Que as vacas fiquem na serra não implica que os agricultores percam de vista o seu rebanho, todo o contrário. Ao longo desses meses, os agricultores se deslocam periodicamente até os seus animais para verificar se estão bem de saúde, se estão todas, se teve alguma que pariu antes de tempo, enfim, verificar o bem-estar dos animais. Os deslocamentos até o lugar em que se encontram os animais é periódico, mas também depende de outras variantes. Se alguém traz notícias das vacas do Patorro ao café, dependendo de quem for, é provável que ele nem se desloque para verificar o estado de seus animais. Não é necessário que seja o próprio agricultor a verificar o estado das vacas, os demais agricultores estão atentos a todas elas. Em cada deslocamento que realizam, prestam atenção ao posicionamento das manadas. Se, por exemplo, observarem uma vaca mancando de uma pata, espalha-se essa informação para os demais agricultores. É a essa forma de comunicação entre os agricultores que estou chamando de rede social agrícola.
O café costuma ser um espaço privilegiado para as notícias na rede social de informação dos agricultores e que privilegia a transmissão oral. Caso o agricultor que identificou um problema de saúde em uma vaca e saiba quem é o dono, por exemplo, sempre que a relação entre ambos for boa, irá até o domicílio do dono repassando a informação a alguma pessoa vinculada à exploração familiar. Caso o relacionamento não for bom, acionará agricultores ou pessoas que garantam que essa informação chegue ao destinatário. É difícil imaginar que não seja repassada essa informação, mesmo entre agricultores que não tenham uma boa relação, a importância que dão à ética da atividade os impede de não repassar a informação. Existe uma solidariedade entre os agricultores quando se trata da criação dos animais que vence as vicissitudes das relações entre os humanos.
As informações normalmente são repassadas de forma minuciosa e incluem: quando foi visto, em qual horário, em que situação se encontravam, quantas vacas estavam juntas, se estão perto de algum perigo ou de propriedades onde possam fazer estragos. Todos esses elementos elencados formam parte do monitoramento
realizado pelo agricultor. Se, por exemplo, um agricultor há dois dias não pode ir ver as suas vacas por algum tipo de imprevisto, aciona a rede social de comunicação, por exemplo, no café, para que os demais agricultores fiquem sabendo, e quem sabe, possam trazer informações. Se alguma pessoa afirmar ter passado em algum local próximo, o agricultor lhe perguntará se viu suas vacas. Para tal fim, o dono da manada repassa para o interlocutor informações concretas da última posição em que observou as vacas. Normalmente, o agricultor consegue realizar um trajeto da sua manada que inclui uma previsão do futuro, isto é: se o agricultor observou as vacas no Ponto A dois dias atrás. Há quatro dias, ele tinha verificado que as vacas estavam situadas no Ponto B, com a projeção de possíveis percursos realizados pelas vacas entre A e B permite ao agricultor estabelecer uma coordenada mais ou menos concreta do Ponto C.
A serra é um território muito extenso e as vacas, como disse Patorro, não param, portanto é preciso tentar entender seus movimentos. Juntam-se, então, dois conhecimentos, um que diz sentido à manada e outro em relação ao território por onde estão. A serra de Pitões é um terreno abrupto e tem determinados lugares que têm um único acesso. Assim, se as vacas se deslocaram para o lado galego da serra, dependendo de sua localização, anteriormente tiveram que passar por um único caminho.
Há perdas e extravios de animais também. Nesse contexto, se um agricultor não vê a sua manada ou alguma vaca em particular, acionará a rede social de comunicação para saber se alguém a viu. Essa rede social de informação entre os agricultores pode ser estendida a outras aldeias.
No final de julho de 2017, Patorro tinha as vacas na barragem do Salas, ao pé da aldeia galega de Requiás. Patorro tinha deixado as vacas em uma aldeia galega desabitada chamada Salgueiro. Da aldeia, as vacas desceram até a barragem que se encontra ao pé da aldeia galega de Requiás. Quando as vacas chegaram à barragem, estavam com elas duas vacas outras que ele não conhecia. Decidiu comentar essa situação com os agricultores da aldeia, espalhando essa notícia na rede social. Os animais não eram de nenhum agricultor da aldeia. Patorro tinha comentado no café do Rato que junto às vacas dele, havia outras duas que eram de porte mediano, de cor marrom, com os cornos pequenos e que pareciam razeadas103 com as suíças.
103 Como a maioria do gado das aldeias não é de raças puras, mas gado cruzado, os agricultores
Dois dias após essa descrição, Domingos, um jovem que nasceu em Parada e que se casou em Pitões, comentou que um agricultor de Parada tinha sentido falta de duas vacas e que a descrição condizia com a feita por Patorro. À noite, Patorro telefonou para um amigo em Parada e comentou com ele o caso das duas vacas que estavam com a sua manada. O amigo de Patorro ratificou essa informação, um vizinho dele tinha duas vacas perdidas e correspondia com a descrição dada por ele. No dia seguinte, às oito horas da manhã, o vizinho de Parada estava em Pitões querendo saber das vacas. Patorro o acompanhou até o pé da barragem – que era o local em que elas estavam – e lá constatou que eram suas vacas.
Em seguida, os agricultores pensaram quais seriam as estratégias possíveis pra que as vacas voltassem para o seu dono. Separar as duas vacas sem o resto da manada por perto era muito complicado. Separar as vacas da manada de Patorro e conduzi-las serra acima até Parada poderia ser uma opção. A outra opção seria a de Patorro guardar as vacas em um recinto apropriado que há na aldeia e ligar para o dono, que procuraria uma forma de deslocá-las até Parada. Optaram por agir desta maneira.
O agricultor de Parada tinha deixado as suas vacas atrás da capela do São João da Fraga e duas delas teriam se separado do resto da manada. Desse episódio, podem-se retirar várias situações de interesse no que diz respeito às trocas de informação entre os agricultores, ao conhecimento que detêm do seu território e à relação que têm com o gado. Esse será, a partir de agora, o foco deste capítulo.
Os agricultores têm uma densa rede de informação em que as notícias são atualizadas. Circulam nessa rede de informações, notícias sobre fatos como possíveis ataques de javalis em alguma terra de milho, se as vacas estão perto demais de alguma estrada, ou nos altos. Existe um mapeamento em comum das diferentes manadas que compõem a cabana de gado da aldeia. Cada agricultor presta atenção especial às vacas de sua propriedade;; em segundo lugar, às dos seus amigos/parentes mais próximos e, em terceiro lugar, às dos demais agricultores. Isso conforma uma teia de relacionamentos, mas também de compromissos, que poderia ser pensada na chave de um grupo social, conforme colocado na introdução.
Levando o argumento ao limite, existe uma identificação coletiva entre os agricultores. Um sentimento de solidariedade que os confronta com quem não é
agricultor. Pode ser que, entre os agricultores, uns se ajudem mais, outros menos, mas vi, por exemplo, em um parto de uma vaca, uma situação extremamente complicada, agricultores que há anos não se falavam irem ajudar no parto. Neste caso, quando o agricultor que não tem boa relação com o dono da unidade produtiva chega à vacaria, os demais agricultores já tinham pensado uma estratégia de atuação para retirar o vitelo da mãe. Quando um dos presentes consegue amarrar as patas do vitelo com cordas e deixar a vaca bem posicionada para o parto, começa a força- tarefa de puxar pelo vitelo. Àquela hora, não há mais desentendimentos, o que importa é que aquele vitelo nasça e que a vaca não sofra muito com o parto. Vinte minutos depois, a vaca jaz no chão lambendo seu jovem vitelo, sem aparentes problemas de saúde. Logo após o parto, os agricultores que tinham ajudado no parto, passam uns três minutos de silêncio em que todos observam e analisam os primeiros minutos do vitelo. Mais especificamente, os signos procurados nesse momento são de aceitação ou rejeite da vaca pelo vitelo e o estado de saúde do recém-nascido. Após essa verificação, os agricultores começam a abandonar o local do parto em que fica somente o dono da exploração. Antes de partir, lavam as suas mãos com sabão, comentam mais uns minutos o acontecimento e vão se despedindo do agricultor. O agricultor que não tem boa relação com o dono da exploração se despede dos demais, entra no seu carro e volta pra casa para terminar de jantar, pois havia deixado o prato com comida esfriando pra ajudar. Conhecedor da ausência de relação entre eles, perguntei-lhe uns dias depois as suas sensações sobre o episódio. Ele me respondeu que o outro também teria feito o mesmo por ele, que nessa hora não se vê se a relação é boa ou ruim. Concluiu com uma frase que dilapida qualquer dúvida: andamos todos ao mesmo! Todos são, afinal, agricultores.
Com a chegada dos migrantes no verão, os agricultores costumam ser alvo de críticas por suas atividades, por seu ritmo de vida, pelas ajudas recebidas por parte do Estado, que segundo várias pessoas não deveriam ter104. Nessas situações existe
uma espécie de solidariedade interna ao grupo social que deixa num segundo plano as diferenças entre os indivíduos.