2000, p. 02). Então, se as funções forem identificadas corretamente e se for descoberto que a língua está ameaçada pelo impacto de línguas e culturas mais fortes, será mais fácil recomendar os passos terapêuticos a serem seguidos, a fim de neutralizar o impacto.
Esses passos terapêuticos a que Fishman (2000) se refere são: (1) estabelecer uma prioridade de funções; e (2) e fazer a ligação das funções. Muitas vezes, a primeira
função que se quer dar à língua ameaçada é a da educação básica. Mas de que adianta que se ensine a língua ameaçada na escola, se a língua materna das crianças não é a mesma e se depois da escola aquela língua não tem usos? Dessa forma, Fishman (2000) nos orienta a implementar um sistema de funções ligadas num continuum, no qual uma língua ameaçada de extinção tem a possibilidade de voltar a ser a primeira língua de uma nova geração. Primeiramente, a língua ameaçada é reintroduzida na vida dos adultos e jovens, considerando estes "child-
bearing-age" (2000, p. 15) como a segunda língua (L2); depois L2 passa a ser L1,
desempenhando assim as funções mais pessoais (família, vizinhança). A seguir vem a escolarização na língua sob ameaça e, por fim, a criação de atividades nas quais jovens e adultos sejam motivados a falar nessa língua.
Dito isso, cabe lembrar que esse processo de fortalecimento é muito complexo e difícil, pois: (1) a perda de uma língua étnica-cultural é comumente o resultado de um longo processo no qual falantes, identidades e cultura são suprimidos pela língua majoritária; (2) advogar a favor de uma língua ameaçada é visto como provinciano e antiquado; (3) para defender uma língua ameaçada, algumas das funções das línguas em competição devem ser diferentes e outras, compartilhadas - uma dificuldade taticamente difícil de alcançar e manter; e (4) algumas funções da língua ameaçada devem ser reforçadas simultaneamente a partir de cima (from above) e de baixo (from below), em termos de poder. Diante do exposto, fica claro que salvar uma língua minoritária da extinção requer muito esforço conjunto da comunidade de falantes, de entidades civis e do governo do país.
Esse tópico se faz necessário porque, primeiro, estamos lidando com uma língua minoritária, de imigração, que, nessa situação, está automaticamente sob o risco de substituição. Vimos isso na seção que trata da manutenção/substituição linguística. Segundo, porque mesmo que a língua pomerana não esteja em vias de substituição, Fishman (1991) propõe medidas interessantes que se pode tomar sem que a língua esteja necessariamente sob ameaça de extinção.
Vamos, a seguir, tratar do Bilinguismo, um fator e uma consequência da manutenção linguística ou um fator de passagem para a substituição linguística.
Conhecê-mo-lo para depois avaliar a sua participação no processo de manutenção ou substituição da língua pomerana em Santa Maria de Jetibá.