A visão do meio ambiente de forma integrada, como sugere a abordagem em sistemas, necessita ser totalizante para que se possa compreender a paisagem com todos os elementos que a compõem. Do contrário, sua percepção estaria comprometida, pela ausência de componentes necessários ao entendimento de sua estrutura e organização espaciais.
Ao optar pelo caminho que conduz à unidade da paisagem, em todos os seus aspectos essenciais, se faz necessário além dos elementos físico-ambientais e biogeográficos abordar o
elemento antrópico. O homem é um grande produtor de paisagens, resultantes de maior ou menor intensidade de sua intervenção no sistema natural.
Não faltam exemplos de intervenções desastrosas e de proporções imensuráveis a povoar toda a “superfície terrestre”. As repercussões são de tão incontida propagação que acompanhando o avanço científico e tecnológico descobrem-se novos níveis de comprometimento de espaços ou de elementos naturais que já não desempenham seu papel como em um passado recente.
Desta forma, já não se faz tão adequado reduzir sua atuação apenas à “superfície terrestre”. Sobretudo nas cidades, à baixa troposfera, condições atmosféricas são alteradas decorrentes, principalmente, da emissão de aerossóis, produção artificial de calor, rugosidade da cidade, como também do material empregado nas construções (Lombardo, 1990, p. 162- 163).
Outros efeitos são sentidos resultado de uma inadequada utilização do meio natural. Segundo Brito & Câmara (1999, p. 38) o uso e a ocupação desordenada do solo para fins urbanos têm trazido uma série de conseqüências ambientais, tais como voçorocas por não serem respeitadas as áreas verdes; riscos sanitários que expõem as bacias dos rios principais; dejetos descartados, contaminando o lençol freático, afetando o processo de tratamento da água consumida pela população local.
No entanto também se faz necessário ressaltar que, por mais que modifique o quadro natural, o ser humano pode fazê-lo de forma articulada com a natureza. Os sistemas agroflorestais, conforme Albuquerque (2001, p. 161), são uma forma de manejar os recursos naturais associando o cultivo, o pastoreio e práticas bioextrativistas.
A esse respeito Albuquerque (1999, p. 310) recorda que o manejo do cerrado realizado pelos índios Kayapó demonstra que se pode reduzir o impacto das atividades agriculturais humanas sobre o ambiente. A agricultura itinerante, realizada pelos índios, mantém em um mesmo campo diferentes espécies, com hábitos e exigências nutricionais também distintos, possibilitando menor impacto da chuva sobre o solo, e menor competitividade entre as espécies por nutrientes.
Outro tipo de utilização dos recursos naturais de maneira mais equilibrada vem dos chamados “quintais”. Esse tipo de sistema agroflorestal pode assemelhar-se à estrutura da floresta adjacente (Barrera, 1980 apud Albuquerque, 2001, p. 151). São encontrados nas
proximidades de casas ou pequenas propriedades caracterizadas por serem uma zona de manejo e de uso da terra.
Os diferentes níveis de intervenção da natureza são ocasionados pela ampliação das atividades humanas sobre os espaços naturais. Desta forma, para que se possa diagnosticar o nível de utilização e/ou comprometimento dos recursos naturais torna-se necessário conhecer o perfil da população que faz uso de um determinado espaço.
O contexto sócio-econômico da porção semi-árida do Nordeste brasileiro envolve problemas dos mais graves não apenas se comparado à realidade brasileira, mas também internacional. Segundo Novaes, Ribas & Novaes (2000, p. 73) mais de dois terços dos pobres rurais brasileiros estão no Nordeste. Diversos fatores contribuem para a colocação da população residente neste espaço como uma das mais carentes do mundo. Os principais cooperadores para a manutenção deste quadro são: a precariedade de atendimento médico e hospitalar; quantidade e/ou qualidade da água insuficiente para a população; baixo grau de escolaridade e ausência de infra-estrutura educacional, dentre outros.
O drama vivido pelo sertanejo é histórico. A água representa o bem mais precioso e raro no Nordeste semi-árido. Sua escassez não reflete propriamente a condição natural, pois, apesar da irregularidade da precipitação, a chuva concentrada poderia ser captada, e mitigaria os efeitos da seca na Região. No entanto, o acesso à água é que impõe seu alto custo. A utilização desse bem imprescindível ao ser humano, em raros os casos, sai dos limites dos grandes latifúndios. E, além do mais, os projetos de irrigação acabam por promover concentração de terras, inviabilizando a participação do pequeno produtor rural.
A pecuária é hoje, como foi no passado, a grande riqueza do Sertão, apresentando-se ora como atividade econômica quase exclusiva, ora em sui generis associação com algodão. As fazendas, quase sempre sediadas à margem ou nas proximidades dos grandes rios, estendem-se por léguas pelo interior das caatingas, nas margens dos principais rios como o São Francisco (Andrade, 1998, p. 181).
As relações entre proprietários e meeiros são, segundo Andrade (1998, p. 191), do mesmo tipo que as anteriores no cultivo da mandioca, do arroz, do feijão, do milho, do algodão e dos demais produtos cultivados nas margens do São Francisco. As culturas permanentes, como a laranja, manga, banana etc. são feitas apenas pelos proprietários.
Contudo, nas áreas mais afastadas do Rio, acaba prevalecendo o cultivo de plantas de ciclo curto como o feijão (Phaseolus vulgaris L.) e o milho (Zea mayz L.). A ocorrência da
chuva com maior incidência nos meses de fevereiro a julho é a responsável pela época do plantio devido às temperaturas mais baixas e, conseqüentemente, evaporação mais fraca.
A sobrevivência do habitante do semi-árido dá-se, sobretudo, devido a culturas de subsistência. Normalmente são encontrados os cultivos de raízes e tubérculos como a macaxeira (Manihot esculenta) e o inhame (Dioscorea sp.) e também o milho (Zea mayz), muito popular no Sertão. A criação de pequenos animais e a caça contribui para a complementação da alimentação. Por serem mais rústicos os caprinos possuem a preferência por parte do sertanejo fornecendo leite e carne.
Para se analisar a apropriação do espaço semi-árido se necessita ter prudência. Na verdade a exacerbação de uma “consciência ambiental” tem levado muitas pessoas a não levarem em consideração as dificuldades enfrentadas pelo habitante deste espaço e dos meios efetivos que se colocam à disposição para sua sobrevivência.
É certo que o sertanejo desconhece a susceptibilidade à erosão do solo quando retira a cobertura vegetal para plantar palma para alimentar seus animais. Tampouco pensa e pesa ao atear fogo em uma coivara para fazer sua pequena plantação. Os impactos são muitos, sobretudo se considerar a retirada da vegetação para ser utilizada como combustível, principalmente sob a forma de carvão.
No entanto, se faz necessário considerar que ao sertanejo pouca coisa foi dada que lhe permitisse sobreviver, com um mínimo de dignidade, convivendo com os rigores da seca. É contraditória a existência de tantos projetos e dinheiro investido ao longo dos anos sem alterar a realidade do homem que vive no semi-árido do Brasil.
A sobrevivência neste espaço é mais uma questão de convivência digna do que o combate à seca que tanto fez convergir dinheiro e concentrar terras no Sertão. É essa consciência tardia que hoje desperta iniciativas como a da Cáritas Brasileira e Pastoral da Terra ensinando, através da construção de cisternas, que o problema do semi-árido não é propriamente a falta de água, mas seu armazenamento e disciplinamento na utilização.