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LE BILAN ET LES PERSPECTIVES

É notório que as empresas comerciais de informação usualmente pautam-se em suas produções por uma postura de restrição temática relacionada à escolha do que se supõe mais viável para venda, tendo o lucro pecuniário como balizador produtivo. Por essa razão, os números financeiros acabam por normalmente determinar a concepção, manutenção ou cancelamento de produções nesse meio. No cenário em questão, vê-se a comunicação impedida por práticas que acabam por leiloar o direito de falar a grupos propensos ao atendimento dos interesses financeiros de empresas ditas “de comunicação”. Assim, poucas são as realizações que permanecem sendo produzidas caso não propiciem lucro.

Antagonicamente, o crescimento da podosfera brasileira aponta que lá poucas são as produções que se mantêm apresentando lucro. Na verdade, a massiva maioria

139 dessas produções segue sem possibilitar aos seus realizadores ganhos financeiros. Tal restrição se aplica até mesmo às produções de maior audiência, grupo cujos participantes que obtém lucro financeiro relevante respondem por uma parcela diminuta63. Essa informação é veiculada na afirmativa jocosa do podcaster “Ninja Inimigo”, quando ele afirma que “ ´dinheiro´ e ´podcast´ são duas palavras que não gostam muito de estar na mesma frase. Só quando tem um ´gastou dinheiro´ ” (CASTRO & SIQUEIRA, 2012).

Alheio ao lucro ou aos benefícios institucionais, o crescimento dos podcasts no país pode ser entendido pela associação de sua prática ao interesse afetivo/cognitivo, à vontade de expandir-se a voz de modo a que se chegue ao outro a partir da interseção de dados do universo em comum. Esses fatores são perceptíveis na podosfera nacional, marcada pelo apoio múltiplo entre os diversos podcasters exercido na divulgação e participação nos programas uns dos outros. Além disso, é observada naquele âmbito uma relação próxima dos produtores com o público, dada através de troca de comentários em blogs, e-mails, postagens, dentre outros. Os norteadores produtivos apontados podem ser ilustrados através do depoimento de podcasters em um debate promovido pelo podcast Fenixdown:

FERNANDO: Eu acho que essa coisa de você dividir a opinião com outra pessoas e ser ouvido, sabe? Você não falar pro vento. Você fala uma coisa e volta outra, sabe? Gerar essa discussão. Você olha ali e pensa: poxa, o meu trabalho, uma coisa que fiz assim por prazer, por querer fazer, o pessoal viu, gostou, gerou uma discussão e tem, sabe, tem pessoas falando que mudaram a vida por causa disso, tem pessoas que mudaram de opiniões por causa disso. É muito legal ver que é um trabalho que você faz por vontade própria às vezes tem um efeito na vida de uma pessoa gigantesco.

ZABUZETA64: Só o simples comentário da pessoa já retribui, tipo,

uma madrugada, uma tarde de edição que cê fica em cima de um podcast.

NINJA INIMIGO65: Qualquer stress que você tenha é sanado com o

primeiro comentário.

DIEGO: Você só faz porque, sei lá, tu quer dividir opinião e tu vê, sei lá, tem gente que realmente gosta do que você faz. Isso é o que move o site, cara. [...] Sério, não é a grana, gente. A gente não recebe grana por isso. A gente têm déficits aqui, a gente tá devendo dinheiro a si mesmo aqui (CASTRO & SIQUEIRA, 2012).

63 Como exemplo desses podcasts monetizados pode-se citar o “Nerdcast”, “Rapaduracast” e “Matando

Robôs Gigantes”.

64 Pseudônimo do podcaster André Luiz Pinto.

140 Em vista dos fatores de motivação apontados, a prática típica do podcast no Brasil aproxima-se do estabelecimento de um cenário apto ao exercício educativo entre os Sujeitos, focado na busca pela comunicação a partir da aproximação motivada pelo interesse predecessor do conhecimento. Esses aspectos do cenário do podcast no Brasil acabam por constituir os critérios de seu exercício, o que se expande para a delimitação temática própria da podosfera brasileira. Desvinculados da restrição a temas “vendáveis”, a variedade temática nesse cenário constitui-se notadamente mais ampla que àquela vista nos veículos comerciais de informação. A diferença apontada se deve a plena possibilidade, no podcast, da tomada de escolha por temas que respondam aos interesses afetivos/cognitivos dos Sujeitos que buscam produzir algo, independente da conquista de uma grande audiência.

A distinta disposição temática apresentada torna-se evidente na quase total ausência nos veículos comerciais de temas discutidos em muitos dos podcasts relatados ao longo deste estudo. Pelos norteadores aqui elencados, é possível afirmar que tal cenário comercial implica, necessariamente, em restrição educativa.

Não há razão em inserir-se um caráter de valoração nos temas a serem objetos de discussão entre os Sujeitos. Logo, não se afirma aqui que a relevância dos temas elencados pelos podcasts advém de uma maior importância desses em relação aos que são tradicionalmente veiculados no âmbito informativo comercial. Essa relevância remonta, na verdade, à possibilidade de inserções temáticas em falas que, de outro modo, permaneceriam ocultas como “vozes caladas” em produções comerciais.

Essas possibilidades novas de modo algum denotam a ausência no podcast de temas típicos do âmbito tecnológico comercial. Além de temáticas pouco convencionais, como já visto em muito dos podcasts referidos neste estudo, no campo dessa tecnologia há a recorrência de temáticas dos meios tradicionais, como em “O Esportíssimo”, podcast sobre esportes que utiliza formato semelhante aos programas esportivos de Rádio e TV.

Os podcasts geralmente associam-se a pequenos grupos, em alguns casos até mesmo tratam-se de empreitadas individuais. As realizações são usualmente motivadas pelo interesse espontâneo em dar vazão à voz e partilhá-la com os demais. Tal motivação mostra-se perceptível no depoimento da produtora do “Podsemfio” - o primeiro dos podcasts para surdos do Brasil -, Beatriz Kunze66:

66 KUNZE, Beatriz. Entrevista oral (via podcast) concedida a Eugênio Paccelli Aguiar Freire. Maio de

141

[..] eu não uso meu blog e meu podcast para ganhar dinheiro nem nada. É um trabalho que faço por amor, por paixão. É paixão que motiva a gente. [...] O dia que eu tiver que sentar na frente do computador e escrever por obrigação de ter que escrever alguma coisa para o meu blog eu acho melhor parar, apagar tudo e “deixe quieto” (2011).

Os critérios norteadores da produção elencados por Kunze revelam-se contraditórios à lógica comercial que, alheia à pertinência educativa ou ao interesse afetivo/cognitivo, elenca seus temas a partir de critérios pecuniários, “leiloando” o direito de falar e transformando, em razão disso, vozes em produtos, cuja forma e conteúdo são ditados prioritariamente pela lógica do lucro financeiro. É importante observar-se, no entanto, que, considerando o já exposto caráter de multiplicidade do podcast, a prática do delineamento temático por critérios comerciais também faz parte dessa tecnologia. A possibilidade desta também poder veicular produções originais de outras tecnologias colabora para a associação indicada.

Considerando a classificação elaborada neste estudo, observa-se que o delineamento temático a partir de critérios comerciais pode ocorrer nas diversas categorias de podcast. O norteador produtivo comercial é tomado, geralmente, por produções de empresas comerciais ligadas a meios como rádio, TV e impressos. Essas realizações relacionadas à empresas acabam, assim, por reproduzir no podcast a mesma lógica comercial de consumo dos veículos de informação tradicionais.

Em razão disso, a diversidade temática observável em produções desvinculadas de empresas e instituições não costuma ser encontrada em outras relacionadas a empresas de informação, como nos podcasts utilizados para marketing já citados. Outros exemplos desse tipo de programa são os podcasts de grandes jornais, como o da Folha de São Paulo, “podcast folha.com”, que reproduz notícias veiculadas nos grandes veículos tradicionais; o podcast do portal on-line da Rede Record, “Dr. Pet”, que configura não mais que uma extensão do quadro homônimo do programa televisivo “Domingo Espetacular”, também da emissora; além de outros afins já citados ao longo deste estudo.

É necessário esclarecer, ainda, que a utilização de publicidade não é completamente ausente em podcasts desvinculados de instituições e empresas de informação. Mesmo que representem exceção na podosfera, algumas produções de grande audiência, como o Nerdcast, o Guanacast e o Rapaduracast veiculam

142 publicidade em seus programas. Porém, tal incursão publicitária não reproduz simetricamente os moldes dos veículos comerciais tanto no aspecto quantitativo quanto qualitativo.

Enquanto o âmbito comercial costuma moldar suas produções hegemonicamente a partir de possibilidades de venda67, a inserção de publicidade em podcasts geralmente associa-se à seleção de anunciantes que se relacionem com as temáticas pré- estabelecidas dos programas, as quais geralmente remontam ao início ainda não capitalizado das produções. Desse modo, ainda que seja inerente a influência de quesitos comerciais na formatação dos episódios, ela tende a ser secundária diante de temáticas originais, basilares na formatação de cada podcast.

Além disso, a lógica da plena dependência por anunciante é quebrada através do exercício de atividades paralelas por parte da maioria dos podcasters e também pela venda de produtos relacionados ao tema agregador do programa. Exemplos disso são a comercialização de camisas pelo blog Guanabara.info, produtor do Guanacast, e de itens como livros, canecas, bonecos e filmes pelo blog “Jovem Nerd”, que abriga o Nerdcast.

Diante do exposto, é perceptível a diferenciação entre a estrita delineação temática de produções comerciais, dada a partir de critérios mercantis - seja em rádio, TV, impressos ou podcast -, e a pluralidade de temas e abordagens observáveis nas produções em podcasts, realizadas por Sujeitos interessados principalmente em expressar sua voz, veiculando, ainda que façam uso de publicidade, temas de seu interesse afetivo/cognitivo, independente se essas temáticas sejam consoantes aos interesses de possíveis anunciantes. Nesse cenário,

[...] existem Podcasts que são produzidos por dois ou mais internautas que tenham um interesse comum por determinado assunto, muitas vezes abordando temas específicos que não estariam sendo veiculados por meios convencionais de transmissão radiofônicas, como, por exemplo, o “Cibercast”, um podcasting cujo tema é Cibercultura produzido pelo Centro de Pesquisa Internacional de Estudos e Pesquisa em Cibercultura da Faculdade de Comunicação da UFBA (www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/cibercast), ou o “Sala de Bate Papo”, produzido pelo Laboratório de Interação Mediada por

Computdores da UFRGS

(www6.ufrgs.br/limc/blog/arquivos/podcast/) (MEDEIROS, 2005, p. 4).

67 Afirmação que se sustenta a partir da observação do poder ditatorial dos índices de audiência

balizadores da venda de publicidade - em promover a permanência, mudança ou fechamento de produções em empresas comerciais.

143 A abertura para a possibilidade de realização e acesso a produções atentas hegemonicamente ao interesse espontâneo dos Sujeitos em expressar sua voz, veiculando os diversos temas que permeiam a vida social - sejam ou não favoráveis a possibilidades de venda -, coloca a tecnologia podcast como um campo rico para desvelar a pluralidade de vozes, fundamental à educação como prática de comunicação voltada à ampliação da leitura de mundo de seus interlocutores.

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