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A exploração da natureza pelo capital constitui determinante central da crise ambiental e impõe um deterioramento civilizatório. A (in)sustentabilidade do capital impacta na determinação de condições depreciadas de saúde para a classe trabalhadora e por tal, na garantia do direito à saúde. Por isso, ao longo da análise realizamos o resgate da produção social em saúde e o modelo capitalista como central na determinação social da saúde, expresso em doenças emergentes, pandemias e no recrudescimento de epidemias como o do dengue, determinando o agravamento do quadro sanitário para colocar em xeque o suposto caráter progressista do capital.

Resgatamos aspectos fundamentais que explicitam o quanto a incontrolabilidade do capital alcançou seu ápice ao esbarrar na hostilidade da segunda natureza. Dentre outras, são evidenciadas nas catástrofes ambientais, cada vez mais recorrentes e graves, reveladoras dos descaminhos de um projeto societário que nega a valorização da vida. Nesse sentido, a barbárie socioambiental em sua complexidade designa as massas à miserabilidade e ao adoecimento. Nesse cenário do pior, a intimação é do agora, não para as gerações futuras, e é para a classe trabalhadora.

O capital em tempos de crise com falência de suas engrenagens não significa seu fim e nem tentativas estruturais de ―humanização‖, na realidade o capital é o que é na sua essência: mesquinho, explorador e destruidor. Mudar essas características impõe outra ordem societária. E essa luta historicamente é dos/as trabalhadores/as coletivamente organizados, única alternativa para se contrapor às ameaças a continuidade da vida da humana, que requerem permanente luta contra a manutenção do capital que se sustenta com respostas cada vez mais déspotas e exploradoras.

Em tempos de crise de acumulação a reatualização do modo de produção capitalista eleva ao extremo sua lógica destrutiva e mercantilista, buscando transformar tudo em mercadoria, incluindo as políticas sociais de saúde, materializadas a mercê de interesses mercantis, a despeito da resistência interposta pelos movimentos contrahegemônicos. Razão pela qual, tais movimentos precisam ser fortalecidos, adensados para podermos nos contrapor à barbarização da vida. O

apelo, que tratamos como intimação, é feito em um cenário de ―canto da sereia‖ do capital, sua ideologia. Explicito nestas reflexões críticas acerca da ocorrência do dengue.

Constata-se que a proliferação de arbovirose, nas últimas décadas, ganhou um combate próprio de guerra com ―armas químicas‖ como aliadas. Nessa lógica, a população é chamada a agir como soldados contra o mosquito. O terror ao mosquito é imposto e se ele se prolifera a culpa é de uma população que não entende as repetidas instruções. Tal forma de apreender a realidade é repercutida em discursos dos profissionais de saúde que marcaram os depoimentos durante a realização do Grupo focal.

O combate, a pesar da incorporação da temática ambiental, concentra-se no âmbito preventivo, no individualismo e no meu local (lê-se minha casa), ou seja, uma apreensão distante da perspectiva politizada da saúde, aliás descartando as determinações socioambientais do dengue como a ocupação do solo e o uso mercantil dos recursos naturais.

Essa perspectiva de análise opera uma nítida separação do indivíduo com o restante da natureza. Assim, o convívio com as dinâmicas da natureza são tratadas como nocivas à humanidade, sem considerar que as causas intrínsecas aos processos de desmatamento, urbanização e a degradação ambiental não são provocadas por mosquitos e sim pela exploração sistemática e vil com vistas à obtenção de e acumulação de capital.

Do ponto de vista da teoria social crítica, esta suposta ruptura é resultado da crise socioambiental, na qual a proliferação do mosquito está atrelada a uma ocupação inadequada do solo, por um desenvolvimento insustentável e por serviços públicos de infraestruturas e saneamento ambiental precários. Ademais, tem forte relação com fenômenos como o aquecimento global provocado pela extrema exploração predatória da natureza, que promove o alastramento do vetor e proliferação do vírus. Assim, o vetor está mais resistente e adaptado ao espaço urbano descompensado, conforme revelam inúmeras pesquisas em âmbito nacional e internacional.

Entretanto, fundados na ideologia burguesa por um discurso que ―seduz‖ a classe trabalhadora a repetir um discurso individual e desintegrado com o restante da natureza. E ao desconsiderar a exacerbação da questão socioambiental em uma perspectiva crítica, o enfrentamento hegemônico não é eficiente, aliás o quadro só

se agrava, expressando-se na atualidade a associação do vetor aedes aegypti ao

zika e chikungunya.

De tal forma, reforçamos a crítica ao combate do dengue por suas duas vias centrais: no que se refere às instruções para população e ao combate químico. A crítica do primeiro é por culpabilizar a população ao invés de associar a uma discussão de mobilização para reivindicação de serviços públicos. Ou seja, a educação é incorporada no controle do dengue pela imposição de uma série de instruções higienistas ao invés de um direcionamento na educação popular através da problematização da realidade. O segundo, por seu impacto socioambiental negativo através de provas científicas.

Ao avaliar a realidade socioambiental da cidade do Natal, constata-se que o abastecimento intermitente de água concorre decisivamente para a ocorrência endêmica do dengue, haja vista que em sua maioria os depósitos utilizados para armazenar água se tornam criadouros de larvas dados a constante falta ou insuficiência do fornecimento de água pela CAERN.

Dadas as desigualdades sociais adensadas pela especulação imobiliária, verifica-se que a ampliação da ocupação de solo inapropriada, como moradias precárias construídas nas dunas, nos mangues e encostas revelam não só a falta de políticas de habitacionais e ambientais, mas também uma relação indisiosa com a natureza.

Embora aparentemente o mosquito do dengue não escolha classe social, chegando a ser visto como um democrata. O reconhecimento de que há grande subnotificação, inclusive nas denominadas ―áreas descobertas‖, sem acesso a nenhum tipo de assistência médica e social, comprovou-se que os bairros com condições socioambientais precárias, apresentam o dengue como uma grave problemática até no que tange ao grau de suas complicações e probabilidade de matar, uma vez que as complicações ou a capacidade de reagir tem relações com a qualidade de vida em geral de quem adoece. Portanto a vulnerabilidade daqueles que não tem direitos humanos e sociais básicos assegurados são infinitamente maiores e letais.

Conclui-se que as iniciativas de saneamento ambiental constituem medida estratégica fundamental para o efetivo enfrentamento da proliferação de doenças, dentre as quais o dengue. A falta de investimentos em projetos coletivos revela que um padrão de desenvolvimento urbano industrial voltado para a produção de valor

de troca em detrimento da qualidade de vida e bem-estar da população e de relações harmônicas com a natureza. Assim, os rumos da política de controle do dengue revelam as macros tendências do capital.

Não à toa, as projeções futuras concentram-se em busca de uma vacina ou de aposta na produção de mosquitos transgênicos que em tese solucionarão a crise sanitária brasileira. A primeira significa uma resolução para o fenômeno do dengue, todavia não elaboraria um cenário salubre visto a continua precariedade em saneamento ambiental, já, o segundo, as suas repercussões e os desequilíbrios ambientais inerentes ainda são desconhecidos.

Enfim, a totalidade complexa que marca a proliferação do dengue como endemia de âmbito local e nacional, ao ser analisada e compreendida a partir das determinações da voracidade do capital em suas reconfigurações contemporâneas, permite resgatar a unidade indivíduo-natureza e reconhecer a centralidade da atual crise socioambiental para a repolitização da questão da saúde e da formulação e implementação da política de saúde na perspectiva da Reforma Sanitária Brasileira, o que requer luta contra a mercantilização da vida e da saúde, bem como a defesa do SUS como sistema público estatal e em defesa da vida, como condição para se desenvolver políticas e ações voltadas para apreender a estrutura insalubre da lógica do capital vista a barbárie socioambiental.

Em suma, efetivamente enfrentar o dengue, significa lutar para superar as desigualdades que por sua vez requer a superação da ordem burguesa em prol de uma sociedade mais justa e igualitária, sem dominação de classes.

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