Discussão Geral
As possíveis alterações de parâmetros morfológicos nos tecidos biológicos podem ser satisfatoriamente detectadas através da espectroscopia de fluorescência. Este método óptico tem sido utilizado para o diagnóstico precoce de lesões malignas e pré- malignas da mucosa oral (DE VELD, et al., 2005).
As novas modalidades terapêuticas, tanto para tratamento (Terapia Fotodinâmica - PDT) como diagnóstico (Fotodiagnóstico - PDD), apresentam diversas vantagens em relação aos métodos convencionais, principalmente por representarem técnicas menos invasivas (MARCHESINI, et al, 1992; DORSHOW, et al., 1998).
A revisão de literatura mostrou que existe grande número de trabalhos aplicados ao diagnóstico de neoplasias utilizando espectroscopia de fluorescência (DHINGRA, et al., 1998; WANG, et al., 1999; MALZAHN, et al., 2002; SIERON, et al., 2003), embora estudos dirigidos ao tecido normal, sem alterações clínicas ou histológicas, ainda sejam escassos.
No estudo da fluorescência nativa da cavidade oral, muitos parâmetros vêm sendo estudados para atingir grau máximo de qualidade dos resultados, dentre eles: comprimento de onda, sensibilidade e resolução do sistema de aquisição de dados, método estatístico para classificar os espectros e a associação de imagens com câmeras digitais.
O comprimento de onda de excitação para os estudos em cavidade oral de humanos, varia de 200 nm a 600 nm, sendo que o mais adequado para diferenciar lesões de tecido normal está situado em torno de 400 nm (DE VELD, et al., 2005).
As emissões detectadas, geralmente na região do verde e do vermelho, variam bastante em relação à intensidade. Desta maneira, a diminuição da intensidade de fluorescência na região do verde pode estar relacionada à presença de alterações teciduais, ainda que insipientes. Em contrapartida, as emissões detectadas na região do vermelho (similares aos picos de fluorescência das porfirinas) não estão exclusivamente relacionadas a alterações malignas mas, também, à presença de bactérias, visto o que observamos nos resultados do dorso de língua de humanos e no biofilme de cães.
Discussão Geral
O método para classificar os espectros também apresenta resultados variáveis. Na grande maioria dos artigos consultados, a análise estatística empregada foi o da técnica de multivariáveis e algoritmos - em particular o PCA (do inglês, Principal Component
Analysis) - mas os resultados não foram muito mais significativos do que a análise
qualitativa das características individuais de cada espectro, bem como a comparação entre os mesmos. Neste sentido, foi o que exploramos na elaboração dos artigos desta tese. Estas considerações, entretanto, só foram observadas e comprovadas, na medida em que íamos realizando os trabalhos. A cada realização de uma etapa, novas questões e características eram descobertas.
O trabalho piloto com modelo animal (Capítulo 1) resultou em informações importantes para a pergunta que nos motivou a realizar esta tese: é possível determinar um padrão de normalidade para tecidos biológicos em relação à fluorescência nativa?
Durante a coleta de dados nos cães, observamos que a fluorescência nativa da cavidade bucal, independente do sítio analisado, apresentava emissões sempre na mesma região do espectro, isto é, na região de 500 nm. Esta banda de emissão era muito próxima àquela proveniente da lâmpada de mercúrio utilizada para a estimulação do tecido. Isto indicou que, para uma análise apropriada dos espectros, deveríamos eliminar as emissões originadas pela fonte de luz, permitindo a obtenção de um espectro mais “limpo”, sem outras interferências.
Os artigos selecionados na revisão de literatura mostraram que a banda de excitação ideal para o estudo da espectroscopia da cavidade oral, está entre 370 nm e 440 nm (WANG, et al., 1999; HEINTZELMAN, et al. 2000; COGHLAN, et al., 2001), ou seja, correspondendo ao ultravioleta próximo. É fato também que determinados comprimentos de onda estimulam e, portanto, evidenciam melhor determinadas áreas da cavidade oral (HEINTZELMAN, et al., 2000; DE VELD, et al., 2004).
Sabe-se que um laser seria a fonte de luz adequada para o fotodiagnóstico porque apresenta comprimento de onda específico, facilmente detectado. Isto resolveria a questão da interferência nos espectros, delimitando corretamente o que seria emissão proveniente da luz de excitação (reflexão) e o que seria fluorescência do tecido. Devido ao
Discussão Geral
alto custo de um laser de nitrogênio, geralmente o indicado para o PDD, procuramos auxílio em empresa especializada para desenvolver uma fonte de luz com comprimento de onda ideal, porém com custo menor. Surgiu então, a opção de utilizar um sistema de LEDs para construir uma fonte de luz. Após vários testes, em modelo animal e em humanos, desenvolvemos o protótipo apresentado e utilizado no estudo em humanos, descrito no Capítulo 2.
Neste estudo com humanos, constatamos algumas particularidades nos sítios estudados, principalmente em relação ao dorso de língua: o aparecimento do pico de fluorescência centrado em 634,52 nm foi o mesmo para os 50 voluntários. Característica esta, não observada no estudo com cães. Vale ressaltar que os humanos podem apresentar saburra lingual, alteração clínica que os cães não possuem e que esta saburra tem em sua constituição, considerável contingente de tipos bacterianos, dentre os quais a P. gengivalis, que em seu metabolismo produz PpIX, provavelmente responsável pelo aparecimento do pico na região dos 630 nm.
Conforme os resultados deste estudo eram analisados, observamos que para atingir o objetivo inicial proposto para esta tese - a busca de um padrão de normalidade - deveríamos ter uma amostra maior e que envolvesse indivíduos de diferentes faixas etárias, além de gêneros e raças diferentes, já que alguns trabalhos demonstraram que estes parâmetros poderiam interferir na fluorescência nativa (EISEN, 2000; DE VELD,
et al., 2004).
O capítulo 3 apresenta uma análise qualitativa detalhada dos espectros de fluorescência nativa da cavidade oral em uma amostra composta por 100 voluntários, considerando três sítios distintos. A seleção dos sítios está diretamente relacionada ao fato de que os mesmos, de modo geral, são freqüentemente atingidos por alterações de várias etiologias, especialmente de origem traumática.
Esta análise apresentou um perfil geral da fluorescência da mucosa nas áreas estudadas e definiu algumas características específicas para cada sítio selecionado. Quando comparamos a cor da pele, os hábitos (tabagismo e etilismo) e o gênero, os resultados foram muito variáveis, impedindo uma classificação padrão.
Discussão Geral
Assim, considerando o método óptico elaborado nesta tese, é importante enfatizar que a espectroscopia de fluorescência representa um método alternativo que, embora seguro e sensível, ainda deve ser acompanhado de outro exame complementar, preferencialmente o anátomo-patológico, para concluir o diagnóstico do tecido em estudo.
85