• Aucun résultat trouvé

Com isso, a dependência psíquica para que os príncipes transformem o seu desejo de paz em uma realidade é cada vez mais constante. Isso ocorre por dois motivos: a sua desilusão sobre o papel da Igreja e de sua liderança espiritual, representada pelo papa Júlio II, que aterrorizou Erasmo a entrar com um exército armado nas ruas de Roma em meados de 1515; e a sua visão idealizada de uma Igreja que era iluminada por uma luz levemente católica, mas estruturada por uma Antiguidade clássica que existia somente em seus pensamentos260. Sua tentativa de voltar às raízes é, segundo Eric Voegelin,

“sincera no sentido de querer recapturar a essência do Cristianismo em uma filosofia de conduta. O retorno às fontes evangélicas é um retorno às vidas de Cristo e de seus apóstolos; a preocupação intensa com os registros de suas ações e palavras deve servir ao propósito de transformar a vida em conformidade com os grandes modelos. Este desejo por um Cristianismo evangélico é acompanhado por uma atitude negativa que se mostrou, na história da política e das idéias políticas, como o ingrediente mais efetivo da posição erasmiana. Em primeiro lugar, Erasmo não está satisfeito com a renovação da substância cristã através do retorno ao Evangelho. Ele toma como dado que tal retorno significa a destruição da civilização intelectual cristã. Em relação a isso, faz uma divisão cautelosa e mascara suas verdadeiras implicações ao distinguir os teólogos modernos dos antigos. Não há dúvida de que Erasmo perdeu contato com a filosofia e a teologia especulativas de tal forma que não entende mais a função civilizatória e estabilizante de uma análise intelectual, amparada em um método conscencioso e sistemático, das forças espirituais explosivas que se encontram no Novo Testamento. O que surpreende em

Erasmo é a sua inacreditável ingenuidade histórica261. Parece que não tem noção do fato de que a existência das sociedades humanas é mais do que uma ocasião para que indivíduos brilhantes mostrarem seu bom gosto nas belles lettres, na elegância do estilo e seu conhecimento em três línguas. A revolta do intelectual estava tão forte nele que amortizou a importância da tradição e da disciplina intelectual e exagerou o seu valor

260 Cf. HUIZINGA, Johan. Erasmus and the age of Reformation, Dover, 2001, pág.102. 261 Grifo nosso.

em demolir brilhantemente os sintomas do mal. Podemos dizer dele o que se diz sempre de vários intelectuais: que estava fundamentalmente certo em sua revolta emocional, mas totalmente errado em sua resposta intelectual. A reforma de Erasmo, tanto em seus aspectos positivos como negativos, tem sua importância histórica porque mostra a extensão a que chegou a desintegração das grandes tradições espirituais e intelectuais do Ocidente antes do levante de 1517 – que mudou a situação radicalmente através da penetração de fontes espirituais dos movimentos sectários na vida pública das nações. A ambivalência da reação de Erasmo sobre a Reforma, sua simpatia com a atitude de revolta e seu desprezo pelas formas de pensamento mostram bem as dificuldades que surgem da fuga de uma existência humanista em uma era de crise, em que pode se ter uma vida piedosa, erudita e razoável, mas deficiente em força, intelecto e espírito”262.

Sua ingenuidade histórica contaminaria como ele via a própria existência humana. Ao lermos o seguinte trecho de Dulce Bellum, panfleto escrito em 1517, não podemos esconder um riso melancólico de menoscabo:

“Primeiramente, que coisa existe na natureza mais doce ou melhor que a amizade? Nenhuma, seguramente. E todavia, que outra coisa é a paz, senão a amizade de muitos entre si? Do mesmo modo que, inversamente, a guerra mais não é do que o rancor de um grande número. Além disso, é tal a natureza das coisas boas, que quanto mais estão à vista, tanto trazem consigo maiores vantagens. Por conseguinte, sendo a amizade de uma só pessoa por outra algo de tão doce e salutar, que imensa felicidade não será, se se ligarem, pelo vínculo da amizade, um reino com outro reino e um povo com outro povo? Ao invés, a condição das coisas más é tal, que quanto mais amplamente se tiverem espalhado, tanto mais merecem o adjetivo. E assim, se é deplorável, se é criminoso que um homem se oponha, com as armas na mão, a outro homem, quanto mais calamitoso e quão mais criminoso não é que o mesmo ato seja praticado por tanto milhares de homens? Graças à concórdia as coisas pequenas medram; por culpa da discórdia, até a grandes se desvanecem. A paz é a procriadora e a aleitadora de tudo quanto há de bom. A guerra, num ápice e de modo definitivo, destrói, aniquila e suprime tudo quanto é alegre, tudo quanto é belo, e derrama sobre a existência dos mortais um verdadeiro monturo de todos os males. Em tempo de paz – como se para as coisas humanas tivessem luzido uma espécie de nova Primavera –, cultivam-se os campos, os vergéis florescem, os rebanhos pastam alegremente, constroem-se casas de campo, edificam-se cidades, restauram-se as que estão em ruínas, ornamentam-se e aumentam-se as que se erigiram, a riqueza cresce, os contentamentos medram, a ordem pública floresce, a religião afervora-se, a equidade vigora, a solidariedade humana avulta, as artes profissionais ativam-se, o ganho dos pobres é mais abundante e

262 VOEGELIN, Eric. History of Political Ideas Vol IV – Renaissance and Reformation. University of

mais esplêndida a opulência dos ricos. Resplandece o estudo das ciências mais nobres, a mocidade é instruída, os velhos gozam de um descanso tranqüilo, as jovens casam-se com bons auspícios, ‘as mães são louvadas por uma prole que se assemelha aos pais’, brilham os bons e os maus erram menos”263.

O menoscabo se deve à constatação de que, apesar de ser um belo pensamento, sabemos que não pode virar uma realidade por um motivo simples: em suas sentenças não existe aquela aguda sensibilidade ao problema do Mal que se exige de um homem que enfrente com seriedade os problemas da vida. E Erasmo, por ter uma inteligência ímpar, sabe disso, ocultando, por exemplo, qualquer referência ao pecado original e à própria crise espiritual que a sua época vive; para ele, o ser humano é alguém que se deixa guiar pela razão e esta lhe diz que a guerra é ruim e que a paz é a única coisa necessária para o aperfeiçoamento da Civilização. Mas a própria razão é somente um grão, como afirma no Elogio da Loucura264, uma faculdade que pode ser quantificada e, dessa forma, perde-se completamente a noção de suas qualidades espirituais, em especial a capacidade relacionada com a fé: a de que o homem pode enfrentar as mais duras adversidades, entre elas a de extrair bem do mal, num processo de conhecimento do real que somente o sofrimento pode lhe dar.

Documents relatifs