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Será apresentada agora a trajetória daquele que, para o autor deste artigo, se apresenta como o modelo do pesquisador insider no que se refere às pesquisas acerca das religiões afro-brasileiras, sendo aqui tratado esse tipo como o antropólogo assumidamente

insider, analisado com base na trajetória do antropólogo e babalo-

rixá Júlio Santana Braga.

Hoje professor aposentado da Universidade Federal de Feira de Santana (BA), o antropólogo Júlio Santana Braga se dedica, qua- se exclusivamente, à sua função de babalorixá no terreiro que fun- dou e lidera, Axé Loyá, em Salvador, Bahia. O legado de Júlio Braga, como é mais conhecido, é inegavelmente superior à sua produção

acadêmica. Tal legado se estende tanto ao campo religioso como às Ciências Sociais, para as quais ele deu contribuições fundamentais. Assim como aconteceu com outras figuras proeminentes do can- domblé – como é o caso da francesa Gisèle Omindarewá-Cossard, Júlio Braga é o caso típico do antropólogo que, em certa fase da vida, preferiu se dedicar às atividades religiosas, caso inverso ao relatado por Vagner Gonçalves da Silva, como já apresentado.

Tendo liderado várias pesquisas e escrito vários livros, e estudado na Université Nationale de Zaire (1977), onde con- cluiu seu doutoramento acerca do jogo de búzios11, esse antro- pólogo, ao longo de sua atuação, também estabeleceu vínculos com importantes universidades, como a Université des Sciences de Strasbourg; a Boston University; a Universidade de Dakar – Senegal; a University of California, San Diego; a University of Pittsburgh; Dartmouth College; a University of California – Los Angeles; a University of Texas – Austin; a Université Nationale de Cote d’Ivoire – Costa do Marfim; a University of Ibadan; o Institute Française D’afrique Noire; o CEAO – Centro de Estudos Afro- Orientais da UFBA, dentre outras.

Da grande obra de Júlio Braga como antropólogo será apresentado um breve porém denso texto, no qual ele problema- -tiza as relações entre etnocentrismo e trabalho etnográfico na Antropologia. No artigo intitulado Estudando o outro (2009), Braga, anuncia12:

11 Conforme informação fornecida pelo próprio Júlio Braga, o título da sua

tese de doutorado é Le jeu de Búzios dans le Candomblé de Bahia: étude sur la divination dans les cultes Afro-bresiliens, obtido em 1977, na universidade africana já citada.

12 Em nota de pé de página, Braga adverte, como é de praxe nesses tipos

de coletâneas de artigos: “Este artigo, na sua versão original, foi publicado com o título ‘Etnocentrismo: um problema teórico para o trabalho de campo em antropologia’, In: Revista Universitas. Salvador, (33): 77-84, jul./ set., 1985”. Como se pode observar, o título da versão original parece até

Este texto retoma a discussão sobre o problema do etno- centrismo como entrave na percepção dos fenômenos cul- turais. Sem pretender esgotar o estudo dos fatores inter- venientes que definem essa problemática de cunho epis- temológico, busca-se analisar alguns aspectos ligados ao trabalho de campo, com ênfase nas dificuldades interpos- tas pelo possível etnocentrismo cultural do pesquisador. (Braga, 2009, p. 19).

Um pouco mais adiante, Braga, ao definir o trabalho de campo, fala da relação existente entre o trabalho antropológico e a formação do pesquisador, além do recurso, por parte deste, às ca- tegorias que já lhe são familiares ao pesquisar aquele a quem ele considera “o outro”. Nas palavras de Braga:

Com efeito, trabalho de campo, para qualquer cientista so- cial, pode ser definido, grosso modo, como uma tentativa empírica de buscar as respostas teóricas formuladas pelo pesquisador que interessam à compreensão do fenômeno por ele estudado. No caso especial da antropologia, o tra- balho de campo, além de permitir o exercício metodológi- co ao antropólogo em formação, constitui-se também em uma maneira de responder perguntas cujas respostas qua- se sempre ele mesmo responderia com relativa facilidade por meio do senso comum. Isto implica afirmar que ele, ao formular uma pergunta, o faz em termos das catego- rias que lhe são familiares, produto de sua cultura. (Braga, 2009, p. 20).

mais apropriado para o contexto da discussão apresentada neste artigo, motivo pelo qual merece destaque.

O que segue a isso é uma discussão na qual Braga confronta as pretensões iniciais do antropólogo em campo com as circunstân- cias impostas pelo próprio campo, bem como as formulações teó- ricas do antropólogo com os resultados obtidos. Nesse processo, Braga admite que, diferentemente do que muitas vezes é afirmado, a presença do antropólogo em campo não é tão neutra como se pen- sa, chegando mesmo a alterar a realidade na qual ele está inserido. Dá-se então uma influência mútua, em que tanto o antropólogo in- fluencia o campo quanto o campo o influencia. Braga explicou essa situação tão peculiar às pesquisas antropológicas e etnográficas:

O que se quer acentuar é que o antropólogo, ao aceitar como verdade os valores do outro, no plano de suas ela- borações teóricas, sente o indizível prazer do caçador que aprisionou sua presa na armadilha cuidadosamente construída. Mas não consegue alcançar totalmente o que se passa no plano mais profundo das reações humanas, a menos que se entregue ou se integre para além da pesqui- sa e se coloque também na possibilidade de caça e não de caçador. (Braga, 2009, p. 29).

E continua:

Definida sua posição em termos de admiração e aceitação do grupo que pretende estudar – o que geralmente ocor- re –, aliada à necessidade do ponto de vista de sua ciência, de levar em consideração a situação social total com a qual trabalha, poderá limitar suas observações aos aspectos pu- ramente intrínsecos da cultura em questão, sem considerar não só sua própria presença, que por si só já modifica, em graus diferenciados, o comportamento de seus exóticos, mas também situações novas resultantes de contatos que,

por ventura, tiveram aqueles indivíduos com estrangeiros que o precederam. É ilusório imaginar que o pesquisador não altere de alguma forma as relações sociais na comu- nidade que está sendo estudada. Na comunidade religiosa afro-brasileira isto é tanto mais verdade quanto mais o pes- quisador vive intensamente este cotidiano. E essas interfe- rências continuam a existir à medida que a comunidade se dá conta das pesquisas e dos estudos feitos e publicados.

(Braga, 2009, p. 30).13

As palavras de Braga são categóricas, portanto, ao admitir a mútua influência que é exercida tanto pelo pesquisador sobre a re- alidade dos povos e culturas pesquisados quanto destes em relação àquele. Esse movimento é muito conhecido entre os pesquisadores

insiders – como o é o próprio Braga –, que não veem nisso um im-

pedimento para as suas elaborações teóricas. Ademais, o cuidado exagerado com os “perigos” e “riscos” dessas mútuas influências estaria muito mais relacionado com o desejo de se estabelecer uma imparcialidade total, à la Émile Durkheim, que, segundo o próprio Braga, não se justifica, bastando o esforço do pesquisador no senti- do de obter suficiente isenção em suas elaborações:

A experiência tem mostrado a dificuldade da imparcialidade total, quando se analisa uma determinada cultura, sobretu- do se se trata da nossa. Mas o esforço intelectual orientado para atingir esta isenção já se nos afigura como atitude ver- dadeiramente científica, que deve ser o melhor auxiliar do antropólogo quando se encontra com seus exóticos, mesmo

13 Aqui é interessante perceber como as palavras de Braga corroboram as

de Geertz, quando este narra o discurso que um nativo balinês fez em sua defesa após ele fugir da polícia na sua companhia durante uma rinha de galos.

quando estão ali na esquina, e somos nós mesmos. (Braga, 2009, p. 33).

Após a sua aposentadoria – e talvez bem antes disso –, ao as- sumir, definitivamente, sua condição de pesquisador insider das re- ligiões afro-brasileiras e o exercício do seu sacerdócio, Braga man- teve a coerência em relação a essas palavras escritas no auge da sua atuação como antropólogo e etnólogo. Por esses e outros motivos, para o âmbito deste artigo, foi tomado como modelo arquetípico do pesquisador insider, que tem se afirmado cada vez mais nos centros de pesquisa do Sul do mundo, não obstante a infundada resistência que ainda se pode constatar à legitimidade da ciência produzida por esse tipo de cientista.

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