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Os esforços de cooperação internacional na área da Meteorologia, encetados desde meados do século XIX, também produziram efeitos em Portugal, graças, por um lado, ao período de acalmia, de crescimento económico e de alargamento das relações internacionais assegurado pelo regime da Regeneração e, por outro lado, à nova cultura burocrático-administrativa da elite dirigente (composta na sua maioria por engenheiros), assente na busca de um melhor conhecimento sobre o território e as suas potencialidades149.

Ainda antes da Conferência de Bruxelas, em Julho de 1853, foi decidida a fundação do Observatório Meteorológico da Escola Politécnica de Lisboa, na sequência de uma proposta apresentada por Guilherme José António Dias Teixeira Pegado (1803- 1885), lente da 5.ª cadeira (Física Experimental e Matemática) e sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa. Guilherme Pegado propôs, na sessão do Conselho da Escola Politécnica de Lisboa, de 21 de Julho de 1853, a construção de um mirante para observações meteorológicas, no ângulo nordeste da escola, onde antes estava o Observatório Astronómico da Academia da Marinha, consumido por um grande incêndio ocorrido no dia 22 de Abril de 1843. A proposta foi aprovada e a edificação do novo estabelecimento científico, constituído por uma torre de três andares, terminou no final do Verão de 1854150.

Esta instituição começou a funcionar regularmente no dia 1 de Outubro de 1854, sob a direção do seu proponente. O cargo de diretor deste estabelecimento era considerado inerente à cadeira de Física. A única exceção foi João Carlos de Brito Capelo (1831-1901), então capitão-tenente da armada e autor de importantes trabalhos oceanográficos, entre eles, as Cartas de ventos e correntes do Golfo da Guiné. Alguns anos antes, por proposta de Guilherme Pegado, Brito Capelo tinha sido nomeado, juntamente com Fernando da Gama Lobo, coadjuvante no Observatório, tendo desempenhado as suas tarefas com grande mestria e dedicação. Em razão do seu merecimento, foi nomeado, por decreto do governo, diretor da instituição após a morte de Fradesso da Silveira, em 1875. Com efeito, assumiram o cargo: Guilherme Pegado (1854-1858), Joaquim António da Silva (1858-1860); Joaquim Fradesso da Silveira

149 Sousa, 1995: 91-209; Justino, 2012: 87-89.

(1860-1875); João Carlos de Brito Capelo (1875-1901); Adriano Augusto de Pina Vidal (1901-1910); João Maria de Almeida Lima (1910-1929); Armando Cirilo Soares (1929- 37); Herculano Amorim Ferreira (1937-1964). Este último, como veremos, foi também o primeiro diretor do Serviço Meteorológico Nacional, criado em 1946. Todos eles foram também sócios da Academia Real das Ciências de Lisboa151.

Pouco tempo depois de o observatório entrar em funcionamento, Guilherme Pegado dirigiu ao infante D. Luís, irmão de D. Pedro V, um pedido para que tomasse este estabelecimento sob a sua proteção. O convite teve a concordância do príncipe e o beneplácito do rei. No dia 1 de Julho de 1856, o Infante D. Luís tomou a instituição debaixo da sua proteção, rebatizando-a de Observatório Meteorológico do Infante D. Luís. Desde então, nunca faltou com o seu apoio à nova instituição, financiando melhorias nas instalações ou a aquisição de instrumentos científicos. Em Dezembro de 1861, por exemplo, Fradesso da Silveira (1825-1875), valendo-se da sua grande influência política, denunciou as condições precárias das instalações e solicitou a construção de um novo edifício. Por decreto de 30 de Abril de 1862, D. Luís I (o infante já rei) doou parte da sua dotação para a melhoria do Observatório. A nova torre meteorológica (ainda hoje em uso, junto ao Jardim Botânico) foi inaugurada no dia 24 de Outubro de 1863. Por várias vezes, a família real realizou visitas ao Observatório152.

No seguimento da criação deste estabelecimento, Guilherme Pegado deu início, quase de imediato, à implementação de uma rede nacional de postos climatológicos, no País e nas colónias, em terra e a bordo dos navios de guerra e de comércio, supervisionada por esta instituição e regida por um plano uniforme. Antes mesmo da criação do Observatório da Escola Politécnica de Lisboa, Guilherme Pegado já tinha sido encarregue, pela portaria do Ministério da Marinha de dia 2 de Agosto de 1853, de dirigir as observações meteorológicas marítimas que o governo determinou que se fizessem a bordo dos navios portugueses, de acordo com o modelo internacional proposto por Matthew Fontaine Maury, com o objetivo de construir novas cartas dos ventos e das correntes marítimas. Pela portaria de 1 de Abril de 1857, Guilherme Pegado ficou também encarregue de coordenar a instalação e o funcionamento de postos meteorológicos nas capitais dos territórios ultramarinos onde ainda não existissem153.

151 Ferreira, 1950: 16-17.

152 Peixoto, 1987: 217; Ferreira, 1940: 11-14.

Cada posto tinha o seu encarregado e contava com instrumentos comparados pelos padrões do Observatório, para além de abrigos, instruções e mapas precisos154. O objetivo era constituir séries contínuas, ininterruptas e comparáveis entre si. Os resultados destas observações foram divulgados nos Anais do Observatório do Infante D. Luís (vol. 1, 1863 a vol. 54, 1919). O primeiro volume reúne os resultados das observações feitas no próprio Observatório, em Lisboa, desde Dezembro de 1855 até Novembro de 1863. Os volumes seguintes passaram a incluir dados recolhidos noutras estações. A partir de 1874, a publicação foi dividida em duas partes: a primeira, com os valores pormenorizados de todos os elementos meteorológicos relativos a Lisboa; a segunda, com uma síntese dos dados recolhidos noutras estações meteorológicas. A partir de 1923, o periódico passou a designar-se Anais do Observatório Central Meteorológico (vol. 55, 1923 a vol. 84, 1948). O número de postos de observação foi-se alargando gradualmente. O último número (vol. 84) corresponde ao ano de 1946 e contém, além das observações de Lisboa e de Coimbra, as de cinquenta e seis estações completas do continente e de doze das ilhas adjacentes155.

Com a abertura dos serviços telegráficos em Portugal, em 1857, o Observatório Meteorológico do Infante D. Luís começou a enviar os resultados das suas observações e de outras estações portuguesas para o Observatório de Paris, onde eram reunidos no Bulletin Météorologique International e utilizados para prever a ocorrência de tempestades e elaborar previsões meteorológicas (desde 1863), que diariamente chegavam a Portugal via telégrafo. No final de Outubro de 1865 cessaram os avisos e previsões provenientes de Paris e no dia 1 de Dezembro o Observatório português inaugurou o seu próprio serviço de previsão do tempo com a publicação de um boletim com informação sobre o tempo provável em Lisboa no dia seguinte, publicado no Diário de Lisboa156. Em caso de previsão de tempestade era emitido um alerta e os respetivos sinais visuais eram içados nas estações semafóricas costeiras. A partir de 1882, começaram-se a publicar boletins diários, com traçado isobárico157.

154 As instruções redigidas por Guilherme Pegado para as observações a bordo dos navios foram

publicadas em Pegado (1854); as instruções do mesmo autor para os observadores dos postos meteorológicos foram publicadas em Pegado (1856).

155 Lautensach, 1973: 74; Mata et al., 2002: 1.

156 Desde Julho de 1864 que este periódico publicava o diário meteorológico do Observatório de Lisboa e

as probabilidades para a Europa para o dia seguinte, chegadas de Paris (Tavares, 2009: 78).

Os diretores do Observatório Meteorológico do Infante D. Luís representaram Portugal nos organismos e nas reuniões internacionais e estabeleceram importantes parcerias com os principais estabelecimentos do género, cooperando ativamente com alguns dos mais experientes meteorologistas da época. Na correspondência científica internacional trocada pelos diretores desta instituição encontramos os nomes de figuras como Matthew Maury (1806-1873), Adolphe Quételet (1796-1874), Edward Sabine (1788-1883), Le Verrier (1811-1877), Buys-Ballot (1817-1890), Karl Kreil (1798- 1862), Rico y Sinobas (1821-1898), William Thomson (1824-1907), Éleuthère Mascart (1837-1908), entre muitos outros. As relações científicas estabelecidas a nível internacional passaram não só pela troca de informação sobre instrumentos e processos de trabalho, mas também pela participação direta em organizações internacionais158. Na opinião de Conceição Tavares, o papel de relevo desempenhado por Portugal no movimento de internacionalização na área da Meteorologia, ao longo da segunda metade do século XIX, deve-se a três fatores essenciais: a importância da localização e das características geográficas do País, objeto de interesse nos mais influentes fóruns da ciência internacional pela escassez de observações meteorológicas no extremo ocidental da Europa; a liderança científica, institucional e política de Guilherme Pegado, figura carismática e bem colocada, tanto no plano interno como no plano externo159; e a criação de um observatório vocacionado quase exclusivamente para a investigação e para a recolha de dados instrumentais. Para reforçar esta tese, destacamos ainda a eleição de Brito Capelo (1831-1901), quarto diretor do Observatório Meteorológico do Infante D. Luís, como membro do Comité Meteorológico Internacional e sucessivamente reeleito até falecer em 1901160.

Com a criação deste estabelecimento, Portugal passou a dispor, pela primeira vez, de um instituto central e de um sistema unificado de observações meteorológicas regulares na metrópole, nas ilhas adjacentes, no ultramar e no mar, capaz de fornecer informação quantitativa uniformizada, regular e de acordo com as normas internacionais161.

158 Ferreira, 1940: 27-32; Tavares, 2009: 55-58.

159 Guilherme Dias Pegado foi uma figura bastante ativa no plano político e académico. Defensor das

ideias liberais, viveu exilado em França durante o reinado de D. Miguel, ensinando Matemática em Brest. Aí terá estabelecido importantes relações científicas, que lhe valeram algum protagonismo tanto a nível interno como externo (Tavares, 2009: 56).

160 Tavares, 2009: 55-56.

161 Para uma síntese sobre a história deste estabelecimento veja-se, Ferreira, 1940; Peixoto, 1987;

Nas décadas seguintes, vão surgir outros estabelecimentos do mesmo tipo em território nacional. No Porto, já então funcionava, desde Julho de 1853, o Observatório da Escola Médico-Cirúrgica (1836-1911), instalado na ala sul do Hospital de Santo António. Cerca de 1861, este posto foi incluído na rede do Observatório do Infante D. Luís. Entretanto, João Brito Capelo tomou a resolução de criar, no Porto, um serviço meteorológico, técnica e administrativamente, independente da Escola Médico- Cirúrgica e dependente apenas do observatório que dirigia: o Posto Meteorológico e Magnético da cidade do Porto. Na opinião de Álvaro Rodrigues Machado, a resolução deveu-se «às suas tendências profissionais para a oficialidade da marinha, a que ele pertencia, e o pouco apreço dos serviços técnicos e administrativos dos professores de física no Observatório Meteorológico»162. O termo de posse do terreno para a construção do novo observatório, localizado em Vila Nova de Gaia, numa elevação a cerca de noventa metros de altitude (Serra do Pilar), com vista privilegiada sobre a cidade do Porto e o rio Douro, foi assinado no dia 24 de Agosto de 1883. No dia 17 de Junho de 1885, foi lavrado o auto de entrega do edifício ao oficial de marinha José Maria Soares Andrea Ferreira (1835-1901), primeiro diretor deste estabelecimento. As primeiras observações datam de Janeiro de 1888, após a nomeação do pessoal técnico e auxiliar. Desde então passou a designar-se Observatório Princesa D. Amélia. Reconhecendo a necessidade de dispor de um observatório onde pudessem ser complementados os estudos teóricos ministrados na cadeira de Física, o Conselho da Academia Politécnica do Porto solicitou, em Junho de 1892, que lhe fosse entregue o novo estabelecimento, mas o pedido não teve seguimento. A solicitação foi repetida em Novembro de 1900, desta vez com melhor acolhimento. A passagem concretizou-se através da lei orçamental para o ano de 1901-1902. No dia 1 de Outubro de 1901, o Observatório foi anexado à Academia Politécnica do Porto, ficando assegurada a colaboração técnica com o Observatório Meteorológico do Infante D. Luís. Com exceção dos primeiros anos de existência, o diretor do observatório foi sempre um professor da Academia Politécnica e depois da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto163.

162 Machado, 1929: 15.

163 Peixoto, 1987: 233-234; Machado, 1929; Ferreira, 1942b: 9-10; Ferreira, 1945a: 304; Monteiro, 2001:

Em 1864, foi criado o Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade de Coimbra, graças à intervenção de Jacinto de Sousa (1818-1880), professor da cadeira de Física naquela Universidade. Os primeiros esforços para a realização sistemática deste tipo de observações na Universidade de Coimbra remontam, como vimos, às primeiras décadas do século XIX, com o lente de Física Constantino Botelho de Lacerda Lobo. No entanto, a crónica escassez de verbas, a falta de um local apropriado para as observações, a inexistência de instrumentos fiáveis e devidamente calibrados e a falta de pessoal com a formação adequada fizeram gorar os esforços empregues pela Faculdade de Filosofia e por alguns dos seus professores164.

Ponderadas todas as dificuldades, em Março de 1860, a Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra recorreu ao governo e a D. Pedro V, solicitando apoio para a construção de um Observatório Meteorológico e Magnético, anexo à Universidade de Coimbra. Três meses mais tarde, depois de obtidos os meios e os fundos necessários, Jacinto António de Sousa, diretor do Gabinete de Física, deu início a um périplo europeu por diversos estabelecimentos científicos da especialidade com o objetivo de reunir ideias para o modelo do futuro observatório de Coimbra. Na sua viagem científica, seguiu por Madrid, Paris, Bruxelas, Londres, Greenwich e Kew (Sudoeste de Londres), contactando com alguns dos mais proeminentes meteorologistas da época, entre os quais, Antonio María Aguilar y Vela (1820-1882), Urbain Jean Joseph Le Verrier (1811-1877), Lambert Adolphe Jacques Quételet (1796-1874), George Biddell Airy (1801-1892), Edward Sabine (1788-1883) ou Balfour Stewart (1828-1887). Esta viagem acabou por se revelar decisiva na criação do futuro observatório, já que, em Janeiro de 1861, o Conselho da Faculdade aprovou um voto de confiança em Jacinto de Sousa, conferindo-lhe todos os poderes necessários para fazer avançar o projetado estabelecimento. Assim, em Agosto de 1861, Jacinto de Sousa regressou a Kew (estabelecimento que mais o impressionou pelo aparato e qualidade dos aparelhos), para consolidar ideias e receber a formação prática necessária para o correto manuseamento dos instrumentos, fabricados em Inglaterra165.

164 Ribeiro et al., s.d.; Souza, 1862; Leonardo et al., 2011: 5-8. 165 Ribeiro et al., s.d.; Souza, 1862; Leonardo et al., 2011: 5-8.

Terminada a missão internacional, aprovado o projeto (da autoria do engenheiro R. Beckley, do Observatório de Kew) e concluída a construção do edifício (iniciada em Novembro de 1862), o Observatório Meteorológico e Magnético de Coimbra entrou em funcionamento em Maio de 1864, localizado numa das elevações a este da cidade no local onde ainda funciona, na Cumeada, hoje avenida Dr. Dias da Silva. As primeiras observações (meteorológicas e magnéticas) foram efetuadas pela mão de Jacinto de Sousa, nomeado primeiro diretor deste observatório. Jacinto de Sousa enfrentou algumas dificuldades no recrutamento de pessoal técnico competente para a execução das observações. Cerca de um ano depois de ter entrado em funcionamento, o observatório contava apenas com um funcionário, João de Almeida Araújo Pinto. Um pouco mais tarde, António dos Santos Viegas (1837-1914), lente da segunda cadeira de Física, ajudou a garantir o sucesso do projeto, através da sua colaboração. Depois de 1870, o pessoal consistia no diretor, três assistentes e um guarda. As observações anuais foram publicadas regularmente pela Imprensa da Universidade, no Resumo das Observações no Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade de Coimbra. Os resultados foram distribuídos por diversos estabelecimentos nacionais e internacionais (Madrid, Paris, Kew e outros). A partir de 1867, o observatório de Coimbra passou a transmitir, via telégrafo, ao observatório da Escola Politécnica de Lisboa, as suas observações diárias, desconhecendo-se a existência de qualquer outro tipo de cooperação científica entre as duas instituições. Após a morte de Jacinto de Sousa, Santos Viegas tornou-se diretor do estabelecimento, no dia 23 de Agosto de 1880, tendo ocupado o cargo até à sua morte em 1914. Neste mesmo ano, Anselmo Ferraz de Carvalho (1878-1955) tornou-se diretor do observatório. Fazendo uso da vasta coleção de dados meteorológicos da instituição, Ferraz de Carvalho publicou, em 1922, um resumo das observações feitas nesta cidade entre 1866 e 1916166.

Em pouco tempo, Portugal conseguiu integrar-se em pleno nos circuitos científicos transcontinentais na área da Meteorologia, munindo-se de três observatórios modernos, profissionais e bem equipados, que foram capazes de fornecer os dados necessários para o desenvolvimento deste tipo de estudos em Portugal e constituíram o embrião do sistema meteorológico nacional, materializado, em 1946, com a criação do Serviço Meteorológico Nacional.

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