CONTEXTUALIZAÇÃO
A formação das redes sociais no campo migratório tem sido exaustivamente debatida em função das questões sociais e de suas representações. Nesse sentido, o migrante não se faz sozinho, mas por meio de contexto social influenciado pela coletividade, portanto, por instituições, normas e na interação cotidiana que ajuda na definição sobre a sua condição.
A análise de redes sociais e de migração pode ser enriquecida a partir da compreensão de padrões relacionais que formam um sistema social ao demonstrar como atuam os sujeitos
envolvidos nesse sistema: sujeito/grupo-família; as pressões de determinadas estruturas sociais; a contribuição dos processos migratórios consolidados, em relação à instituição, para estancar a não adequação de atores aos padrões sociais de uma determinada conjuntura específica.
Nesse sentido, as redes sociais devem ser compreendidas como sendo importantes para a construção de territórios durante a mobilidade espacial da população. Além disso, devem ser percebidas como elemento de solidariedade e de conflitos a partir de processos dialéticos que se inscrevem no processo migratório. Haesbaert (2006, p.293) compreende que existem fatores de reterritorialização e desterretorialização no processo migratório:
[...] a rede nunca deve ser tomada como um todo homogêneo e a-histórico [...] ela própria é constituinte de elementos que se diferenciam ao longo do tempo. Assim, somos levados [...] a distinguir entre seus pontos (ou vértices) e suas linhas (ou arcos), tanto em relação ao tipo de fluxos que por ela circulam. Eles são fundamentais no entendimento do papel ambivalente das redes, ao mesmo tempo territorializar (quando mais centrípetas ou introvertidas) e desterritorializar (quanto mais centrifugas ou extrovertidas em relação a um determinado território).
Assim, o conceito de território implica em ações para controlar fluxos, para estabelecer e comandar redes. O território, então, liga-se à ideia de (re)odernamento do espaço onde há sistema informacional utilizado pelo sujeito enquanto pertencente a uma cultura. A partir disso, pode-se aplicar a noção de que as redes se formam por meio de processo histórico e relacional de construção do território por meio da apropriação de espaço. Importante perceber que em toda rede existe um ator central que cria recursos para alimentar ou retroalimentar sistemas de comunicação entre seus participantes. Por essa razão, possui relação com imagem de poder ou com o poder dos dominantes, tendo um papel ambivalente: ao passo que facilita a mobilidade em virtude do comando dos migrantes que são direcionados de acordo com os interesses ou o poder que está em jogo, também sustenta e cria territórios em rede, sendo instrumento de poder que tanto pode aprisionar ou libertar os migrantes de contextos socioeconômicos precários. Raffestin (1993, p.204) afirma que:
A rede aparece, desde então, como fios seguros de uma rede flexível que pode se moldar conforme as situações concretas e, por isso mesmo, se deformar para melhor reter. A rede é proteiforme, móvel e inacabada, e é dessa falta de acabamento que ela tira sua força no espaço e no tempo: se adapta às variações do espaço e às mudanças que advêm no tempo. A rede faz e desfaz as prisões do espaço, tornado território: tanto libera como aprisiona. É o porquê de ela ser o “instrumento” por excelência do poder.
As redes se constituem de forças que se estendem a priori a todos os atores, porque configuram uma relação de poder mantida pelo viés da desterritorialização e reterritorialização por meio da força do trabalho, de processos econômicos, políticos e culturais que acontecem na relação entre os migrantes e não migrantes no território de destino e no de origem. De acordo com Saquet e Mondardo (2008, p.122), “o migrante efetiva uma relação com pessoas conhecidas que ficaram no território de origem e com outras conhecidas na reterritorialização, constituindo várias redes locais e extralocais, em diferentes escalas”.
Desse modo, as redes se articulam nas relações sociais, pois são atravessadas pelas representações sociais, pelas ajudas entre parentes que formam as cadeias familiares e que passam pelo estranhamento, pelas diversas identidades, pelas alteridades e pelos contatos tecidos e engendrados que constroem a trajetória dos migrantes. Toda essa demanda produz interações em rede de solidariedade, de apoio, diante de conflitos:
Os contatos que se estabelecem mediante as trajetórias espaciais, os distintos elos das relações familiares, a informação disponível no local de chegada e os novos interesses que esses aspectos originam se convertem em elementos tão importantes quanto as estimativas de bem-estar econômico para a manutenção ao longo do tempo do movimento cíclico do processo migratório. Em numerosas ocasiões, a própria dinâmica das relações e redes segue incrementando os deslocamentos de população, embora as vantagens trabalhistas do lugar de destino tenham diminuído consideravelmente. Este fato reforça a idéia de que os laços entre lugares específicos de origem e de destino não são exclusivamente econômicos, mas especificamente sociais, visto que dependem da existência continuada de redes de apoio (tradução nossa) (PEDONE, 2003, p.105).22
Na migração, portanto, a formação de redes é perpassada por uma complexa cadeia de relações que envolvem diferentes indivíduos, grupos sociais, interesses e territórios - os de origem e os de destino. Por isso, cabe analisar o conceito de rede social no tocante à migração para compreender os elementos que a constituem como lugar de movimento e de acontecimento, como veremos na relação dos imigrantes africanos com o Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus.
22
Excerto original: “Los contactos que se establecen mediante las trayectorias espaciales, los distintos anillos de las cadenas familiares, la información disponible en el lugar de llegada y los nuevos intereses que estos aspectos originan, se convierten en elementos tan importantes como los cálculos de bienestar económico a la hora de mantener en el tiempo el movimiento cíclico del proceso migratorio. En numerosas ocasiones la propia dinámica de las cadenas y redes sigue incrementando los desplazamientos de población, aunque las ventajas laborales en el lugar de destino hayan disminuido considerablemente. Este hecho refuerza la idea de que los lazos entre lugares específicos de origen y de destino no son exclusivamente económicos, sino específicamente sociales, puesto que dependen de la existencia continuada de redes de apoyo”.